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sábado, 4 de julho de 2020

CONTO A mão, de Márcia Antonelli

Conto



a mão
por Márcia Antonelli

- que merda é essa, cara? que aconteceu com tua mão?

- dei cabo dela, véio, pelo menos foi o que tentei.

- mas como assim, porra?

Ervenilson ajeitou-se na cadeira para contar melhor, tomou um trago de sua cerveja, arredou pra mais perto uma caixa de papelão misteriosa que trazia consigo e narrou sua história:

- lembra daquela noite que tu falaste que eu não escrevia nada? pois é, deixei  o bar pensativo e caminhei de volta pra casa refletindo no que tu me disse. no caminho, cheguei a conclusão de que tu estavas certo mesmo:  que não escrevo nada; que sou um engodo, um embuste. e a culpa toda era da mão. da porra da mão. revoltado, bati com ela várias vezes no meio-fio do calçamento e ela sequer fraturou, a porra da mão. parecia feita de aço de tanto que bati com ela sem piedade naquele chão duro até esfacelar-lhe os metacarpos. mas qual nada! ela continuou ali, firme, sem um arranhão. tu acreditas?  mas eu precisava me livrar dela. carregá-la comigo não tinha mais sentido. me bateu uma depressão foda. que eu podia fazer? cortá-la fora seria uma alternativa. mas eu não teria muita coragem de fazer isto sozinho. aí então, como um lampejo, pensei no Júlio Boqueirão, sabe o Júlio Boqueirão, o gerente lá da “boca” da bomba? traficante da pesada, perito em esquartejamento quando alguém lhe deve grana ou mexe com sua mulher? pois então, fui até lá com uma desculpa qualquer. um vaporzinho me parou na entrada:

- vai praonde, play?

- play é um caralho, vou falar com teu patrão, chefe, gerente, o caralho de asas. é bronca alta. e fui tomando o caminho da ponte de madeira com o vaporzinho atrás de mim o tempo todo. quando lá cheguei, no final de um beco, diante de um velho barraco, Júlio Boqueirão e a turma do crime tavam em atividade, embalando o bagulho. o cara ergueu a vista cabulosa ao me ver parado na porta:

- que merda é essa? quem deixou esse cara entrar? falou Júlio Boqueirão fazendo menção de sacar uma arma da cintura.

- ele foi entrando assim, patrão, disse que era bronca alta.

- diz aí, mano, qual foi?

- tô devendo a boca e não tenho como pagar não.

- ih, mano, então a gente vai passar o sal em tu, falou um que parecia o subgerente da boca. Júlio Boqueirão fez assim com a mão acalmando o chapinha. depois disse:

- tá me tirando, mano?

- tô não, devo e não tenho como pagar.

- deve quanto, mano?

- num sei não, mas acho que um bocado.

Júlio Boqueirão coçou assim devagar o seu queixo e disse:

- esquenta não, ninguém aqui tá te cobrando nada, quando puder, paga, quer quanto pra hoje?

- quero nada não, só vim dizer que não vou pagar o que devo.

como se refletisse mais um pouco, Júlio Boqueirão coçou atrás da orelha grande dele:

- tu não deve nada não, conheço quem deve. vaza daqui é que é.

- ah, e eu também comi a tua mulher, aquela puta gostosona! disse assim pra ele, dando uma risada nervosa de Exú na encruzilhada. o subgerentizinho pulou de lá em defesa da honra do chefe:

- porra, patrão, o cara tá de comédia, vamo passar logo o sal nele! Júlio Boqueirão me olhou muito sério que dessa vez vi tremer neurosamente o cantinho da sua boca torta.

- escuta mano, cê sabe que nós temos aqui um código de ética pra vacilão assim. a gente não dispensa um pedacinho dele que seja, tá ligado?

- sei, mas não precisa me desmembrar todinho não, quero só me livrar dessa mão aqui, podem serrar ela fora que não me importo.

Júlio Boqueirão pensou um milhão de vezes que talvez estivesse diante mesmo de um louco e começou a rir. todos ali  desandaram a rir, até minha mão riu, sacolejando-se toda. ele enfim pegou-me pelo ombro amigavelmente e, me conduzindo para fora do barraco aconselhou-me como se fosse um irmão mais velho:

- escuta véi, sei que tu tá de onda comigo porque tu não deve nada aqui na boca,  e nem colhão tens para comer mulher de traficante. tu és sangue bom, por isso pega o beco, vaza, resolve tua bronca pra lá com tua mão que deve ser alta, tá ligado?

- mas…

- mas é o caralho, vaza!

- e o que houve depois? (quis saber este amigo de Ervanilson)

- voltei pra casa arrasadão, é claro,  com minha mão ainda ali balançando animadinha como se tirasse a maior onda de toda aquela situação humilhante pela qual passei. ah, mas eu precisava dar um jeito nela. não pude dormir naquela noite. fiquei a madrugada toda pensando enquanto olhava pra minha mão: o que é uma mão? não exatamente o que ela faz, mas o que ela é. mãos só edificam misérias, assinam leis, espalham ódio, esganam, matam. ela me sorria de lá tremendo como se tivesse a resposta.

manhãzinha, logo cedo, pulei da cama ainda obcecado com a ideia de dar cabo da mão. peguei então um facão amolado e botei a mão assim estendida sobre a tábua de cortar carne. ela tremia pra caralho, a mão, pois que não queria morrer. tomei um longo trago da Cocal que restava na geladeira que era pra não sentir tanta dor. fechei meus olhos e bum! a mão tomou  um impulso forte e puxou assim pro lado, sem alguma explicação. peguei ela de novo e tornei a posicioná-la sobre a tábua de cortar carne, tomei do facão outra vez e bum! ela escapou desta vez pro outro lado. foram inúmeras tentativas tentando livrar-me da mão, mas a porra da mão escapava sempre; parecia até que tinha vida própria, a filha da puta da mão. era assustador. aí tive uma ideia. peguei uma corda e amarrei bem forte em torno da mão, passando a corda pelo pé da mesa, prendendo a sua ponta na janela de ferro da cozinha, pois dessa feita ela não tinha como escapar de sua sentença de morte. olhei bem pra ela. levantei o facão no ar, e antes mesmo que o descesse certeiro no punho, a mão me deu um cotoco de lá. foi a gota. bum!  (não sei como a direita tirou tanta força assim – talvez o ódio que ela sempre sentiu da esquerda) de maneira que a esquerda pulou longe, decepada. o sangue jorrou na parede como num filme do Dário Argento. mas o pior, o foda mesmo era que a mão continuava firme. ela dançava viva e alegrizinha como uma aranha asquerosa e ensanguentada no canto da cozinha. isto mesmo, você que me ouve,  a mão estava viva e zoava da minha cara, enquanto eu me esvaía em sangue. a merda toda é que acabei esquecendo que não podia viver sem a mão. eu  iria morrer e ela ficaria viva, a ordinária. arrependido, tentei pegá-la de volta, mas ela fugia de mim pela casa toda. era rápida, esperta: traidora de uma figa! mas acontece que, caindo realmente em mim, me desesperei, descobri que sem ela eu não viveria mesmo. que idiota eu fui. sentei exausto no sofá da sala. o sangue jorrando aos borbotões. a mente começando a embotar. a culpa não estava na mão, pensei, mas na minha cabeça de fracas ideias, de inoperância; de pouca criatividade mental. Aí ela apareceu. foi assim se chegando devagar como um animalzinho ferido, machucado. ficamos nos encarando. com lágrimas nos olhos tentei me reconciliar com ela:

- tudo bem, a culpa não é sua, o problema tá comigo. vou te reimplantar, ok? mas para meu espanto, ela recuou fazendo um sinal negativo com seu indicador. não queria ser reimplantada não. estava melhor assim: livre, autônoma; que foi tolice sua sentir medo da morte. e até me agradeceu por eu ter dado a ela a liberdade de se assumir de fato uma mão. explicou-me tudo isso com os sinais dos surdos-mudos. uma habilidade que eu desconhecia nela. (as mãos sempre escondem o jogo). bom, corri a toda pro hospital. perguntaram sobre a mão. disse que ficara em casa lavando os pratos. riram. fizeram uma cirurgia de emergência. fui salvo por um triz. tornei-me um maneta. me resta agora a direita que não vale pra nada, nem pra bater uma punheta legal ela serve. mas sabe, até que foi bom tudo isso. escrevo melhor sem a mão.

o amigo de Ervanilson olhou bem fundo nos olhos do outro desculpando-se:

- cara, falei aquilo porque tava bêbado. nada entendo de literatura. sou só um operador de máquina pesada.

- por isso mesmo. se fosse alguém de academia eu mandaria tomar no cu. mas foi você. aprecio sua sinceridade.

- mas e a mão? que fim levou a mão?

- ficamos bons amigos. mesmo desmembrados, eu penso umas paradas loucas e a mão escreve por mim.

- você não espera que eu acredite nessa história, né? falou este amigo saltando uma gargalhada entre os dentes.

- mas ela está aqui! trago ela sempre comigo para onde vou.

Ervanilson então abriu a tal caixa de papelão misteriosa, e este seu amigo, com os olhos paralisados de terror viu saltar lá de dentro uma mão, que caminhou graciosamente com a ponta dos dedos até o centro da mesa, e ali, erguendo educadamente o indicador, ordenou que viesse mais um copo e uma cerveja...

domingo, 28 de junho de 2020

Conto Produção fabril, de Mauricio Braga

Conto



Produção fabril
por Mauricio Braga

Tenho que escrever. Jogar uma ideia no papel, a despeito de ser boa ou ruim. O chefe exige uma produção fabril. Um texto por dia, conforme ratifiquei no contrato. Bato as palmas da mão na testa. Vamos lá, já escrevi milhares de textos antes. O foda é que, por mais que eu escreva, nunca fica fácil. Nunca flui naturalmente. Cada frase nasce com dores de parto. Talvez porque as palavras continuem sendo elementos estranhos para mim. 

O chefe está impaciente. Não entende minha demora. Me olha como se eu fosse um preguiçoso. Ele quer que eu tenha uma escrita mecânica como a de meus colegas. Mas não sou máquina, e tampouco consigo fazer por fazer. A escrita para mim nunca é um ato vazio. Mas para os meus colegas, bem como para o chefe, é. Se tirarmos os adjetivos desnecessários e demais adornos dos textos de meus colegas, não sobrará mais do que um parágrafo com obviedades em frases de efeito. Eu deveria fazer o mesmo, porém não consigo ser tão prosaico.

O cômico nisso é que com esses textos, que mais parecem posts de facebook, meus colegas se acham filósofos. Sim, aqui na redação é assim. Todos se acham filósofos, exceto eu. Alguns deles até se fantasiam a caráter. Cachimbos, depressão e um aforismo na ponta da língua. A caricatura é o bastante. Daí é só esperar o epíteto chegar. Primeiro chega aos sórdidos, depois aos bajuladores dos sórdidos; sendo que, sem perceber, todos se anulam. Afinal, se todos são filósofos, de fato ninguém o é.

Já eu me contento com a posição de cronista-comentador, que erra três para acertar uma. Como tal, minha escrita é ao nível da conversa de bar. Isto faz com que meus colegas às vezes impliquem com um termo ou outro que eu empregue. Apelam ao léxico filosófico para me corrigir. Mal sabem eles, cegos de pedantismo, que as palavras não carregam em si apenas um significado inequívoco, como se um deus tivesse o definido em lei. Ao contrário, as palavras são polissêmicas. Logo, elas contém virtualmente vários significados em potência, que podem inclusive ser antagônicos entre si. Sendo assim, o significado utilizado, dentre os vários disponíveis, será definido pela relação com outras palavras, isto é, em um contexto. Por isso que na escola não se estuda mais vocábulos soltos, e sim as suas conexões em uma situação comunicacional. Mas tente explicar isso aos meus colegas e veja o que é perder tempo! Limito-me então a tirar sarro.

Droga! Me perco nessas divagações e nada do texto de hoje. Não surge um mote. E quando surge não consigo desenvolvê-lo. Pelo visto terei que ficar até tarde na redação. Certamente minha mulher ficará uma fera. Ela jura que tenho uma amante. Ora, cansei de explicar a ela que os meus atrasos são a prova de que não tenho caso algum. Se tivesse, ficaria tão angustiado, diante da possibilidade de ser descoberto, que de forma alguma me atrasaria. Seguiria o horário à risca para não levantar suspeitas. Minha negligência com o relógio, portanto, é fruto de uma consciência conjugal tranquila. Pena que minha esposa não pense o mesmo. Tudo bem, não ligo mais. Deixo que ela procure a amante que nem eu mesmo conheço.

Volte ao foco! Eu me ordeno. Daqui a pouco o chefe virá aqui e, se não encontrar nada escrito, dará um chilique. Sim, ele se acha no direito de surtar. Após os chiliques, ele se desculpa pelo seu “caráter excêntrico”. Quer de todas as formas ser excêntrico. Não sabe que só se é excêntrico quando se é gênio. Fora da genialidade, seus ataques o transformam só em um cuzão.  Ainda mais sendo medíocre como o chefe é. Aliás, por isso ele tem tanto apego à quantidade. Quando não se pode ganhar pela qualidade, apela-se à quantidade. Eu, por minha vez, detesto o método quantitativo. E o pior é que tal método parece estar se expandindo para a totalidade da vida. Durma com o maior número de mulheres possível; acumule amigos (as redes sociais estão aí para os converter em números); visite o máximo de países, etc. No fim, o caráter acumulativo das experiências se sobrepõe à autenticidade. Inclusive, quantitativo e qualitativo raramente convergem. Penso que essa tara quantitativa é mais um reflexo do capitalismo, com seu perfil acumulativo, em nosso inconsciente.

Por conseguinte, aceitar este trabalho em um jornal diário foi uma roubada. Mas o que eu poderia fazer? Preciso de grana. Aceitei pela grana. Confesso sem medo de parecer mercenário. Não sou purista ao ponto de morrer de fome. Ademais, sabia que seria difícil. Entretanto não sabia que a dificuldade seria a este ponto. Pensava que iria adquirir uma disciplina e, com o passar do tempo, escrever seria moleza. Sim, eu estava enganado.

Escrever diariamente consome toda a minha energia criativa. Neste passo jamais farei uma obra de fôlego, que me levará a posteridade. Como poderia me dedicar a um romance tendo que preencher diariamente as páginas de um jornal? Um jornal não, um pasquim! Se bem que ainda é cedo para essa preocupação. Sou jovem e, desde que comecei a escrever, defini que não publicaria nenhuma obra “oficialmente” antes dos trinta. Dessa forma me pouparei ao trabalho de renegar algum livro meu no futuro. Sim, sou metódico – exceto ao escrever. Corto o cabelo a cada três meses, acordo às seis da manhã até nos domingos, e sei exatamente com quantos anos terei meu primeiro filho. Mantenho tudo sob controle. A única coisa que me foge é a escrita. Esta é como um jorro, mas não no sentido de ser fluido. É paradoxal. Ao mesmo tempo que escrevo matematicamente, tenho que estar dominado por um ímpeto. O processo é mais ou menos o seguinte: começa com uma leve perturbação. Em seguida ela cresce, aos poucos, até se tornar uma inquietação. Neste ponto não consigo mais ignorá-la. Aí sou tomado por um ímpeto que me leva ao papel. Mas pensas que é só despejar lá? De forma alguma! Passo meses com a necessidade de pôr para fora, mas sem conseguir. É a fase da frustração. Escrevo, reescrevo, apago, escrevo, reescrevo, rasuro, abandono, retorno, escrevo... Não há fim. Finalmente chega o momento do abandono. Lanço o texto, apesar do sentimento de inconcluso. Tal processo requer meses.

Nem preciso dizer que no jornal não disponho desse tempo. Não precisaria nem que me dessem meses para produção. Me contentaria até mesmo em escrever semanalmente. Ah, se ao invés de diário, fosse semanal, seria excelente. Eu poderia reescrever o texto ao longo da semana, enquanto flanava pelas ruas. Claro que não ficaria ao nível dos meus grandes escritos. Todavia, já seria relevante. Quem dera... 

A realidade, entretanto, é outra. A coluna diária! Escrever todos os dias é ser um Sísifo: por mais que se leve a pedra ao cume, ela voltará a rolar para baixo antes do dia seguinte, exigindo assim novo esforço.

Puta que pariu! Lá vem o chefe, cheio de si, com aquela voz de gralha. Espero que ele não venha com afetação. Com muito pouco poderei meter um soco em seu focinho gordo. Quer saber? Vou requentar algum dos meus textos antigos. Alguém já disse certa vez que um grande escritor está sempre reescrevendo o mesmo livro. Suspeito que seja verdade. Todo esforço de uma existência é para adicionar uma nota de rodapé na História da humanidade. Acho que alguém já disse isso também. Fato é que pouquíssimos chegarão a adicionar uma letra que seja. De qualquer forma, sigo me parafraseando para combater a superficialidade.

Subitamente, enquanto aquela figura ridícula se aproxima, uma ideia se insinua em minha mente. Uma ideia hermética. Quase um enigma. Uma ideia diabólica. Uma ideia que se entranha.  Uma ideia para ser abortada antes de sua gestação.

 Uma ideia.
 [Ponto seguido].

domingo, 14 de junho de 2020

Conto ABAJUR COR DE ROSA, de Márcia Antonelli

Conto



ABAJUR COR DE ROSA
por Márcia Antonelli

I

“Que foi agora, dona Idalécia.” Estranhou o delegado Gregório, coçando com um palito atrás da orelha.
“Ele disse que vai me matar…”

II

Ninguém entendia dona Idalécia não. Tão jovem, bem apanhada, a carne ainda dura, mãe de dois pequerruchos. Uns diziam que era amor de pica, só pode. Já outros afirmavam que ela era mesmo safada, que gostava era de apanhar. Mas quem sou eu ou você para julgá-la. O diabo era Floresmundo. Quando este bebia, vestia a pele do cão; via chifre onde não existia. Vivia a socá-la o rosto como quem soca pilão. Falta de aviso não foi. Etelvina, a vizinha, vivia a conselhar-lhe:

“Mana, denuncia este homem, um dia ele te mata.”

“Quero morrer não, vizinha, tenho dois pequerruchos para criar.” Enquanto batiam roupa, conversavam então as duas comadres:
“Sem beber, Floresmundo é um homem bom. Honrado. Nunca deixou que faltasse nada.” Dizia Idalécia. “Mas quando bebe, não sei o que entra nele. Rezo tanto, comadre. Ele até que parou mais. Me comprou até um abajur cor-de-rosa. Fica lá no quarto iluminando tudo. Rezo tanto…”

“Mas não é por falta de aviso. Um dia ele te mata!” Alertava a outra.

Era sempre assim quando Idalécia sarava das pancadas; quando o olho desinchava mais. Etelvina ia ter com ela aconselhando-a à beira do tanque. A única a preocupar-se de verdade com Idalécia. Salvou-lhe de muitas surras. Vizinha de verdade, ela era. Os outros só assistiam calados. Ninguém tomava partido não. Floresmundo era um homem brabo. Se transformava. E briga entre homem e mulher (como diz o velho jargão) ninguém mete a colher. Mas foi numa noite dessas que Floresmundo chegou torto em casa, quebrando tudo. E olha que faziam meses. Os pequerruchos pareciam piriquitinhos assustados. Nem o abajur foi poupado.
 
“É porque a senhora nunca sentiu o peso de uma mão, minha senhora. Que Deus a livre de tamanha maldade…”

Idalécia no chão vendo tudo girar, e depois, devagarinho, apagar. Enquanto o outro continuava batendo.

III

MANHÃ CALORENTA. Quem chegou primeiro à delegacia foi Idalécia amparada pela vizinha. O rosto desfigurado. Bem machucadinho mesmo. Só depois é que chegou Floresmundo, escoltado. Não se aguentava em pé. Rescendia tanto, o infeliz, que o delegado Gregório apertou uma trezentas vezes o nariz. E abanando-se perguntou:

“O que foi dessa vez, dona Idalécia.” A amiga tomando a frente, explicou:

“Foi esse sujeito, doutor, ele quase mata ela.”

Fique calada e tenha mais respeito. Que houve dona Idalécia.” Tornou o delegado. Mas a coitada não podia falar em razão da boca desfigurada. Delegado Gregório registrou a queixa. Antes repreendeu novamente Idalécia:

“Por que a senhora não larga de vez esse homem, dona Idalécia, parece até que gosta de apanhar. Vão pra casa e tomem jeito.” Disse o delegado Gregório como se aquilo fosse assim. Idalécia refletiu, matutou, (como chamam por aqui) aceitando mais uma vez o perdão de Floresmundo.

A vida seguia seu curso. Floresmundo deu um longo tempo na bebida. Prometeu até parar. Consertou o abajur. Ficou tão amoroso que Idalécia encomendou uma novena. Qual nada! TODAS AS MANHÃS O INIMIGO TOMA SEU POSTO E LEVANTA FURIOSO. É que Floresmundo voltou a beber. Não batia nela, mas a maltratava com palavras, o que era ainda pior. Dizia que ía matá-la se não parasse de tititi com a vizinha ao lado. Esta continuava a botar caramiolas na cabeça de vento de Idalécia. Tem cabimento. Não tardaria ela apanhar outra vez. Teve medo. Seguiu o conselho da outra. Tomou coragem e foi à delegacia. Delegado Gregório até estranhou, com um palito atrás da orelha:

“O que foi dessa vez, dona Idalécia.”

“Ele disse que vai me matar…”

“Mas a senhora não tem um arranhão. Volte pra sua casa. Se ele tocar na senhora, vai preso.”

Idalécia voltou. Cabreira. O marido desconfiado. Não sei como acabou descobrindo. Não me perguntem. Sei que neste dia, Floresmundo faltou ao trabalho. Entrou no primeiro boteco. Fazia um tempo feio. Fechado. Pediu que arriasse uma lapada. Duas. Várias. Encheu muito a cara neste dia. Começou a ver chifres onde não existia. A sombra do capeta mandando ver. Tomou o rumo de casa. Girou o ferrolho da porta. Idalécia rezava perto do abajur consertado. Ele trancara os pequerruchos no banheiro. Depois foi ter com Idalécia. Queria saber quem estava enfiando caramiolas em sua cabeça. E esta história de ir na delegacia. Onde já se viu. Ela tentou gritar por socorro.

Mas dessa vez foi muito rápido. Ele deitou-lhe uma única braçada em seu rosto que Idalécia foi ao chão. Antes, porém, batera com a cabeça na quina da cama, atingindo-lhe o nervo que mata.

sábado, 13 de junho de 2020

UMA PÁGINA EM BRANCO, de Márcia Antonelli

Conto



UMA PÁGINA EM BRANCO
por Márcia Antonelli

esta página está em branco. não há qualquer palavra escrita aqui. nenhuma gota de tinta derramada aqui. nada! é apenas uma página vazia. uma página em branco. não tente ver outra coisa porque não há nada além de uma página vazia e em branco. uma total ausência de mim. ás vezes estar ausente é estar presente, mas eu não estou presente porque não há nada de mim expresso aqui; nada se move. a bem da verdade, não mereço estar aqui. sendo que realmente eu não estou aqui. uma página em branco é o que tu vês. É o que eu sou. eis o título atribuído a esta página: UMA PÁGINA EM BRANCO. creio ser esta a melhor coisa que já escrevi em vida. minha melhor definição de mim mesma. sendo que não escrevi absolutamente nada! a ilusão compensa a existência. ou seria ao contrário. contudo, não se iluda com esta página porque nela nada há. nada vais encontrar aqui, senão o seu vazio absoluto. na falta de um sentido melhor, empresto de você um sentido qualquer se é que podemos atribuir qualquer sentido a esta página. através dela comunico a total abstenção de minha alma. do meu silêncio. o meu completo vazio. chegue então mais perto seus olhos se não crer no que afirmo. passe a mão assim devagar nesta página se não acreditas mesmo no que digo. é tudo um nada. uma superfície plana. um vazio de sentimento plano: o inverso do que poderia ser mas não foi. não estou em condições de lhe afirmar outra coisa. mas acredite, tu és mais importante do que tudo que eu me arriscar a escrever, mas que não escrevi neste momento. uma gota de silêncio. SILÊNCIO! dou-me o direito do silêncio. não se trata de má vontade literária ou de acovardamento. não se tem olhos ou ouvidos para aquilo que não se tem acesso. roubei esta frase de onde mesmo(interrogação) de nenhum lugar. ela está fora de lugar apenas. por isso vou deslocá-la para um outro espaço em branco desta página porque ela está fora de foco. ou quem sabe esta frase deixe de existir. uma vez que nada existe aqui. esta página está em branco. mas ela poderia estar em amarelo. um fundo amarelo. azul, não! lilás, talvez. que importância teria a cor. melhor não haver mesmo fundo algum. cor alguma. nada escrito aqui. como de fato não há. me dou ao luxo do vazio de sentidos. fui sensata em escolher o silêncio porque ele me diz mais coisas que propriamente o falar. quando aqui sentei para escrever, me dei conta do vazio que sou. do branco absoluto das palavras que me cercam. que experiência mágica é esta de não poder dizer nada quando se tem tudo para dizer. ficar somente aqui olhando para o vazio desta página junto de ti sem nada poder entender ou extrair coisa alguma dela. não é maravilhoso. e não adianta você discordar de mim porque já disse que nada tem de escrito aqui; se eu fosse você trataria de pular para uma outra página certo que nada, nada, nada mesmo vais encontrar aqui. o que não adiantaria muita coisa porque você está preso aqui comigo nesta página em branco. não há como sairmos daqui. contudo, mesmo no vazio, há a beleza deste encontro. desta contemplação. vê se não é mesmo lindo o vazio de uma página em branco. nunca estivestes diante de uma página em branco, não é mesmo. mas não se desespere. para compensar, ao invés de escrever qualquer coisa, vou desenhar… uma flor! é isto mesmo, uma flor! uma flor se expressa mais que palavras. toma esta flor pra ti! ahhh, queria estar aí ao teu lado só para ver sua carinha de espanto. de decepção. este seu balançar de cabeça em desaprovação. esta sua falta de credulidade. tenho em mim mil motivos para não escrever nada; para não habitar nesta página. nela nada se move. nada há. esqueça! estás preso comigo nesta página em branco...

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Conto: KARLA, de Márcia Antonelli

Conto



KARLA
por Márcia Antonelli

I

CONTAVA TRINTA E SETE quando finalmente decidiu-se pela mudança. Não podia mais suportar a mulher clandestina que habitava dentro dele. Só não o fez logo por respeito à mãe que ao contrário à ideia, dizia: “Deixa eu morrer primeiro, Carlos, que é pra não testemunhar tamanha vergonha.” Disse ela certa vez quando Carlos ainda tinha vinte e poucos. Ele esperou pacientemente a mãe envelhecer e depois morrer para que assumisse de vez sua nova condição.

II

Cuidou sozinho de todos os rituais póstumos: enterrou a mãe, respeitou o tempo de luto, vendeu a casinha no bairro João Paulo – seu único bem- cortou todos os laços parentais, tomou os hormônios necessários e foi pro mundo com uma nova identidade na alma. Embora soubesse que era um caminho sem volta, estava decidido. Carlos tornou-se Karla e caiu mesmo no mundo, conforme disseram.

Naquela noite quando a viram chegar transformada no ‘Bar Natureza’, as outras fizeram uma grande festa para celebrar. Algumas, é claro, torceram o nariz. Mas tava pouco se lixando. Karla estava era mesmo feliz que uma luz muito intensa saía de dentro de seus olhos castanhos e miúdos. Os cabelos encaracoladinhos desciam alegres e envaidecidos por sobre as omoplatas de ossatura estreita. Em sua noite de estreia, apenas uns poucos se engraçaram dela: “No começo é assim mesmo, mana, não te esquece que são as “rachas” que ainda mandam.” Tranquilizou uma delas. Passou então a frequentar com mais afinco os inferninhos na Tamandaré e imediações, fazendo dali, seu ponto de batalha. Havia, porém, alguma coisa de muito errado com Karla. Na verdade, sempre houve algo de muito errado com ela, desde os tempos de michê, no corpo de Carlos. É que se apegava muito fácil aos clientes. Uma delas, a de nariz de Tucano advertiu:

“Puta não se apaixona, menina!”

Mas o que ela mais queria era se apaixonar. E ela não era puta não, só estava passando uma chuva…

III

O tempo foi avançando e Karla foi cansando da rotina daquele lugar e daquelas pessoas. Botou na cabeça que tinha que ir pra Belém e de lá, quem sabe, até São Paulo. Longe, ela acreditava que as oportunidades eram bem maiores. Ali não dava mais pra ela, não.  O lugar tornara-se nojento. A cidade também. Era comum vê-la bêbada, tropegando, descendo e subindo a Tamandaré.

Certa noite, as amigas não mais suportando o seu mau humor e depressão, a deixaram só e colocada* no Mistura Fina. Eram quatro e pouco da manhã. Não havia feito programa algum e precisava de dinheiro. Olhou em sua volta e filosofou sem querer: “A angústia da mariposa não é diferente da de um Louva-a-deus.” Àquela altura já começava a pensar besteiras, quando foi abordada por um marinheiro filipino, desses que vez ou outra aportam no cais do Rodway a serviço de algum Loyd Inglês. Ele então sentou-se todo de branco ao lado de Karla e pagou-lhe cervejas e cigarros. Não trocaram falas. As luzes giravam no teto do Mistura Fina. Uma canção das antigas tocava parecendo um sonho feito de lantejoula coloridas. Depois daquele dia, nunca mais se teve notícias de Karla. Há quem se arrisque a dizer que ela partiu com o marinheiro filipino para um outro continente. O corpo terrivelmente desfigurado que encontraram no Motel Paradaise, naquela manhã logo cedo, não podia ser de Karla, não senhor…



*bêbada – gíria usada pelos travestis (N.da autora)

quinta-feira, 11 de junho de 2020

CONTO: METÁSTASE,de Elinaldo Junior

Conto



METÁSTASE
por Elinaldo Junior

   Naqueles dias de férias, acordara cedo como de costume. E mais uma vez, partia para as consultas médicas, que agora faziam parte de sua rotina com maior frequência do que na maioria das pessoas. Exímia hipocondríaca, daquelas que mal pegam uma chuva e já sabe que vai gripar, a garganta inflamará e, na pior das hipóteses, teme que uma pneumonia se alastre por seus esponjosos pulmões, até falhar gradativamente de suas funções. 

   Uma trintona, quase beirando os quarenta, de pele marrom-pálida e dona de um rosto afilado que seria bonito, se aos menos ocupassem uma posição superior aos antigripais na lista de prioridades. Solteira. Sem filhos. Emprego pacato. De poucos amigos. Sozinha, desde que seus pais e (por último) sua tia perderam a batalha contra o carcinoma. Próstata, colo de útero e pulmão, respectivamente. Sabia que a infame genética não costumava perdoar as pessoas e, apesar dos resultados satisfatórios de cada exame realizado, seu medo constante jamais permitiria dias de paz.

    Por mais que não compreendesse a oncologia em sua plenitude, imaginava cada gene conspirando contra suas células, arquitetando planos maquiavélicos para seu corpo sucumbir. Talvez uns fatores de crescimento tumoral. Talvez um acúmulo de modificações genéticas que explodiriam em multiplicações. Então ela sentia estas partículas mutantes e aberrantes em metástase, bailando soltas entre os caminhos líquidos da carne humana até parar em outro órgão e ali estabelecer uma nova algazarra, similar às plantas aquáticas do rio Amazonas que, ao balançar das águas, desprendem-se do conjunto e passeiam livres por todo o leito. Daí passa uma pequena embarcação onde estas plantas engatarão na hélice, interrompendo a viagem. 

   “Capim na palheta”. Era exatamente assim que imaginava a tal doença que todos temiam citar.

   Por isso a regular mamografia, papanicolau e até mesmo hemograma (e lembrava-se da cena emocionante onde Camila, leucêmica, teve os cabelos raspados, em Laços de Família). Nunca ia à praia, pois sabia que o sol, assim como proporcionava a vida, podia muito bem trazer a morte. Aquela bola de fogo gigante a espreitar os seres humanos, lançando seus raios ultravioletas, cuja camada de ozônio insatisfatoriamente absorvia. “Câncer de pele”. E passava o protetor solar, questionando-se o porquê de não inventarem um com fator 200. Uma mulher triste, melindrosa. E nem podia afogar a melancolia em álcool, por medo da cirrose.

   E mais uma vez, contou o histórico familiar, as dores aqui, os milhares de testes ali. O oncologista dizia para não se preocupar, que os exames indicavam saúde corporal e que não havia a necessidade de solicitar uma tomografia por causa das cefaleias que sentia esporadicamente. “Não, você não tem um tumor cerebral”. E mais uma vez, agradeceu e cumprimentou o médico, na certeza de que ele não poderia compreender a metástase que ocorria dentro de si. E voltou a ficar triste. Dirigiu-se lentamente à parada. Pegou o ônibus pra casa. Sentou-se num banco ao lado da janela, para sentir o vento balançando as madeixas desidratadas. As mãos frágeis segurando a papelada.

   E naquele sacolejar de angústia e solidão, sentenciou o diagnóstico exato de sua patologia: câncer de alma. E isso, quimioterapia alguma poderia curar.

CONTO: A GARÇONETE SEM CALCINHA, de Márcia Antonelli

Conto

A GARÇONETE SEM CALCINHA
por  Márcia Antonelli

EU SEI. Sou um espírito porco bebendo nesse chiqueirinho de merda. Mas tenho lá minhas razões que são óbvias e francas: A Garçonete sem calcinha. É ela a causa de todo meu sofrimento e torpor. Deste meu eczema. Imaginem que ela tem um rosto infantil e uma nádega boa. E a impressão que se tem é que ela nunca usa calcinha. Faça frio ou calor. Sol ou chuva. Tenho quase certeza disso. A garçonete está nua! E se porventura ela assim o faz, é somente para me provocar, porque é evidente que ela sabe que sou um homem ordinário e doente.

É natural que o senhor estranhe este meu comportamento. Este meu desvario. Mas devo prosseguir. Reparem agora que levo o copo devagar à boca que até sinto  meus dentes trincarem na borda de vidro. Como se o mordesse, o que na verdade o faço.  Tenho este costume de morder as bordas do copo. Mas é impressão minha ou as bordas deste copo me ferem os lábios. Sinto-os sangrar. Pedirei pra garçonete trocar. Assim eu a sinto mais próxima de mim. O seu cheiro. Ela se diverte com minha presença nesse chiqueirinho insalubre. É natural que o senhor estranhe. Mas é que a feiura destes outros velhos em minha volta é que me dói. (tusso) Todavia, eles tem o direito de vir aqui e sonhar com a garçonete sem calcinha. Masturbam-se. Desejam-na. Há  em tudo isto, um mistério insondável. A do desejo platônico das paixões que dominam as nossas almas passivas. Se prestarem bem tenção, o velho a minha esquerda pressiona devagar seu músculo morto enquanto bebe sua cerveja. Vive no mundo da fé. A velhice é imoral. É uma besta de canino careado e esquecida em um bar sordidinho. Levo novamente meu copo à boca. Assim, bem devagar. Apreciem com moderação. Sempre que faço isso, um novo desejo me aflora. Como uma margaridinha sem anáguas. Vou me perdendo em meus devaneios líquidos. Mas a gente se perde que é pra se encontrar. Eu me encontro no fundo do que sou. Sou esta superfície lisa e plana. Ela agora sorri pro flanelinha que tem um membro rijo e uns pészinhos tortos. Mas não é disso que quero falar (dos pészinhos tortos do flanelinha) Mas do cheiro da garçonete. Byron chamaria isto de instinto leviano da nobreza. Seja o que for, da pele emana o cheiro. Um cheiro que entorpece. Que alucina. Um cheiro sujo. A garçonete não tem cor. Desço levemente o copo sobre a mesa. Nada do que somos é uma verdade inteira. A nossa mentira é que são os nossos valores mais nobres. Mentira! Mas por que isso agora. Voltamos ao cheiro que emana de sua pele. Um azedume bom. (tusso outra vez, que raio!) Um azedume bom, eu disse. Venho só para ver seu corpo moreno, suado no calor destas tardes febris de agosto e sonhar. Suas omoplatas ondulantes que saltam sobre a pele. O sal das axilas. O corpo transparente de prazer. O azedume de tudo. Penso que se ela se inclinasse mais um pouquinho só que seja enquanto limpa as mesas com seu paninho fedido, daria certamente para ver se neste dia, ela estaria ou não usando calcinha. Mas é certo que não. A Garçonete está nua! Faça chuva  ou sol. Calor ou frio. Ela vai estar sempre nua! Vem trabalhar sem calcinha. Engulo a prece. A vida passa devagar como a sombra de um boi. Espero um dia ela inclinar-se para vê-la melhor por dentro. Mas enquanto isso não acontece, ela me sorri de lá.
Abaixem a cortina!
Seguimos...

CONTO: JAIR COBRA, de Victor Libório

Conto



JAIR COBRA*
por Victor Libório

O velho chamou um qualquer para erguer dois metros de tijolo e concreto em frente à casa onze da Rua Treze. Terminado, cobriu-se o muro de branco numa sexta-feira.

Na próxima sexta, o velho deixava engomado a mesma casa; na mão uma pasta de gente importante. Atravessado o portão, ele olhou para o que considerava uma desgraça: o branco do muro rabiscado de linhas tortas e falhas que escreviam, de caligrafia horrorosa, JAIR COBRA.

JAIR em cima, COBRA em baixo.

— Desgraçado — praguejou o velho. — Vândalo desgraçado!

Pior é que era dia de reunião no escritório e ele não era livre a meio segundo de atraso. Conjurou dois ou três palavrões e se foi.

No fim da tarde, o próprio, com minuciosidade vangogheana, passou um restante de tinta branca somente por cima da silhueta das linhas pretas, para assegurar que a quantidade bastaria. Nisso, gastou duas horas.

***
Era ritual todo sábado o velho sair bem no comecinho da manhã para voltar de sacola cheia da mercearia; desta vez não pretendia fazer diferente. Foi quando ele virou a cara para o muro e achou dois JAIR COBRAs, um de cada lado do portão. Isso mereceu o dobro de palavrões, com certeza.

E foi embora.

Voltou com duas latas de tinta. Só uma era branca. A outra, contou ao vendedor, seria para uma experiência. Aí, novamente, o velho passou boas horas cobrindo os JAIR COBRAs de branco. De novo naquele jeitinho, só que agora por pão-durisse mesmo. Terminou na hora de almoço. Depois, o dia seguiu normal. No fim dele, o velho dormiu.

E levantou só na manhã de domingo.

Mal levantou, aliás; correu de ansiedade para a frente da casa. Por lá, nada de surpresa, fora que agora havia três JAIR COBRAs.

O velho entrou.

E saiu carregando uma lata de tinta preta e um pincel mais ou menos da grossura dos rabiscos. Ele não cobriu nada, entretanto. Pelo contrário, contribuiu com as artes.

A primeira ganhou um QUER no meio: JAIR QUER COBRA.
A segunda recebeu um ENGOLE: JAIR ENGOLE COBRA.
A terceira teve um É VIADO no final: JAIR COBRA É VIADO.

O domingo sucedeu normal e satisfeito.

***
A segunda-feira acordou assobiante.

O velho vestiu roupa de reunião, apesar de não ser dia de. Passou creme no cabelo, penteou-o. Jogou perfume no ar, entrou na neblina de cheiro. Escovou os dentes antes de sair, nem sempre o fazia. Até espremeu uma espinha, o pus que voou no espelho rendeu gargalhada.

De pasta e tudo, o velho ainda assobiava cruzando o portão. Na beira da rua, ele parou de cara para a casa e pausou o assobio para apreciar o branco infinito e intocado do muro; claro como dente de jogador de futebol.

Quando voltasse à mercearia, o velho falaria ao vendedor o resultado que já esperava: o tal Jair que tanto cobrava achou mais feio se sair de viado que de vândalo.

Dando início à caminhada, ele mostrava dentes, mas prometeu a si mesmo que jamais, nunquinha novamente atrasaria diária de pedreiro.

Fez bico e já assobiava de novo.




*Conto publicado no terceiro volume da revista Bodozine, lançado em 04 de maio de 2018.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Conto: O BENFEITOR, de Márcia Antonelli

Conto


O BENFEITOR
por Márcia Antonelli

I
O Benfeitor agia sozinho e sempre à noite. Compadecia-se com os excluídos e injustiçados. Doía-lhe no coração a dor que vinha daquelas feridas humanas. Por isso, tornara-se o Benfeitor. Só ele poria fim as enfermidades e sofrimentos daqueles miseráveis seres. Suas benfeitorias, contudo, foram ocupando páginas nos jornais da cidade. Com a aproximação do natal, suas benesses se intensificavam ainda mais.

II
Cleócio – vamos chamá-lo assim - saíra para manguear em sua cadeirinha de rodas. Ele tinha uma perna amputada e gangrena no pau. O fedor que vinha de seu membro gangrenado, empesteava as ruas da cidade. Na véspera de natal, Cleócio paquerou um pão na confeitaria da Sete, mas fora logo expulso em razão de seu fedor insuportável e sua condição de doente e miserável. Mas é que ele sentia fome e também precisava de um short novo, pois que o seu já revelava um rasgo feio bem na frente por onde escapava-lhe o pênis com gangrena espalhando terror, nojo e raiva nas pessoas.

III
Bom, aconteceu que um certo dia, Cléocio e o Benfeitor encontraram-se na madrugada, bem na esquina da Getúlio com a Sete, onde o aleijão e um traveco dividiam um ponto. As luzinhas de natal piscavam nas árvores. Delas saíam musiquinhas doces de partir o coração. O Benfeitor foi encostando o carro devagar e baixando os faróis que saltavam vapor na noite fria.

Passavam das duas…

Olharam-se com cautela. Cleócio foi ao encontro dele com sua cadeirinha de rodas. O vidro foi baixando devagar. Dava para ver que o benfeitor tinha uma cara larga e olhos generosos. Cleócio como de costume, estendeu suas mãos. As luzinhas continuavam a cantoria. Desconfiada, a lua escondia-se por detrás dos prédios anões. O Benfeitor retirou do porta-luvas o maquinário disparando um certeiro no peito do traveco e um outro na testa do aleijão, que tombou ali mesmo sobre a cadeirinha de rodas...

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CONTO O coelho deixou a cartola, de Letícia Cardoso

Conto

Sem título, de Giovanne Reis

O coelho deixou a cartola
por Letícia Cardoso

Oh, não é incrível como o coração humano pode amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo? Mas imagine que, apesar disso, poucas pessoas aceitam compartilhar amor com outro alguém. A maioria quer ser amado sozinho, venerado. Você tem um grande problema aqui. Definitivamente muito maior do que você imagina.

“Mamãe, eu matei um homem. Coloquei a arma em sua cabeça e o clarão que vi nos seus olhos era a morte. O fim da minha vida.”
G.

Por que isso é tão pessoal? Você acha mesmo que me conhece porque me assiste todas as noites? Por que sabe o que faço depois das apresentações? Eu odeio a forma como você sorri para ela. Odeio que ela  seja tão dependente de ti. Odeio que você goste disso. Seu sorriso amarelo de cigarros não irá lhe salvar. Hoje ficaremos quites.

“Respeitável público, bem vindos a mais uma apresentação do circo Macondo em Manaus”.... guardo no bolso da minha calça. Ela está queimando em mim. E por Deus, eu quero mais que queime. Aquelas senhoras sentadas na primeira fileira, que susto terão!

Atrás da lona, assim têm sido as últimas semanas. Daqui a alguns dias faremos três meses de... como posso dizer? de encontros noturnos? Os malabaristas estão se apresentando agora. Então o sangue saindo pela boca, atravessando o pensamento, as miniaturas em sombra me olham lá de baixo, enquanto eu me preparo para o trapézio. Conto até dois, me lanço e sou agarrado por Gil. Estou enfeitiçado por seus olhos, apesar de seu sorriso sombrio. Ele sabe!

Caio.

Flashes e gritos, e eu não tenho nenhuma resposta. Ando na grande avenida, enquanto Manaus dorme serena. São quatro horas da manhã e o barulho que ouvi no circo continua estalando em minha mente. Amanhã será a última noite de apresentações, para o meu conforto e tormento. O frio da madrugada está arranhando meus braços. Não pude me secar direito depois que saltei, tive que fugir, ainda não era a hora.

 ***
Eu bebo o céu como recompensa pelas minhas apresentações no Macondo. Estou preso aqui há tanto tempo. Ninguém nunca poderia entender se eu contasse. Você teria paciência para me ouvir?

***
Ouço a sirene da ambulância. Os paramédicos já estão entrando no circo.

Esses fantasmas me contam que tudo foi julgado. Mas eu sinto que minha alma já não está mais em mim. É a metafísica que assombra os culpados. Dói tanto, mamãe!

Depois de um período sem ataques, hoje à tarde te esperei no jardim. Guardava em minhas mãos a tua flor favorita que plantam aqui. A enfermeira disse que não tardará para tua chegada. Mas veja só aqueles enjaulados, aquelas vozes me dizem que tu nunca virás. Mamãe, estarás aqui quando eu acordar?

Então você pensa que é uma grande coisa. Seus olhos de chama não me assustam mais! Você pode ser o palhaço, mas é por mim que as pessoas prendem a respiração no final. Não, você nunca teria coragem de se jogar de um lugar tão alto. Abrir mão da vida, e perdê-la todos os dias, noite após noite, a cada apresentação. Você vê esse sangue em minha boca? Ele nunca para de jorrar!

***
Eu esperei tanto. Imaginei você desistindo dela e vindo para mim. Ela nos perdoaria, você não sabe? O amor materno é sempre maior do que tudo. Deveria ter lembrado disso... É tão tarde. Aquelas luzes ali já irão se apagar. Vem.

Sua internação causou frisson na época. Muitas pessoas foram para a porta do hospital psiquiátrico manifestar indignação. O julgamento acabou...

Eu irei atrás de você, com seus sapatos grandes, não demorarei muito para lhe encontrar. Assim que o efeito da morfina passar, eu o terei em minhas mãos.

Mamãe, por que você se foi tão cedo?

Adeus, todo mundo, este é o último grande ato. Você está pronto para o que está por vir? Tome cuidado com o homem no canhão, ele não é confiável – ouvi isso quando criança. Mas Deus tenha misericórdia de todos nós.

Chamas explodem, fogos de artifício queimam, é a última apresentação do circo, o último número está para ser encenado. A enfermeira retira a agulha do pote, as vozes sedentas cantam: já era tarde para quem cedo percebeu o seu fim!

A flor está em um vaso, mamãe. Eu espero que ela esteja tão bonita como nessas duas últimas semanas. Você está vindo e eu estou certo, não é? Eu estou pronto para ser lançado.

(...) Neste bloco você poderá relembrar o dia em que foi condenado à internação e a sua chegada ao hospital:

“Respeitável público, bem-vindo a mais uma apresentação do circo Macondo em Manaus”.... Eu sou uma bomba e agora todos me verão e eu estou pronto para ir. Mamãe, eu sei que já chegou.

No intervalo entre as apresentações, encontrou os dois atrás do terceiro trailer no maior amasso. Bateu com força na lataria do carro. Eles se assustaram, mas não se separaram.

Naquele momento, a canção que sua mãe cantava ressoou em sua memória:
“Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar”

Lembrou-se da fúria dele ao lhe beijar, ao lhe tocar. Com ela era diferente. Não era um animal, era suave.

“Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, 
Para o meu, para o meu amor passar”

O vestido dela estava aberto e havia marcas em seus seios. Aquilo o enfureceu. Mais ainda quando viu que seu homem tinha mordidas no pescoço. Aproximou-se mais do casal.

“Nessa rua, nessa rua, tem um bosque
 Que se chama, que se chama Solidão”

Ela levantou o braço. O homem estava pronto para ser disparado.

“Dentro dele, dentro dele mora um anjo
 Que roubou, que roubou meu coração”

BAM! um disparo e o homem foi lançado. Bam! um tiro e ela morta.

Quantas estrelas tem no céu de Manaus, mamãe?

“Nada na realidade me convenceria da vida, nada no mundo real poderia me impedir. Meus fantasmas, eu os levo comigo. Sempre e todos os dias.”

A enfermeira traz uma seringa com o remédio. Aperta forte seu braço.

Uma tragédia marca o encerramento do circo Macondo. Testemunhas dizem...

Tem dificuldades para encontrar a veia. Chama outro enfermeiro, mas ele estava ocupado.

Sempre é hoje. O coelho está fora da cartola e sorri para o grande mágico.

“Se eu roubei, se eu roubei seu coração,
 Tu roubaste, tu roubaste o meu também”

O pecado maior foi o seu. Você destruiu tudo.

Disse para furar a mão. Ela também não conseguiu. Então, como se faz com os bebês, furou o pé esquerdo.

Conseguimos uma entrevista com um dos circenses, o trapezista Gil. Ele nos disse, com exclusividade, que viu quando

Ela tirou a máscara cirúrgica e não bateu o ponto. Encontrou-se com ele no posto de gasolina.

“Se eu roubei, se eu roubei teu coração 
É porque, é porque te quero bem”

Gabriel adormeceu, enquanto o circo se despedia e os fogos explodiam em amarelo e azul.


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