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segunda-feira, 15 de junho de 2020

O tempo das dúvidas, por Fernando Monteiro

Crônica



O tempo das dúvidas
 por Fernando Monteiro

Há quem ouse negar, mas estamos em crise. Não é nada fácil aceitar essa premissa quando seus ideais que, talvez, nunca antes tivessem sido postos à prova, agora parecem não responder mais a nada. Há quem diga que é apenas uma tempestade. Esses, ainda convencidos de seus dogmas proto-religiosos, preferem negar o assalto da razão do que pôr à prova suas ideológicas fraseologias.

Quero deixar claro que não estou a recusar tudo que impera sob nossas cabeças, ainda tenho a crença de que estamos a vivenciar o tempo das dúvidas e que, mais cedo ou mais tarde, sairemos fortalecidos desse estrondoso temporal. Mas é que, não é nada fácil passarmos por um momento de reconstrução de nossas ideias, ainda mais quando patotas falaciosas de alguns ao nosso redor insistem em nos perseguir pelo simples motivo de nos colocarmos ao direito da dúvida.

Falo de ideias, claro. Mas também falo do real-vivido, das questões concretas que condicionam a nossa realidade. Antes de todo o alvoroço, milhares e milhares de sujeitados às problemáticas sociais já vivenciavam seus infernos pessoais, alguns desses sem ideais e que apenas buscavam e buscam uma maneira de reproduzir o seu precário modo de vida. Para esses, a crise é no cotidiano, dura e cruel, sem muitas opções para buscarem alento. 

Estamos em crise, não há como negar. A crise, como um fenômeno que se manifesta na totalidade dos processos estruturais da sociedade, é parte de nós. O tempo das dúvidas nos assalta, mas também nos reconstrói ao nos dar novos questionamentos e novas possibilidades aos impasses do cotidiano.

Talvez o que nos resta é apenas esperarmos a chegada do tempo das novas certezas, aquelas que nos farão confiante novamente diante de nossas vidas e que, logo após a sua estadia, o tempo das novas crises se farão presentes nos reconstruindo cotidianamente.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A cidade e o conflito, por Fernando Monteiro

Crônica



A cidade e o conflito
por Fernando Monteiro

A cidade é realmente um objeto que nos assalta a visão, a mente e a dúvida, gosto de pensar dessa forma. Não é um interesse que se manifesta sem motivo e razão, existem sempre fatores da consciência ou da realidade que atraem nossos olhos para a magnitude da cidade. Pois, ela mesma, a cidade, é um constructo de um processo de raiz social e material. Não há como conceber a cidade sem essas instâncias, sem pensá-la num amplo conjunto onde estão presentes os jogos de interesses, os modos de vida (esses que são dos mais diversos) e a própria lógica-forma de se ver e viver a cidade. Assim como, não há como pensá-la apenas no plano das ideias. Ver e viver a cidade são aspectos que só podem ser realizados no ato, no toque, no pisar ao chão. Ou seja, a cidade é tudo aquilo que está diante dos nossos olhos, em que podemos tocar, ao mesmo tempo que vivemos em seu conjunto (para as boas ou más experiencias). 

Gosto também de pensar a cidade como um espaço de eternos conflitos. Esses conflitos são frutos de diversos interesses que, aos poucos, no cotidiano, vão constituindo a cidade. Talvez por isso, há tanto amor e ódio simultaneamente conflitantes no interior da cidade, pela cidade. O filósofo francês Henri Lefebvre em seu clássico “O direito à cidade” diz que, em sua essência, a cidade é o centro da vida social e política, onde se acumulam anos de conhecimentos, de técnicas e as obras, isto porque, a própria cidade é uma obra. Ao mesmo tempo que ela é também um produto, o que nos leva ao pensamento de que a cidade é um espaço de eternos conflitos, entre o uso e a troca, entre a obra e o produto.

O uso da cidade se dá pela festa, sendo essa a principal forma de se consumir a cidade sem nenhuma outra vantagem que não seja pelo prazer de vivenciá-la. A troca da cidade se dá pela constante produção do seu espaço enquanto mercadoria, entre fixos e fluxos. Henri Lefebvre nos diz também que, na era medieval, por exemplo, as cidades eram as centralidades das riquezas, enquanto que, na cidade em que dita o capitalismo, a riqueza torna-se móvel, onde foram constituídos amplos circuitos de trocas, inúmeras redes que possibilitaram a circulação dessa riqueza. 

Mesmo que a cidade esteja a ser constituída sob esses moldes, ela conserva o seu caráter de comunidade, advinda da aldeia e que, posteriormente, se transforma numa cidade corporativa. Mas que isso não impede que se manifestem as lutas de classes e todos os demais conflitos pela cidade, afinal, como ainda nos ensina o filósofo francês, a cidade é também constituída por uma extensa luta de facções, todas ao caminho de demonstrar, de reforçar o seu sentimento de pertencimento à cidade. Ou seja, um espaço de eternos conflitos onde os diversos sujeitos e sujeitados expressam seus interesses entre si, rivalizando o seu amor pela cidade, seja ela para o uso ou para a troca.

domingo, 31 de maio de 2020

A habitação e a reprodução da cidade, Por Fellipe Barbosa

Crônica

A habitação e a reprodução da cidade
Por Fellipe Barbosa

A cidade é um dos organismos mais fascinantes de toda a história da humanidade. No seu âmago manifestam-se todas as contradições do ser. É heterogênea, suja, conflitante. O grande e saudoso geógrafo amazonense José Aldemir de Oliveira cravava acertadamente em suas falas que “a cidade fede a podre”. Para mim, é impossível dissociar a cidade do seu aspecto humano. Não há necessidade de ser um acadêmico dos estudos urbanos para saber disso, e a razão é simples: a cidade se manifesta. Ela fala. Suas palavras, entretanto, não saem de uma só boca. Saem das bocas de todos os indivíduos que a habitam. São distintas vozes, diferentes sonhos e clamores.

Sob a lógica do período colonial, funda-se Manaus. Sob a lógica do capitalismo, ela cresce e, num perverso movimento, floresce enquanto apodrece. O que antes era trilha agora é rua, asfalto preto e quente. O que era igarapé agora é o aterro, que nas torrenciais chuvas se rompe num controverso “água dura e terra mole”, que leva na correnteza as lágrimas daqueles que em meio a constante tragédia que se repete religiosamente, ano após ano, desesperam-se no anseio de atender a mais básica das demandas urbanas:  morar. Chega a indústria e os que menos podem são paulatinamente enxotados. Do rio para as periferias. Manaus é agora a metrópole da Amazônia e não há mais espaço para a madeira e a maromba, agora é aço e concreto. Mas, ainda que belas, as artimanhas do discurso não são capazes de suprimir a brutal diferença entre as castas. Diz-me onde moras que te direi quem és. 

É nesse contexto que a cidade se reproduz, a partir de forças que não estão no cá, mas no acolá. O mercado imobiliário, muito esperto, ciente do nosso medo e aliado aos nossos sonhos mais medíocres sobe a espiga dentro do cercadinho onde estaremos condenados a viver uma vida estéril. Onde o quotidiano é produzido artificialmente, de dentro de nossos automóveis, de dentro do elevador, ou na quadra de esportes dificilmente ocupada pelos vizinhos que não se conhecem. Agora temos uma Manaus verdadeiramente próspera, olha aqui na foto a quantidade de edifícios! Parece até que estamos em Miami. Assim, encaixam-se as peças do lego. Ordenadamente surgem as tão sonhadas áreas nobres. Se a história pode nos ensinar com clareza o que está ao passado, exercitemos a imaginação. Transportemo-nos ao tempo e aos lugares dos déspotas e suas cortes. A grande verdade é que há pouco valor na nobreza formalmente instituída. 

Sob os para-raios não há medo. Não há lama na colcha de cama. Não há receio. No Central Park Residence, não estamos na Amazônia. Transportamo-nos a uma Manhattan produzida como um arquiteto faz uma maquete. Ao custo da bagatela de quase ou mais de um milhão de reais. Ao redor de tanta ordem, há o refugo. Vislumbra-se da janela alta as luzes do bairro pobre. Apesar de visível, a pobreza está mais distante do que o aeroporto. Os instrumentos normativos regulam para uma cidade que não existe e são mera formalidade. Estes são facilmente subvertidos ou solenemente ignorados, desde que haja o faz-me rir. Entretanto, mesmo enquanto alteramos nocivamente o curso de nossos ventos e a temperatura do ambiente ao nosso redor, não conseguimos impedir a construção da nossa verdadeira identidade.  Ela esteve o tempo todo no bairro, onde a Dona Neuza pede ao neto para ir na padaria pois sentiu o cheiro do pão. Ela sempre esteve dentro do ônibus, ou vendendo lanche na rua em uma bicicleta cargueira.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19, Por Bárbara Batista

Crônica



Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19
Por Bárbara Batista

“Porque a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só 
passageiro prestes a partir...”

Em tempos de pandemia da COVID-19, muitos rostos conhecidos estão partindo, muitos estão indo cedo demais ou “viveu tempo o suficiente”. O nosso futuro ainda incerto, as dúvidas estão no nosso presente e nos causam sofrimento, o medo do que será de nós daqui para frente.

Nesses dias, diante de tantos acontecimentos, me veio a reflexão sobre a vida e a tão temida morte, afinal de contas, não gostamos de pensar que isso tudo um dia terá um fim. Porém, é inevitável não observar a linha tão tênue entre a vida e a morte. É o ciclo que nos recusamos a acreditar, mas, sempre estará aqui e sempre existirá.

Por nos recusarmos, acabamos não aproveitando determinados momentos com aquelas pessoas que amamos, pois sempre acreditamos que seremos agraciados com o amanhã. E se esse amanhã não chegar? O que você fez de bom para o mundo e para as pessoas que você amou? Você conseguiu cumprir com os objetivos que você traçou ao longo da sua vida?

A morte não se resume ao parar de respirar e acabar tudo, ainda deixamos o nosso legado mesmo após a morte, com isso também vem o luto. Ah, esse luto... É um sabor amargo que dá um nó na garganta, tudo dói, é muito duro você ser ciente que nunca mais verá aquela pessoa e com ele vem o sofrimento, a sensação que poderia ter feito mais.

Esses dias vivenciei uma experiência tão profunda, tão dolorosa, além do COVID-19, ainda existem outras tantas doenças que sentenciam diariamente pessoas a morte, como por exemplo, o câncer. Perdi um amigo para o câncer, assim, como pessoas bem próximas a mim também perderam pessoas que amavam tanto e pude acompanhar bem de perto.

Essas doenças a maioria das vezes, como citei, é uma sentença de morte o pior disso tudo: são sentenciados sem ter cometido algum crime. O hospital é o presídio, os corredores exalam a morte e o tempo parece correr para a morte chegar mais rápido.

Vi a morte de perto, é impressionante como ela tem tantas faces e uma delas era de uma pessoa qual não tinha vínculo, porém, tinha vínculo com pessoas que amo. É doído ver como as coisas simplesmente mudam de uma hora pra outra, tudo pode melhorar ou piorar num piscar de olhos, assim foi a chegada do fim da vida para essa pessoa: minutos a fio de sofrimento até a sua respiração parar.

O corpo não reage os comandos, a respiração para e o que ainda resta é apenas a reação espontânea do corpo em liberar seus fluídos. Enfermeiros correm, quem acompanha chora e em oração pede para a pessoa não morrer, tentam ressuscitar, porém, sem sucesso e se constata o tão temido óbito. Mais choro, mais dor e as seguintes perguntas: Por que ela tinha que morrer? Ela estava tão bem! Como isso pôde acontecer de uma hora pra outra? 

Em tempos de COVID-19 o sofrimento é maior, além de não poder ter aglomeração, a burocracia no cemitério aumentou por conta do aumento no número de sepultamentos, tornando o processo demorado. A despedida tornou-se mais curta, pois poucas pessoas podem acompanhar o enterro.

A realidade que nos recusamos a aceitar é que nascemos para morrer, que tudo morre, que nós morreremos e que não há nada até o momento que impedirá isso. E como dói saber que isso tudo terá um fim.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A crise e a cidade, por Fernando Monteiro

Crônica



A crise e a cidade
por Fernando Monteiro

A cidade, seja qual for a sua espacialidade ou territorialidade, é dotada de humanidade. É, justamente por isso que a cidade condiz com aquilo que fomos, somos e buscamos ser. A cidade é materialidade das nossas ações e realizações, fruto de períodos históricos e sociais que consigo carregam processos condicionantes que moldam cotidianamente a forma de se produzir a vida em concretude.

Em tempos de crise, é normal que a cidade transpareça o medo e o alvoroço. O medo daqueles que temem qualquer saturação das estruturas de suas vidas e o alvoroço daqueles que não temem perder enquanto não perdem nada.

Carregados de sentimentos, desejos e revoltas, esses sujeitos que compõem a cidade trazem em si ideologias, interesses e práticas que aos poucos moldam a cidade parte a parte, conforme suas respectivas ideias e visões de mundo.

Como parte desse corpo social que compõe a cidade, em tempos de crises como estamos a vivenciar, me encontro dividido entre o otimismo e o pessimismo. É claro que uma crise não é apenas um momento crítico, ela possui uma origem que pode ser de origem econômica, social, político ou biossocial. O que importa aqui é que, seja qual for a instância crítica que estamos a passar, há inúmeros impactos na vida desses sujeitos que estão a construir e humanizar a cidade dia após dia. É saber também que a crise não é sentida da mesma forma por todos e que ela pode ser muito pior para muitos, ao mesmo tempo que pode não surtir tanto efeito para poucos. Na porta de muitos, a crise bate e os expulsam para as ruas pela necessidade de garantirem as condições necessárias de reprodução de suas vidas, enquanto que, para outros, a crise apenas solicita que os mesmos fiquem em suas casas. 

O que me faz lembrar do que o velho Marx diz, ao enxergar que, as crises são momentos de violentas soluções, quase sempre momentâneas, das contradições já existentes na realidade, e que as razões de seus acontecimentos é a busca por equilíbrio ao momento perturbado. Mas que isso não é pensar de forma otimista, e sim se colocar a compreender as manifestações críticas do momento em questão. 

Me faço valer das palavras de João Manoel Cardoso de Mello, quando ele diz não haver razão para otimismos. Que o otimismo em momentos tão dramáticos da vida nacional não serve para nada, apenas de consolo aos medíocres. 

A cidade como forma concreta da sociedade capitalista em devir, mesmo em crise e doente por conta de uma pandemia, é rica de sentimentos humanos e possibilidades, mesmo que essas possibilidades não se manifestem no agora.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Crônica: Mais do que mil imagens, por Mauricio Braga

Crônica

PERSONA. Direção: Ingmar Bergman. 

Mais do que mil imagens
por Mauricio Braga

Assisti pela terceira vez o Persona (1966), de Ingmar Bergman, na casa de uma amiga. No Brasil, Persona recebeu o título de Quando Duas Mulheres Pecam. Um verdadeiro pecado! O título original, neste caso, é um elemento importante para a compreensão do enredo. Mas deixemos o título de lado. Quero aqui destacar apenas uma cena: quando a enfermeira Alma, que está cuidando de uma atriz que se recusa a falar, narra uma orgia na praia. Esse é um dos momentos mais eróticos da História do Cinema – mesmo sem mostrar nenhuma imagem de sexo. 

Bergman deixa a orgia no plano verbal para que o espectador, a partir da fala de Bibi Andersson, fantasie. Lança mão, portanto, da imagem que, ao invés de ser dada, é construída com o interlocutor através das palavras. Sendo essa a causa de tamanha carga erótica.

Saliento, entretanto, que a falta de sexo explícito nada tem a ver com puritanismo. Se fosse um impedimento moral, o diretor não incluiria no início da película o fotograma de um pênis. O ponto então é: Bergman sabia que, usando as palavras, ele obrigaria o público a imaginar, ao invés de assistir passivo. 

Assim, as palavras nos obrigam a criar imagens. Esse é um dos feitiços da linguagem verbal que, na era das imagens, parece estar sendo negligenciado. Ora, quem nunca ouviu a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras”?!, Frase, diga-se de passagem, mentirosa; pois há caminhos que só as palavras conseguem percorrer, e efeitos que só elas conseguem produzir. Afinal, no texto, oral ou escrito, há lacunas e ritmos impossíveis à imagem.

Talvez cause estranhamento eu usar um filme – arte predominantemente imagética – para tratar disso. Porém o referido filme é de um diretor que sabia trabalhar com contrastes. Em Persona temos: claro e escuro; silêncio e verborragia; opacidade e transparência; velado e explícito; e, evidentemente, semiótica e semântica.

Não obstante, Bergman sabia fazer uso da palavra, pois era ligado ao Teatro. Neste, o discurso é uma ação, não um complemento de ação.

Quando o filme chegou ao fim, minha amiga comentou sobre a cena da orgia: “parece que eu vi. Criei as imagens na minha mente”.  E concluiu: “fiquei até excitada”.

Dei um risinho e desliguei a tv.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sobre o cotidiano (por Fernando Monteiro)

Crônica

Sobre o cotidiano
Por: Fernando Monteiro

O acordar, o ouvir e o sentir a vida no urbano é uma experiência que manifesta várias sensações.

Do latir do cão ao barulho da briga dos gatos, dos vizinhos falando alto na rua ao som da vizinha cantando alto a sua canção gospel, tudo manifesta uma forma de viver a vida que só urbano possui em meio a tantos impasses da vida cotidiana.

Deus me livre de viver uma vida fantasiosa preso num condomínio horizontal ou vertical, na ilusão do distanciamento do que a cidade tem a me oferecer. Mas também não culpo os que optam a viver nos limites de seus muros. Afinal, como sempre ouço de um querido professor, "a cidade é tudo que possuímos de bom e de ruim". 

Sempre amei o chamado ‘bairrão’, é onde a vida acontece em sua forma concreta na realidade, não deixando escapar os mínimos detalhes do dia a dia no viver dos que compõem os seus espaços. É onde criamos e nos apropriamos não só das mazelas, mas como também das benfeitorias dos espaços que estamos a construir e viver dentro das cidades.  

É no cotidiano que produzimos o lugar em que homens simples como nós dispõem da possibilidade de produzir e reproduzir seus modos de viver. E que, mesmo diante da burocratização da vida, como o projeto de vida que o mundo moderno nos apresenta, o cotidiano guarda em si a possibilidade de descobrir as coisas, desvendar ações e experiências de vida que vão além dos impasses que nos assolam.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Crônica: Uma anomalia normal (por Mauricio Braga)

Crônica

Uma anomalia normal
por Mauricio Braga

A maioria das conversas desemboca em futebol. Geralmente me esquivo desse assunto. Tento falar sobre outra coisa, arrastando a conversa para uma área que eu domine. Mas nem sempre sou bem-sucedido nisso.

Encontrei meu amigo em uma manhã de domingo, na feira da Eduardo Ribeiro. Ele tinha acabado de comprar uns livros. Eu usava uma camisa do flamengo e, por isso, ele fez um comentário jocoso sobre o time. Em seguida achou graça por eu estar vestido com aquela camisa mesmo não gostando de futebol. Retruquei que eu gostava sim, apenas não era fanático como os outros. Ele então falou que não entendia porque eu não compartilhava a paixão nacional pelo esporte. “Não gostar de futebol no Brasil é uma anomalia”. Tentei mudar de assunto, comentando os livros que ele tinha em mãos, porém meu amigo estava determinado a falar de futebol. Ignorou meu comentário sobre os livros e prosseguiu afirmando que sem futebol a vida para ele seria uma linha reta, isto é, sem emoção. Afirmou ainda que se sentia em um vácuo durante o pouco tempo entre o fim e o início dos campeonatos. Para o meu amigo, uma quarta-feira e um domingo sem jogos eram uma quarta-feira e um domingo nulos, que anulavam a semana inteira. Não havia emoção e nem assunto. O jeito era amenizar revendo partidas antigas no youtube. “Com futebol a vida não é absurda”, declarou. Gostava até quando o Vasco, por quem torcia, o fazia sofrer, uma vez que “sofrer é melhor do que não sentir nada”.

– Aquele verso no hino do vasco que diz “tu tens o nome do heroico português” me aborrece um pouco – comentei – porra, homenagear colonizador é uma merda. Mas o time em si é bem respeitável.

Meu amigo concordou e fez mais alguns comentários sobre times e jogadores. Em seguida nos despedimos. Confesso que fiquei com um pouco de inveja. Quem dera eu tivesse uma paixão arrebatadora por algo tão simples como o futebol. Comecei a lembrar das minhas experiências com o esporte. Lembrei que quando criança fui ao então chamado estádio Vivaldo Lima com meu pai. Vimos uma partida entre São Raimundo e um outro time que não consigo lembrar qual era. O Vivaldão estava lotado, mesmo se tratando de um jogo regional. Foi quando vislumbrei a força do futebol. Pela tv uma partida pode parecer chata, mas ao vivo a experiência é incrível, pois aglutina a energia da multidão. Talvez o futebol tenha algo em comum com o teatro: você precisa estar presente. Acho até que se eu vivesse em uma cidade mais futebolística, seria um grande torcedor. Iria toda semana ao maracanã, caso morasse no Rio; ou ao Morumbi, caso morasse em São Paulo. 

Anotei mentalmente: “em uma época marcada pelas formas digitais, é preciso exaltar a força da presença” e me embrenhei domingo adentro.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

CRÔNICA CARNAVALESCA FORA DE ÉPOCA, Por Mauricio Braga

Crônica

CRÔNICA CARNAVALESCA FORA DE ÉPOCA
Por Mauricio Braga

Olha para esquerda e para direita, bem como para frente e para trás. Está cercado. Anônimos como ele o cercam.  Está no meio de uma multidão. Tenta encontrar um rosto familiar, porém é inútil. Não conhece ninguém e ninguém o conhece. Sente-se então seguro no mar de gente. O anonimato é o esconderijo dos covardes, enquanto a exposição é o refúgio dos tolos. Quem o encontraria entre tantas pessoas? Como ele se encontraria? Eis o motivo do carnaval ser tão libertador: a massa nos torna invisível. Nos torna só mais um folião entre milhares. Creio até que mesmo os indivíduos que se cobrem de brilho não buscam chamar atenção para si.  Buscam, pelo contrário, serem incorporados ao ambiente, como mais um ornamento que se harmoniza com o todo.

Ao pensar isso, fechei a janela, desci a escada e me juntei ao bloco.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

DESEJO DE IMPOSSÍVEL, Por Marcos Ioshua Ribeiro


DESEJO DE IMPOSSÍVEL
Por Marcos Ioshua Ribeiro

Oscar Wilde dizia que escolhia os amigos pela pupila. Acho lícito. Porém, eu escolho meus amigos pelo que Florbela Espanca chamou de "desejo de impossível". Se alguém entre a multidão tem desejo de impossível, estou apto para me entregar. Sorver sua companhia, me alimentar de uma relação saudável. Mas como encontrar entre tantos e tantas alguém que tem desejo de impossível? Basta apenas prestar atenção. 

Verdadeiramente olhar para um sujeito: se ele tem um ar sonhador, gestos teatrais, uma cor no rosto que lembra um sonho da infância, se ele sabe escutar, diz de maneira sincera e pausada, se ele tem a habilidade de conversar sobre todas as coisas, está disposto a aprender e a ensinar, tem delitos que não conta facilmente, é de um espírito cansado e fatigado pela vida, mas ainda acredita na beleza, se é alguém que ainda chora, saber chorar é fundamental, (quem não chora não tem vida interior), se ele reconhece os homens como preciosos... eis um alguém que tem desejo de impossível.

De onde brotam essas almas? Incompreendidas, estourando vivacidade, prontas para consolar, põe em primeiro plano o diálogo e concebem grandes pensamentos no alto da solidão. Gostam de estar sozinhas, quando não devidamente acompanhadas. Tem uma cintilante loucura. Homens e mulheres que destroçar mitos, tabus e acreditam que a vida pode mais, por isso do sentimento romântico, a inclinação aventureira, o riso fácil, a recepção calorosa, a maneira característica de usar as palavras.

São essas pessoas que procuro. Todos precisamos do outro. Eu as procuro porque quero transformar minha solidão em comunhão. 

Quanto mais sinto solidão, mais abro a possibilidade para um comunhão vingadora. Penso nos pássaros que migram, que saudades que eles sentem em simplesmente voar. Saudades da necessidade de longos vôos. E quando chega o momento, depois do tempo caminhar sem pressa, da solidão martelar a alma, chega o momento do vôo, e é uma felicidade assombrosa. Uma felicidade de  reencontrar plenamente os céus. Ver tudo por cima. 

As verdadeiras companhias nos fazem ver tudo por cima.


domingo, 10 de novembro de 2019

Óculos, Por Bruno Oliveira

Crônica
Óculos
Por Bruno Oliveira

Hoje meu companheiro caiu em pleno campo de batalha. Não teve tempo de choramingar, de dizer a quem amava que ama, de falar para mim, como sempre fazia, antes de eu dormir: “boa noite, meu caro, que amanhã seja tão bom quanto hoje, que consigamos ver a vida mais uma vez com tamanha sacralidade profana que beirando o limite do absurdo possamos ainda gargalhar dos tolos; admirar as ideias do professor; se apaixonar mais uma vez pelos cabelos da Luiza que brincam pelo ar; e de se satisfazer com a companhia dos meninos”. 
Não teve nada disso. Só um tilintar ensurdecedor das suas partes caindo no chão: a lente pra cá, uma haste pra lá, a armação aberta como fratura exposta, que deixava passar incontrolavelmente todas as minhas visões: a primeira vez que eu vi a Luiza me olhando com olhos sorridentes; as discussões que eu tive com o professor; as queixas, as histórias, os fracassos embelezados e compartilhados com os meninos. As cenas terríveis dos meus pecados também estavam lá se debatendo. Os poemas que eu deixei incompletos queriam sair, mas sem asas ficou difícil. Estava tudo ali voando como petróleo, sem que eu conseguisse digerir o que fazer. Ainda em estado de choque, peguei os seus membros espalhados pelo chão em meu braço, coloquei-os em meu ombro e sai correndo para a primeira farmácia que eu encontrei. “Vocês têm cola mil?”, eu berrei no balcão. A moça meio desdenhosa trouxe a cura. Peguei quase sem pagar e me mandei para casa. 
Devo confessar a vocês que essa foi a parte mais difícil para mim: reconstituir peça por peça do meu amigo. Era como se eu desse choques elétricos no peito de um corpo em putrefação. Primeiro colei uma parte, ficou bom. Depois colei a outra, mas essa já não tinha mais jeito, mesmo que eu encharcasse de cola de nada adiantaria. Apelei, então, para Deus. Acorda e anda, eu falava baixinho em seu ouvido. Sem resposta. 
É interessante como, de todos os utensílios que temos, o óculos ser o mais subjetivo deles. Se a gente morre é bem provável que as nossas roupas ainda sirvam a outros corpos, que os livros empilhados na biblioteca ainda possam ser lidos por outros ou que o nosso sapato seja calçado por alguns; mas o óculos, bem, o óculos é a sua parte mais intransponível de todas. Ele não serve mais a ninguém, que não a você. Como um cão de guarda sempre posto a ajudar. Ele fica ali, quando você morre, revendo e revendo e revendo tudo o que você proporcionou ele a ver. Ou foi ele, com sua vida própria, que proporcionou você a ver as coisas. Tenho minhas dúvidas ainda. 
Agora eu estou aqui escrevendo, com a cara colada no computador, e as mãos cheias de sangue e saudade, essa crônica, enquanto espero pacientemente que meu óculos se transforme em Frankenstein. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Viver é acumular velórios, Por Luana Aguiar


Crônica

Viver é acumular velórios
Por Luana Aguiar

Quanto mais se vive, mais os frequenta. Talvez esta seja a grande ironia da vida. Pode ser que o teu primeiro seja aos 35 anos, a morte de um tio distante, e não sinta nada pelo defunto ali deitado. Mas decerto pensará sobre si e a morte iminente. Pode ser que teu primeiro seja aos 21 anos (idade em que pensa ingenuamente saber de tudo da vida) e vivencie a perda de um ente mais querido, um pai já doente, e sinta não só o arrepio da morte, mas a saudade de alguém que – jamais – voltará.
Mas uma certeza é que a idade é proporcional à quantidade de velórios os quais frequentamos. Pode ser um a cada três anos ou pode ser dois numa mesma semana. Não importa. A morte de outrem vai nos pegar de surpresa. O discurso do padre vai te comover, uma lágrima vai ameaçar cair porque, num instante, você acreditou no que ele disse. (Provavelmente foi o décimo segundo discurso dele na semana). Você vai olhar para o rosto pálido e maquilado do defunto de mãos cruzadas, vai rememorar a mais vil lembrança, aquele fim de tarde tomando café juntos, pode ser que até a voz dele venha à cabeça. As pessoas vão se abraçar, chorando, dizendo “meus pêsames”. Pode ser que, por um instante, tudo aquilo pareça normal. Depois você vai lembrar que está num velório e que existe uma pessoa embalsamada ali no meio do salão.
No final, vão fechar o caixão, o que é óbvio. E, nos eventos fúnebres mais dramáticos, alguém vai se jogar em cima dele – é o despertar da realidade, o momento mais triste. Mas quando se tem a experiência de, pelo menos, cinco velórios nas costas com apenas 24 anos, impossível não ficarmos atentos aos detalhes do nosso mais mórbido ritual de passagem. Sim, um ritual de passagem – para sei lá onde – e de preparação para aqueles que ficam, se despedem e pensam “quando será a minha vez?”.
Quando chegarmos à idade de nossos pais e avós, vamos entender a melancolia, a solidão e a descrença com a vida que tinham. Eles já passaram por muitos velórios.