segunda-feira, 11 de maio de 2020

PIETÀ E O SIMBÓLICO DA MÃE DESAMPARADA, por Diana Brasilis


PIETÀ E O SIMBÓLICO DA MÃE DESAMPARADA
por Diana Brasilis

Com o passar do tempo, a tragédia imposta à Maria em sua intensa dor emocional ao ter no colo seu filho Jesus morto, tornou-se referência no mundo da arte como “Pietà”, que em português significa “Piedade”. Tal referência de Cristo morto amparado nos braços da Santa Maria, Mãe de Deus, ao menos para mim, é o simbólico das mães em tempos sombrios em zonas vermelhas, assolada pelo medo, pela guerra e, consequentemente, o genocídio.

A Pietà de Michelangelo, 1498

Devamos lembrar que na pavorosa história da humanidade, crimes se cometeram em diversos nomes para cobrirem algumas causas iníquas. Foram séculos de barbárie humana em nome de um progresso e expansionismo que ceifou milhões de vidas em diversos lugares do nosso mundo. É conhecido o genocídio nas Américas de povos indígenas proposto por colonizadores europeus; a transladação assassina de diversas etnias do continente africano às Américas para a escravidão humana nos tempos coloniais; o genocídio e mutilações de etnias locais no Congo Belga proposto pelo rei Leopoldo II dos belgas; a limpeza étnica sistemática de hererós e namaquas acometida pelo Império Alemão durante a partilha da África, e que ficou conhecido como “o primeiro genocídio do século XX”; o genocídio armênio cometido pelo Império Turco-Otomano durante a Primeira Guerra Mundial; e a inauguração do genocídio sistemático em escala industrial de judeus, roma e sinti, homossexuais, deficientes mentais, eslavos, opositores políticos e prisioneiros de guerra proposta pelo III Reich durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Sem contar os atuais crimes de guerra cometidos em zonas de conflitos étnicos, miséria e calamidade.

Dentro desses horrores citados é bom salientar que a figura da mãe se tornou digna de uma Pietà. São estas que lutam pela vida de sua prole até o último segundo, que levam na memória os traumas de uma perda trágica ou que não soltam dos braços, nem por um decreto, sua criança à barbárie. 

Na história do Holocausto, muito bem documentada, sobreviventes dos sonderkommando judaicos (comando especial composto por judeus obrigados a conduzir ao matadouro e incinerar o seu próprio povo) relataram que ao abrirem as câmaras de gás, após o assassinato de centenas de pessoas, as cenas eram absurdas, isto é, inconcebíveis para o imaginário humano, pois muitas mães mortas, em meio aos cadáveres, estavam arraigadas ao corpo de seus filhos menores, o que tornava impossível o trabalho de coleta dos cadáveres, tudo isso em meio ao fim de uma luta pela vida que se deu nas câmaras de gás, uns sobre os outros, onde os mais fortes tentavam se sobressaírem sobre os mais fracos como apoio.
Pietà (1450/4) de Giovanni Bellini


Pietà (1889) de Van Gogh

La Pietà (1982) de Salvador Dalí


quarta-feira, 6 de maio de 2020

A nova alvorada brasileira, Por Julio Lamparelli

Ensaio

O juízo final, de  Hieronymus Bosch


A nova alvorada brasileira. 
Uma tentativa de formalizar o inferno bolsonarista.
Por Julio Lamparelli

Na superfície as coisas transcorrem mais ou menos assim: o governo é constituído por duas bandas, uma miliciana e outra militar, com divergências e oposições que são propagadas dia-a-dia pela imprensa. O capitão desvairado é imprudente, o general sóbrio lhe poda as asas no dia seguinte e toca-se o barco – mesmo que a imprudência anunciada se torne, como que por magnetismo, logo inevitável e, já decantada na consciência comum, possa finalmente consumar-se (a primeira vez que se anunciou a demissão do Médico Liberal parecia o fim dos tempos; a sua realização, alguns dias depois, foi suave como tomar um copo d´água). Provocações à parte, vale dizer ainda que, além da oposição curiosa entre milícia e militares, núcleo duro do governo bifronte, há também a oposição do “centrão”, meio pé fora, meio pé dentro do governo: institucionalistas e constitucionalistas, bastiões da velha política de coalizão, viúvos repentinos do pacto democrático que, em sua versão mais bem-intencionada, parecem armar verdadeiras trincheiras contra a nova barbárie da ingovernabilidade bolsonarista. A consciência progressista, que costuma pintar assim o quadro, como os grandes jornais impressos ou a Rede Civilizatória de Televisão, naturalmente vê o racha imanente do governo como fato absoluto através do qual projeta, com bons olhos, sua esperança: esgarçar o bolsonarismo desvairado e aliar-se aos militares, esses verdadeiros pais responsáveis da república, que não hão de recusar essa antiga amante democrática, cada vez mais entregue, quase-vulgar.

Além do mal gosto da fábula, achamos que tal oposição cerrada contra a barbaridade bolsonarista leva um alto grau de alucinação – não sei até que ponto por ingenuidade histórica ou por estratégia de varejo.  Contando, claro, com a boa-fé dos leitores, pergunto: por que, afinal, insistimos em sublinhar a oposição entre Militares e Milicianos, que existe e é por certo autoevidente, e não dedicamos um pouco mais de energia aos nossos queridos neurônios políticos para compreender, no fim das contas, por que A se juntou com B? Caso contrário, analisaremos o novo casal, incrédulos, como velhas fuxiqueiras que dizem entre si: “mas como pode, fulano com fulana?!”; e sabemos que o fuxico tem sempre um pouco de inveja e autopromoção, como assim transborda nos jornais republicanos.  Ora, o disparate do casal que hoje rege o país é tudo, sobretudo real. O presidente da república é um miliciano e está aliado às Forças Armadas. Se corre um frio na espinha, começamos a entrar no caminho certo.

Evidentemente, o cenário não é fechado e nem está traçado de antemão: e talvez isso seja o mais pavoroso. O segredo de nosso novo tempo político não deverá ser decifrado pelos olhos viciados da antiga governabilidade, que foi pactuada e serena até onde seus olhos podiam ver: a bem da verdade, se tem alguma coisa provisória nessa história toda, deve ser antes de mais nada a democracia de coalizão, ela mesma uma figuração particular da eterna lei da “metamorfose ambulante” (DA SILVA, Luís Inácio Lula et. al., 2007; apud. MANDETTA, Luiz Henrique, 2020)[1]  variante popular do velho “esqueçam tudo o que escrevi”, (cf. CARDOSO, Fernando Henrique, 1993)[2]; lei que tem sido, essa sim, nossa fatal predestinação, senão desde 1500, pelo menos desde 1964; provando, em avesso, que nada mudou[3]. Se deixarmos de lado a lente estreita da recente governabilidade democrática, veremos assim que a nova normalidade política parece se figurar mais como uma instabilidade permanente do que uma simples fase de transição para um novo “regime”: de um lado, o chefe da república sempre atirando pedra nos santos; de outro, a antiga amante democrática receosa entre puxar o tapete e se atrapalhar toda e; no fundo, segura e serena, as Forças Armadas flertando com elegância, simultaneamente, sua velha conhecida desesperada e sua nova amante desvairada.

Posto esse cenário provisório, vê-se já que o galã de cinco estrelas no peito e óculos rayban sairá ganhando; mesmo assim temos motivos para crer que, apesar das promessas irresistíveis da jovem democracia que parece topar tudo para recuperar o trono, nosso senhor militar já se decidiu por sua recente lua-de-mel. E se, eventualmente, largá-la, certamente não será para rebobinar a fita. Bom, é verdade que sua troca de matrimônio não foi uma ação exatamente apaixonada: todos sabem que os militares deploram do fundo do coração o soldadinho insubordinado que agora deita-se no leito republicano. Contudo, apesar dos clamores saudosistas dos antigos governantes ao coração amolecido dos generais, o novo casamento funda-se noutro registro: é frio e materialista. Para tentar compreender a gélida aritmética militar será preciso, no entanto, trocar o foco.

De fato, a desgastada metáfora do triângulo amoroso, clichê jornalístico de primeira hora, acaba-se logo quando adentramos as tenebrosas placas tectônicas do solo brasileiro, que solavancam no escuro, rasgando o véu da noiva e desnudando uma sublime visão do inferno, que acredito ter sido bem percebida pela consciência armada do Estado e, fora isso, também por alguns teóricos mais aventureiros que tentarei referenciar na medida do possível[4]. Ora, puxando na memória recente, lembramos que desde 2013 uma fenda profunda se abriu no chão social, de modo que todos viram como, entusiasmada, a velha classe política não demorou para também se queimar no fogo. Enquanto a situação governista encarcerava e emudecia o tímido e difuso espectro vermelho da revolta, mostrava-se já completamente inapta e sem ferramentas para governar o novo monstrinho que, logo, já derrubava também a velha oposição, nitidamente desajeitada no lombo da besta. Ao fundo, era o próprio cenário do pacto democrático que queimava, cujas leis e axiomas republicanos, já faz tempo, não passavam de palavras ao vento para a maioria dos pobres brasileiros, afogada em dívidas e governada pelas armas, fardadas ou não.

Mas antes de se alastrar pela roupa dos deuses, o fogo já estava queimando há algum tempo no dia-a-dia popular: a chave para compreender esse cenário infernal foi dada por Gabriel Feltran, em um famoso artigo de 2014 intitulado O valor dos pobres, no qual mostrou que o dinheiro era realmente o último elo objetivo da sociabilidade brasileira[5]. Grosso modo, Feltran percebeu como a reunião entre polícia, lei do crime, religião e trabalho precário estava delicadamente pacificada pela troca de mercadorias e calculadamente administrada pelo fluxo direcionado de dinheiro aos pobres, que caía todo mês nas contas cadastrais do governo mediante crédito fácil e programas sociais de toda sorte. Vale dizer que a miríade de fluxos monetários que ligava, em última instância, os miseráveis às cadeias de capital financeiro globais, mediadas pelo cofre da união – uma verdadeira solução-propaganda do novo modo de rentabilizar os pobres – já era naturalmente um remédio prescrito para uma sociedade em estado de putrefação; portanto, uma gambiarra financeira que já avançava as fronteiras da sobrevida nacional.  Decompostos em matizes diversos de identidade social, vulnerabilidade e renda, os diversos setores da pobreza foram assim farejados pelo dinheiro, que oferecia a cada um o preço que lhes cabia no bolso: dinheiros mais ou menos onerosos, mais ou menos mediados pelo custeio do Estado. As dívidas infindáveis foram pouco a pouco sendo colhidas conforme o bolso de cada um, o que, afinal, era esperado, pois apesar do socorro aos pobres, o novo método de governo não havia trocado uma peça sequer do motor interno da máquina nacional de expropriar riqueza que, no mais, continuava girando. As dívidas variavam, caso a caso, conforme o dinheiro que cada um podia jogar na roleta do parcelamento infinito das mercadorias que, por sua vez, estavam sendo entregues; muito próximo daquilo que o governo costumava chamar de “cidadania”, e que praticamente objetivou de modo lapidar a democracia racionada[6] de outrora, incluídos no pacote de compras cidadãs o ensino superior, a moradia e tantas outras regalias da civilização ocidental. Quer dizer, o Brasil enfim cumpria o velho paradigma de sua formação, isto é, modernizava-se... na medida do possível, mesmo que a realização da Ideia nacional fosse feita às custas da boa aparência fisiológica prevista na cartilha do darwinismo progressista: mais do que um mamífero com bico de pato, tratava-se antes de uma ficção científica propriamente dita, o nosso Frankenstein social com ponte de safena, resgatado às pressas da cova do defunto na qual parecia, finalmente, descansar em paz desde 1980[7]; ou seja, já era suficientemente sinistra a madrugada em que foram desenterrar o morto. 

Mas o zumbi assim reergueu-se por um breve período, reanimado pelo dinheiro nacional, seja pelo velho sistema militar do FGTS, seja por gastos astronômicos nunca antes vistos do OGU. Como, contudo, a corda financeira que mantinha o cadáver de pé era, por assim dizer, usurária de natureza, estando no limite enredada com o sistema das finanças mundiais, não tardou muito para ela estourar por si mesma; o estalido da economia mundial em 2008 foi finalmente transmitido pelos cabos de sustentação do grande sistema, passadas do núcleo orgânico ao paraíso das commodities e, assim, foi rapidamente transmitido à vida pacificada pelo dinheiro das periferias urbanas. Descendo das nuvens cobrando seu preço à Deus e ao mundo, o dinheiro volatizado no mundo das finanças foi, assim, bater na porta daquelas ressequidas moléculas do subemprego que haviam, há pouco, despertado no tecido do morto. Foi àquelas moléculas reanimadas com o dinheiro mais caro – justamente aquelas que, ou foram reunidas na faixa cadastral entre 3 a 6 salários mínimos, ou nem sequer foram cadastradas, porque mesmo pobres, não eram pobres o suficiente – foi a elas que o dinheiro chegou queimando, sem mediação e em primeiro lugar[8]. Logo as contas passaram a fechar no vermelho: universidade, saúde, moradia etc. O mote do transporte público foi, de fato, somente o cabo fragilizado a romper primeiro – já amplamente corroído pela prática criminosa da espoliação bruta – e sua supressão momentânea levou consigo todo o Olimpo “democrático” que nos regia desde 1986, justamente aquela agremiação política que tanto penou para encontrar seu sólido escoramento no método liberal-assistencialista de governar; este que caía. Injetar dinheiro barato no inferno foi, portanto, o lema propagado pelo Olimpo democrático, que fez dele sua América para o mundo, e mediante o qual acabou por jogar a si mesmo no lamaçal da violência financiada. 

Com a queda dos deuses soou, finalmente, o segundo dobrar do sino: era a hora dos deuses ctônicos saírem do alçapão – todo aquele sistema de violência mercantilizada, com tráfico, milícia e polícia, finalmente despontou no firmamento da vida nacional. Após décadas de acúmulo ininterrupto de experiência em extorsão, enquanto reinava no céu a constelação da pax mercantil – de cuja natureza rentista os deuses infernais da expropriação armada eram somente uma fac-símile embrutecida –, estando já todos eles bem aclimatados ao solo democrático e aos seus mecanismos políticos e policiais mais profundos... ora, pensando bem, seu destino de glória estava escrito nas estrelas!  E foi assim que, no tecido do morto, até agora irrigado com o dinheiro do Olimpo, as hifas da milícia puderem crescer e amadurecer; se hoje florescem às vistas de todos, elas o fazem quase naturalmente, como um grande mofo que se levanta no osso da Nova República.  

A essa hora da noite, as Forças Armadas estavam recém-egressas do Haiti, onde tinham acabado de testar sua nova tecnologia do caos social e da qual já faziam dos morros cariocas cobaias frescas quando, em um súbito relance, viram o chão brasileiro assim se abrir. Viram o cadáver social que, solto como um lunático na beira do Vesúvio, clamava em plena telinha televisiva à baderna e à violência[9], à vingança e à desordem, tudo isso enquanto, do outro lado, assistiam o Olimpo democrático que escorregava quase que por si só para o ocaso; imediatamente, os militares correram em peso para a boca do inferno, onde já haviam instalado suas UPPS, e decidiram prontamente realizar uma intervenção militar no Rio de Janeiro, às vésperas do fim do mandato mais impopular da história do país. Após anos de experiência equatorial em desagregação humana, talvez receosos de que uma espécie de Jean-Bertrand Aristid brasileiro despontasse das urnas em 2018, os militares – que a essa altura já ocupavam com armas o portão do tártaro carioca – decidiram por sua conta e risco que estava na hora de abraçar o capeta; aquele que saía da fenda profunda. Logo após anunciar sua candidatura, Jair Bolsonaro, deputado federal para o qual o coração da milícia carioca, o conhecido bairro de Rio das Pedras, não passa de um quintal familiar, lança então seu time oficial: o general Hamilton Mourão como vice-presidente e – cheirando ainda à tinta meio fresca da barbaridade cometida em nome da pax armada de Porto Príncipe – o general Augusto Heleno, então candidato à chefia do Gabinete da Segurança Institucional da República.

É sabido que faz parte da intelligentsia militar sempre esperar o pior cenário e, convenhamos, não era preciso muita inteligência pessimista para ter sentido a bruma de gás-lacrimogêneo, bomba de efeito moral e bala de borracha que se espalhava pela América e pelo mundo. 2013 e 2014 foram nossas visões antecipadas do novo firmamento mundial, seguidas depois pelos secundaristas, pelas ocupações das fábricas de cultura e por uma retumbante greve de abastecimento deflagrada pelos caminhoneiros; cenário que, somado com a pressão avassaladora e suicida do sistema financeiro que pede de modo cada vez mais voraz a cabeça dos pobres; somando tudo isso ainda, na ponta do lápis, com a debilidade política dos deuses locais que só sabem puxar o tapete alheio e que com isso caem em bloco para debaixo da terra – de fato, a memória das ilhas centrais era uma precisa antevisão do que viria a ser o Chile, ou um Equador; uma Bolívia, uma Colômbia, uma Venezuela; uma Síria, um Iraque, uma Líbia... uma França! Um Brasil. Medidas preventivas: o Haiti é aqui. Primeiro passo: somar armas. É tido como certo, contudo, que as Forças Armadas não sustentariam poucas horas sequer de munição contra a polícia militar dos Estados – e isso só para contar com a ponta oficial do iceberg policial: quer dizer, “somar armas” para evitar um cenário de guerra-civil talvez não consista em simplesmente mobilizar o indefeso exército, mas também, e sobretudo, mobilizar aquela estranha corporação cheia de vasos comunicantes com o mundo do crime, a qual costumamos chamar de Polícia Militar[10] .  Uma união entre Forças Armadas e o submundo das polícias, contando com os elos subterrâneos das ramificações ilegais que se tornaram o novo sustentáculo social depois do fim do dinheiro, parece ser aqui um pressuposto militar quase autoevidente para garantir a lei e a ordem em um país que caminha sonambulamente para o caos. E, infelizmente, os vasos comunicantes dessa verdadeira comunidade das armas realmente funcionam e estão operando, como vimos há poucos meses no Ceará. Forças militares e para-militares, exército e porão, palácio do planalto e escritório do crime: era chegada a hora dos militares retomarem sua velha máquina da violência nacional, nunca desmontada e nunca inteiramente desaquecida e que, agora, pelo contrário, mostrava-se ainda mais extensa e complexa, cheia de ramificações e saliências, plena de chefias locais. Retomar aquele antigo sistema da violência que uniu, por 21 anos, generais, políticos e empresários ao submundo do esquadrão da morte exigia, agora, um pacto de sangue com os monstrinhos que ali fizeram morada durante 36 anos de vigência democrática[11]. A garantia da lei e da ordem contará, por isso, com muita barbárie e confusão, afinal, os príncipes dos porões não seguem a lógica cartesiana nem falam a língua polida dos deuses do Olimpo; são extremamente violentos, fisiológicos e visam o lucro privado e a autopromoção com a distância curta de um palmo do nariz; afinal, foi assim que fizeram sua glória nas entranhas do jovem Frankenstein, e não haveriam de fazer diferente agora que ganharam a superfície. São estas bestas-feras que hoje reinam, sem focinheira, junto aos militares, apavorando os jornais e destruindo fantasias. Há pouco tempo, aliás, andam mais armados do que nunca, após terem finalmente revogado as portarias de rastreamento das armas, possibilitando as provisões necessárias para o primeiro destacamento[12]. Com efeito, a terrível aliança militar e política entre Exército e Milícias –  a vitória histórica do anti-Geisel[13] –  é por si mesma a declaração oficial de que o novo Brasil não será governado, no velho sentido administrativo do pacto de coalizão, mas sim coagido de modo terrorista, do chão ao céu, universalizando subitamente a lei do favelão, ou o grande Haiti que sempre foi aqui, garantindo que, na pacificação armada de qualquer coisa que se chama “nação” porque tão somente possui fronteiras, esteja sobretudo garantido o lucro e o patrimônio privado dos que se aventurarem no grande pântano... Ah, a economia!

Aqui entramos talvez no momento mais lunático de todo esse tour de force beligerante. Até onde nosso raciocínio aguenta, o assalto à mão armada da máquina política não foi dado para instaurar uma nova era liberal-guedeana, como sonham alguns ingênuos repórteres da imprensa privada. Não: ao que parece, para a surpresa de todos, a tendência dessa grande roda de extrair riqueza que agora está mais armada do que nunca é, justamente, seguir o curso e o velho método do que – pasmemos – já estava aí; o lema de retomar a economia tem aqui um sentindo mais forte do que se poderia imaginar[14]. Assumindo a caneta da mão dos economistas, que já perderam até os sapatos em plena crise viral, os milicos anunciaram o novo plano econômico do general Braga Neto, da Casa Civil, que, não por acaso, mal saíra do forno já vinha ao mundo da imprensa oficial com o apelido de “Dilma 3” e, também, de “novo PAC”; todas elas alcunhas difamatórias cunhadas pela ala inocente do governo que, cuidadosamente armazenada no ministério da economia, entendeu com muito mau humor do que se tratava o novo pacto Pró-Brasil; também reclamaram amiúde alguns espíritos lavajatistas, flatus vocis. Convenhamos, os militares de fato estragaram um pouco a festa: ora, tudo isso, todo derretimento institucional, toda reorganização política e todo o champanhe da véspera para, ao fim e ao cabo, manter as coisas como estavam? – aliás, desde 1964, pois vale lembrar que o PAC não fora nenhuma invenção esquerdista tirada da cartola e que, na verdade, voltava agora ao dono, mesmo que em versão editada. Reerguer, portanto, o morto pela segunda vez; reatá-lo aos mesmos cabos da economia que já rebentaram, num cenário mundial no qual o capitalismo parece ainda mais suicida do que antes:  parece mesmo uma grande loucura.  Bom, essa loucura tem nome e chama-se violência, o próprio capitalismo em seu momento de confissão, velha conhecida nossa.  A dolorida fricção osso-com-osso sentida em nosso defunto é, assim, o sinal de que o dinheiro, aquele último colágeno social descoberto por Feltran, perdeu finalmente suas qualidades fisiológicas de amortecer o tranco[15]. Os pinos que entram agora nos membros lesionados são os pinos da violência, aquela que dormitava, translúcida, por detrás da “crisálida áurea” do dinheiro. A gestão armada do social que está por vir, uma vez instaurada e assentada, poderá finalmente manipular o corpo morto e reconectar os pobres aos cabos desgastados do capital – e os novos 600 reais estão aí para quem queira achar o contrário. Como eventualmente alguns cabos hão de faltar nessa segunda empreitada, pois o remendo está sendo feito em cima de outro, amputam-se as partes redundantes na base da bala: sem pactos de classes, promessas de nação, pactos civilizatórios ou progressismos de última hora; não, nada da antiga parafernália esclarecida: a nova ideologia é, imediatamente, o ranger das engrenagens do sistema da babilônia, e só pode ser espetacular na medida em que assumir, para si, o ar da convocação fúnebre que realiza[16]  – let it burn[17]!  

Recolocando, agora, a imagem inicial do matrimônio sobre o chão que arde em chamas, é preciso admitir que o recente casamento tem demonstrado sucesso: um líder relativamente popular, pois fala a língua das massas como ninguém, cujos impropérios são facilmente perdoados pela capacidade de coagir o grande pântano, tudo garantido pelo braço armado do exército, fora e dentro, escorregando aqui e ali reformas liberais acachapantes que, não sendo o centro do problema, serão mais facilmente injetadas do que poderiam ser por um apresentador de TV liberal com luvas de pelica.  A “irracionalidade” de nosso capitão é a nova razão do pântano, o grande Faroeste nacional, que exibe novamente aos abutres o seu cadáver social – a nossa finada sociedade brasileira, mobilizada militarmente, e que ainda rende um cadinho. Goste quem gostar, são essas as condições para se manter, em solo nacional, o dilaceramento humano perpetuado pela moagem capitalista – como se estivéssemos diante da forma final da “contrarrevolução permanente” que, no dizer do velho Florestan Fernandes, sacrifica os pobres à dupla colheita da mais-valia, nacional e internacional, que no entanto só faz minguar. Portanto, um arranjo econômico que não só surpreendeu a todos ao adiar sua morte para além de 1980, com o advento do novo método liberal-progressista de extrair riqueza, como também não parece ter se esgotado por completo, agora, que o mofo e a podridão já se tornaram aparentes na face. Se a primeira resposta do dinheiro barato aos pobres foi improvisada, mas eficaz para sustentar o defunto nos marcos legais da civilização ocidental, a segunda gambiarra para garantir o moinho nacional será amplamente armada e violenta: se deverá ter tintas fascistas e logotipos partidários coroados pelo semblante metálico do calibre 38, não nos enganemos: isso tem mais a ver com o motor próprio de nossa burguesia nacional, sempre cercada de seus capitães-do-mato, do que, como quer Ricardo Antunes[18], com um desvio de rota fascista a ser, eventualmente, reparado. O raciocínio é na verdade inverso: é o fascismo que se parece com a gente, e não o contrário. Devemos nos poupar – pelo menos isso! – do vexame de clamar aos velhos algozes o socorro “fascista”, justamente aqueles que há pouco perdiam as unhas e todo pudor na derradeira raspa do tacho. Até porque, mesmo se quisessem voltar ao marco legal de sua história nacional, já não têm mais o mapa da mina: compete agora à engenharia militar o método para extrair, por assim dizer, o último suco do milho. 

Isto posto, a anomalia social dirigida para o lucro exige estômago forte, doses de loucura e muito chumbo grosso. Os que se enjoam com carne podre terão de se acostumar com o frescor moribundo da nova forma de governar que, apresentando o cadáver mobilizado a ser esfolado, abriu um verdadeiro deus-nos-acuda intercapitalista. A deflagração da burguesia nacional pelo cadáver sacrificial é, ao que parece, o verdadeiro motor secreto da oposição política de superfície, entre alas empresariais diversas e coalizões de força de toda espécie, e alguns já começaram a perceber que terão de tirar as luvas se quiserem desposar o capitão ou, por que não? se associar a ele, com fraques verdes amarelos, de preferência.  A oscilação entre um futuro de continuidade democrática e estado de exceção, neste cenário, é uma mera formalidade que depende do preço a ser dado pelo “centrão” para aderir à festa. Se hoje os crápulas armados ameaçam “limpar o cano do revólver para defender a democracia”, como fez por sinal nossa outra metamorfose ambulante chamada Roberto Jefferson, certamente não é para lhe tirar a ferrugem, mas sim a pólvora acumulada[19]. Ademais, pelo trupé do cavaleiro macabro, que anda ainda mais veloz durante a pandemia, pode-se já pressentir que as negociatas estão realmente em aberto: a última queda do ministro da Justiça, que para a fantasia democrática deveria soar como o último toque do gongo de nosso capitão, pelo visto não passou de uma moeda-de-troca para arrebanhar mais alguns dos velhos deuses ao novo governo infernal; afinal, e apesar de tudo, o “centrão” lembra que ainda é tão fisiológico quanto o miliciano que reina armado; sempre advertido, claro, que se cobrar muito alto, pode ver trancada a porta do congresso. Se isso eventualmente não ocorrer, então as instituições seguem funcionando normalmente – Funai, INPe, PF... STF –, apesar da bravata autonomista do Sr. Presidente que, também ele, lembra que um pouco de fisiologismo não faz mal a ninguém, sobretudo quando o fisiologismo anda junto com a coerção armada, um pouco parecido, diga-se de passagem, com a prática do submundo que já lhe é habitual. Quanto aos atuais antígonas do presidente, que visam 2022 com olhos gordos, dificilmente serão mais aptos do que ele para mobilizar com tanta perfeição o ódio dessa massa desagregada a ser explorada ou eliminada e que hoje trabalha, literalmente, até morrer; e, como nada é certo, se por algum motivo algum deles conseguir de fato desposá-lo, não sei se seria exatamente um bom-sinal. Esse pega-pra-capar, a face da nova política, tem assim como crivo final a tecnocracia social dos militares, que o administra, como em um grande leilão, enquanto se associa com os demônios mais rasteiros alçados ao poder. De resto, os ingênuos ficarão pelo caminho, mesmo se forem ricos e poderosos: é o custo a se pagar pela história, caso se decidam por não falar a língua dos novos anjos de fogo que se aproximam. Disso está certo o oráculo da Virgínia, que entre seu charlatanismo de quinta categoria deixa, ainda, passar um resto de filosofia escatológica da velha direita reacionária: no último natal, em inspiração deliberadamente apocalíptica, recomendou a todos passar 2020 com muito laissez faire e diligência rumo ao fim do mundo[20].

Bom, nesse abismo em ascendente, militarmente administrado, onde não há sequer lugar para burgueses minimamente pudicos ou, decerto, que não colham na cabeça seu pequeno par de chifres, o que se dirá, então, da esquerda? Se não quisermos cair do plano inclinado, mal-amados, com a Constituição de 88 às mãos, talvez seja o caso de se lembrar daquele difuso espectro vermelho de 2013/14, largado hoje ao abandono de algumas cadeias nacionais, ou dos estudantes pobres revoltosos, alguns desaparecidos do mapa, e tantos outros mais, sacrificados nas mãos da ordem democrática que agora afunda no breu. Um sopro de vento diz, contudo, que é impossível construir a luta, que o hálito dos mortos é hoje, meio sem fôlego, meio infecto, e corre perigo de vida – se, na melhor das hipóteses, já não agitam a bandeira do inimigo. O frio que foi acumulado madrugada adentro, sublime madrugada que já dura pelo menos 56 anos, parece agora congelar os nervos e impedir um só gesto de blasfêmia contra o enorme festim sacrificial que, por sua vez, prossegue. Entramos, neste exato momento, em um estranho compasso de espera, nos segundos mais gelados e derradeiros da noite, enquanto as figurações noturnas e difusas, semi-demoníacas, aproveitam para reerguer o cadáver nacional pela segunda vez, aos olhos do mundo, enquanto ainda não despontou o primeiro raio do Sol. O que será de nós quando a máquina voltar a funcionar? Ganhar coragem para ver o Cafarnaum mostrar-se, finalmente, à luz do dia? Respirar fundo e assistir o juízo final se abater sobre a Terra? Esperamos, estáticos, o destino fatal, o lago de fogo que virá com a segunda morte do defunto nacional[21]. Esquecemos, porventura, que alguns trabalhadores, bastante deles até, na verdade ainda seguem a postos, morrendo na ativa, alimentando os espectadores petrificados do último espetáculo crepuscular, do Mamon que reina: rolam, por trás dos panos, as velhas engrenagens da nova alvorada brasileira; da máquina do mundo, que gira silenciosa. Novamente, o relógio brasileiro tem o fuso-horário adiantado, e alguns raios de luz ganham a planície embrumada; apertamos os olhos e vemos, de relance; ora, mas apesar de tudo, o autômato demoníaco que traz a nova manhã ainda é movido pelos homens, esses que são recrutados às fileiras da morte? Ao trabalho! – é o capitão que grita, armado à frente dos generais, pois já é hora de cantar o galo.

1 de Maio de 2020





Notas
PARIZ, Tiago. “Lula: 'Prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante”.  G1. Brasília,  5 dez. 2007. <http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL205291-9356,00.html>. Acesso em 30 de abril, 2020. (cf. MENEGAT, Marildo. “Feitiço de Fundo de quintal – o PT, a crise, e a economia política da barbárie”. METAXY: Revista Brasileira de Cultura e Políticas em Direitos . v. 1, n. 1, 2017. p.10). Já quanto à Mandetta, ver o seu discurso de saída do ministério, no qual, após uma bravata tardo-iluminista, diz que prefere ser “uma metamorfose ambulante” (OHANA, Victor. “Madetta se despede do Ministério da saúde: ‘A ciência é a luz’. Carta capital. 30 de abril de 2020.<https://www.cartacapital.com.br/politica/mandetta-se-despede-do-ministerio-da-saude-a-ciencia-e-a-luz/> Acesso em 30 de abril, 2020). 

2 FOLHA DE SÃO PAULO,  “’Esqueçam tudo que escrevi’ é polêmica até hoje”. São Paulo, 13 out. 1996. < https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/13/mais!/7.html>. Acesso em 30 de abril, 2020.

3 Não demorou para o velho título também cair sobre as costas do capitão: RANGEL, Ricardo. “Bolsonaro: a metamorfose ambulante”. Veja. 6 de abril de 2020. < https://veja.abril.com.br/blog/ricardo-rangel/bolsonaro-a-metamorfose-ambulante/>. Acesso em 30 de abril, 2020.

4 Grande parte das conclusões aqui tiradas se deve ao acompanhamento um pouco distante dos seminários das quartas, que acontecem na USP mensalmente, e que em função da absorção esponjosa dos argumentos e exposições ali debatidos receio, aqui, não poder fazer jus às devidas autorias. Espero também não distorcer muito as ideias originais. Algumas referências ficariam melhor encontradas nas citações diretas do professor Paulo Arantes, que podemos eventualmente fazer aqui quando reconhecermos a fonte.  Sobre 2013, UPPS e desagregação social ver: ARANTES, Paulo Eduardo. “Depois de junho a paz será total”. In. O novo tempo do mundo. São Paulo: editora Boitempo, 2014. (p.353 – 460).


5 FELTRAN, Gabriel. “O valor dos pobres: a aposta no dinheiro como mediação para o conflito social contemporâneo”. Caderno CRH. Vol. 27, num. 72, set-dez. de 2014. p. 495 – 512. Universidade Federal da Bahia, Salvador. 

6 Até onde sei, o termo é de Carlos Marighella (cif. SECCO, Lincon. “A democracia racionada”. G1. 16 dez. 2013. <https://www.viomundo.com.br/politica/lincoln-secco-e-o-risco-da-democracia-racionada.html>. Acesso em 30 de abril de 2020).

7 Para uma visão anacrônica do problema, ver: DEAK, Csaba. “Acumulação entravada no Brasil e a crise dos anos 80”. Espaço e debates. Vol. 32. São Paulo, 1990; que, apesar das cartas entregues aos gritos de mais capitalismo, já havia, contudo, percebido como a máquina brasileira da pilhagem social começava a soluçar.  Muito se disse à época dos anos 1990 sobre a “bonapartização” da burguesia nacional, da “crapulização” da elite etc. tendo em vista a ascensão de Fernando Collor à presidência. Ou seja: já tínhamos dado início ao thriller-night brasileiro.

8 Até onde pôde rastrear Paulo Arantes ainda à queima-roupa, eram sobretudo esses “peixes fora da rede” os sujeitos do milagre que ameaçou acontecer em Junho (ARANTES, Paulo Eduardo. Op. cit. p.455-6), conforme percebera no relato de Regina Magalhães de Souza, em um suposto capítulo de um livro inédito, e que tinha por nome “Trabalhadores vão à faculdade: notas para uma investigação sobre sujeitos que voltam a estudar”. Alerta, ainda, ao final do ensaio, que “se não soubermos ou não pudermos contar com eles para a tarefa política da geração que vem, nada feito” (Idem. p. 456).

9 Como não lembrar da enquete televisionada no dia 13 de junho de 2013 pelo programa Brasil Urgente, no qual Datena foi surpreendido de calças curtas pelo “povo” que, momentaneamente, passou a falar outra língua? (Aos interessados, acessar: https://www.youtube.com/watch?v=7cxOK7SOI2k).

10 É velho o problema da GLO em torno da articulação entre Exército e Polícia, por razões óbvias de monopólio da violência (cf. MEDEIROS, Afonso Mateus. “A desmilitarização das polícias e a legislação ordinária”. Brasiília, a.42, n.165, jan./mar. 2005). Por isso a unificação entre Forças Armadas e Polícia Militar é um problema espinhoso que também articula as entidades federativas (Federal e Estadual), sobretudo no Brasil: nosso capitão tem se esforçado, e com sucesso, para conquistar da mão dos governadores os soldados das guerras estaduais, o que já era meio caminho andado por questões de afinidade eletiva antes de assumir a chefia civil da República, e que agora anda com pernas próprias, posto que nem uma retroescavadeira deve deter o romance. O problema pode ser visto com maiores detalhes em: BARROCAL, André. “Violenta, Polícia Militar desponta como braço armado de Bolsonaro”. Carta Capital. 7 de mar., 2020. < https://www.cartacapital.com.br/politica/violenta-policia-militar-desponta-como-braco-armado-de-bolsonaro/>. Acesso em 1 de maio de 2020.

11 Sobre relação entre ditadura militar e milícias ver, por exemplo, a pesquisas do sociólogo fluminense José Cláudio Alves, da UFFRJ. Para apreensão rápida do problema, ver entrevista realizada pelo Deutsche Welle: SOARES, João. “Ditadura idealizou modelo atual das milícias” [entrevista com José Cláudio Alves]. 3 de agost. 2018. “Milícias tiveram seu embrião nos esquadrões da morte apoiados pela ditadura, afirma sociólogo. Em entrevista, ele rejeita a ideia de poder paralelo, apontando que grupos fariam parte da "dimensão ilegal do Estado".

12 AGÊNCIA O GLOBO. “Bolsonaro manda revogar portarias que facilitavam o rastreamento de armas”. Exame. 17 de abril, 2020. < https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-manda-revogar-portarias-que-facilitavam-o-rastreamento-de-armas/>. Acesso em 30 de abril de 2020.

13 DE BARROS, Celso Rocha. “Bolsonaro representa facção das Forças Armadas que ganhou poder com a tortura”. Folha de São Paulo. Eleições 2018. 

14 Em uma de suas lives mais recentes, Paulo Arantes diz se tratar de uma espécie de “lulismo às avessas” o novo plano de nosso gênio maligno. A live foi realizada pela Adunifesp Seção Sindical no dia 27 de abril de 2020, e está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9u966nE4bVA.

15 Faz cerca de um ano que Marildo Menegat, adentrando a porta em aberto por Feltran, percebia também que adentrávamos uma nova fase da economia política da rapinagem. (cf. MENEGAT, Marildo. “Violência e barbárie: um pequeno estudo sobre as origens remotas do bolsonarismo”. Argum., Vitória, v. 11, n.2, p. 7-16, maio./ago. 2019.)

16 Prova de que, avançado o pacto do sistema da babilônia com o garção de costeletas, as coisas ficaram bem mais feias do que poderia imaginar até mesmo o espírito tropicalista mais extrovertido que, delicadamente, agora sai pela tangente. (cif. SCHWARZ, Roberto. “Prefácio com perguntas”. In: DE OLIVEIRA, Francisco. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. p. 11).

17 Trata-se de um comentário da socióloga Silvia Viana, em um dos seminários das quartas (ver nota 4), quando lembrou que a música mais escutada pelos soldados americanos em alguns dos fronts militares dos EUA era o pop “Let it burn”, de 2011, do artista Red. E, não nos iludamos, já não é ao “moinho da Bahia”, propriedade dos senhores, que hoje a música versa “deixar queimar”, tampouco o “fogo no canavial” de que falava Edison Carneiro (cif. CARNEIRO, Edison. Negros bantus, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937 apud DA CRUZ, Alessandra Carvalho. “O samba de roda”, samba e cultura popular em Salvador 1937-54. [Diss. Mestrado]. Salvador: UFBA, 2006. p.62).

18 Pelo menos até onde pude entender na live realizada pelo esquerdadiário disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wyfCQ0YR3Fg. Naturalmente, Antunes não é o único a propor uma repactuação com a burguesia nacional contra o mostro do pântano. Ver, por exemplo, a ala radical do PSOL repetir o velho mantra pela “unidade de ação com setores da burguesia” enquanto o circo pega fogo: MACIEL, Sirlene; PUERRO, Mauro. “1 de maio: qual é o caráter do ato?”. Esquerda online. 28 de abril de 2020. <https://esquerdaonline.com.br/2020/04/28/1o-de-maio-qual-o-carater-do-ato/.>. Acesso em 30 de abril de 2020.  Concluem: “Portanto, com este ponto de acordo, somos a favor da unidade com FHC, Maia, Alcolumbre, governadores, enfim todos e todas que se posicionem contra Bolsonaro e seu governo fascista” – de fato, um time e tanto!

19 “E se for tentada de verdade esta violência [o impeachment de Bolsonaro] a gente vai ter que tirar a ferrugem do cano de nossos revólveres e lutar pelo Estado e lutar pela democracia”.(cif. ENEAS, Paulo. “Roberto Jefferson: tirar a ferrugem do cano de nossos revolveres e defender a democracia”. Política Nacional. 20 de abril de 2020. <https://criticanacional.com.br/2020/04/20/roberto-jefferson-tirar-a-ferrugem-do-cano-de-nossos-revolveres-e-defender-democracia/>. Acesso em 30 de abril de 2020.

20 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zb2XFgucFNU.

21 “O lago de fogo é a segunda morte”. Apocalipse 20: 13-15.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Marx e a questão do dinheiro nos Manuscritos de 1844, Por Gabriel Henrique

Ensaio


Marx e a questão do dinheiro nos Manuscritos de 1844
Por Gabriel Henrique

Um dos momentos mais geniais dos Manuscritos Econômico-Filosóficos é quando Marx discute a questão do dinheiro. Sabemos que o nosso autor não tem aqui o aparato econômico que mais tarde irá forjar para si; a discussão então não será sobre a forma-dinheiro, e muito menos sobre a circulação simples de mercadorias, que se tornarão tema de seu primeiro livro de economia política, o Contribuição à Crítica da Economia Política (1859). 

A discussão sobre o dinheiro nos Manuscritos está no âmbito da filosofia em seu sentido mais estrito, não há praticamente quase nada de economia política na abordagem que o bom alemão realiza aqui. O que percebemos é que no ensaio genial chamado Dinheiro, Marx conclui um percurso que havia se iniciado com a exposição dos quatro tipos de estranhamento; o objetivo de nosso autor era, sobretudo, realizar a conexão entre estes “estranhamentos” e suas manifestações econômicas com o sistema de dinheiro [Nota1]. 

A abordagem que Marx fará do dinheiro, segundo Renault, tem grande influência de Hess e do seu texto A essência do dinheiro, na medida que o autor desloca a crítica da alienação religiosa para o terreno da vida social. Nós já falamos isso no capítulo anterior, mas é bom relembramos, na medida em que estamos tratando aqui especificamente da questão do dinheiro. 

O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou seu, o possuidor do próprio dinheiro. (...). As qualidades do dinheiro são minhas – [de] seu possuidor – qualidades e forças essenciais. O que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, pois o efeito da fealdade, sua força repelente, é anulado pelo dinheiro. (...) O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor, o dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, sou, portanto, presumido honesto (...) o dinheiro é o espírito real de todas as coisas (...) Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades no seu contrário? 

Se o dinheiro é o vínculo que me liga à vida humana, que liga a sociedade a mim, que me liga à natureza e ao homem, não é o dinheiro o vínculo de todos os vínculos? (...) Ele é a verdadeira moeda divisionária, bem como o verdadeiro meio de união, a força galvano-química da sociedade. (MARX, 2004, p.159) 

O dinheiro é algo externo a mim, eu me confronto com o dinheiro como um objeto que é exterior ao meu cérebro e corpo. Destarte, o poder de compra do dinheiro deveria ser, a princípio, algo diferente de mim mesmo, algo que não afetaria a constituição do meu ser. No entanto, eu sou o possuidor do dinheiro, então aquilo que o dinheiro compra sou eu próprio enquanto possuidor. 

As capacidades individuais dos homens, a sua individualidade e subjetividade não são nada sem o dinheiro; o dinheiro é o mediador universal entre o homem e os objetos exteriores a ele, isso significa que as potências genéricas do homem se encontram encerradas na figura do dinheiro. O dinheiro é a manifestação social da capacidade genérica da humanidade, ela é a manifestação universal desta capacidade. 

O produto do trabalho humano só se encontra acessível àqueles que possuem dinheiro, eu construo a mais bela mansão, mas eu trabalho para o dono da empreiteira, a casa não pertencerá a mim, mas a quem puder compra-la por meio do dinheiro. Tudo aquilo que o homem produz, toda a manifestação genérica operativa do homem, toda a objetividade social criada pelo homem: casas, comida, objetos de luxo, etc. só se encontram disponíveis ao possuidor do dinheiro. Ora, dado que o dinheiro compra sempre alguma coisa que é exterior a mim, e que é resultado da ação prática do homem, o dinheiro só pode ser a manifestação social desta característica específica da humanidade, o dinheiro não compra o ar, mas compra casas, o dinheiro me permite que eu tenha acesso ao conjunto das mercadorias produzidas pelo homem. 

Em nossa época é possível perceber mais facilmente o quanto o possuidor do dinheiro tem poder, graças à universalização do capitalismo enquanto base produtiva da sociedade humana. Ilustremos com um exemplo: eu estou na fila para um transplante de rim, estou prestes a morrer, preciso do transplante a todo custo, do contrário não haverá possibilidade de sobrevivência, mas isso não é um problema para mim, eu tenho dinheiro, eu posso comprar um rim, R$ 100 mil reais? Isso não é problema, eu sou o possuidor do dinheiro, eu vou ao mercado negro de órgãos e compro um órgão humano para mim, eu compro um rim; eu não vou mais morrer, comprei um rim para mim, eu estava quase morto, mas agora não estou mais porque eu sou o possuidor do dinheiro, aquilo que me permite comprar tudo quanto eu queira, até mesmo um órgão humano. 

E o dinheiro não atua só do ponto de vista da obtenção de objetos exteriores, ele também age sobre as capacidades e paixões humanas. Posso ser o mais ignóbil dos indivíduos, mas o dinheiro me torna um ser altivo, imponente, voraz. As minhas qualidades que deveriam ser as afirmações ontológicas do meu ser são invertidas pelo dinheiro, pois este atua como o inversor de todas as relações humanas. Aqui tivemos apenas uma introdução desta questão, vamos ver como Marx prossegue nesta exposição. 

 (...) [o dinheiro] é a divindade visível, a transmutação de todas as propriedades humanas e naturais no seu contrário, a confusão e a inversão de todas as coisas, ele confraterniza impossibilidades; (...) é a prostituta universal, o proxeneta universal dos homens e dos povos. A inversão e a confusão de todas as qualidades humanas e naturais, a confraternização das impossibilidades – a força divina – do dinheiro repousa em sua essência enquanto ser genérico – estranhado, exteriorizando-se e se vendendo – do homem. Ele é a capacidade exteriorizada da humanidade. O que eu homem não consigo, o que, portanto, todas as minhas forças essenciais individuais não conseguem, consigo-o eu por intermédio do dinheiro. O dinheiro faz assim de cada uma dessas forças essenciais algo que em si ela não é, ou seja, o seu contrário. (...) ele transforma meus desejos de seres da representação, os traduz da existência pensada, representada, querida, em sua existência sensível, efetiva, da representação para a vida, do ser representado para o ser real. Enquanto tal mediação, o dinheiro é a força verdadeiramente criadora. A diferença da demanda efetiva, baseada no dinheiro, e da carente de feito, baseada na minha carência, minha paixão, meu desejo, etc., é a diferença entre ser e pensar, entre a pura representação existindo em mim e a representação tal como ela é para mim enquanto objeto efetivo fora de mim. (...) . Como o dinheiro (...) confunde e troca todas as coisas, ele é então a confusão e a troca universal de todas as coisas, portanto, o mundo invertido, a confusão e a troca de todas as qualidades naturais e humanas. (...). Como o dinheiro não se permuta por uma qualidade determinada, por uma coisa, por forças essenciais humanas, mas sim pela totalidade do mundo objetivo humano e natural, ele permuta (...) cada qualidade por outra – inclusive atributo e objeto contraditórios para ele; ele é a confraternização das impossibilidades, obriga os contraditórios a se beijarem. (MARX, 2004, p.159,160 e 161). 

O dinheiro atua como o inversor de todas as qualidades naturais e humanas, como se pode ler acima Marx chega a chamar o dinheiro de divindade visível, isso acontece por causa do poder quase sobrenatural que o dinheiro exerce sobre o homem no capitalismo. E de onde vem o poder do dinheiro? De algo que nós já mencionamos: ele vem da sua essência enquanto representante da capacidade operativa genérica do homem, isto é, o poder do dinheiro vem de seu poder de adquirir tudo aquilo que é resultado da produção material humana. O dinheiro se interpõe entre sujeito e objeto. Observe o esquema abaixo: 

1) Homem – trabalho - objeto (ou produto do trabalho);

2) Homem – dinheiro – objeto (ou produto do trabalho) 

Não há mais aqui a relação natural estabelecida entre trabalho e produto do trabalho, a relação direta entre produtor e produto. O que observamos é que toda a capacidade genérica específica do homem, se converte na capacidade de compra do dinheiro. A exteriorização do homem, a extrusão de sua essência em algo que é resultado de sua criação não existe mais em sua condição natural, na sociedade dominada pelo dinheiro e pelas mercadorias – ou seja, no capitalismo -, o que predomina é a transferência da essência do homem enquanto ser genérico para o dinheiro. 

É evidente que isso é resultado da relação estabelecida entre trabalhador e capitalista, na medida em que o trabalhador se aliena do produto do seu trabalho. Ora, se o objeto que é resultado de minha capacidade genérica não me pertence mais, se ele pertence ao capitalista, e se este, por sua vez, leva este objeto para o mercado, é claro que ao chegar lá o objeto será daquele que o comprar. A essência do dinheiro enquanto ser genérico repousa na existência da apropriação privada do produto do trabalho, que está fundada nos quatro tipos de estranhamento, que serão objeto de nossa análise em outro momento. 

Deste modo todas as capacidades humanas in potentia só se tornam efetivadas por meio do dinheiro. Eu sou um homem inteligente, mas sou um homem pobre, não tenho as condições sociais favoráveis para desenvolver essa minha capacidade, pois como sou pobre tenho que trabalhar, trabalho na fábrica cerca de 10 horas por dia, minha inteligência não se efetiva eu não tenho tempo para estudar; de potência efetiva a minha inteligência se transforma em abstração, potência abstrata. 

Em contrapartida há aqueles que possuem dinheiro, mas são estúpidos, imbecis, não possuem qualquer capacidade no âmbito da intelectualidade humana, mas...eles possuem dinheiro! Eu possuo tempo livre para estudar, posso pagar o melhor dos professores, posso comprar os melhores livros; viajo para as melhores universidades do mundo, faço os mais diversos cursos. De homem bruto eu me torno um homem fino, educado, elegante, inteligente. A minha potência que se manifestava apenas no âmbito da abstração, do pensamento, se concretiza socialmente, se torna efetividade, algo concreto. 


É a diferença entre ser e pensar, entre aquilo que existe apenas no meu pensamento, como potencialidade abstrata, e aquilo que existe fora de mim como algo concreto, como exterioridade concreta à minha corporeidade física. Eu posso vir a ser um homem inteligente, é algo que se mostra como a afirmação ontológica da minha própria individualidade, como algo que constitui o meu ser; mas se isso não se efetiva concretamente no mundo que existe exteriormente a mim, se isso não se mostra como efetivação concreta na realidade social essa potencialidade é apenas pensamento. A efetivação desta capacidade é o meu ser real, e esta efetivação depende do fato de eu possuir a manifestação social do ser genérico, o dinheiro. 

Dado isso, o dinheiro tem o poder de inverter todas as qualidades naturais humanas, isto é, transformar estas qualidades naturais em “não-qualidades”; todas as potências e qualidades humanas são invertidas no mundo em que o dinheiro assume a forma de divindade visível. Aqui percebemos como há um paralelo entre a crítica à alienação religiosa e a crítica à alienação social; os Manuscritos foram escritos em 1844, mas alguns meses antes nosso filósofo escreve a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução, mais precisamente em dezembro de 1843, neste escrito o autor expõe a ideia de que a religião é o mundo invertido, no sentido mesmo de que é uma consciência invertida do mundo [Nota:2]. Lá reina a divindade invisível, Deus. Aqui, no terreno da realidade social reina a divindade visível, o dinheiro. Assim como o mundo da religião é um mundo invertido, o próprio mundo real encontra-se virado de cabeça para baixo na medida em que ele não é a manifestação consciente da capacidade produtiva dos homens, ou seja, na medida em que as potências humanas só são potências mediante a confirmação prática por meio do dinheiro. 

No mundo em que reina o dinheiro o amor não é trocado por amor, confiança por confiança, alegria por alegria, ao contrário, todas estas manifestações ontológicas do ser são invertidas, ao ponto de que todas elas se tornam mercantilizadas o bastante para serem convertidas no seu contrário, pelo poder do dinheiro. E aqui o dinheiro tem o poder de adquirir a totalidade do mundo “natural e humano” como diz Marx, então ele pode fazer com que ódio e amor se confraternizem, confiança por desconfiança, alegria com tristeza, etc.

 Aqui encontramos os traços da crítica ética que Marx realiza ao capitalismo, pois a sociedade capitalista é, por natureza, a sociedade que transforma todas as relações humanas – desde as mais naturais – em relações pútridas, baseadas no uso e no interesse egoístico dos indivíduos singularmente entendidos. Ela é uma crítica ao capitalismo do ponto de vista ontológico na medida em que este, dado o poder divino do dinheiro, torna impotente as potências do meu ser; ela é uma crítica do ponto de vista ético na medida em que o dinheiro transforma as relações naturais humanas em relações artificialmente invertidas. 

Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um [comportamento] humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se tu quiseres fruir da arte, tens de ser uma pessoa artisticamente cultivada; se queres exercer influências sobre outros humanos, tu tens de ser um ser humano que atue efetivamente sobre os outros de modo estimulante e encorajador. Cada uma das tuas relações com o homem e com a natureza – tem der ser uma externação determinada de tua vida individual efetiva correspondente ao objeto da tua vontade. Se tu amas sem despertar amor recíproco, se mediante tua externação de vida como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelicidade. (MARX, 2004, p.161)


Notas:
1. “Agora temos, portanto, de conceber a interconexão essencial entre a propriedade privada, a ganância, a separação de trabalho, capital e propriedade da terra, de troca e concorrência, de valor e desvalorização do homem, de monopólio e a concorrência etc., de este estranhamento (Entfremdung) com o sistema de dinheiro”. (MARX, 2004, p.80)

2. “Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido”. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução in Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Editora Boitempo, 2013.

Bibliografia: 
MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Editora Boitempo, 2004.

__. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução in Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 3.ed. São Paulo: Editora Boitempo, 2013

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19, Por Bárbara Batista

Crônica



Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19
Por Bárbara Batista

“Porque a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só 
passageiro prestes a partir...”

Em tempos de pandemia da COVID-19, muitos rostos conhecidos estão partindo, muitos estão indo cedo demais ou “viveu tempo o suficiente”. O nosso futuro ainda incerto, as dúvidas estão no nosso presente e nos causam sofrimento, o medo do que será de nós daqui para frente.

Nesses dias, diante de tantos acontecimentos, me veio a reflexão sobre a vida e a tão temida morte, afinal de contas, não gostamos de pensar que isso tudo um dia terá um fim. Porém, é inevitável não observar a linha tão tênue entre a vida e a morte. É o ciclo que nos recusamos a acreditar, mas, sempre estará aqui e sempre existirá.

Por nos recusarmos, acabamos não aproveitando determinados momentos com aquelas pessoas que amamos, pois sempre acreditamos que seremos agraciados com o amanhã. E se esse amanhã não chegar? O que você fez de bom para o mundo e para as pessoas que você amou? Você conseguiu cumprir com os objetivos que você traçou ao longo da sua vida?

A morte não se resume ao parar de respirar e acabar tudo, ainda deixamos o nosso legado mesmo após a morte, com isso também vem o luto. Ah, esse luto... É um sabor amargo que dá um nó na garganta, tudo dói, é muito duro você ser ciente que nunca mais verá aquela pessoa e com ele vem o sofrimento, a sensação que poderia ter feito mais.

Esses dias vivenciei uma experiência tão profunda, tão dolorosa, além do COVID-19, ainda existem outras tantas doenças que sentenciam diariamente pessoas a morte, como por exemplo, o câncer. Perdi um amigo para o câncer, assim, como pessoas bem próximas a mim também perderam pessoas que amavam tanto e pude acompanhar bem de perto.

Essas doenças a maioria das vezes, como citei, é uma sentença de morte o pior disso tudo: são sentenciados sem ter cometido algum crime. O hospital é o presídio, os corredores exalam a morte e o tempo parece correr para a morte chegar mais rápido.

Vi a morte de perto, é impressionante como ela tem tantas faces e uma delas era de uma pessoa qual não tinha vínculo, porém, tinha vínculo com pessoas que amo. É doído ver como as coisas simplesmente mudam de uma hora pra outra, tudo pode melhorar ou piorar num piscar de olhos, assim foi a chegada do fim da vida para essa pessoa: minutos a fio de sofrimento até a sua respiração parar.

O corpo não reage os comandos, a respiração para e o que ainda resta é apenas a reação espontânea do corpo em liberar seus fluídos. Enfermeiros correm, quem acompanha chora e em oração pede para a pessoa não morrer, tentam ressuscitar, porém, sem sucesso e se constata o tão temido óbito. Mais choro, mais dor e as seguintes perguntas: Por que ela tinha que morrer? Ela estava tão bem! Como isso pôde acontecer de uma hora pra outra? 

Em tempos de COVID-19 o sofrimento é maior, além de não poder ter aglomeração, a burocracia no cemitério aumentou por conta do aumento no número de sepultamentos, tornando o processo demorado. A despedida tornou-se mais curta, pois poucas pessoas podem acompanhar o enterro.

A realidade que nos recusamos a aceitar é que nascemos para morrer, que tudo morre, que nós morreremos e que não há nada até o momento que impedirá isso. E como dói saber que isso tudo terá um fim.

sábado, 2 de maio de 2020

A tentativa de depuração da obra de Marx, por Gabriel Henrique

Ensaio

A tentativa de depuração da obra de Marx
Por Gabriel Henrique

“Dá-se com a doutrina de Marx, neste momento, aquilo que, muitas vezes, através da História, tem acontecido com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos dirigentes do movimento libertador das classes oprimidas. Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para “consolo” das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o.” (Lênin, O Estado e a Revolução, 1917).

Estas palavras de Lênin, que estão presentes no começo de “O Estado e a Revolução” nunca foram tão atuais e verdadeiras; a obra de Marx, desde há algum tempo, tem sido alvo de “depuração” por parte das classes dominantes de todos os países. Trata-se da tentativa de enfatizar o aspecto “atual” da obra de Marx, sempre deixando claro que o caminho revolucionário, apontado por ele, de superação do capitalismo, foi um caminho fracassado.

Em O Capital, sua obra mais importante, Marx coloca que o capitalismo se baseia na existência de milhões de despossuídos, que por não terem meios de produção têm de vender sua força de trabalho àqueles que são detentores privados destes meios de produção, os capitalistas. Ora, ao estabelecer essa relação formal de venda da força de trabalho, por meio de um contrato firmado entre ambas as partes, o capitalista, como comprador, passa a dispor do consumo dessa força de trabalho, de modo que ele faz o trabalhador trabalhar mais do que necessita para repor o salário firmado em contrato, em uma determinada parte de seu tempo de trabalho ele trabalha de graça para o patrão, essa é a mais-valia.

Neste mesmo livro, na “lei geral da acumulação capitalista”, Marx constata que, no capitalismo, ao mesmo passo que se segue a criação de riqueza, se segue a criação de miséria. Haverá sempre uma massa de trabalhadores supérfluos às necessidades do capital e sujeitos ao pauperismo mais gritante, trata-se dos desempregados; aos trabalhadores que conseguem se empregar a exploração crescente, seja em extensão ou intensão, será a tônica, por mais velada que esteja.

Mas nada do que fora exposto acima é o que exatamente causa horror à burguesia, não é a crítica que Marx faz ao modo de produção capitalista enquanto um sistema que só sobrevive às custas da miséria de milhões para enriquecer um punhado de ricaços que causa estupefação na classe dominante; o que antes é um horror e um crime para a burguesia, caso de polícia, é que Marx tenha mostrado que as atuais relações de produção – baseadas na propriedade privada dos meios de produção – são relações históricas e que, portanto, são relações passíveis de superação, podem dar lugar a outras formas de sociabilidade; a possibilidade da revolução socialista, levada a cabo pelos trabalhadores, é o que causa horror à burguesia.

A constatação de que o regime capitalista, baseado no trabalho assalariado, não é um regime eterno; de que os trabalhadores podem, e devem, mudar o curso da história, tomar o seu destino nas suas próprias mãos, é isso que é inconcebível para aqueles que vivem na riqueza às custas do trabalho dos outros, às custas do trabalho de milhões de trabalhadores.

No atual quadro conjuntural brasileiro a crise cíclica do capitalismo mundial se somou à pandemia sem precedentes do Coronavírus, cujas consequências prometem ser brutais à acumulação capitalista mundial. A agenda de Bolsonaro e Guedes, que não é nada mais que a agenda da coalização burguesa no poder, já caminhava, antes da crise, no sentido de baratear a força de trabalho, assaltar o Estado brasileiro e recrudescer o regime; a partir de agora terá motivos de sobra para acelerar essa agenda. Não há para onde correr, a crise cíclica do capitalismo virá acompanhada de forte arrocho salarial em cima dos trabalhadores, cuja precarização e pauperização serão cada vez maiores. Destarte, tal conjuntura tem mostrado que a necessidade de uma revolução brasileira nunca esteve tão explícita, é momento de mostrar que nós sabemos construir um país com os trabalhadores e para os trabalhadores. 

Neste sentido, para os comunistas brasileiros, a vida de Marx, uma vida de luta, dedicada à revolução social, à luta dos trabalhadores, é fonte de inspiração e, mais do que isso, sua obra é a arma teórica pela qual nós podemos compreender e atuar sobre a realidade. Pois sabemos que “a teoria também
se torna força material quando se apodera das massas”. (Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução, 1843).

À tentativa de depuração da obra de Marx – de torná-lo um autor “atual”, mas inofensivo – promovida sistematicamente pelos veículos de imprensa burgueses, no bojo das comemorações em torno dos 202 anos de seu nascimento, respondemos com uma citação do próprio revolucionário alemão: “Para nós, não se trata de reformar a propriedade privada, mas de aboli-la; não se trata de atenuar os antagonismos de classe, mas de abolir as classes; não se trata de melhorar a sociedade existente, mas de estabelecer uma nova.” (Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas. Karl Marx / Friedrich Engels Março 1850).