sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Nunca mais vote usando o fígado!, por Elder Monteiro
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
Wilson Lima fecha bares para que crianças possam ir à escola
Wilson Lima fecha bares para que crianças possam ir à escola
Após um breve período de estabilização, o número de contaminados por covid-19 voltou a subir no estado do Amazonas. Alguns especialistas já apontam uma segunda onda da doença; sobretudo em Manaus, capital amazonense, que ainda nem ao menos se recuperou do primeiro pico de contágio. Como resposta a esses números em ascensão, o governador Wilson Lima, na manhã desta quinta-feira (24/09/2020), fez um pronunciamento, no qual anuncia um decreto que, além de restringir o horário de funcionamento de algumas atividades, promove a suspensão do funcionamento de bares, baladas e flutuantes, mas que, contraditoriamente, garante a abertura de escolas e unidades de atendimento a crianças e a idosos.
Além das medidas em si, chamou a atenção a forma como elas foram apresentadas e justificadas. No pronunciamento, o governador não apresentou nenhum argumento científico ou sanitário para fundamentar as decisões que está tomando. As justificativas apresentadas (porque não dá para chamá-las de argumentos) foram puramente morais, o que é, no mínimo, estranho, já que não tem que haver moralidade nenhuma na decisão de se permitir ou suspender qualquer atividade por conta da pandemia – salvo a moralidade de se o Estado deve ou não colocar em risco a vida das pessoas. Nessas decisões, o que deve ser levado em conta é somente o que a ciência e as pesquisas dizem.
Essa estranheza some quando analisamos bem o pronunciamento. Se fazemos isso, percebemos que todo o discurso foi, na verdade, só uma estratégia retórica para conseguir fazer as pessoas engolirem a volta às aulas do ensino fundamental e a manutenção das do médio.
Em diversos momentos, Wilson Lima associa a volta às aulas com o fechamento de bares. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Afinal, qual é a relação real e objetiva que há entre o fechamento de bares/baladas/flutuantes e a abertura das escolas? Nenhuma! É possível fechar aqueles sem abrir estas. O fato é que ele associa essas coisas para, conscientemente, manipular a opinião pública. Tal manipulação discursiva parece ser construída para servir de munição aos defensores da volta às aulas, de modo que, quando alguém reivindicar o fechamento das escolas, outro possa retrucar (mesmo que logicamente não faça o menor sentido): “Então você é a favor da abertura dos bares?”.
Aliás, é óbvio que os bares devem estar fechados em um caso como este, de aumento dos números de contaminação, pois são espaços de alta possibilidade de contágio. No entanto, não é isso que está sendo usado como justificativa para fechá-los. Em nenhum momento, Wilson Lima toca nesse ponto; pelo contrário, em sua fala predomina a estratégia de relacionar os dois espaços para empurrar a decisão de abrir as escolas. Inclusive, não só as escolas: o governador anunciou também que vai reabrir os centros de atendimento a crianças e os centros de atendimento a idosos. Decisões tomadas arbitrariamente que explicitam que nada do que está sendo feito é pensando na proteção da população. Não faz sentido em um momento em que a pandemia está aumentando seu número de vítimas, o estado promover a aglomeração de crianças e de idosos, cada grupo em seu respectivo centro. Isso porque os primeiros são um dos principais focos de transmissão, já que a maioria é assintomática; e os segundos são o principal grupo de risco.
É preciso que se diga a verdade: Wilson Lima quer empurrar uma decisão monocrática goela abaixo da população, sem que ela tenha sequer a oportunidade de se revoltar ou mesmo se indignar com isso. Para tanto, ele está jogando com o moralismo e a culpa das pessoas. Assumindo, com esse fim, uma postura paternalista ao culpar a população pelos seus próprios erros como governante e, em seguida, colocá-la de castigo. A população, por sua vez, deveria lembrar o “papai” de que tudo isso que está acontecendo é culpa dele e de sua má administração, a qual não possui nenhuma política para que as pessoas se conscientizem realmente do problema – pelo contrário, o que se vê é o governador forçando uma normalização do atual estado de coisas e uma banalização da morte, em prol do seu projeto político. Dessa forma, com o pronunciamento de hoje, Wilson Lima tenta tirar o corpo fora da situação e, não só isso, tenta jogar na conta do povo os erros que, reiteramos, são culpa de sua política.
Apesar de estar evidente que o pronunciamento não foi para anunciar as medidas restritivas, mas para abrir as escolas, alguns jornais (inclusive de grupos que apoiam ele) já estão noticiando erroneamente o referido pronunciamento como "Decreto volta a suspender o funcionamento de baladas", quando, na verdade, o que deveria ser noticiado é "Wilson Lima anuncia volta às aulas do ensino fundamental, mesmo com alta no número de casos de covid-19".
Ditas essas coisas, fica a pergunta: por que Wilson Lima insiste no plano de reabertura das escolas? Os motivos são muitos, dentre os quais estão, por exemplo, os interesses de empresários ligados à educação particular. Mas o principal com certeza é a própria campanha política. Wilson Lima tem usado como propaganda desse governo o fato de o Amazonas ter reduzido o número de casos de covid-19 e ter sido o primeiro estado a voltar às aulas. Ele repete sempre isso com orgulho e repetiu nesse pronunciamento. Se por acaso tiver que voltar atrás, essa boa publicidade vai se tornar uma propaganda negativa, visto que além de explicitar que ele tomou uma decisão errada, vai ter de levá-lo a justificar os gastos gerados com essa decisão. Mas para não voltar atrás e manchar a imagem do seu governo, ele não se incomoda de colocar a vida das pessoas em risco, nem de manipular a opinião da população amazonense, jogando nela a culpa dos resultados da sua péssima administração pública. Assim, para satisfazer os próprios interesses de poder, Wilson Lima está jogando com a vida das pessoas.
E vamos aceitar isso?
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Uma greve por todos e todas
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
O que é mais-valia? [PARTE II], por Gabriel Henrique
“A mais-valia produzida pelo prolongamento da jornada de trabalho chamo de mais-valia absoluta”. (MARX, 1985, p.431)
“A jornada de trabalho não é, portanto, constante, mas uma grandeza variável. É verdade que uma das suas partes é determinada pelo tempo de trabalho exigido para a contínua reprodução do próprio trabalhador, mas sua grandeza total muda com o comprimento ou a duração do mais-trabalho. A jornada de trabalho é, portanto, determinável, mas em si e para si, indeterminada. Porém, ainda que não seja uma grandeza fixa, mas fluente, a jornada de trabalho, por outro lado, pode variar somente dentro de certos limites. Seu limite mínimo é, entretanto, indeterminável. É certo que (...) [há] um limite mínimo, isto é, a parte do dia que o trabalhador necessariamente precisa trabalhar para sua auto-sustentação. Com base no modo de produção capitalista, no entanto, o trabalho necessário pode constituir apenas parte de sua jornada de trabalho, isto é, a jornada de trabalho não pode jamais reduzir-se a esse mínimo. Em contraposição, a jornada de trabalho possui um limite máximo. Ela não é, a partir de certo limite, mais prolongável. Esse limite máximo é duplamente determinado. Uma vez pela limitação física da força de trabalho. Uma pessoa pode, durante o dia natural de 24 horas, despender apenas determinado quantum de força vital. Dessa forma, um cavalo pode trabalhar, um dia após o outro, somente 8 horas. Durante parte do dia, a força precisa repousar, dormir, durante outra parte a pessoa tem outras necessidades físicas a satisfazer, alimentar-se, limpar-se, vestir-se etc. Além desse limite puramente físico, o prolongamento da jornada de trabalho esbarra em limites morais. O trabalhador precisa de tempo para satisfazer a necessidades espirituais e sociais, cuja extensão e número são determinados pelo nível geral de cultura. A variação da jornada de trabalho se move, portanto, dentro de barreiras físicas e sociais. Ambas as barreiras são de natureza muito elástica e permitem as maiores variações. Dessa forma encontramos jornadas de trabalho de 8, 10, 12, 14, 16, 18 horas, portanto, com as mais variadas durações. O capitalista comprou a força de trabalho pelo seu valor de 1 dia. A ele pertence seu valor de uso durante uma jornada de trabalho. Obteve assim o direito de fazer o trabalhador trabalhar para ele durante 1 dia. Porém, o que é uma jornada de trabalho? Em todo caso, menos que 1 dia de vida natural. Quanto menos? O capitalista tem sua própria visão sobre esta última Thule, o limite necessário da jornada de trabalho. Como capitalista ele é apenas capital personificado. Sua alma é a alma do capital. O capital tem um único impulso vital, o impulso de valorizar-se, de criar mais-valia, de absorver com sua parte constante, os meios de produção, a maior massa possível de mais-trabalho. O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, chupando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo chupa. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo disponível para si, então rouba ao capitalista. O capitalista apoia-se pois sobre a lei do intercâmbio de mercadorias. Ele, como todo comprador, procura tirar o maior proveito do valor de uso de sua mercadoria. De repente, porém, levanta-se a voz do trabalhador, que estava emudecida pelo estrondo do processo de produção: (MARX, 1985 p.345 e 346).
A mercadoria que te vendi distingue-se da multidão das outras mercadorias pelo fato de que seu consumo cria valor e valor maior do que ela mesma custa. Essa foi a razão por que a compraste. O que do teu lado aparece como valorização do capital é da minha parte dispêndio excedente de força de trabalho. Tu e eu só conhecemos, no mercado, uma lei, a do intercâmbio de mercadorias. E o consumo da mercadoria não pertence ao vendedor que a aliena, mas ao comprador que a adquire. A ti pertence, portanto, o uso de minha força de trabalho diária. Mas por meio de seu preço diário de venda tenho de reproduzi-la diariamente para poder vendê-la de novo. Sem considerar o desgaste natural pela idade etc., preciso ser capaz amanhã de trabalhar com o mesmo nível normal de força, saúde e disposição que hoje. Tu me predicas constantemente o evangelho da “parcimônia” e da “abstinência”. Pois bem! Quero gerir meu único patrimônio, a força de trabalho, como um administrador racional, parcimonioso, abstendo-me de qualquer desperdício tolo da mesma. Eu quero diariamente fazer fluir, converter em movimento, em trabalho, somente tanto dela quanto seja compatível com a sua duração normal e seu desenvolvimento sadio. Mediante prolongamento desmesurado da jornada de trabalho, podes em 1 dia fazer fluir um quantum de minha força de trabalho que é maior do que o que posso repor em 3 dias. O que tu assim ganhas em trabalho, eu perco em substância de trabalho. A utilização de minha força de trabalho e a espoliação dela são duas coisas totalmente diferentes. (...) Pagas-me a força de trabalho de 1 dia, quando utilizas a de 3 dias. Isso é contra nosso trato e a lei do intercâmbio de mercadorias. Eu exijo, portanto, uma jornada de trabalho de duração normal e a exijo sem apelo a teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a boa vontade. Poderás ser um cidadão modelar, talvez sejas membro da sociedade protetora dos animais, podes até estar em odor de santidade, mas a coisa que representas diante de mim é algo em cujo peito não bate nenhum coração. O que parece bater aí é a batida de meu próprio coração. Eu exijo a jornada normal de trabalho, porque eu exijo o valor de minha mercadoria, como qualquer outro vendedor. (MARX, 1985, p. 347 e 348)
Vê-se que: abstraindo limites extremamente elásticos, da natureza do próprio intercâmbio de mercadorias não resulta nenhum limite à jornada de trabalho, portanto, nenhuma limitação ao mais-trabalho. O capitalista afirma seu direito como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e transformar onde for possível uma jornada de trabalho em duas. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida implica um limite de seu consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu direito como vendedor quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada grandeza normal. Ocorre aqui, portanto, uma antinomia, direito contra direito, ambos apoiados na lei do intercâmbio de mercadorias. Entre direitos iguais decide a força. E assim a regulamentação da jornada de trabalho apresenta-se na história da produção capitalista como uma luta ao redor dos limites da jornada de trabalho — uma luta entre o capitalista coletivo, isto é, a classe dos capitalistas, e o trabalhador coletivo, ou a classe trabalhadora. (MARX, 1985, p.348)
“É preciso reconhecer que nosso trabalhador sai do processo de produção diferente do que nele entrou. No mercado ele, como possuidor da mercadoria “força de trabalho”, se defrontou com outros possuidores de mercadorias, possuidor de mercadoria diante de possuidores de mercadorias. O contrato pelo qual ele vendeu sua força de trabalho ao capitalista comprovou, por assim dizer, preto no branco, que ele dispõe livremente de si mesmo. Depois de concluído o negócio, descobre-se que ele não era “nenhum agente livre”, de que o tempo de que dispõe para vender sua força de trabalho é o tempo em que é forçado a vendê-la, de que, em verdade, seu explorador não o deixa, “enquanto houver ainda um músculo, um tendão, uma gota de sangue para explorar”. Como “proteção” contra a serpente de seus martírios, os trabalhadores têm de reunir suas cabeças e como classe conquistar uma lei estatal, uma barreira social intransponível, que os impeça a si mesmos de venderem a si e à sua descendência, por meio de contrato voluntário com o capital, à noite e à escravidão! No lugar do pomposo catálogo dos “direitos inalienáveis do homem” entra a modesta Magna Charta de uma jornada de trabalho legalmente limitada que “finalmente esclarece quando termina o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que a ele mesmo pertence”. (MARX, 1985, p.414)
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
O que é mais-valia? [Parte 1], por Gabriel Henrique
Por força de trabalho ou capacidade de trabalho entendemos o conjunto das faculdades físicas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento toda vez que produz valores de uso de qualquer espécie. (MARX, 1985, p.285)
Essa mercadoria peculiar, a força de trabalho, tem de ser agora examinada mais de perto. Como todas as outras mercadorias, ela tem um valor. Como ele é determinado? O valor da força de trabalho, como o de toda outra mercadoria, é determinado pelo tempo de trabalho necessário à produção, portanto também reprodução, desse artigo específico. Enquanto valor, a própria força de trabalho representa apenas determinado quantum de trabalho social médio nela objetivado. A força de trabalho só existe como disposição do indivíduo vivo. Sua produção pressupõe, portanto, a existência dele. Dada a existência do indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em sua própria reprodução ou manutenção. Para sua manutenção, o indivíduo vivo precisa de certa soma de meios de subsistência. O tempo de trabalho necessário à produção da força de trabalho corresponde, portanto, ao tempo de trabalho necessário à produção desses meios de subsistência ou o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção do seu possuidor. A força de trabalho só se realiza, no entanto, mediante sua exteriorização, ela só se aciona no trabalho. Por meio de sua ativação, o trabalho, é gasto, porém, determinado quantum de músculo, nervo, cérebro etc. humanos que precisa ser reposto. Esse gasto acrescido condiciona uma receita acrescida. Se o proprietário da força de trabalho trabalhou hoje, ele deve poder repetir o mesmo processo amanhã, sob as mesmas condições de força e saúde. A soma dos meios de subsistência deve, pois, ser suficiente para manter o indivíduo trabalhador como indivíduo trabalhador em seu estado de vida normal. As próprias necessidades naturais, como alimentação, roupa, aquecimento, moradia etc., são diferentes de acordo com o clima e outras peculiaridades naturais de um país. Por outro lado, o âmbito das assim chamadas necessidades básicas, assim como o modo de sua satisfação, é ele mesmo um produto histórico e depende, por isso, grandemente do nível cultural de um país, entre outras coisas também essencialmente sob que condições, e, portanto, com que hábitos e aspirações de vida, se constituiu a classe dos trabalhadores livres. Em antítese às outras mercadorias a determinação do valor da força de trabalho contém, por conseguinte, um elemento histórico e moral. No entanto, para determinado país, em determinado período, o âmbito médio dos meios de subsistência básicos é dado. (MARX, 1985, p.288 e 289)
O valor de um dia da força de trabalho importava em 3 xelins, porque nela mesma está objetivada meia jornada de trabalho, isto é, porque os meios de subsistência necessários para produzir diariamente a força de trabalho custam meia jornada de trabalho. Mas o trabalho passado que a força de trabalho contém, e o trabalho vivo que ela pode prestar, seus custos diários de manutenção e seu dispêndio diário, são duas grandezas inteiramente diferentes. A primeira determina seu valor de troca, a outra forma seu valor de uso. O fato de que meia jornada seja necessária para mantê-lo vivo durante 24 horas não impede o trabalhador, de modo algum, de trabalhar uma jornada inteira. O valor da força de trabalho e sua valorização no processo de trabalho são, portanto, duas grandezas distintas. Essa diferença de valor o capitalista tinha em vista quando comprou a força de trabalho. Sua propriedade útil, de poder fazer fio ou botas, era apenas uma conditio sine qua non, pois o trabalho para criar valor tem de ser despendido em forma útil. Mas o decisivo foi o valor de uso específico dessa mercadoria ser fonte de valor, e de mais valor do que ela mesma tem. Esse é o serviço específico que o capitalista dela espera. E ele procede, no caso, segundo as leis eternas do intercâmbio de mercadorias. Na verdade, o vendedor da força de trabalho, como o vendedor de qualquer outra mercadoria, realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Ele não pode obter um, sem desfazer-se do outro. O valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, pertence tão pouco ao seu vendedor, quanto o valor de uso do óleo vendido, ao comerciante que o vendeu. O possuidor de dinheiro pagou o valor de um dia da força de trabalho; pertence-lhe, portanto, a utilização dela durante o dia, o trabalho de uma jornada. A circunstância de que a manutenção diária da força de trabalho só custa meia jornada de trabalho, apesar de a força de trabalho poder operar, trabalhar um dia inteiro, e por isso, o valor que sua utilização cria durante um dia é o dobro de seu próprio valor de um dia, é grande sorte para o comprador, mas, de modo algum, uma injustiça contra o vendedor. Nosso capitalista previu o caso que o faz sorrir. O trabalhador encontra, por isso, na oficina, os meios de produção necessários não para um processo de trabalho de 6 horas, mas de 12. Se 10 libras de algodão absorviam 6 horas de trabalho e transformavam-se em 10 libras de fio, então 20 libras de algodão absorverão 12 horas de trabalho e se transformarão em 20 libras de fio. Consideremos o produto do processo prolongado de trabalho. Nas 20 libras de fio estão objetivadas agora 5 jornadas de trabalho: na massa consumida de algodão e fusos, 1 absorvida pelo algodão durante o processo de fiação. Mas a expressão em ouro de 5 jornadas de trabalho é 30 xelins ou 1 libra esterlina e 10 xelins. Esse é, portanto, o preço das 20 libras de fio. Uma libra de fio custa, depois como antes, 1 xelim e 6 pence. Mas a soma dos valores das mercadorias lançadas no processo importou em 27 xelins. O valor do fio é de 30 xelins. O valor do produto ultrapassou de 1/9 o valor adiantado para sua produção. Dessa maneira, transformaram-se 27 xelins em 30. Deram uma mais-valia de 3 xelins. Finalmente a artimanha deu certo. Dinheiro se transformou em capital. (MARX, 1985, p. 311 e 312)
"(...) o tempo de mais-trabalho que a massa trabalhadora trabalha além da medida necessária à reprodução de sua capacidade de trabalho, de sua própria existência, além do trabalho necessário, esse tempo de mais-trabalho que se expressa como mais-valor se materializa, ao mesmo tempo, em mais-produto, sobreproduto, e esse sobreproduto é a base material da existência de todas as classes que vivem fora das classes trabalhadoras, de toda a superestrutura da sociedade. Ele faz, ao mesmo tempo, o tempo livre, dá a elas seu tempo disponível para o desenvolvimento das demais faculdades.
A produção de tempo de sobre trabalho, de um lado, é simultaneamente a produção de tempo livre do outro lado. O desenvolvimento humano inteiro, na medida em que vai além do desenvolvimento imediatamente necessário à existência natural humana, consiste meramente na apropriação desse tempo livre e o pressupõe como base necessária. O tempo livre da sociedade é assim produzido por meio da produção de tempo não livre, que é prolongado, do tempo de trabalho do trabalhador prolongado além do tempo de trabalho exigido para a sua própria subsistência. O tempo livre de alguns corresponde ao tempo de servidão de outros." (MARX, 2010, P. 207-208)




