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terça-feira, 31 de março de 2020

Dialética do confinamento, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena


Dialética do confinamento
por Victor Leandro

É certo que a quarentena imposta pelos governadores estaduais, contrariando o antigoverno nacional, já começa a render bons efeitos. No mínimo, ela tem traçado um esboço de salvaguarda do tempo necessário para a organização do trabalho de recepção de doentes graves nos hospitais, o que garante alguma qualidade no atendimento e aumenta a probabilidade de reversão dos quadros graves, ampliando assim as chances de cura.

No entanto, tal não significa que as coisas rumem para um caminho tranquilo. Já é patente que não existem exames em quantidade suficiente, e a possibilidade de estarmos vendo somente uma parte limitadíssima do problema se afirma a nós com cada dia maior clareza. A despeito disso, a classe política, e até mesmo parte da científica, já começa a celebrar vitória antes do tempo.

É aí que está a contradição do confinamento, a qual se soma aos dados mal aferidos. Quanto mais este surte efeitos na contenção da pandemia, menos alerta nos sentimos, e mais aptos acreditamos estar para voltarmos às ruas, o que pode torna-lo um esforço inglório. Por outro lado, se dizemos que a quarentena não surte o efeito pretendido, o resultado é ainda mais desastroso, pois gera a noção de que estamos fazendo um sacrifício inútil, levando-nos a recusá-lo de pronto. É nessa via que apostam o suposto presidente e seus cúmplices.
Contra todos esses efeitos, a única alternativa que cabe é manter-nos firmes nos princípios já estabelecidos, e nada retroagir até que tenhamos dados confiáveis e mais fidedignos. A suspeita, tão cara à filosofia, é nosso maior remédio nesse momento. Finquemo-nos nela, e sairemos bem disso daqui a alguns meses. O nosso melhor movimento agora é a espera.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Distopia, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena


Distopia
por Victor Leandro

O decreto é aceito. O povo retorna às ruas.

Nos altos prédios, os moradores celebram, enquanto nas casas estreitas, todos recebem a ordem de levantar cedo.

Pela manhã seguinte, as coisas voltam ao normal. Já à noite, os passeantes se aglomeram e festejam os bares abertos.

Porém, foi só por um dia.

Logo a seguir, a pandemia chegou em ondas.

Hospitais lotados. Gente morrendo nas ruas.

Em pânico, os comércios fecham.

Mães e filhos soluçam.

Quanto ao presidente, este recorre aos seus amigos americanos, e vai se exilar ao lado do astrólogo da Virginia.

Ninguém desperta desse pesadelo insone.

Um novo mundo, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena



Um novo mundo
por Victor Leandro

O novo mundo ainda não aconteceu. A rigor, este segue ainda o mesmo, porque nós  permanecemos os mesmos.

Mesmo diante do desabamento de nosso modo de vida, seguimos relutando dentro de nossas crenças. Achamos que as antigas soluções nos servem, quando já não nos dizem nada. Nas esferas do Estado brasileiro, isso se mostra claramente no modo como se tentam apontar soluções. Voltem ao trabalho. Precisamos salvar a economia. O Estado tem de agir com prudência. Precisamos manter o programa vigente.

Nada disso funciona mais. Ao contrário, apenas aumenta o desespero. E no final o ponto é tão somente esse. Quanto menos exasperados pensamos, mais fácil  é notar que a saída está por um outro caminho, totalmente inesperado e imprevisto, tal como foi para nós o surgimento da pandemia. O que é preciso é enfrenta-lo com coragem.

Porém, como disse Machado de Assis, ideias fixas são difíceis de desfazer. E assim seguimos no velho mundo, enquanto o novo nos espera do lado de fora, com evidente impaciência.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Os mortos-vivos, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena



Os mortos-vivos
por Victor Leandro

A gestão Bolsonaro acabou já tem muito tempo. Mas só com a pandemia é que se tornou visível.

Porém, restam o fanatismo dos seguidores e os vazios signos institucionais, os quais, mesmo em franco declínio, ainda são capazes de promover um genocídio na população brasileira.

Dessa forma, juntamente com o vírus, o que vemos é o Brasil sendo tomado por um exército de mortos-vivos, que, sem esconder mais suas intenções obtusas, sacrificam o povo em tributo ao deus-dinheiro, promovendo a desinformação e tirando os indivíduos de suas casas, ameaçando-os de fome.

Contra essa peste sócio-política, é que precisamos agir sem mais delongas, e exigir a renúncia das almas penadas que ocupam o Planalto.

Do contrário, além de um roteiro de catástrofe, teremos também um filme de terror.

Ambos são gêneros ruins.

quinta-feira, 26 de março de 2020

As armadilhas da angústia, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena



As armadilhas da angústia
por Victor Leandro

De início, todos acharam que seria um período tranquilo. Não precisariam fazer nada além do que lhes é comum no fim de semana. Os livros, a internet e as séries estavam aí para dar auxílio. Será até divertido, foi o que pensaram, e é provável que nos primeiros dias tenha sido mesmo assim.

Mas logo a angústia se instaurou e, junto com ela, uma inquietação terrificante. É diferente estar confinado quando não se pode sair. Pior ainda com o mundo desabando lá fora. Os limites das paredes da casa perturbam. As vozes dos nossos próximos já não soam tão agradáveis como antes.

Nesse instante, é que começamos a ceder a pensamos difusos e saídas irracionalistas. O vírus não pode ser tão ruim. Talvez valha-nos mais retornamos ao trabalho, basta termos cuidado. A vida não pode parar por conta disso. E a economia? Se o mundo estagnar, como ficarão os que não têm emprego? É mais correto irmos às ruas e nos sacrificarmos todos pelos que necessitam.

Porém, quando essas ideias surgem, é que precisamos nos recobrar um momento de razão. É o Estado que deve dar saídas para os mais afetados, e tem os meios para tanto. Nossa volta às ruas apenas prolongaria o caos. No mais, é necessário ouvir os cientistas. Sim, é difícil pensar dessa maneira agora, mas precisamos ponderar, contudo. Esse desespero é só a nossa ansiedade falando.

Para atravessar esse abismo com grandeza, o único ato heroico é seguir firmes e estáticos como estamos. A imobilidade é a nossa grande demonstração de força. Contra as ameaças nefastas dos perversos e nosso próprio medo, devemos prosseguir nesse ritmo lento. Em breve ficaremos muito melhor do que ora estamos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O assassinato em massa e seus cúmplices, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena



O assassinato em massa e seus cúmplices
por Victor Leandro

Não se pode praticar um genocídio sozinho.

Um assassinato, sim. Mas, sem ajuda, é impossível estender o crime a uma massa expressiva de sujeitos.

Desse modo, é preciso que haja cúmplices, ou seja, um conjunto de outros agentes que, de uma forma ou de outra, concorram para a propagação da morte em escala vultosa e exorbitante.

Ontem, as figuras centrais do antigoverno deixaram clara sua intenção de entregar o povo em sacrifício ao deus-dinheiro, num total desprezo não só pela população, mas pela vida ela mesma. Tudo isso por uns dólares a mais, como diz de forma astuta o título de um antigo filme de faroeste.

Porém, para que tal se execute, é necessário haver coparticipantes. E quem são eles?

Na situação em que nos encontramos, os cúmplices são todos aqueles que, encontrando-se em posição de agir de forma efetiva, não o fazem, seja por interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Em suma, são toda a classe dirigente do país que cruza os braços ou responde de maneira branda aos acintes de Brasília.

Hoje, não há outro jeito. Ou se é fora Bolsonaro, ou se está do lado do crime contra a saúde humana.

Que cada um de nós assuma seu lado, exigindo dos governantes uma atitude condigna.

Vamos em frente.

terça-feira, 24 de março de 2020

O que nos interessa agora?, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena

O que nos interessa agora?
por Victor Leandro

No momento em que estamos interrompidos no fluxo de nossas ações comuns, convém pensar sobre aquilo com que estamos nos preocupando, ou melhor, sobre a atitude assumida perante o conjunto fundamental de nossos problemas, no que podemos assumir uma percepção sintomática de nosso plano de mudança.

Afinal, a pandemia alterou realmente nossa maneira de olhar para o mundo, ou nossas ideias fixas continuam preponderantes? Seria estranho se passássemos por tudo isso sem aprender alguma coisa. Por outro lado, é ingênuo subestimar o poder de nossos hábitos e tendência à repetição. O movimento transformador não é tão natural quanto se nos aparenta.

Verdade é que, num nível mais profundo, talvez as coisas demorem a metamorfosearem-se por inteiro. Seguimos com os mesmos afetos e as mesmas irritações pequenas, as mesmas raivas e os mesmos ressentimentos. Nossa lista de inimizades desnecessárias segue intacta. Conservamos ainda reações idênticas para os antigos assuntos sem importância.

O mundo acaba, e cá estamos firmes em nossas mesquinhas certezas. E não sabemos o motivo disso.

A solução, porém, é clara. Somente a reflexão racional aguda modifica nossos paradigmas. E o que vem depois dela é o gesto efetivo, lúcido, de sabida automodificação.

Seguimos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

O fim dos tempos, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena



O fim dos tempos
por Victor Leandro

É preciso ter calma. este ainda não é o fim do mundo. É só o fim do capitalismo.

Não há mais saída para ele. Mesmo na ordem do bem-estar social, as transformações estruturais mostram-se incontíveis. O modelo financeirizado de hoje não pode dar conta das mazelas sanitárias produzidas. Só o que resta é a troca pura e simples, coordenada por agentes organizativos habilitados.

No Brasil de hoje, para variar, o caos chega antes. Vemos o antigoverno paralisado perante o seu fundamentalismo liberal, incapaz de notar que os manuais que utilizam não oferecem respostas para o que estamos vivendo. Junte-se a isso a perversidade do suposto presidente, e o que temos são um conjunto de ordens desorganizadas e estúpidas desde o fundamento. Voltem ao trabalho! não podemos parar por uma gripe! É o que dizem o néscio e os bem guardados patrões, protegidos que estão da pandemia.

Sim, alguns aspectos desse debate ainda não se encontram plenamente esclarecidos. Contudo, não podemos nos dar ao luxo de dirimi-los. Na prática, o povo sofre e precisa de soluções breves. E estas passam por um único ponto, que é a supressão dos mandatários em voga e do sistema que favorece o estatuto da classe dominante. Somente dessa forma poderemos sair da crise e salvarmos a nós mesmos.

Porém, tal não pode ser realizado apenas com palavras, mas com gestos efetivos.

O fim do mundo pode esperar. O que deve se instaurar agora é o momento revolucionário.

domingo, 22 de março de 2020

No fundo da liberdade, a luta coletiva; por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena


No fundo da liberdade, a luta coletiva
por Victor Leandro

Foi Jean-Paul Sartre quem afirmou que, no auge da ocupação nazista na França, ele se sentira mais livre do que nunca. Não tinha mais o que temer nem nada além de si mesmo. A esse argumento, poderíamos acrescentar a frase de um ícone da indústria cultural, Frank Miller, que, ao relatar a queda da personagem Demolidor, considera que um homem sem esperança é um homem sem medo.

Pois agora vivemos um momento que evoca essas assertivas, e muitos de nós assim nos sentimos. Desobrigados de nossos compromissos diários, reduzidos a nossa ações essenciais, percebemos o quão sem importância podem ser os fatos de que nos ocupávamos antes. Libertos deles, olhamos apenas o que realmente importa, e isso nos torna maiores do que fomos, porque tudo que se expande com nossos gestos é o movimento de nossa liberdade desnuda.

Porém, não nos iludimos. Sabemos que não somos livres verdadeiramente, porque a humanidade não o é. Se podemos ficar protegidos em casa, se estamos em condições de limitarmos nossa margem de risco, é porque lá fora há milhões de outras pessoas que não se encontram em igual situação, e que seguem aprisionadas nas amarras das obrigações trazidas por um capitalismo propagador de miséria e impunemente destrutivo.

Assim, o que nossa liberdade nos revela em seu fundamento é a necessidade de reafirmarmos nosso compromisso coletivo. Somente desse modo ela poderá se tornar para nós plena e irrestrita, no que poderemos vivenciá-la com toda sua intensidade. Ser livre é lutar coletivamente. Fora disso, tudo o mais não passa da ilusão de um solipsismo frívolo.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Bolsonaradas cotidianas, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena




Bolsonaradas cotidianas
por Victor Leandro

Não, não é somente no voto ou na filiação ideológica que a visão bolsonaro de mundo se enuncia.

Na verdade, ela se encontra em um plano mais profundo, no limite de nossas organizações estruturais, que fazem com que tenhamos condutas similares ou que seguem os mesmos ímpetos. Como hipótese causal, poderíamos dizer que elas aparecem principalmente quando:

1- Estabelecemos nossos afetos instintivos como princípios de ações coletivas;

2-Nossos desejos determinam a forma de nossa interpretação de mundo.

Como resultado, o que produzimos é uma explosão de individualismo e conflito, evidenciados em uma praxis destruidora, que vai desde o mais terrificante ao mínimo gesto - patrões que não dispensam empregados na pandemia, sujeitos esvaziando prateleiras de álcool em gel, indivíduos que passeiam nas ruas sem se preocupar com os outros, ativistas deixando ações coletivas porque não foram realizadas a seu gosto, pessoas que agridem por simplesmente terem sido chamadas à sensatez, e por aí vai.

Claro, raramente percebemos isso em nós. Como bem disse Descartes, todos acreditamos estar providos suficientemente de bom senso. Mais fácil concentrar essas características numa figura como o suposto presidente, quando na verdade ele é apenas um caso exemplar.

O remédio, como sempre, é a autocrítica, que pode ser configurada numa pergunta. Será que é objetivamente razoável agir como estou pensando? Trata-se de uma solução simples.

Difícil, mesmo, é colocá-la em execução.

Mas tentemos.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A Cura Política, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena





A cura política
por Victor Leandro

Thoreau, o grande pensador americano, disse certa vez que o melhor governo é o que menos governa. Seguindo essa linha, ele completa afirmando que, para que fosse perfeito, teria que não governar nada.

Olhando para o Brasil, sentimo-nos tentados a discordar, já que estamos num estado de completo abandono e nada melhorou. Mas não nos iludamos. As coisas aqui têm uma problemática diversa da imaginada pelo filósofo.

Porque na verdade não apenas não temos governo, e sim um contragoverno, ou seja, um conjunto de agentes que, além de positivamente nulos, usam a condição de comando para contraproduzir no estado em detrimento de seu povo.

Não são só alheios às causas nacionais, mas seus inimigos. Trabalham para estrangulá-las até a aniquilação.

Assim, é preciso que estejamos esclarecidos para o ponto central de nosso problema. Nossa cura não é médica e sim política. E ela está aí para que todos vejam.

É fora Bolsonaro e seu antigoverno.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Os Alienados da Terra, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via - Especial Quarentena 




Os alienados da Terra
por Victor Leandro

Não, nem de longe são os pobres os que ignoram o real presente no mundo.

Ao contrário, estes sequer podem se dar ao luxo de escapar a ele. Movimentam-se em suas bordas o tempo todo.

Mas o mesmo não pode ser dito dos especuladores dos mercados.

Cerceados por uma existência inautêntica e malograda, eles não têm mais do que a sua frente números, tabulações que não têm nenhuma parte com a vida.

Fazem cálculos e projeções, estipulam futuros, mas esses não constituem matéria alguma, apenas mera fabulação abstrata.

Isso temperado pela crença obscura no fantasma da mão invisível, que insiste em não aparecer.

A pandemia liquidou o liberalismo. Ele agora não passa de uma lenda antiga. Nossa frágil economia mundial não pode sobreviver sem os braços firmes de trabalhadores e líderes políticos materialistas.

Porém, os obnubilados persistem na comédia dos tantos mil pontos. Quem hoje, em sã consciência, preocupa-se com os números da bolsa?

Os investidores são os verdadeiros alienados da Terra, e, no entanto, herdam seus melhores frutos.

Fiquemos com as coisas do mundo. Que a eles pertençam somente sua própria fantasia e miséria.

terça-feira, 17 de março de 2020

A consolação dos livros, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via



A consolação dos livros
por Victor Leandro

No isolamento de nossos claustros, ainda é possível ler. E, com a leitura, libertarmo-nos de nossa imediaticidade opressiva. Com as palavras transitamos, frequentamos esferas estéticas e de pensamento por outros meios inauditas, o que não é de nenhum modo apenas um escapismo. Quando retornamos ao mundo, estamos muito mais certos e resolutos quanto a nossos mais transformadores caminhos.

Claro, existe a grande rede, e existe o audiovídeo. Porém, a forma de experiência que proporcionam é em muitos casos compulsiva e configurada aos limites da imagem. Já nos livros, mais do que o icônico, o que se tem é o imaginário: um corpo mental livre que cria e recria, produz e reproduz, gera e movimenta nas possibilidades do infinito, com acutíssima elaboração.

Só os livros nos dão a hipótese de engendrar outros mundos.

Em tempos como estes em que vivemos, de paralisia e precaução, os livros não apenas nos salvam, mas nos apresentam a viabilidade do devir, fazendo-nos aptos a avançar na existência, independente de seus empecilhos. Enveredemos por eles, e não estaremos sozinhos. Nada nos pode fortalecer mais para a luta que se nos apresenta.

domingo, 15 de março de 2020

ESTADO DE SÍTIO, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via




Estado de sítio
por Victor Leandro

A verdadeira cidade sitiada é o mundo sob o capital. Por detrás de suas paredes violentas, nós nos oprimimos, matamo-nos e enganamo-nos numa pandemia constante, onde só uma plutocracia preguiçosa - rentista -  dispõe dos meios para manter-se viva, enquanto aos demais restam a fome e a doença, no que os mais pobres perseveram tão somente pela força de seus instintos primitivos de subvivência.

Segue daí que não deveríamos estar surpresos com o surto virótico que nos toma conta. Ao final, realmente não estamos. De uma maneira íntima, dávamos como certo que isso iria acontecer. Somente aos ricos fora dada ingenuidade o bastante para ignorar tal coisa. O abismo nunca deixou de estar no nosso horizonte.

Mas claro, certos hábitos são difíceis de desfazer, e, embora conheçamos o que virá, não significa que tenhamos certeza de como agir. Nossa reação imediata é seguir o fluxo, ou pior, preocuparmo-nos com coisas absolutamente supérfluas e ditadas pela ordem dos opressores. Quanto está o dólar? E a bolsa? O que será da economia? Esses comércios vazios?

Nesse sentido, a peste - camusiana por definição - se nos afigura como uma grande possibilidade de mudança global, pois é apenas por meio de suas interrupções forçadas e da solidariedade que poderemos não só nos salvar fisicamente, mas também refletir e perceber como não é nada difícil tomarmos um outro rumo, que na verdade ele é o mais lógico, o ululante, o qual só não vemos devido a nossas vistas embotadas pela falsidade encantatória dos sistemas. Contudo, no confinamento de nossas casas, na dura solidão dos dias silenciosos, conseguiremos achar o que sejam verdadeiramente a liberdade e o companheirismo, e então, tal como o retirado da caverna platônica, não teremos mais meios de voltar ao que éramos antes.

Devemos superar a calamidade, e superaremos. Porém, se tudo der mesmo certo, as portas que antes utilizávamos já não nos poderão servir. A saída será por um caminho novo, não trilhado, mas que iremos percorrer coletivamente. Acaso falamos de socialismo? Sim, ele é exatamente o que está para além de nossos muros.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O falso criticismo e a antirromantização, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via



O falso criticismo e a antirromantização
por Victor Leandro

A fruição de uma obra artística é sempre um acordo celebrado entre o artista e seu público. Nele, o autor se compromete a tornar sensível uma experiência de mundo, enquanto os que se aventuram nela devem concordar com os termos dessa imersão. Sem isso, não é possível que a arte encontre um lugar próprio, um atmosfera particular que remeta aos termos intrínsecos do seu modo operativo, o qual se relaciona agudamente, porém não se identifica de maneira completa com o real.

Daí que não se deve exigir que a obra necessariamente remeta a todos os caracteres presentes no mundo. O que se deve cobrar, ou seja, o que precisa estar presente nela, é algo que revele ao menos uma face antes escondida da condição humana, a qual, por meio da sensibilidade, mostra-se com toda sua força. Fora disso, a arte estará confundida com a filosofia ou a ciência, que visam explicitar a matéria por outros meios.

Nos ambientes pseudocríticos, tem se repetido até o clichê o uso do termo romantização, a fim de designar produções que não estejam afinadas com elementos presentes na realidade, apresentando-os de maneira parcial e unívoca. Ora, para começar, o que esses censores se esquecem é de que o próprio romantismo já revela algo do humano, não podendo ser descartado de nenhuma maneira. Pior do que isso, é observar não somente a ausência de critério, mas também de correspondência no uso dessa categoria. Na maioria dos casos, o que se chama de romantismo não é mais do que estetização, ou seja, o emprego de alguma qualidade, normalmente com fins engrandecedores, porém de qualquer forma intrínseca ao fazer artístico. Assim, o que se considera como sendo a última palavra em esclarecimento e jugo acaba por ser um termo vazio, que não diz absolutamente nada para a obra em estudo.

Mais perigoso que um mau crítico, é um falso crítico. No primeiro há apenas erro. Já com o segundo, tudo que poderia ser grande torna-se pequeno, reduzido ao nível da desfaçatez do julgador. Para escapar dessa armadilha, é necessário que abandonemos de vez os termos da moda, e passemos a perseguir as autênticas incursões dos trabalhos artísticos, de forma dedicada e paciente. Somente dessa maneira, a arte terá algo a nos dizer, e os farsantes voltarão a falar sozinhos novamente.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Nada a impressionar, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via





Nada a impressionar
por Victor Leandro

Há alguém realmente surpreendido com as performances grotescas de Bolsonaro? Certo, elas ainda não tinham sido vistas por parte de um presidente da república. No entanto, considerando o cenário personalista do presente desgoverno, tudo o que ocorre já estava mais do que no horizonte possível. É a confirmação do óbvio.

Disso decorre que são inapropriados os termos comumente usados e que se referem à reação imediata aos seus desfeitos. “Estarrecido”, “indignado”, “estupefato”, “enojado” e afins são vocábulos que pouco acrescentam ao debate em curso, e nada mais fazem do que despontarem como um elogio exagerado e imerecido àquele que, junto com sua trupe, não realiza nada além do que uma celebração monótona de sua cultura de aberração.

Desse modo, quando utilizamos tais expedientes reativos, imergimos nas sendas perigosas que permitem ascender o opositor a nossa altura, isto é, pô-lo na condição de alguém capaz de nos  infligir as mais terríveis sensações ou, para permanecer na ordem dos afamados discursos políticos, fazer despertarem em nós os instintos mais primitivos.

Se há algo estarrecedor no momento em que estamos, este não se encontra em seus agentes, e sim nos atos politicamente efetivos. Ou nos concentramos neles, ou teremos de nos afetar verdadeiramente com o massacre de pobres, mulheres, negros, lgbts e indígenas. No mais, é preciso deixar os estultos falarem sozinhos. É só na ignorância que suas palavras podem e devem encontrar espectadores comprometidos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O carnaval e suas cinzas, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via



O carnaval e suas cinzas
por Victor Leandro

Em sua constituição básica e histórica no país, o carnaval sempre foi revolucionário e transgressor. Uma festa envidada por trabalhadores e que manifesta as suas mais exuberantes realizações estéticas e corpóreas, condensadas nos quatro dias de festa. Uma perfeita realização sensualista das potências do maravilhoso. Dionísio bruto.

Assim, não impressiona que, em nosso recente cenário de trevas, ele encampe para si a tarefa de uma crítica política mordaz, ferina e sistemática contra o presente desgoverno, o qual, acuado, não pode fazer mais do que proferir seus costumeiros impropérios, ora inaudíveis por conta do grito frenético das ruas.

Claro, existe o carnaval, e existe o comércio, assim como a simples imitação carnavalesca. Em alguns lugares, essa politização não aparece, e o que resta é a reunião alienante e a ubiquidade fascista. Uma degradação que não cria nada, apenas limita-se a reproduzir os ditames da indústria, sendo isso tudo permeado pela estupidez machista e alcoólica dos homens ridículos. Curiosamente, há ainda quem chame esses eventos de bloquinhos, com fins de dar um ar nostálgico ao que ali ocorre, porém que está muito longe de corresponder a esses desígnios. Normalmente, o mecanismo de identificação desses lugares é indefectível. Onde há música ruim, a estultice se faz presente.

Sim, todas essas essas coisas ocorrem e podem ser pensadas. Mas, e depois da quarta-feira de cinzas?

Eis aí o ponto em que temos de nos debruçar. Ou bem o carnaval torna-se o estopim de uma mudança, ou permanecerá na mera esfera do espetáculo. Não podemos querer ser libertários apenas durante a festa da carne. É preciso seguir lutando, em especial quando despimos nossa fantasia. E que caia deposto Pantaleão. E que sorriam o Pierrot e a Colombina.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Caminhando nas nuvens - a morte da esquerda e a estranha querela do stalinismo, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via



Caminhando nas nuvens - a morte da esquerda e a estranha querela do stalinismo
por Victor Leandro

Dois debates têm tomado a atenção das alas esquerdistas nacionais nas últimas semanas: a morte da esquerda e o lugar de Stálin na história. O primeiro foi motivado por um artigo de Vladimir Safatle, publicado na versão brasileira do periódico El País. Já o segundo vem de uma disputa antiga, mas que tomou formas mais agudas com a ascensão das leituras de Domenico Losurdo, agora levantadas pelo ativista internético Jones Manoel.

No caso do líder russo, a polêmica foi tão grande que ganhou até as páginas da Folha de São Paulo, que deleitou-se em relatar a polêmica e seus atores, que, providos de suas armas referenciais, desatam a discutir e a defender seu ponto de vista em torno do legado ora obscuro, ora esplendoroso que envolve o período stalinista.

Nos dois casos, o que causa curiosidade é que, diante de ataques frontais e assumidos contra as camadas operárias e os mais pobres, nossos socialistas desperdicem tanto tempo e energia com questões distanciadas de nossa urgência comum. É como se, debaixo das trincheiras, os guerrilheiros resolvessem tocar uma sinfonia de Beethoven. Pode ser belo, importante e grandioso, porém absurdamente impróprio para o momento.

Contra isso, convém lembrar Mao Tsé Tung, que coloca a necessidade de pensar primeiro as contradições principais, e em seguida as secundárias. É uma ideia simples, mas que na prática parece muito fácil de esquecer.

Não, a esquerda não morreu, apenas ficou encantada. Contudo, esse encantamento pode ser pior que a morte, pois os corpos extáticos permanecem ocupando o lugar do novo. Para movê-los novamente, é preciso escutar mais uma vez o povo. Depois disso, é que poderemos então apreciar Beethoven.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

PARASITA, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via




Parasita
por Victor Leandro

A ascensão do filme de Bong Joon-Ho no Oscar, a vitrine iluminada da indústria, causou uma forte comoção nos meios ativistas culturais. Para muitos, o gesto da academia foi encarado como uma mudança de paradigmas, uma Tomada da Bastilha cinematográfica que permitiu enfim colocar as produções periféricas no centro da indústria mundial. O início de uma nova era.

No entanto, o que parece ser uma vitória com legendas está mais para um tímido êxito em notas de rodapé. Muito pouco ou quase nada deve mudar com isso. Num olhar mais atento, só um ponto teve alterações expressivas, que é o modus operandi do sistema de dominação praticado pelas elites hollywoodianas.

Se antes a regra exclusiva era o remake em inglês, agora, está inaugurada a lógica da incorporação, que premia destacadamente os trabalhos estrangeiros e os torna parte de seu espetáculo. Dessa maneira, tanto o politicamente correto quanto os sectários veem-se satisfeitos, pois a produção vencedora passa a ser daí por diante legitimada e convertida aos parâmetros de suas instituições, ao passo que lança sobre o mundo um descarado autoelogio em termos de humildade, senso estético e benevolência.

“Se não pode vencê-los, junte-se a eles”, diz o ditado, ainda repetido pelos mais antigos. Porém, a sua figuração contemporânea é “se não pode vencê-los, aproprie-se deles”. O parasitismo burguês segue mais forte do que nunca. Na verdade, este é só um outro nome para capitalismo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A cidade desaparecida, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via



A cidade desaparecida
por Victor Leandro

Falemos de Manaus como falamos do estado, do país, do continente, porém que nos toca já que aqui estamos, e é desse lugar então que percebemos o mundo, que este se nos torna significativo e presente, ficando por esse motivo nossa perturbação como a mesma que paira sobre aqueles que em todo o orbe sentem e se angustiam, que conseguem persistir e rumar contra a correnteza dos fatos obtusos.

É essa experiência que nos diz: a cidade não existe. Não que tivesse um dia existido. Contudo, não faz muito tempo, podíamos capturar o seu prenúncio de manifestação. Hoje, até os fantasmas desviam nosso caminho, e o que temos é tão só uma melodia dolorosa e triste, que toca ao fundo, ratificando o peso de nossa miséria. Uma repleta geografia da ausência.

Passando pelos lugares anoitecidos, não ouvimos novidades, e sim notícias. Acrimoniosas informações de sujeitos mutilados e vidas partidas, proliferando-se com intensidade semelhante à da chuva. Os hospitais tornaram-se casas de agonia. Nos bares, nenhuma música, nenhuma canção a romper com a morte e seus signos. Os artistas partiram. Restam os alto-falantes renitentes das igrejas, que convertem pecados em mesquinhos benefícios.

Sim, a cidade se foi e deixou como rastro suas vias obscuras. Nelas, somente corpos inanimados trafegam como mortos-vivos. Mas há ainda que se pensar em dias triunfantes, onde a aurora avermelhada despontará nas esquinas. Até que surja esse momento, tudo que nos cabe é suportar e investir contra o vazio adiante.