Mostrando postagens com marcador Coluna CONJUNTURA MARXISTA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coluna CONJUNTURA MARXISTA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Reflexões sumárias sobre o trabalho por aplicativo, por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista

Charge: Toni

Reflexões sumárias sobre o trabalho por aplicativo. 
por Gabriel Henrique

As recentes manifestações dos entregadores de aplicativos em São Paulo e outras cidades pelo país chamaram a atenção para esta categoria tida como “empreendedora”, “autônoma”, etc. Essa visão propagada pela classe dominante - e que penetrou entre os próprios trabalhadores – é a aparência de um fenômeno importante: o retorno do trabalho por peça como forma de assalariamento dominante no capitalismo. Marx analisa o trabalho por peça no Livro I de O Capital, em seu capítulo XIX, sobre esse fenômeno o filósofo alemão diz o seguinte: 
“O salário por peça parece, à primeiro vista, como se o valor de uso vendido pelo trabalhador não fosse função de sua força de trabalho, trabalho vivo, mas trabalho já objetivado no produto, como se o preço desse trabalho não fosse determinado, como o do salário por tempo, pela fração 
Valor diário da força de trabalho
           ___________________________

Jornada de trabalho de número de horas 
Mas pela capacidade de produção do produtor” (MARX, 1984, p. 139) 

Como se pode ver, diferentemente do assalariamento por tempo, no salário por peça o trabalhador assalariado crê que o preço do seu trabalho é determinado tão somente pela sua capacidade de produzir mais mercadorias, pois ele é pago pela quantidade de mercadorias que produz, seu salário aparece, então, como trabalho já materializado na mercadoria. Desta forma, o trabalhador que é remunerado por meio do trabalho por peça julga ter certa autonomia, pois somente ele é o responsável pelo salário que receberá ao final do mês: quanto mais mercadorias produzir, maior será seu salário ao fim do mês; se, ao fim do mês, ele não receber um salário que julga adequado, será tão somente pela sua falta de capacidade, por sua morosidade. 
“Dado o salário por peça, é naturalmente do interesse pessoal do trabalhador aplicar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade. Do mesmo modo, é interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, pois com isso sobe seu salário diário ou semanal. (...) a maior liberdade que o salário por peça oferece à individualidade tende a desenvolver, por um lado, a individualidade, e com ela o sentimento de liberdade, a independência e autocontrole dos trabalhadores (...) Do exposto, resulta que o salário por peça é a forma de salário mais adequada ao modo de produção capitalista.” (MARX, 1984, p.140 e 141). 
É exatamente desta forma que se reveste o assalariamento feito pelas empresas de aplicativo: o trabalhador recebe tanto mais quanto mais corridas e entregas faz, é do seu interesse trabalhar mais para receber mais e, como ele não se encontra, aparentemente ligado a um empregador imediato, ele tem a impressão de que é um trabalhador autônomo, um pequeno empreendedor, responsável apenas por si mesmo. Ele, aparentemente, controla a sua jornada de trabalho, pode parar a qualquer tempo, ir para casa descansar, ficar com a família. Não seria ele, então, diferente de um trabalhador assalariado? 

Evidentemente que não, ele recebe um salário, mas recebe por cada uma das corridas e entregas realizadas, é por esse motivo que, do ponto de vista prático, – e em Manaus isso é extremamente comum – encontramos trabalhadores de aplicativo com jornadas de 10, 12, 14 e até mesmo 15 horas. Como ele recebe por peça produzida não pode se dar ao luxo de ficar em casa descansando, seu interesse pessoal é ir às ruas conseguir o máximo de corridas e entregas possível – a concorrência entre os trabalhadores também o força a isso. Afinal de contas, se ele não estiver sempre disposto a trabalhar o máximo possível a tendência é que seja preterido pelos aplicativos; é para isso que servem, sobretudo, os sistemas de avaliação presentes nesses sistemas.

Poder-se-ia objetar, no entanto, que tais empresas não empregam nenhum meio de produção, afinal os carros, bicicletas e motos utilizadas por estes trabalhadores não são fornecidas por estas empresas e são de total responsabilidade do trabalhador. Ora, mas o que seriam esses trabalhadores, de posse de suas bicicletas, de suas motos ou de seus carros sem o intermédio destes aplicativos? Poderiam eles ainda continuar trabalhando e recebendo? Resta óbvio que não, os trabalhadores só podem trabalhar e só são remunerados quando utilizam o aplicativo, as empresas em questão empregam tais trabalhadores como verdadeiro capital variável e com um adendo: sem ter nenhuma responsabilidade pelo capital constante, os meios de produção. Estes capitalistas delegam tal responsabilidade inteiramente ao trabalhador, eles não têm que se ver com a manutenção e depreciação diária desse capital, é o trabalhador que tem que pôr gasolina ou consertar o veículo, por exemplo.

O que acontece é que, na maioria das vezes, o trabalhador não tem nenhum desses meios de produção fundamentais para o seu trabalho. O que se sucede então? Ele precisa alugar um carro, uma moto ou uma bicicleta; isto significa que, além de ser explorado pelos capitalistas que se escondem sob os aplicativos, ele ainda sofre com o butim do rentista, que aluga o veículo para ele. Sendo assim, a mais-valia produzida pelo trabalhador de aplicativo ainda é dividida com o rentista, que aparece sob a forma de um aluguel que o trabalhador deve. Há ainda casos em que o trabalhador pega um crédito no banco para comprar este veículo de uma fabricante de veículos (carros, motos e, por vezes, até bicicletas), aqui neste caso se locupletam o capital a juros e o capital industrial. Destarte, a responsabilidade delegada ao trabalhador, de arranjar e cuidar deste meio de produção, além de livrar os aplicativos deste custo operacional fundamental – eles têm que lidar apenas com a manutenção do próprio sistema e com a organização mais geral do trabalho, e para isso contrata trabalhadores especializados e específicos para tal função- ainda insere outros capitais no processo.  

Além disso, a aparentemente autonomia, independência e fragmentação impedem, em um primeiro momento, que tais trabalhadores se organizem para lutar contra os seus patrões. E mesmo quando isso acontece, a tarefa é dificultada pela, aparente, inteira impessoalidade assumida por este capital, o trabalhador sequer tem contato com os trabalhadores médios responsáveis pela organização do local de trabalho; em alguns casos ele tem de lidar com um atravessador que se insere no meio do processo, mas em sua forma pura o trabalhador normalmente tem que lidar apenas com o aplicativo. O aplicativo é seu patrão? Eis aí a loucura do capital. Ao assumir uma forma totalmente autonomizada, dotada de inteira impessoalidade, o aplicativo assume a forma de uma máquina extratora de mais-valia, uma Coisa que se defronta com o trabalhador.

Se o salário por tempo oculta a existência da mais-valia para o trabalhador, o salário por peça agudiza essa ilusão ao mostrar ao trabalhador como produtor do seu próprio salário, um sujeito autônomo e independente, um “pequeno empreendedor”. Quando, na verdade, tal trabalhador é um assalariado e é empregado pelo capitalista como qualquer força de trabalho, ele é posto no processo de produção como um fator do processo de produção: capital variável. Apesar de parecer livre e dono de si, ele é totalmente dependente, subordinando e explorado pelo capitalista que o emprega. É o fetiche completo do salário por peça que atua sob formas ainda mais cruéis que na época de Marx no atual trabalho por aplicativo. 

Podemos sumariar algumas conclusões expostas no texto, que podem até ser posteriormente desenvolvidas, vejamos: 

1) O capitalista não tem custos com os meios de produção fundamentais para a realização do trabalho, tais custos são repassados para o trabalhador; ele, capitalista, cuida apenas da manutenção do sistema e da organização do trabalho em geral, para isso, contrata trabalhadores especializados que se encontram muito distantes fisicamente do entregador ou do motorista; 

2) Ele paga o trabalhador por peça, de tal sorte que o trabalhador tem o interesse pessoal de trabalhar tanto mais quanto for possível para receber mais, nem que essa jornada chegue a absurdos de 10, 12, 14 horas ou 15 horas; 

3) O trabalhador tem, ainda, a ilusão de que trabalha para si mesmo e de que produz o seu próprio trabalho. Deste modo, acredita, de fato que é dotado de independência e autonomia frente ao trabalhador assalariado mais comum, que é pago por meio do salário por tempo, Além disso, o salário por peça completa o fetichismo do salário por tempo, permite que ao invés do trabalhador se reconhecer como um explorado tenha total interesse em aumentar tal exploração. Inverte as relações essenciais do modo de produção capitalista, baseadas na exploração, que passam a aparecer para o trabalhador como o seu contrário, como relações inteiramente livres baseadas na autonomia do indivíduo;  

4) Já que seus custos são inteiramente reduzidos, pois estes são repassados para o trabalhador, o capitalista, escondido sob o aplicativo, tem que se preocupar apenas com a extração de mais-valia, que acontece de modo absurdo graças às extensas jornadas de trabalho destes trabalhadores – o que é simplesmente a mais-valia absoluta;

5) A essa aparência de autonomia a ideologia dominante deu uma forma rebuscada a que chama de “empreendedorismo”, que trata de propagar aos quatro ventos e incutir na cabeça dos trabalhadores; 

6) A própria organização dos trabalhadores por aplicativo torna mais difícil sua união por meio de sindicatos, etc., dado que se encontram dispersados e fragmentados; 

7) O capitalista assume uma forma inteiramente impessoal, em que até os trabalhadores médios responsáveis pelo local do trabalho (como o RH, inspetores, gerentes etc.) desaparecem e onde os atravessadores que surgem não se mostram diretamente ligados a tais aplicativos. Sendo assim, o trabalhador parece se defrontar inteiramente com uma Coisa, o capitalista assume a forma de uma Coisa que está instalada em seu celular e que permite que ele trabalhe. É a loucura completa e a essência do atual modo de produção: extração, tanto quanto mais for possível, de mais-valia;

8) Tais reflexões sumárias são apenas elementos gerais para entendermos por qual motivo esta nova forma de trabalho por aplicativo têm crescido tão rápido e se generalizado em todos os setores da sociedade burguesa.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Reflexões sobre a crise brasileira e a luta política, por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista

Reflexões sobre a crise brasileira e a luta política
 por Gabriel Henrique

A prisão de Sara Winter, a queda de Weintraub e a prisão de Queiroz não são acontecimentos independentes e fortuitos nessa conjuntura. Tratam-se, claramente, de uma cruzada promovida por diversas frações da burguesia brasileira contra Bolsonaro e sua família; a prisão de Winter e a queda de Weintraub promovem uma verdadeira depuração do setor mais “linha dura” do governo, com traços tipicamente fascistas – algumas falas de Weintraub deixariam qualquer integralista com inveja – e que tornavam o governo Bolsonaro demasiado errático na relação com determinadas frações de nossa burguesia; tal depuração é operada pelas próprias frações da classe dominante e não são fruto do “espírito” republicano das instituições. Por outro lado, o caso Queiroz é um elemento diferente nesta conjuntura, o que vemos é que, a partir de métodos tipicamente lavajatistas, frações diversas da burguesia brasileira pretendem colocar Bolsonaro contra a parede, com a faca e o queijo na mão a qualquer tempo poder-se-ia promover a completa falência do governo perante à opinião pública a partir de um caso de corrupção típico da pequena política praticada em solo brasileiro. 

Ora, é claro que nenhum desses acontecimentos é o resultado da ação organizada dos trabalhadores, antes é o resultado da disputa que acontece no seio da própria burguesia. A prisão de Queiroz deixam intactas as figuras dos militares e de Guedes, e para nós é claro que a operação que se sucedeu hoje não deve ter acontecido sem a anuência de boa parte do partido fardado; já Guedes representa, in persona, a agenda da própria burguesia brasileira e, por isso, não pode ser desmoralizado sob o risco de desmoralizar também essa agenda – o que não significa que ele não possa sair por outros meios. Neste ponto é importante retomar a tese 5 de nosso escrito Teses sobre a questão militar e a crise capitalista¹. 

 Tese 5: Nos parece muito evidente que os militares se encontram em posição muito confortável no momento; pois, apesar de terem desembarcado em massa no corpo burocrático do Estado brasileiro por meio da gestão de Jair Bolsonaro, os militares podem, a qualquer tempo, por meio de alguma manobra institucional, jogar Bolsonaro às baratas e promover um governo de “conciliação nacional” por meio do vice-presidente Mourão; esse é o motivo de assegurar a legitimidade jurídica do papel interventor das Forças Armadas com base em interpretações de dispositivos presentes em nosso ordenamento jurídico. 

Como pode ser visto acima, entendemos que as análises de dispositivos presentes em nossa Constituição Federal que assegurariam um papel “moderador” às forças armadas têm o objetivo de avalizar uma possível ação proveniente do partido fardado, mantê-la sob a égide da “normalidade” jurídico-institucional. Bem, se essa é uma das opções para uma eventual derrocada do governo Bolsonaro e a assunção de um governo de conciliação nacional via Mourão; há, também, a possibilidade de derreter o governo Bolsonaro perante à opinião pública e, como a família Bolsonaro é uma família que sempre fez a típica política de gabinete, a pequena política, é evidente que não se perderia tempo de inquerir sobre a possibilidade de existir alguma prática de corrupção – típica dessa pequena política. 

É nesse contexto que se insere o caso Queiroz, como uma possibilidade real de se derreter o governo Bolsonaro a partir de um grande escândalo de corrupção e deixá-lo nas cordas, podendo assim, a qualquer tempo, promover Mourão à presidência. Setores do partido fardado, lavajatistas, Rede Globo e amplas frações da burguesia brasileira parecem estar nessa cruzada: enfraquecer Bolsonaro, aumentar o poder dos militares em seu governo e, assim, permitir uma eventual troca em momento oportuno. 

Sem a existência de uma pressão movida pelas grandes massas proletárias organizadas a burguesia brasileira se vê em uma situação confortável: não precisar mover o atual regime democrático-burguês em direção a um regime de exceção, basta deixar essa carta sempre na manga. A burguesia brasileira precisa, hoje, aprovar as suas reformas e medidas infra-constitucionais para recuperar os seus lucros a partir de uma crescente pauperização do trabalhador; no entanto, é evidente que tais medidas vão acarretar no aumento da miséria social e isso haverá de acirrar a luta de classes e a possibilidade de distúrbios e revoltas mais frequentes, do aumento da consciência sindical, além de promover a possibilidade de maior inserção dos comunistas dentre os trabalhadores. 

Ora, sendo assim, a burguesia brasileira precisa, sob os ares do atual regime democrático-burguês, tornar a sua dominação cada vez mais autocrática – ela não precisa romper com a ordem atual ainda, pois não se vê ameaçada, mas ao mesmo tempo nada a impede de dotar o Estado brasileiro de uma forma mais, reiteramos, autocrática. É o que vem se desenhando desde o governo Dilma-Temer, principalmente a partir da lei antiterrorista, das leis que quebraram o poder de barganha dos sindicatos frente ao patronato e do “retorno” do partido fardado – este nosso Bonaparte - ao alto escalação da gestão estatal.  

As disputas que atualmente ocorrem e que aparecem sob a forma de uma luta encarniçada entre indivíduos isolados e instituições, mas que são, na verdade, contradições intra-burguesas, revelam o seguinte: com ou sem Bolsonaro o vale de lágrimas permanecerá. Podemos, aqui, recuperar duas de nossas teses do mesmo escrito, Teses sobre a questão militar e a crise capitalista

Tese 13. Pouco importa, por conseguinte, a forma com que o Estado se manifesta, a tutela militar tem apenas um objetivo: a manutenção do subdesenvolvimento brasileiro. Que isso se mantenha com o presidencialismo de coalizão da "Nova República" em decadência, ou através de um processo de impeachment, ou se recorrendo ao art. 142 da CF/88 revestindo de legalidade 1964, a forma de manifestação esconde uma essência e objetivo comum.
Tese 14. Independentemente do caminhar da conjuntura e de quem saia vitorioso na luta pela gestão da crise capitalista, nos parece cada vez mais certo que há dois pontos arquimedianos: 1) a política ultraliberal e anti-nacional será a política econômica do Executivo Federal, qualquer que seja o desenrolar da conjuntura e 2) os militares exercem um papel externo de controle da política econômica brasileira, seguindo os ditames do capitalismo central.  Nesse sentido, a permanência ou não permanência de Guedes não poria fim a essa política econômica, mas significaria apenas a sua atenuação; acrescentamos, no entanto, que a conjuntura não parece caminhar nesse sentido e que, aparentemente, toda a burguesia nacional está “fechada” com Guedes – mesmo que ainda existam setores keynesianos em algumas frações da burguesia brasileira.

Não podemos ter ilusões com uma possível derrocada do governo Bolsonaro, a tendência é que sem a condução errática do atual chefe do executivo as reformas econômicas e demais medidas infraconstitucionais saiam até mais rápido. Com um governo de conciliação nacional, uma ampla coalização com todos os setores da burguesia brasileira, as reformas tenderiam a passar sem dificuldades e sem tanto alarde, tal como as que se sucederam no governo Temer; em todo o caso há um destino comum para os trabalhadores: arrocho, desemprego, miséria social, subemprego, etc.  Aqui retomamos a reflexão que fizemos em outra de nossas teses

Tese 8. O veredito parece mesmo que será dado pela agudeza da crise capitalista, que começa a soar forte em território nacional, com a explosão do número de desempregados e com a recessão que bate à porta. Somente agora a consciência burguesa parece ter entendido que não adianta afrouxar a quarentena nos Estados, pois não há demanda com a retração da renda dos trabalhadores e tampouco há oferta como havia anteriormente, visto que a maior parte dos pequenos proprietários foi à falência -- o crédito necessário para sua subsistência não fora fornecido pelo Governo Federal -- e seus capitais foram conscientemente jogado na mão dos monopólios. Para se manter a taxa de lucro, recorre-se a mais valia absoluta. Arrocha-se o trabalhador. Flexibiliza-se ainda mais a legislação trabalhista. A opção keynesiana, queridinha de liberais em tempos de crise, no atual estágio do modo de produção capitalista, parece só se aplicar aos países centrais do capitalismo. Aos países dependentes, resta a política neoliberal, que tem na figura de Paulo Guedes a única unanimidade hoje dentro da burguesia nacional.

A brutal crise capitalista, a maior desde a crise de 29 e, talvez, mais aguda – pois o remédio keynesiano parece não fornecer mais os mesmos resultados – abre uma novo momento da luta de classes no mundo, cujo acirramento se dá cada vez mais de forma inexorável. Destarte, a nossa situação atual só pode mudar a partir da luta de massas, com a radicalização de nossas posições e com o horizonte socialista. O oco desenvolvimentismo de Ciro Gomes só pode vir a acontecer por meio de um amplo acordo com a burguesia brasileira, arregimentando as mais diversas frações de nossa burguesia, mas o interesse dessa mesma burguesia é manter o nosso subdesenvolvimento; o único caminho que nos resta é retomar a luta pela revolução brasileira e pelo socialismo, só a ruptura promovida pelos trabalhadores brasileiros pode abrir uma nova era e um novo horizonte.  Os trabalhadores e as organizações revolucionárias não podem ficar, como Estragon e Vladmir, Esperando Godot.   

Notas:
¹https://basemao.blogspot.com/2020/05/teses-sobre-questao-militar-e-crise.html

sábado, 6 de junho de 2020

A esquerda brasileira, a ilusão e o oportunismo social-liberal, por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista

A esquerda brasileira, a ilusão e o oportunismo social-liberal.
por Gabriel Henrique

“A luta contra tais tendências é obrigatória para o partido do proletariado, que deve arrancar da burguesia os pequenos proprietários que ela engana e os milhões de trabalhadores cujas condições de vida são mais ou menos pequeno-burguesas”. (Lênin, Imperialismo, estágio superior do capitalismo, 2012, pag.30) 

A enorme crise do capitalismo no Brasil tem ressuscitado velhos defuntos, dentre eles um que, a bem da verdade, não chegou a ser, de fato, enterrado: o social-liberalismo. Estamos diante de um gravíssimo quadro de crise, onde é flagrante que a coalização burguesa no poder se movimenta em volta da agenda ultraliberal de Guedes para retomar suas taxas de lucro e garantir o êxito financeiro dos monopólios privados do imperialismo no Brasil sobre a base de uma crescente pauperização da força de trabalho e de uma massa cada vez maior de desempregados e miseráveis; mesmo diante desse quadro o social-liberalismo acredita ser possível um rearranjo na correlação de forças para retornar ao poder. 

Na verdade, diante da possibilidade, aberta pela crise capitalista, de um acirramento da luta de classes no Brasil, o social-liberalismo se configura como um excelente expediente para domesticar a luta de massas e a possibilidade de radicalização à esquerda, em direção ao socialismo. Não à toa, a Rede Globo- esse partido organizado da classe dominante em nosso país - tem atuado fortemente junto a outros setores da burguesia brasileira para defender a ordem democrática, a Constituição e o ordenamento jurídico vigente; ora, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que essa não é uma defesa inocente, ela é a defesa consciente da manutenção de um padrão de dominação de classe baseada na ilusão jurídica (proporcionada pelo direito burguês) e republicana de igualdade formal entre os homens – mesmo que, no terreno da luta de classes no Brasil, o Estado brasileiro esteja cada vez mais assumindo a forma autocrática de um “ultra” bonapartismo. 

Sendo assim, o tratamento dado pelos monopólios de mídia aos atos “antifa” como atos “em prol da democracia” tem o único objetivo de manipulá-los para mantê-los nos limites estreitos de defesa das carcomidas estruturas da velha República burguesa, como esses atos estão em visível disputa (e a adoção de um ar “professoral” diante deles não passa de esquerdismo tolo) setores da burguesia Brasileira já se movem com o objetivo de esvaziá-los de conteúdo concreto e de torna-los úteis à sua agenda de luta contra o Bolsonarismo e de pró-lavajatismo, cuja figura central é Sérgio Moro. 

É evidente, no entanto, que esse trabalho não seria exequível sem a presença e o trabalho de amplos setores sociais-liberais presentes na esquerda brasileira, cuja defesa abstrata da “democracia” no Brasil não se diferencia muito dos analistas da Globo News. Esses setores sociais-liberais atuam como verdadeiros bombeiros da nossa classe dominante, crentes da possibilidade de retornar ao poder – ou de pelo menos manter sua hegemonia no setores universitários e da pequena burguesia intelectual –  os sociais-liberais saem às ruas gritando por “democracia” – que não passa de uma defesa abstrata que significa a manutenção da miséria social brasileira-; contra o racismo – que para eles não aparece como um padrão de dominação de classe e que pode, simplesmente, ser remediado com políticas sociais compensatórias, com o “rigor” da lei e com “representatividade” em propagandas do Itaú e da Rede Globo; e contra o “fascismo” – no qual eles atuam para esvaziar o sentido e, ao mesmo tempo que fazem a defesa da democracia liberal como forma última e inexorável da humanidade, criminalizam o marxismo  o socialismo.  

O social-liberalismo atua para rebaixar a consciência das massas trabalhadoras e assim mantê-las domesticadas, atua para esvaziar a possibilidade de tornar os atos “antifa” um veículo concreto contra a agenda de Paulo Guedes, de torna-los mais abrangente com o diálogo com sindicatos, movimento sociais em geral, movimento de trabalhadores do campo, etc. A luta em torno da revogação da EC 95, pela revogação das reforma trabalhista e previdenciária, pela manutenção de um salário mínimo para todos os trabalhadores neste momento de grave crise sanitária, pela Revogação imediata da MP 927/2020, contra as vindouras Reformas Tributárias e Administrativas, contra a subserviência ao imperialismo e aos interesses nacionais etc., se perdem na abstrata luta por “democracia”. É claro que em um quadro de profunda regressão de consciência da ampla massa dos trabalhadores brasileiros – promovidas inclusive por esses setores social-liberais que chefiaram o executivo de 2003 a 2016 – a mera defesa abstrata da “democracia” e contra o “fascismo”, também de forma abstrata, só servirá para promover os atos como veículo dos interesses burgueses em luta contra o bolsonarismo; é preciso partir das necessidades mais imediatas dos trabalhadores a fim de lhes apontar qual o inimigo a ser confrontado, a fim de fazer os atos ganharem capilaridade e apoio público entre as massas trabalhadoras, é preciso impedir e confrontar a agenda neoliberal e anti-nacional de Guedes ao mesmo tempo que propomos soluções imediatas à classe trabalhadora brasileira, que vive uma situação de terra arrasada causada pela crise sanitária do Coronavírus (um verdadeiro genocídio promovido pela burguesia nacional) e pela crise capitalista. 

Evidentemente é impossível recusar a participação e o contato com estes setores sociais-liberais, visto que ainda detêm grande inserção nos sindicatos e organizações de trabalhadores em geral, uma atitude como essa seria uma grande irresponsabilidade e, como já dissemos, esquerdismo tolo. No entanto, no seio da luta política é inexorável que os comunistas não se furtem ao combate dessas concepções social-liberais e à influência que exercem no seio do movimento dos trabalhadores. Os social-liberais são verdadeiros versaillais que atuam contra o renascimento da luta dos trabalhadores no Brasil.

Em Manaus essa situação ganha interessante particularidade, diante da proximidade das eleições municipais eminentes figuras públicas se lançam em busca do almejado pote de ouro que é o legislativo municipal. Trabalham, então, para garantir sua base de eleitores e a possibilidade de vencer o pleito que se aproxima, são verdadeiros oportunistas guiados tão somente pelo cretinismo da vida eleitoral. Dado a conjuntura que circunscreve o município de Manaus e as correlações de forças dadas, nos parece que o mais correto – e necessário – seria uma frente ou bloco popular unificado de movimentos e sindicatos contra o Covid-19; tirar grupos pra arrecadar alimentos, dinheiro, máscaras, etc., para amenizar o sofrimento e a carestia na periferia manauara – o que também se mostraria um excelente expediente para se reaproximar da classe trabalhadora local, que vê os atos de rua que aqui ocorrem como procissões estranhas à sua vida cotidiana. 

O furacão que se aproxima e as formas mais autocráticas de dominação da burguesia no Brasil que vão tomando forma sob o “ultra” Bonapartismo de Bolsonaro irão pôr por terra todas essas ilusões; o acirramento da luta de classes e a crise capitalista tornaram o social-liberalismo um morto-vivo, que sonha com um passado que não pode mais retornar, sua única função atualmente é enganar e iludir os trabalhadores brasileiros, sua subsistência é, mormente, meramente conveniente à Burguesia brasileira.

Na atual conjuntura, enquanto não lutarmos contra esse oportunismo socia-liberal e a sua visão de mundo estaremos todos a ser guiados pelos interesses da burguesia brasileira em luta contra o Bolsonarismo; é indispensável se reaproximar dos trabalhadores por meio de ações e pautas mais concretas a fim de construir um verdadeiro bloco popular contra a agenda mortífera promovida pela burguesa brasileira contra a classe trabalhadora. 

A radicalização à esquerda com caráter marxista e socialista é o único caminho possível para os trabalhadores, o social-liberalismo tenta vetar essa possibilidade com a ilusão de que pode retornar a um passado quase que antedilivuano, os sujeitos que atuam por meio dessa ilusão, por fim, revestem-se de profundo oportunismo em suas ações, baseadas, como já dissemos, no mais profundo cretinismo eleitoreiro. Não haverá vitória para os trabalhadores brasileiros sem que o insepulto social-liberalismo seja liquidado e enterrado.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Desdobramentos das teses sobre a questão militar ou o que fazer?, por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista




Desdobramentos das teses sobre a questão militar ou o que fazer?
por Gabriel Henrique

Como sustentamos em outro texto, há dois pontos arquimedianos que não podemos negligenciar, em hipótese alguma, se quisermos sustentar uma atuação política efetiva e eficaz na atual conjuntura brasileira, a saber: 1) a política ultraliberal e anti-nacional será a política econômica do Executivo Federal, qualquer que seja o desenrolar da conjuntura e 2) os militares exercem um papel externo de controle da política econômica brasileira, seguindo os ditames do capitalismo central. Partindo desses pontos, e em virtude dos últimos acontecimentos, faz-se necessário, primeiramente, evitar fazer política com o fígado, ao calor das emoções, evitando assim repetir os conhecidos erros de 2013 e sermos meros marionetes frente aos interesses da classe burguesa.

A primeira pergunta que se coloca é que, se as Forças Armadas estão num papel de Deus ex machina da política nacional, ditando as regras do jogo e agindo preventivamente  no intuito de manter o controle da política econômica – não descartando do jogo político a intervenção direta – o que restaria a nós como opção de luta política frente a uma conjuntura que se desenha como tragédia?

Os atos "antifa" que brotaram no último domingo surgiram de maneira heterogênea e com caráter pouco definido. Claro que, pontualmente, foi uma organização específica que, justificadamente, iniciou o enfrentamento – a Gaviões da Fiel – mas rapidamente os atos foram se diluindo, fragmentando-se. Curiosamente, foram logo abraçados pelos monopólios de mídia, como CNN, Rede Globo e Valor, que imediatamente criaram uma narrativa favorável aos mesmos, tratando-os como atos "pró-democracia", enquanto que os bolsonaristas fomentavam atos "antidemocráticos".

Ora, não surpreende que veículos como esses, verdadeiros partidos organizados da classe dominante e do imperialismo no Brasil, tratem os atos "antifa" dessa forma. O que acontece é uma verdadeira disputa pelo destino e pelo conteúdo desses atos. A burguesia brasileira governa sobre um barril de pólvora, sobre centenas de trabalhadores superexplorados que vivem uma vida miserável em um capitalismo dependente. A qualquer momento o barril pode explodir. Digamos que uma fagulha foi acesa, mas, até onde temos visto, a iminente “explosão” está, desde já, sendo direcionada pelas forças burguesas para consecução de seus objetivos, e não os dos nossos. 

O anticomunismo é arma contra a difusão do marxismo dentro dos trabalhadores. A difusão ideológica do liberalismo, da visão de mundo da classe burguesa, assegura o domínio desta classe. Resta claro que frações da burguesia brasileira, especificamente o lavajatismo e Sérgio Moro, junto com o imperialismo, pretendem utilizá-los como ferramenta em sua luta contra o bolsonarismo pela gestão da crise capitalista no Brasil. Não à toa os liberais de todos os lados movem uma verdadeira guerra ideológica para condenar os comunistas e o marxismo. E para isso, se valem de tudo, do esvaziamento semântico e ideológico dos símbolos e da tradição antifascista até sua deturpação, na bizarra concepção de antifascismo sendo anticomunista. Até a aparição de obscuros grupos como o "Anonymous" – que até ontem em seu Twitter ao mesmo tempo em que atacava o clã Bolsonaro destilava conspiracionismo anti-Rússia e anti-China e propagandeava atos “sem violência”, “depredação”, “quebra-quebra” – é um toque de alerta importante, pois sugere que temos todos os elementos que sustentam uma guerra híbrida em curso promovida pelos setores acima referidos. 

E para além da disputa das frações burguesas, repousa o Partido Fardado, placidamente, pois quem quer que ganhe desta disputa não fará nada fora do script ditado por eles.

Mas, então, o que fazer? Ficar em casa, cair num niilismo político e se negar a disputa política e ideológica com forças que sim, são mais fortes, mais hegemônicas? Não, os comunistas não podem se furtar à tarefa de disputar o conteúdo e o destino desses atos, sob pena de cair em esquerdismo infantil. Entretanto, para que realmente possamos ser atores políticos e não meras cartas na manga dos interesses burgueses, é fundamental que os referidos atos ganhem capilaridade entre os trabalhadores, ganhe o seu apreço, simpatia e apoio público, e isso só será possível se nos referirmos diretamente à realidade material imediata da classe trabalhadora, suas necessidades mais prementes. Não é possível falar tão somente de "antifascismo" e de "fascismo" para a grande massa do trabalhador brasileiro, essa é uma verdadeira abstração sem sentido para ele. A população brasileira está morrendo aos milhares, entregue à morte pelo governo em meio à uma pandemia, sem trabalho, ou com um trabalho completamente precarizado, com um salário de fome. É com essa consciência que temos que dialogar. 
Para que não repitamos velhos erros, acreditamos que o fundamental é:

1) Assumir clara e energicamente um discurso antiliberal. É preciso juntar os ânimos contra a agenda antinacional e neoliberal de Guedes, revestir os atos de um profundo caráter antiliberal, denunciar as privatizações, o saque ao patrimônio público, o ataque ao serviço público, o caráter profundamente empresarial do afrouxamento da quarentena, o verdadeiro assassínio cometido com as reformas trabalhistas e da previdência, o desemprego crescente, etc.; 

2) É preciso resgatar a ideia de utopia das garras da ultradireita. Não, não é uma disputa de uma abstrata “democracia” contra uma abstrata “antidemocracia” como pregam os ideólogos burgueses. É uma disputa por quem vai ditar as regras do jogo com a supressão da velha Nova República. É preciso levantar dentro das consciências dos trabalhadores a ideia de que sim, é possível mudar, e temos condições para tal. Não se pode – e a tentação, a conhecer alguns partidos e centrais sindicais, vai ser grande – em hipótese alguma, fazer dos atos uma defesa das velhas e carcomidas estruturas;

3) A participação das centrais sindicais e movimentos sociais em geral é necessária, ainda que estejam sob a direção do carcomido social-liberalismo, tais organizações ainda mantêm alguma penetração entre os trabalhadores e é imprescindível que elas participem;

4) É preciso se apropriar dos símbolos nacionais, não como chauvinismo barato, mas como uma necessidade de se mostrar ao trabalhador brasileiro que a defesa da nação e dos interesses nacionais perpassa diretamente pela luta contra o neoliberalismo e a agenda entreguista de Paulo Guedes, que quer entregar as riquezas nacionais às potências estrangeiras, notadamente ao imperialismo americano. Defender a soberania nacional e os interesses nacionais é defender a supressão da velha República comandada pela burguesia brasileira;

5) O trabalhador brasileiro, esse ator político que parece que foi renegado ao esquecimento, é o único que, devidamente organizado e orientado, pode levar a derrota completa não apenas as frações burguesas agora em disputa (Bolsonaro, Paulo, Guedes, Rede Globo e Sérgio Moro) mas o próprio Partido Fardado.

6) A defesa da democracia é a defesa da Velha República, a República que, por meio do presidencialismo de coalização, destruiu a possibilidade de uma aposentadoria razoável do trabalhador brasileiro, que achatou os seus salários por meio da reforma trabalhista, que aumentou o desemprego propositalmente como meio de diminuir sua capacidade de forçar os patrões a lhes fazer concessões, que o joga para viver sob à mira da Polícia, do Tráfico em condições sanitárias e habitacionais insuportáveis, etc. A defesa da democracia é a defesa da falida República burguesa, e essa República é indefensável ao trabalhador brasileiro. 
E por fim, reiteramos que não dá para fazer isso sem assumir tanto nossas bandeiras e símbolos históricos, quanto nossa própria história, que com erros, acertos e experiência, nos trouxe ao estado atual.

De outro modo, a tendência é que os atos virem verdadeiro território liberal – ou fique muito restrito a grupelhos específicos – muito distantes de conseguir capilaridade entre os trabalhadores, sendo utilizados pelas frações da burguesia brasileira e do imperialismo em luta contra o bolsonarismo.

Só um caminho a se seguir e esse caminho perpassa pela luta de massas.

domingo, 31 de maio de 2020

Teses sobre a questão militar e a crise capitalista, por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista

La Internacional (1930), de Otto Griebel.

Teses sobre a questão militar e a crise capitalista
Por Gabriel Henrique

1.  A declaração de Eduardo Bolsonaro na quinta-feira (28/05) [1] mostrou ao público em geral algo que, nos últimos anos, vem se mostrando de uma maneira cada vez mais clara, mas que antes se escondia sob o veu do republicanismo: a emergência das Forças Armadas [2] na política nacional como uma espécie de “poder moderador”;

2. A bem da verdade, as Forças Armadas nunca deixaram de desempenhar esse papel na política nacional. A Lei de Segurança Nacional de Figueiredo, recepcionada pela CF/88, é somente a expressão jurídica de uma influência no ordenamento político civil que extrapola as funções tidas como básicas dos militares, que passam a exercer um papel “moderador” da política nacional a qualquer tempo, como um Deus ex machina da política brasileira. Não surpreende então que interpretações como a de Ives Gandra [3], de que o art.142 da CF/88 legaria esse papel moderador às Forças Armadas, sejam possíveis.

3. Mais do que um "simples" papel moderador, poderíamos dizer que o nosso ordenamento jurídico literalmente permite às Forças Armadas que elas exerçam verdadeiro poder interventor na política nacional.

4. Destarte isto, o papel de Deus ex machina das Forças Armadas foi um tanto quanto modificado. Não porque os militares se deram conta da contradição inerente a cartas republicanas de se prever sua própria supressão, mas sim porque, no governo Bolsonaro, foram de eventuais interventores externos à própria estrutura burocrática do executivo brasileiro -- estrutura que conhecem tanto quanto dominam a arte de capinar: de Deus ex machina transformam-se num Deus in machina, atuando efetivamente no primeiro escalão da política executiva nacional.

5. Nos parece muito evidente que os militares se encontram em posição muito confortável no momento; pois, apesar de terem desembarcado em massa no corpo burocrático do Estado brasileiro por meio da gestão de Jair Bolsonaro, os militares podem, a qualquer tempo, por meio de alguma manobra institucional, jogar Bolsonaro às baratas e promover um governo de “conciliação nacional” por meio do vice-presidente Mourão; esse é o motivo de assegurar a legitimidade jurídica do papel interventor das Forças Armadas com base em interpretações de dispositivos presentes em nosso ordenamento jurídico. 

6. Como atores políticos, ao mesmo tempo em que, organicamente, organiza a barbárie da sociedade brasileira estando no primeiro escalão do executivo federal, quando a bomba econômica e social explodir apresentam-se como a solução falsamente externa, como reserva moral da sociedade brasileira, impondo uma ruptura que juridicamente se mostra sobre a farsa do republicanismo, seja como impeachment, seja com base no art. 142 da CF/88.

7. Não obstante, sabemos que uma mudança como essa só poderia sobrevir por meio de uma crise política completa, do aumento da crise econômica e do subsequente derretimento do governo; no atual quadro conjuntural, mesmo diante da crescente perda de popularidade do governo, este ainda mantém apoio de importantes frações da burguesia nacional, tal como a burguesia comercial, por exemplo. Daí que uma eventual queda de Jair Bolsonaro deve vir, quase que necessariamente, acompanhada de um esvaziamento completo dessa sua base de apoio; por enquanto essas importantes frações da burguesia nacional permanecem com o presidente.

8. O veredito parece mesmo que será dado pela agudeza da crise capitalista, que começa a soar forte em território nacional, com a explosão do número de desempregados [4] e com a recessão que bate à porta [5]. Somente agora a consciência burguesa parece ter entendido que não adianta afrouxar a quarentena nos Estados, pois não há demanda com a retração da renda dos trabalhadores e tampouco há oferta como havia anteriormente, visto que a maior parte dos pequenos proprietários foi à falência -- o crédito necessário para sua subsistência não fora fornecido pelo Governo Federal -- e seus capitais foram conscientemente jogado na mão dos monopólios [6]. Para se manter a taxa de lucro, recorre-se a mais valia absoluta. Arrocha-se o trabalhador. Flexibiliza-se ainda mais a legislação trabalhista. A opção keynesiana, queridinha de liberais em tempos de crise, no atual estágio do modo de produção capitalista, parece só se aplicar aos países centrais do capitalismo. Aos países dependentes, resta a política neoliberal, que tem na figura de Paulo Guedes a única unanimidade hoje dentro da burguesia nacional.

9. A disputa pelo comando político da Polícia Federal por meio do judiciário (representado na figura do STF e por setores lavajatistas) com o executivo federal  (representado notadamente pelo bolsonarismo e pelos militares que, por enquanto, ocupam seu governo) é a aparência de um processo que representam nada mais que uma encarniçada disputa em torno da gestão da crise capitalista.

10. Com as taxas de lucro em visível declínio, a adoção da política neoliberal de Guedes parece se impor cada vez mais como uma necessidade, independentemente do que venha a ocorrer no terreno da disputa política no seio da burguesia brasileira. Não à toa, Guedes parece gozar de certo prestígio com praticamente todos os setores do poder burguês no Brasil, que vão desde os militares até a setores lavajatistas representados na figura de Sérgio Moro; por esse motivo ele aparece, por várias vezes, pedindo “união nacional” em busca do retorno do crescimento econômico [7]; tal pedido não quer dizer outra coisa senão de que a disputa entre as frações da burguesia brasileira não pode prejudicar as medidas neoliberais para retomada das taxas de lucro.

11. Não temos dúvida de que, se o Governo Bolsonaro perder a capacidade de gerir a crise capitalista de modo que possa aprovar as reformas necessárias no Congresso Nacional para a retomada da acumulação de capital no Brasil, os militarem não perderão tempo em se descolar da imagem do presidente e marchar em direção à sua deposição. Por esse motivo o presidente do Senado Federal, David Alcolumbre e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, relutam em entrar em conflito com o Bolsonaro, mesmo quando atacados; o que eles querem, na verdade, é evitar que o acirramento da disputa política no seio mesmo do poder burguês possa interferir na aprovação das reformas liberais e anti-nacionais de Guedes, e é por esse motivo que retomam a todo o tempo o discurso reformista em prol das reformas.

12. O poder moderador exercido pelas Forças Armadas é a de um Deus ex machina cujas mãos invisíveis aos incautos ou aos desonestos é manipulada pelas potências imperialistas do capitalismo, que tem nas Forças Armadas dos países periféricos, desde o auge da Guerra Fria, um de seus mais influentes instrumentos de poder.

13. Pouco importa, por conseguinte, a forma com que o Estado se manifesta, a tutela militar tem apenas um objetivo: a manutenção do subdesenvolvimento brasileiro. Que isso se mantenha com o presidencialismo de coalizão da "Nova República" em decadência, ou através de um processo de impeachment, ou se recorrendo ao art. 142 da CF/88 revestindo de legalidade 1964, a forma de manifestação esconde uma essência e objetivo comum.

14. Independentemente do caminhar da conjuntura e de quem saia vitorioso na luta pela gestão da crise capitalista, nos parece cada vez mais certo que há dois pontos arquimedianos: 1) a política ultraliberal e anti-nacional será a política econômica do Executivo Federal, qualquer que seja o desenrolar da conjuntura e 2) os militares exercem um papel externo de controle da política econômica brasileira, seguindo os ditames do capitalismo central.  Nesse sentido, a permanência ou não permanência de Guedes não poria fim a essa política econômica, mas significaria apenas a sua atenuação; acrescentamos, no entanto, que a conjuntura não parece caminhar nesse sentido e que, aparentemente, toda a burguesia nacional está  “fechada” com Guedes – mesmo que ainda existam setores keynesianos em algumas frações da burguesia brasileira.




Notas
[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/28/eduardo-bolsonaro-propoe-uso-das-forcas-armadas-para-restabelecer-harmonia-de-poderes-zeram-o-jogo-e-depois-volta-o-jogo-democratico.ghtml
[2] Nos referimos aqui e ao longo do texto às Forças Armadas e aos "militares" genericamente, destarte saibamos que o principal operador político destes é o Exército. Fazemos isso como recurso didático para as teses aqui expostas. Bem sabemos que as Forças Armadas não são um bloco harmônico, único, livre de tensões e contradições.
[3] https://www.conjur.com.br/2020-mai-28/ives-gandra-artigo-142-constituicao-brasileira
[4] https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2020/05/28/desemprego-pnad-ibge.htm
[5] https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/29/com-pandemia-pib-do-brasil-encolhe-15percent-no-1o-trimestre.ghtml
[6] https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/29/ibge-crise-econmica-causada-por-covid-19-diferente-de-todas-anteriores.ghtml
[7] https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/29/em-dia-de-tombo-do-pib-guedes-pede-solidariedade-para-retomada-rapida-da-economia.ghtml

sábado, 30 de maio de 2020

Reflexões acerca da conjuntura brasileira, Por Gabriel Henrique

Coluna Conjuntura Marxista



Reflexões acerca da conjuntura brasileira*
Por Gabriel Henrique

A crise capitalista mundial, agravada pela pandemia do Coronavírus, impôs um novo desafio à burguesia brasileira, com as taxas de lucro em evidente queda, o que fazer para retomá-las? Trata-se da questão fulcral em torno da qual gira todo o debate acerca da crise econômica e do isolamento social. É evidente que a posição “negacionista” de Bolsonaro não veio à sua cabeça ex nihilo, ela representa, antes de tudo, o afã da coalização burguesa no poder; é também verdade que a burguesia não quer ver colada a si essa face cruel que, de modo evidente, quer a “volta à normalidade” porque necessita evitar o ocaso de seus negócios, mesmo que isso signifique a morte de milhões de brasileiros e o colapso do sistema de saúde. Não à toa, têm investido em marketing “solidário”, como se pode ver naquele quadro do JN “Solidariedade S.A”, cuja principal função é promover determinadas empresas e passar a imagem de “responsabilidade social” de certa gama do empresariado brasileiro. 

No entanto, o vídeo da reunião ministerial divulgado na última sexta-feira (22/05) parece ter exposto todas as vísceras do programa econômico da burguesia brasileira quando Paulo Guedes, do alto da indigência típica do liberalismo da periferia do capitalismo, brada que “tem que vender essa p*** logo” se referindo ao Banco do Brasil. Apesar de, há cerca de 1 mês, o ministro da Casa Civil Braga Netto ter apresentado à imprensa o programa “Pro-Brasil”, uma espécie de keynesianismo requentado - que parece ainda gozar de certo prestígio de algumas frações da burguesia brasileira e com parte dos militares – cujo eixos girariam em torno de “medidas estruturantes” e parcerias público-privadas”, a opção da burguesia brasileira parece mesmo ir em direção ao neoliberalismo de Guedes. 

Tanto é assim que as absurdas falas de Guedes não tiveram praticamente nenhum espaço nos principais jornais da TV aberta e nos jornais impressos do país, elas foram calculadamente apagadas do debate público. As notícias de que o vídeo da reunião fora bem recebida pelos bancos privados [1], e pelo “mercado”[2] em geral são prova inconteste de que o programa de Guedes é o escolhido pela burguesia brasileira; a notícia de que o Brasil deverá tomar empréstimos com bancos estrangeiros [3] é mais uma prova de que o caminho a ser seguido para retomada da taxa de lucro no Brasil será o da venda completa do patrimônio público, a concessão ao capital financeiro internacional, o aumento do número de desempregados com a consequente queda dos salários, etc. 

Um programa neoliberal como esse não é mera “opção” da burguesia brasileira, ele é uma necessidade imposta pela atual crise. A velha fórmula keynesiana não parece ser mais possível no atual quadro conjuntural (e creio que mesmo que fosse possível ele seria insuficiente para resolver a atual crise), as condições históricas que permitiram seu surgimento já não existem mais há muito tempo e todas as “conquistas” do assim chamado Welfare State – que não foram nada mais nada menos que circunstâncias fornecidas pela luta de classes, como a própria existência da URSS, da luta anticolonial, e de revoluções ao redor do mundo, como a Cubana, Chinesa, etc. - foram continuamente destruídas ou, pelo menos, atacadas pelo neoliberalismo, uma necessidade imposta pela crise que atingiu o mundo nos anos 70. Desde lá as burguesias ao redor do mundo não desenvolveram outro instrumental teórico e seguem com sua aposta dobrada no neoliberalismo, cada vez mais radical, a depender da necessidade da crise. É bem possível que um novo padrão de acumulação capitalista possa surgir nas próximas décadas, mas o que vemos hoje é o esgotamento cada vez maior da dinâmica capitalista mundial, bastante afetada pela interrupção da circulação de mercadorias provocada pelo Coronavírus, que impediu qualquer tentativa de retomada rápida dos lucros, cuja necessidade de extração de mais-valia é cada vez maior, especialmente nos países periféricos.  

O debate acerca da autonomia da polícia federal, do racha entre Moro e Bolsonaro, da “independência e harmonia” entre os poderes, etc. não é nada mais que o debate entre liberalismo de esquerda e liberalismo de direita. Na verdade, o que esse liberalismo cínico gostaria de ter no meilleur des mondes possibles é um Bolsonaro à français, um pouco mais refinado e menos errático na condução do seu programa político-econômico. 

O Brasil que nossa burguesia pretende construir é um Brasil de miseráveis, cuja força de trabalho seja barata e que esteja amplamente disponível no mercado com normas legais o mais flexíveis possível, com um Estado à disposição para ser saqueado quando necessário e submisso ao imperialismo. Não há outro caminho para o Brasil senão a Revolução Brasileira, cuja debate está mais do que na ordem do dia.



[1.] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/23/bancos-empresarios-reuniao-ministerial-austeridade-fiscal-paulo-guedes.htm
[2.] https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/25/programa-liberal-ecoa-tanto-quanto-palavroes-dizem-economistas.htm 
[3]. https://oglobo.globo.com/economia/governo-deve-pedir-emprestimo-de-us-4-bi-organismos-internacionais-para-pagar-auxilio-de-600-24442261

*Escrito em 24/05/2020