sábado, 10 de agosto de 2019

Marcos Frederico, o novo imortal da cadeira 30


LITERATURA


Marcos Frederico, o novo imortal da cadeira 30
Por Breno Lacerda

  Em 08/07/2019, na Academia Amazonense de Letras, tomou posse da cadeira número 30, cujo patrono é Araripe Júnior, o Professor Doutor, e agora imortal, Marcos Frederico Krüger Aleixo. O acadêmico já havia sido eleito no final de abril em resposta ao edital 03/2017, na sucessão do escritor Armando Menezes. Conduzido ao Salão principal pelos acadêmicos Aldísio Figueiras e Max Carphentier, ao som de efusivos aplausos, teve assento de honra entre seus confrades. A sessão solene iniciou-se com o discurso do presidente da casa, Robério Braga, que teceu palavras gentis ao nobre homenageado. 

  O público estava composto de familiares, amigos de profissão, colegas de departamento, professores, ex-alunos, alunos e intelectuais. Apesar da plateia numerosa, a ausência de alguns convidados foi sentida. Pela estatura do intelectual no contexto manauara, por sua representatividade na área de letras e pela prole de profissionais que ajudou a partejar, os bancos vazios foram no mínimo uma deselegância com o mestre. Mas nada disso menoscabou a noite festiva de sua posse. 

  Ao subir na tribuna para pronunciar seu discurso, um fato humorado ocorreu ao imortal. A gravata borboleta que enfeitava seu traje a rigor desprendeu-se por um instante, a despertar risos respeitosos dos presentes. Visivelmente emocionado, proferiu um discurso numa linguagem clara e sensível, sem recorrer às formalidades estéreis da língua. Deu uma aula sobre o patrono da cadeira n° 30, Araripe Júnior. Ressaltou as qualidades de romancista e crítico literário do eminente cearense, sempre a lembrar de suas limitações ideológicas. Ao mencionar Armando Menezes, rememorou o legado deixado no convívio de seus pares, constituído a partir de afeto e conversas marcantes. 

  Entretanto, o mais impressionante para mim e aos demais presentes, foi à centralidade do seu discurso de posse, tão íntimo e ao mesmo tempo tão universal nos dias de hoje. Nesta parte, a melhor, sem dúvidas, colocou a leitura e o livro no cenáculo de sua formação intelectiva, numa espécie de poema contra as veleidades do mundo contemporâneo. Criticou as novas formas de distração, as quais afastam os indivíduos dos livros, levando-os a um alienamento. Uma alusão à Indústria cultural, uma máquina macabra criadora de aparvalhados, discussão feita pelos membros deste blog.

  Suas palavras ainda fizeram referência aos grandes nomes da Literatura brasileira. Citou de Machado de Assis a Guimarães Rosa, autores que o formaram dentro das letras nacionais. Não se esqueceu das obras produzidas no Estado do Amazonas, as quais incorporam o caudal de seus escritos. Principalmente a mitologia embrenhada na cultura cabocla da Amazônia. Mencionou, ainda, os escritores da revista Sirrose e do Bodozine, ressaltando que são grupos de resistência e rebeldia a todas as formalidades. Ao finalizar embargou as lágrimas prendendo-as na garganta, lembrou-se de seus pais, eternizados na memória do mestre amazonense. O discurso que se pretendia curto, estendeu-se a emocionar os convidados. 

  A recepção do acadêmico ficou a cargo do confrade Zemaria Pinto, ex-aluno e amigo do mestre, que exaltou suas qualidades mais insignes. Começou lembrando a dedicação do novo imortal à docência, o seu tratado delicado com seus alunos, a argúcia ao instruí-los e a paciência em orientá-los. Destacou também sua qualidade como escritor, preferencialmente no gênero ensaístico. De sua lavra destacam-se duas obras primordiais para os estudos da literatura produzida no Amazonas: Amazônia: mito e literatura (2003) fruto de sua tese de doutorado na PUC-RJ e referência obrigatória para os estudos de mitologia amazônica; A sensibilidade dos punhais, que lhe rendeu o prêmio L. Ruas da prefeitura de Manaus no ano de 2007, categoria de melhor ensaio na área de letras. Trabalho no qual o professor investiga a presença do mar na poesia escrita na Amazônia. 

  Finda as solenidades, a Academia Amazonense de Letras ofereceu um Buffet regado a vinho e quitutes a todos os convidados. Foi um momento de conversas, observações, apontamentos e também de registros fotográficos. O professor e acadêmico Marcos Frederico atendeu a todos, com sorriso cordial e uma saudação singela àqueles que lhe procuravam. 

  As observações transcritas aqui foram seletivas, sempre a procurar o registro dos momentos mais relevantes da noite. A todos aqueles que quiserem conhecer o trabalho do professor Marcos Frederico Kruger Aleixo, sugiro uma busca pelo seu nome no currículo Lattes e em periódicos nos quais ele publicou seus artigos, sem falar em seus livros presentes nas livrarias e sebos de Manaus. 

Salve, Mestre Frederico! 

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

ASPECTOS FRAGMENTÁRIOS E LACUNARES NA OBRA SATÍRICON, DE PETRÔNIO, E NO FILME FELLINI SATYRICON, DE FEDERICO FELLINI

Literatura e Cinema

ASPECTOS FRAGMENTÁRIOS E LACUNARES NA OBRA SATÍRICON, DE PETRÔNIO, E NO FILME FELLINI SATYRICON, DE FEDERICO FELLINI*

Por Luana Aguiar Moreira

INTRODUÇÃO
Em Roma, a prosa literária inicia-se a partir de uma preocupação estética no trato com a linguagem. Ela desenvolve-se, principalmente, a partir do contato com a cultura helenística, devido ao rigor poético mais elevado desta. Segundo Cardoso (2011, p. 04-05), a partir deste contato, “nasce a verdadeira literatura latina. [...]. Tenta-se, pois, atingir o nível dos modelos que vêm de fora, e, se possível, superá-los. A luta foi árdua, mas em muitos casos, a literatura latina conseguiu ser criativa e original”. Satíricon (século I d.C.), de Petrônio, insere-se nesse período e é considerado o primeiro romance em língua latina (CARDOSO, 2011, p. 126), embora, hoje, tenhamos apenas algumas partes dos livros XIV, XV e XVI da obra. As informações a respeito da vida de Petrônio são escassas e incertas. Segundo Cardoso (2011), os estudos tradicionais afirmam que o autor pode ter sido Caius ou Titus Petronius (Caio ou Tito Petrônio), com apenas a data de falecimento definida: 56 d.C. Neto (2016), na apresentação da edição de Satíricon utilizada neste estudo, refere-se ao autor como Petrônio Árbitro. Ambos os estudiosos afirmam que ele teria vivido no tempo de Nero, imperador romano, ou até mesmo trabalhado em sua corte, entre os anos 54 e 68 d.C. Neste artigo, daqui em diante, nos referiremos ao autor apenas como Petrônio, a título de padronização.
À fragmentação da obra de Petrônio é possível atribuir, no mínimo, dois motivos: o primeiro é a própria perda, devida ao tempo, de partes da narrativa; o segundo ocorre em função do seu caráter oral, principal característica da origem da poesia latina. De acordo com Cardoso (2011, p. 03), “entre as velhas culturas mediterrâneas, de origem indo-europeia, as mais antigas manifestações de poesia se associam invariavelmente à música”, que tinham como base o verso – sobretudo o satúrnio, na Itália central. Os cânticos latinos, embora não sejam considerados como formas literárias consolidadas, foram os primórdios da literatura latina, “embriões literários anunciando, já, os futuros gêneros: o épico, o dramático, o lírico, o satírico e o didático” (CARDOSO, 2011, p. 04). A história da literatura latina nos evidencia que era mais comum as histórias serem escutadas, apreciadas oralmente, do que lidas, e só posteriormente serem registradas pela escrita – como no caso das epopeias de Homero, por exemplo. Tal fato pode ter tornado, de certa forma, desnecessário desenvolver uma narrativa tão conexa a respeito da história de Satíricon, afinal, todos os leitores (isto é, ouvintes) supostamente já conheciam os caminhos da narrativa.
Porém, a despeito de sua incompletude, Satíricon ainda é obra literária tanto de deleite, quanto de estudos e influências para a nossa sociedade, mesmo após, pelo menos, dois milênios de sua escrita. Em 1969, o cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) dirigiu seu décimo terceiro filme, Fellini Satyricon, uma adaptação do romance de Petrônio. Este artigo pretende comparar, identificar e analisar elementos da adaptação cinematográfica de Satíricon, dando enfoque aos aspectos fragmentários e lacunares de ambas as obras e de que formas elas se articulam entre si, tendo em vista que o filme não é somente uma adaptação subjugada à sua fonte “de origem”, isto é, o romance, mas sim uma recriação realizada por um tradutor (cineasta) que estabelece um diálogo com a obra literária.

APONTAMENTOS PRELIMINARES: DA LITERATURA AO CINEMA
No campo de estudos de Literatura Comparada é possível realizar pesquisas que vão além da análise entre literatura propriamente dita, mas também investigar a relação de obras literárias com outros meios artísticos, como a pintura, a música, o cinema etc. Segundo Tânia Carvalhal, em Literatura comparada (2006, p. 74), “esses trabalhos expressam a tendência comum de ultrapassar fronteiras, sejam elas nacionais, artísticas ou intelectuais, mas igualmente de explorar o imbricamento da literatura com outras formas de expressão artística e outras formas de conhecimento”. Isto é, “os estudos interdisciplinares em literatura comparada instigam a uma ampliação dos campos de pesquisa e aquisição de competências” (p. 74). Como será observado neste artigo, a relação entre a literatura e o cinema, como Carvalhal afirma, é uma forma de ultrapassar fronteiras, expandir horizontes entre as artes, e identificar pontos de semelhanças nas diversas manifestações artísticas.
No que diz respeito à adaptação cinematográfica, neste artigo, consideramos, como base para compreensão, A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação (2008), de Robert Stam, e o artigo de Ismail Xavier intitulado “Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema” (2003). Ambos os autores partem da mesma perspectiva de análise quanto à ideia de dialogismo e interação entre campos semióticos distintos – neste caso, a literatura e o cinema.
Segundo Stam (2008), a passagem ou adaptação de uma linguagem para outra implica, instantaneamente, em modificações. Entende-se que literatura e cinema trabalham com dois tipos de linguagem distintos: a primeira, dando maior valor à linguagem verbal; já a segunda, à linguagem não-verbal. Em outras palavras, a literatura trabalha com a palavra e o cinema com as imagens, sons, entre outros mecanismos. Assim, segundo o autor, a ideia de fidelidade ao romance – tão discutida pela crítica tradicional – não deve ser levada em consideração, tampouco ser o ponto de partida para análise, pois ambos os textos possuem uma interação dialógica. O que, de fato, merece destaque são as diversas interpretações geradas a partir destas, visto que
 a passagem de um meio unicamente verbal como o romance para um meio multifacetado como o filme, que pode jogar não somente com palavras (escritas e faladas), mas ainda com música, efeitos sonoros e imagens fotográficas animadas, explica a pouca probabilidade de uma Fidelidade literal, que eu sugeriria qualificar até mesmo de indesejável (STAM, 2008, p. 20).
Xavier (2003, p. 62) corrobora essa ideia quando afirma que “livro e filme estão distanciados no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente a mesma sensibilidade e perspectiva”. O eixo comum entre a literatura e o cinema, segundo o autor, é a narrativa: “o filme narrativo-dramático, a peça de teatro, o conto e o romance têm em comum uma questão de forma que diz respeito ao modo de disposição dos acontecimentos e ações das personagens” (XAVIER, 2003, p. 64). Todos têm como princípio a narração, isto é, contar uma fábula. O que muda é a maneira como cada escritor ou diretor de cinema desenvolverá a forma de contá-la – o que se constitui a trama. Nas palavras do autor:
Um filme pode exatamente estar mais atento à fábula extraída de um romance, tratando de tramá-la de outra forma, mudando, portanto, o sentido, a interpretação das experiências focalizadas. Ou pode, no outro pólo, querer reproduzir com fidelidade a trama do livro, a maneira como estão lá ordenadas as informações e dispostas as cenas sem mudar a ordem dos elementos (XAVIER, 2003, p. 67).
Tomemos de início o enredo do romance de Petrônio: no livro, narra-se as histórias do jovem estudante romano Encólpio (que é protagonista e narrador), Ascilto, seu amigo, e Gitão, o “irmãozinho” e amante disputado pelos dois colegas. A história inicia-se em uma escola de retórica, onde Encólpio ouve o discurso de seu professor Agamênon. Depois, Encólpio narra as diversas peripécias dos jovens ao longo do banquete de Trimalquião, um novo-rico romano, até a fuga de Encólpio, Gitão e Eumolpo (um velho poeta incompreendido) à cidade de Crotona, após o terrível naufrágio do barco de Licas e Trifena. Como já observado, o romance permanece fragmentado (ao todo, são 141 pequenos capítulos), deixando uma série de lacunas ao longo da narrativa. Tal elemento foi fundamental para a sua recriação no cinema através do olhar de Fellini, pois deu-lhe abertura ora para introduzir narrativas transversais, ora para compor uma obra fragmentada e desconexa.
Neste sentido, Federico Felllini, ao traduzir o romance de Petrônio, o transpõe para outro universo, além das letras: o da expressão. Isto é, a imagem e a expressão vão sobrepor-se ao diálogo entre as personagens – o que é bastante comum no romance. Em Fellini por Fellini (1983, p. 93), o próprio diretor afirma o lugar do diálogo na sua obra: “A função do diálogo é unicamente de informação. Penso que no cinema, vale mais a pena utilizar outros elementos, como iluminação, objetos, o cenário no qual se desenrola a ação, que têm muito mais expressão que páginas e páginas de diálogo”. Assim, se por um lado os diálogos não são frequentes (e, quando ocorrem, são muitas vezes transformados em solilóquios que, por sua vez, são mais expressivos, visto que é uma categoria do gênero dramático), por outro temos um excesso de imagens, cores, jogos de iluminação, expressões, cortes de imagens, efeitos sonoros, entre outros elementos do cinema que compõem o universo e a “marca” do autor. Mais significativo ainda é compreender os diversos olhares sobre Roma, que Fellini tanto busca apresentar em suas obras: La Dolce Vita (1960), Roma (1973), Amarcord (1973), Giulietta degli spiriti (1965), entre tantos outros filmes que abordam a capital italiana de modo imaginário e simbólico, à luz das interpretações do cineasta. A Figura 1 a seguir, ilustrando um momento do banquete de Trimalquião, exemplifica essa verificação:

Figura 1 - Banquete de Trimalquião
Fonte: Fellini, 1969.

Os personagens vez ou outra direcionam seus olhares para a câmera sem, no entanto, olharem diretamente para ela. As cores do vestuário, do espaço e de suas maquiagens são extravagantes. Além disso, é realizado um jogo de iluminação e sombras (como na imagem acima, entre Fortunata e os jovens “serventes”) e de música, ruídos e sons distorcidos. Tudo isso pode ser associado a certo ambiente surrealista e mágico, compondo o ideal de recriação proposto pelo diretor – a sua própria Roma. Nota-se, dessa forma, a visão adotada para recriar Satíricon, baseada em elementos expressivos, em contraste, por sua vez, com a obra “original”, estruturalmente escrita e baseada em descrições, diálogos e narrações. Abre-se, assim, um campo de interpretações possíveis.

LACUNAS, FRAGMENTOS E RECRIAÇÃO
Em sua totalidade, Fellini Satyricon pode ser dividido em nove sequências narrativas que não apresentam, necessariamente, uma conexão entre si. Várias são as cenas em que ocorrem cortes abruptos, assim como na narrativa de Petrônio. Por exemplo, quando Gitão decide permanecer com Ascilto em vez de Encólpio, este pensa em se matar. Essa interpretação, no entanto, é subjetiva, uma vez que não fica clara, no filme, a intenção da personagem de se matar. Encólpio, encolerizado e sem saber o que fazer diante de tamanho desgosto, apenas olha para o gládio sobre a mesa, momentos antes do terremoto. Apesar disso, é possível subentender como um pensamento de suicídio, uma vez que é frequente, no romance, a tentativa tanto de Encólpio quanto de Gitão de tirarem a própria vida (mesmo que todas tenham sido fracassadas). Um exemplo é quando Encólpio tenta enforcar-se: “Encerrado, decidi dar cabo da vida por enforcamento” (PETRÔNIO, 2016, p. 139); porém, no mesmo instante, Gitão entra no quarto, o livra da morte e, em seguida, procura o mesmo objetivo: “Você muito se engana, Encólpio, se acha que vai morrer antes de mim [...] E para que saiba que a morte não está longe dos que a procuram, assista você mesmo ao espetáculo que quis me obrigar a ver” (PETRÔNIO, 2016, p. 139).
No entanto, um terremoto irrompe e é gerada grande destruição das instalações. Abruptamente, o filme é “cortado” para quando Encólpio, ao admirar peças de arte em uma galeria, encontra o velho poeta Eumolpo. A sequência não é mantida e o espectador não tem mais acesso tanto ao desenvolvimento da narrativa anterior quanto ao seu próprio espaço de realização.
De forma semelhante, tal fenômeno ocorre em outros momentos do romance. Após ter sobrevivido ao naufrágio do navio de Licas Tarentino e Trifena e estabelecer-se na cidade de Crotona com Gitão e Eumolpo, Encólpio passa a ter problemas de impotência. Embora a situação seja tragicômica, ao conversar com Gitão, o jovem sente repulsa de si e confessa a seu “irmãozinho”: “Está morta aquela parte do meu corpo que fazia de mim um Aquiles” (PETRÔNIO, 2016, p. 199). Diante do fracasso de seu desempenho sexual, escreve a Circe – a mulher que não conseguiu possuir – envergonhado e pedindo perdão: “Cometi uma traição, assassinei um homem, violei um templo: em função desses crimes, seja determinado o castigo. Se a morte lhe apraz, apresento-me com a espada; se o açoite lhe parecer suficiente, corro até aí já nu” (PETRÔNIO, 2016, p. 200, grifo nosso). O leitor, no entanto, desconhece que assassinato e violação de templo a personagem se refere, ficando a cargo do cinema, já no século XX, de desevolver este espaço e dar voz a novas interpretações e narrativas, através do olhar de um diretor de cinema.
Assim, em Fellini Satyricon, é inserida uma nova narrativa, uma espécie de “preenchimento” dessa lacuna: o sequestro do semideus, no qual ocorrem, de fato, dois assassinatos. Encólpio e Ascilto, juntamente de um homem (personagem sem nome, que estava presente no local), sequestram um semideus hermafrodita, que dormia em seu leito. Entretanto, no meio do caminho, o semideus falece, devido à exposiçao ao sol e falta de água. O homem que os acompanha enfurece-se e tenta matar Ascilto, acusando-o de ter assassinado a divindade. Encólpio, então, ataca o homem, para proteger o amigo. Os dois abandonam os dois corpos e retomam seus caminhos.
Um último elemento a ser analisado é a cena final. Em sua maioria, os filmes de Fellini não apresentam desfechos; suas cenas finais são abertas, não apresentando uma resolução para a narrativa desenvolvida. Esse mecanismo deixa sua “obra aberta” – ideia proposta por Eco (1991) – a quem assiste, sob um efeito de estupor e, ao mesmo tempo, inquietação, embora o próprio cineasta não ambicione filmes ou cenas finais grandiosas. As cenas finais de Otto e Mezzo (1963), um “espetáculo” de circo executado por todos os personagens do filme, como uma grande paródia da própria exibição deste, e La Dolce Vita (1961), no qual, numa praia, um grupo de jovens encontra uma arraia à beira da morte e, em seguida, ocorre a conversa incompreendida – devido ao barulho das ondas – entre o Marcello Rubini e uma jovem do outro lado da praia, são alguns exemplos de cenas abertas e representativas do cinema de Fellini.
Também em Fellini Satyricon esse método não seria diferente. Na cena final, Encólpio, após embarcar no navio acompanhado pelos escravos do falecido Eumolpo, segue em direção à África. A única imagem que vemos é do alto-mar e é narrada por ele:
– Largamos âncora nessa mesma noite, com vento pela popa. Deixamos Eumolpo. Eu fazia parte da tripulação. A âncora retiniu nos leitos de enseadas de portos desconhecidos. Pela primeira vez, nomes como Kelicia, Rectis... E numa ilha coberta com erva de odor doce, um jovem grego contou-me que anos...
A sua fala, no entanto, é cortada repentinamente. A imagem de seu rosto aparece por apenas alguns segundos, assinalando um sorriso dissimulado, mas logo é transformada, aos poucos, em uma pintura. Ao recuar-se lentamente, o quadro expande-se e vamos reconhecendo os outros personagens – Gitão, Vernacchio (embora este não seja um personagem do romance, pois foi criado por Fellini, é um ator romano bastante conhecido, que comprou Gitão de Ascilto no início do longa), Ascilto, Eumolpo, Trimalquião, Fortunata, Enótea –, todos juntos, pintados nas paredes de ruínas à margem do mar Mediterrâneo. A partir da cena final de Fellini Satyricon, temos a impressão de sairmos do filme, do “mundo” da narrativa, e passamos a perceber-nos enquanto espectadores/leitores: existe um tempo-espaço da história de Satíricon e outro tempo-espaço de nosso universo, como mostra a Figura 2 a seguir:

Figura 2 - Cena final
Fonte: Fellini, 1969.

Indo mais além, podemos compreendê-la, inclusive, como uma representação da quebra de ilusão cinematográfica, do “sonho” do cinema, pois tomamos a noção de que os personagens são apenas personagens que estamos assistindo. A esse respeito, Fellini expõe o que essa plena consciência de si mesmos representa:
Em meus filmes não sugiro soluções, métodos, não proponho ideologias, limito-me a ser testemunha do que me acontece, e interpretar e expressar a realidade que me rodeia. Se através de meus filmes, quer dizer, reconhecendo-se neles, os espectadores alcançam uma plena consciência de si mesmo, supõe-se ter realizado esta condição de lúcida separação de si mesmos que é essencial para poder continuar fazendo escolhas, realizar modificações e transformações (FELLINI, 1983, p. 130).
Destarte, os personagens desenhados nos muros já o são tanto os de Petrônio quanto os de Fellini, pois fundem-se como único fio narrativo, e os destroços podem ser interpretados como uma alegoria para a passagem do tempo, a fragmentação da narrativa ou uma destruição iminente daquele povo, que existiu em um tempo longínquo e mágico – mas que se acabou. Ambos os elementos se unem e passam a compor um ideal apenas: uma narrativa distante e fragmentada, mas que, ao mesmo tempo, está presente em nosso imaginário e é recontada, ou recriada, pelo cinema.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As discussões a respeito da “transferência” de uma obra literária para o cinema, pela crítica especializada, parecem infinitas. A perspectiva mais tradicional considera, geralmente, a literatura como ponto de partida para a sua análise; como apenas um “roteiro” a ser seguido. No entanto, foi possível perceber, a partir do estudo realizado, o modo pelo qual o diálogo entre dois campos semióticos pode ser mais proveitoso, já que as manifestações artísticas (seja a literatura, o teatro, o cinema, a música etc.) e suas adaptações, ou até mesmo um hibridismo entre elas, gera maior riqueza interpretativa. Percebemos que ambas as obras abrem caminhos para novas interpretações artísticas, colocando em questão o formato da narrativa no cinema e na literatura. Mesmo essa sendo uma prática comum do cinema de Fellini, a fragmentação toma outra dimensão, quando utilizada a partir da obra de Petrônio, pois ele a utiliza como mecanismo de reinterpretação para a narrativa do romance que ficara fragmentado devido ao tempo ou, em segunda instância, devido à própria forma do romance naquele período histórico. Assim, ao comparar as obras Satíricon e Fellini Satyricon, criadas em períodos históricos, sociais e culturais completamente adversos, é possível verificar, ainda assim, suas dimensões que se cruzam a partir de uma releitura, a seu modo, sensível, simbólica e universal.

REFERÊNCIAS
CARDOSO, Zélia. A prosa literária. In: CARDOSO, Zélia. A literatura romana. 3. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. 4. ed. rev. e ampliada. São Paulo: Ática, 2006. (Série Princípios; 58).

ECO, Umberto. Obra aberta. 8. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.

FELLINI, Federico. Fellini por Fellini. Tradução de José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Hecker Filho e Zilá Bernd. Porto Alegre: L&PM, 1983.

FELLINI SATYRICON. Direção: Federico Fellini, Produção: Alberto Grimaldi. Itália: PEA, 1969.

NETO, João Angelo Oliva. Satíricon: sátira de quem? In: PETRÔNIO. Satíricon. Tradução de Alessandro Zir. 1. ed. Porto Alegre: L&PM, 2016.

PETRÔNIO. Satíricon. Tradução de Alessandro Zir. 1. ed. Porto Alegre: L&PM, 2016.

STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e arte da adaptação. Tradução de Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

XAVIER, Ismail. Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema. In: PELLEGRINI, Tânia et al. Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Editora Senac São Paulo: Instituto Itaú Cultural, 2003.

*Publicado originalmente na revista A MARgem. Disponível em: http://periodicos.ileel.ufu.br/index.php/amargem/article/view/333

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Conto DEMÉTRIO, de Matheus Cascaes

CONTO


sem título, de Giovanne Reis


DEMÉTRIO

Demétrio dobrava a esquina correndo, quando algo acertou em cheio o seu ouvido esquerdo, deixando-o completamente surdo desse ouvido. Imediatamente, imaginou se tratar de um acidente, pensou que muita gente podia ter visto o acontecimento e sentiu vergonha por aquilo que seria mais uma obra da sua ausência de coordenação motora.
Mal ouvia distante o riso falsamente contido de algum sádico que sempre está presente nos momentos em que alguma desgraça acontece, foi derrubado de supetão por uma rasteira violenta, de modo que não houve tempo para se recompor do primeiro baque, muito menos para amortecer a queda do segundo, e deu com a cara no concreto do chão.
Embora estivesse grogue, com a cara vermelha e molhada e com o nariz torto, fez ainda um esforço mental para vasculhar a mente à procura de alguém que teria motivos para agredi-lo. Talvez mesmo porque estivesse nesse estado, concentrou energias para um trabalho tão frívolo e inconveniente àquela situação, o que facilitou a ação de seu algoz, que imobilizou facilmente Demétrio, enquanto este ainda se encontrava de bruços, e montou sobre seu traseiro.
– Tira os tênis, moleque! – gritou o carrasco no ouvido bom de Demétrio, que, há tempos, não ouvia um epíteto daquele e que, até aquele momento, não imaginava que se sentiria tão impotente ao ser chamado por um nome normalmente direcionado a jovens.
Sem encontrar respostas, o agressor bufou e gritou mais uma vez e mais alto. À medida que gritava, Demétrio sentia a genitália de homem se enrijecer sobre suas nádegas, de forma que começou a pensar o quão vulnerável se encontrava naquela situação.
Antes do terceiro grito, Demétrio, sem saber como, arranjou forças, desvencilhou-se de seu adversário e retirou os tênis dos pés.
Pronto.
Como foi atingido muito de repente, ainda não tinha tido tempo para delinear direito o que estava acontecendo. Mas nos segundos de paz que se seguiram ao instante em que os tênis saíram de seus pés, tudo começou a fazer sentido na cabeça dele: era um assalto. Assim, imaginou que aquele gesto lhe devolveria a liberdade e o sossego subitamente surrupiados, o que não se sucedeu. O que ele sentiu foi seu couro cabeludo sendo fortemente esticado e seu rosto tornando a encontrar o concreto, uma, duas, três vezes.
– Por que está fazendo isso comigo?! Por favor, pare! – suplicou Demétrio, apelando para o diálogo, uma vez que as pancadas deixaram seus membros tão confusos que não conseguiria mais usar de sua força física para se defender.
Foi então que uma mulher ao longe pareceu ouvir as súplicas e gritou desesperadamente:
 – Larga ele! Já está bom!
Um velho mais próximo da cena, como que reagindo aos gritos da mulher, num tom bem mais ameno, forçando uma piedade, emitiu um:
– Ele já aprendeu. Não precisa matar.
E a palavra matar atingiu Demétrio mais forte que qualquer baque que havia levado até então. Não imaginou em nenhum momento, durante a surra, que morreria. Não imaginava o que tinha feito para merecer a morte. Então, desesperou-se e começou a gritar:
– Eu não fiz nada! Eu não fiz nada! Deve ter sido algum engano!
Nenhuma súplica deu certo. Só percebeu que estava rodeado de gente quando começou a sentir vários chutes atingindo suas costelas como picadas de abelhas revoltadas por alguém ter atingido a colmeia. Muitas pessoas o chutavam. Não conseguiu nem reconhecer o homem que o agredira primeiro em meio a todos aqueles pés que vinham em sua direção. Aliás, não reconhecia ninguém. Com a cabeça presa ao chão, pela bota de algum dos agressores, Demétrio só via pés borrados e um turbilhão colorido de cinza e vermelho.
Não adiantava suplicar. Muita gente estava ali e sabia que ele sofria. Se nada parava, era porque ninguém achava realmente que aquilo devia parar.
Três tiros para o alto fizeram com que a rodinha se dispersasse. Demétrio reconheceu então quatro botas de couro aproximando-se dele e nunca pensou que sentiria um alívio ao vê-las.
– O que aconteceu? – perguntou a voz acima de uma delas.
– Não sei... – Demétrio, caído, ia respondendo à pergunta do policial, mas interrompeu-se quando outra voz que falava denunciava que a pergunta não havia sido direcionada a ele. A voz era de seu primeiro agressor. Ela vociferava que Demétrio era ladrão e que havia roubado os tênis caros de um garoto no bairro. Quase que babando de raiva, ela continuou explicando que havia presenciado juntamente com outras duas pessoas toda a cena do roubo de longe, o que as levou a se dispersarem e a correrem atrás do bandido, encontrando-o quando dobrava a esquina da rua onde estavam.
Um dos policiais levantou Demétrio:
– Por que fez isso? Sabe que bandido só tem dois destinos, né? Cadeia ou morte. – Falou de modo tão sereno que o baque de desespero atingiu Demétrio novamente:
– Não fiz nada disso. Não sou ladrão. Não sou bandido. Sou professor.
– Ah, é? Professor de que disciplina? – Falou o outro policial zombeteiro, mas Demétrio estava tão carente de alguma esperança de se livrar daquela situação que não percebeu o tom de troça – ou escolheu não perceber – e começou a se deliciar com a culpa que todas aquelas pessoas sentiriam por ter agredido um professor... um professor inocente que não tinha necessidade de cometer crime algum. Soberbamente, respondeu:
– De ma...
– Malandragem! – Replicou o segundo policial sem deixar Demétrio concluir a frase e fazendo-o se envergonhar do que de repente pensara.
Demétrio, algemado foi parar no camburão da viatura.
– Não aprendeu a andar na linha, a seguir as regras, vai ter de pagar. – disse gargalhando o segundo policial no banco do carona, enquanto o primeiro policial mantinha-se calado dirigindo a viatura.
No camburão, Demétrio pensava que o policial estava completamente errado. Sabia seguir regras. Aliás, percebia agora que fazia isso religiosa e cegamente todos os dias. Aprendeu na prática de sua profissão que bastava seguir conforme o ordenado que os problemas se resolviam. Professava isso e ensinava outros a professarem também. Enquanto nada surgisse para perturbar a ordem geradora de sossego interior a que estava submetido, ele continuava seguindo sem questionar o regulamento que as mantinha.
Vinha à tona nesse momento o quão perigosa era essa conduta. Mas, até então, Demétrio imaginava não ser tolo. Tinha consciência de que essas regras não eram completamente arbitrárias, visto que surgiam de análise minuciosa da realidade e eram extraídas desta através do pensamento. Todas tinham justificação. Ele apreendeu na academia toda a demonstração do modo como se justificavam essas regras. No entanto, notava agora que essa demonstração necessitava de um pensamento mais refinado, e, diariamente, ele se contentava com o simples, reproduzindo as regras sem voltar à sua justificação. No momento em que fazia isso, tratava a consequência como se fosse a causa. Uma vez eliminada a verdadeira causa, a nova causa não se sustentava em nada. De tanto praticar apenas o raciocínio simples, Demétrio esqueceu o complexo. Desse modo, na prática, aplicava as regras sem demonstração. Demétrio, que se acreditava inteiramente racional, se percebia agora um homem de fé.
Obviamente, ele sabia ainda que essas leis não eram eternas, perenes e imutáveis. Mas, até então, tinha pensado que fazer uso desse saber era coisa para os grandes matemáticos – eles é quem ousavam criar novas regras – e no caminho simples que ele escolhera traçar não era útil questionar as regras, apenas segui-las. Até então, tinha conseguido manter-se apenas seguindo o regulamento. Até então nada dera errado. Até ter tomado um soco no ouvido.
Um escarro misturado ao sangue entupiu suas narinas e interrompeu a reflexão. Assoou naturalmente o nariz – com cuidado para não machucá-lo mais. Por consequência do gesto tão simples do assoo, mais um problema foi trazido a Demétrio: como um balão, seu olho direito inchou, prejudicando sua visão. Tentou fazê-lo voltar ao normal apertando-o, mas ficou com medo de que seu olho explodisse.
Sentiu, então, o carro parar. Sem enxergar direito, foi tirado de dentro da viatura e jogado num lugar muito escuro. Os policiais obrigaram-no a ficar de joelhos e ele sentiu cacos, pedras e urtigas nas pernas.
            – Professor de quê mesmo? – começou o policial zombeteiro.
            – Matemática. Dou aula numa escola do bairro.
            – Dá aula porra nenhuma. – a frase veio acompanhada de um soco na boca.
            – Se tu é professor... – continuou o militar – dá uma aula de raiz quadrada para gente.
            O pensamento de que poderia morrer voltou como uma pontada à mente de Demétrio. A vontade de viver foi tão forte que ignorou completamente a situação em que se encontrava e procurou na mente maneiras de expor ali aquele conteúdo. Mas foi interrompido pelo policial mais sério, que, meio sem jeito, pareceu querer entrar na brincadeira:
            – Qual é a raiz quadrada de menos quatro?
            – Dois i – respondeu balbuciando por conta dos baques, mas sem titubear, imaginando que a resposta correta o devolveria à vida.
– Doze? – gargalhou o policial que até então tinha se mantido sério, num riso que parecia mais doentio do que o do zombeteiro. – Não existe raiz quadrada de número negativo – continuou, orgulhando-se de saber algo. – Que tipo de professor é esse?
– Claro que existe. Está no campo dos números complexos. – retrucou Demétrio.
– Agora existe número que não é complexo? – disse o primeiro militar, e os dois se puseram a rir.
– O que tu tá fazendo aqui nesse terreno, hem, professor? – continuou o escárnio o policial zombeteiro.
            – Vocês me trouxeram para cá. – as palavras de Demétrio saíram num tom de revolta que surpreendeu a ele mesmo. Tanto o tom quanto as palavras, contudo, não foram recebidos muito bem pelo militar:
            – Eu não trouxe ninguém. Está maluco?! – havia na voz dele uma mistura de cinismo, troça e ao mesmo tempo indignação por ter sido desafiado. – Você roubou e veio para cá. Entendeu bem?
            Desde o início do incidente, Demétrio tentou entender do que estava sendo acusado e por que estava sendo castigado. Descobriu que estava sendo acusado e punido injustamente. Entretanto, ninguém se dispôs ouvi-lo para que tudo pudesse ser esclarecido. Percebeu que a acusação não pressupunha defesa. A punição começava no momento da acusação. Agora, sem esperanças de que algo pudesse mudar seu destino, viu-se obstinado e respondeu ao policial com um sonoro:
            – Não!
A palavra de Demétrio pareceu atingir os policiais em cheio, pois, depois dela, houve por alguns instantes apenas silêncio.
            – Segura isto aqui. – disse, então, o policial sério, entregando a Demétrio algo que este não conseguia distinguir muito bem por causa de sua visão borrada. Quando se deu conta de que o objeto era de ferro e frio, não teve dúvidas: estava em suas mãos a sua sentença de morte. Já tinha ouvido falar de policiais que matam e plantam provas para não serem penalizados.
Ouviu o gatilho ao longe.
Demétrio se imaginou morrendo de muitas maneiras, mas nunca daquela. Parecia que tudo acontecera tão repentinamente e tão ao acaso. Nada daquilo teria acontecido se ele não tivesse constatado que estava muito sedentário e, por conta disso, não tivesse, exatamente naquele dia, começado a praticar cooper para melhorar a qualidade de sua vida. Também não teria acontecido se ele não tivesse comprado aquela droga de tênis novo exatamente para correr.
Já tinha imaginado o que sentiria nesse momento derradeiro, mas agora que estava de fato diante dele, só conseguia pensar que “que merda” era a expressão que melhor traduzia o que sentia.
– Até mais, neguinho! – disse um dos policiais, atirando para cima. Enquanto ouvia o estrondo, Demétrio sentia algo dentro si quebrar. Nesse exato momento, ele entendeu que não foi acidente, nem acaso. Antes mesmo de ser acusado, já estava punido.
Com o corpo caído no chão, viu as botas voltarem gargalhando para a viatura.

Autor: Matheus Cascaes 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

coluna SEGUNDA VIA


O dragão da bondade X compromisso coletivo

Por Victor Leandro

Uma imensa parte das pessoas que vivem no mundo são, em geral, pessoas boas. Ajudam o próximo e alguns distantes. Tratam a todos com polidez e respeito, inclusive os subalternos. Amam e se casam e são felizes. Não agridem os filhos. Usam o vocabulário correto em situações sociais. Cuidam dos bichos – existe até quem não os coma por pura pena – e há quem chegue mesmo a votar em candidatos progressistas. São arautos da era de paz e harmonia, embora não participem de nenhuma iniciativa por uma transformação política profunda.
Já outras não compartilham das mesmas afetações. São duras e difíceis, e compõem autenticamente apenas com os que ampliam sua potência. Não que destratem alguém, apenas não lhe reservam nenhuma conduta especial. Não seguem a etiqueta da boa convivência pós-moderna. Mesmo nas relações pessoais, não despendem sentimentalismos exagerados. No entanto, elas assumiram, graças ao seu esforço racional, a necessidade de se comprometerem com as grandes mudanças sociais, e seguem ativamente por esse caminho.
Ora, quem está mais próximo de uma mudança efetiva e que de fato beneficie a humanidade como um todo? Obviamente que são as do segundo caso. Isso porque as primeiras não atingiram o nível da crítica racional que as converteria em indivíduos de fato atuantes para a construção de uma humanidade igualitária. Presas que estão no seu individualismo e afetos imediatistas, elas não enxergam além do que podem tais condições, e limitam-se a agir conforme a caridosa postura que lhes foi ensinada, sem nunca ultrapassar os limites que as levaria a uma racionalidade verdadeiramente libertária.
O ente controlador dessas amarras é a bondade, que bloqueia a vista do necessário. Em termos marxistas, ela é a grande ilusão da felicidade que impede que surja a felicidade verdadeira. Enquanto tentarmos ser bondosos, continuaremos a nos contentar em dar esmolas quando poderíamos erradicar toda a pobreza. Mas é nisso que a bondade revela seu caráter contraditório e manipulador. Porque somos bons, não conseguimos construir a sociedade boa.
Há fascistas que são extremamente bondosos quando nos falam pessoalmente e examinamos sua vida íntima. Contudo, seu compromisso coletivo é com a destruição.
Contra essa solidariedade farsesca, é que cabe a razão revolucionária. Somente ela pode deixar de nos tornar cativos do dragão da bondade, e fazer com que possamos, movidos por nossa capacidade de pensamento, construir uma sociedade equânime. Esse é o autêntico compromisso humanitário.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

POESIA


O HOMEM

O homem se levanta
Mas o homem não é só o homem
O homem é outros homens
Outras lutas
Outros tempos

O homem é tudo o que simboliza

O homem é formado de homens
como a voz é formada de vozes

O homem não segue
o mapa da fome

O homem sou eu
e os outros

Eles perseguem o homem
Mas lembrem-se
o homem não é só o homem

E justamente por isso
eles o perseguem
Porque querem que a gente se coloque no nosso lugar

Contudo, não sabem
que o nosso lugar é em todo lugar

Eles, os nossos inimigos,
com suas togas sujas
um dia sentirão a força do nosso braço
Braço de quem trabalha
forte e justo como o braço de Xangô

E sob um céu estrelado
nós profetizaremos:
Maldita Casa Grande,
ainda veremos tu pegar fogo!

Autor: Mauricio Braga

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Coluna SEGUNDA VIA


Pequeno estilhaço na Pax esquerda

Por Victor Leandro


A revolução não é um convite para postar, nem um meme que se compartilha entre os amigos nas redes sociais. Ela é um ato efetivo e violento, por meio do qual uma classe derruba a outra.
Sim, a frase acima é uma paráfrase do Camarada Mao. Na verdade, trata-se de uma revisão meio apressada - mas talvez válida - do alerta dado décadas antes aos rebeldes em luta. sem a ação material, não é possível mudança.
Esquecemos essa lição frequementemente, por comodismo, por conveniência, por preguiça. Se antes a esquerda dita democrática perdia-se em jantares animados em que pincelava as formas do mundo proletário, resumindo nesse gesto todo o vigor de sua praxis,  hoje ela deu mais um passo atrás e contenta-se com dois toques na tela e uma meia-dúzia de frases lançadas a esmo. No mais, resta-lhes contar o número de envios e esperar que o milagre aconteça.
Mas não há milagre, todos sabemos. Para os pseudorevolucionários, essa é a grande notícia. Não serão presos, não correrão risco, nem terão de partir para o exílio. Também estarão libertos da culpa de nada fazer, pois é notória sua participação política. Tudo na mais perfeita ordem. Burguesa.
Claro, o presente texto, bem como seu autor, integram o mesmo dilema. Mas sobra nele, não em mim, uma pequena vantagem. Relembramos o que disse o grande líder revolucionário Chinês, bem como suas afirmações necessárias. lembremo-nos delas e estaremos nas ruas. O mais são só plumas e adereços.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019


RESENHA

Ditadura e democracia no Brasil[1], de Daniel Aarão Reis

Por Bruno Ricardo Santos de Oliveira.

Daniel Aarão [2] nasceu em 26 de janeiro de 1946, na cidade do Rio de Janeiro. Desde cedo esteve envolvido no meio político ora como vice-presidente estudantil ora como participante do PCdoB, ou mesmo dentro de grupos de esquerda como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que comandou o sequestro do então embaixador dos Estados Unidos da América no Brasil, Charles Burke Elbrick, em 1969. Graduado e Mestre em História na Universidade de Paris VII e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. É hoje professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense[3].
            Autor de obras conhecidas sobre a esquerda no Brasil como, por exemplo, A Revolução Faltou ao Encontro (1990) e Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedades (2000), Daniel Aarão Reis lança em 2014, pela editora Zahar, o livro Ditadura e Democracia no Brasil: Do golpe de 1964 à Constituição de 1988.
            Em Ditadura e Democracia, Daniel Aarão busca compreender através de sete capítulos as raízes, as bases e os fundamentos históricos, além de explanar o legado, da ditadura civil-militar. O autor expõe também o contexto internacional, os conflitos dentro sociedade brasileira e o papel desempenhado pela esquerda.
            No capítulo um, o autor explana sobre as memórias que todos aceitaram sobre a ditadura: a de que esse período foi marcado por trevas em que a sociedade lutou unida e contra um mal comum (veremos que não foi verdade). No capítulo dois, é exposto as gêneses da ditadura, o que a fomentou, quem a apoiou e como se deu o golpe. A partir do capítulo três que se começa a falar especificamente sobre os presidentes-ditadores. Inicialmente é exposto o governo Castelo Branco e sua busca por uma identidade: democracia ou ditadura? Logo em seguida, é exposto o governo Costa e Silva, e de como este tomou num golpe dentro do golpe o Estado brasileiro. No capítulo quatro, é exposto o governo de Médice e o retorno ao nacional-estatismo (política de estado desenvolvida numa outra ditadura: o Estado Novo), além de apresentar os êxitos desse período e o enfrentamento dos programas revolucionários de esquerda.  No quinto capitulo, o trabalho se volta para o governo Geisel e os planos de institucionalização do regime, é explicado o que foi o projeto distensão, o desmantelamento das esquerdas e o ressurgimento de oposições democráticas. O capítulo seis, é apresentado o governo de João Baptista Figueiredo e como se foi distinguindo da ditadura, período que o autor chama de “transição democrática”, que vai de 1979 a 1988. O sétimo capítulo, nos é exposto a construção da constituição e o início da democracia.
            Um golpe aconteceria na década de 1960, de um lado ou de outro. Quem fosse mais ardiloso venceria. E venceu uma voz. A voz que durou 15 anos.
            Jânio Quadros, presidente, e João Goulart (o Jango), vice-presidente venceram a eleição de 1961. Jânio possuía um discurso do novo, um discurso de combate a corrupção, um discurso que agradava, mas que já no seu primeiro ano de governo conseguiu desagradar a todos, desde o setor industrial, aos conservadores, os movimentos sociais de esquerda e os trabalhadores. Isolado politicamente, pois praticava um diálogo direto com a sociedade, e atacado por todos os lados, Jânio resolveu em agosto do mesmo ano de sua posse renunciar ao cargo. O congresso aceita seu pedido.
            E é aqui que começa o período mais quente da nossa república.
            O país fica sem presidente até o retorno de Jango da China comunista. Nesse período as forças armadas iniciam um golpe, pois para eles Goulart traria instabilidade e caos ao país caso assumisse. Brizola monta uma resistência junto ao III Exército com o discurso da defesa da ordem legal, frustrando assim planos das forças armadas. São essas forças que surgem a partir da resistência de Leonel Brizola que aos poucos se tornarão a esquerda armada um tempo depois. Jango toma posse não mais num sistema presidencial, mas parlamentarista. Não por muito tempo, pois em 1963, Jango após um plebiscito retoma seus poderes presidenciais.
            Com Jango presidente é retomada um projeto, o nacional-estatismo, iniciado com Getúlio Vargas, e um tanto quanto esquecida nos governos de J.K. e de Jânio Quadros, em outra ditadura, a do Estado Novo. Nacional porque se buscava uma autonomia de um povo como identidade única; estatal por considerar o estado o melhor instrumento para articular essa vontade. E Jango poderia facilmente ativar esse projeto, pois havia respaldo internacional (revolução cubana, argelina e egípcia praticavam o nacional-estatismo com uma guinada para o socialismo) e nacional (manifestações e greves de trabalhadores, estudantes, graduados da força armada). É dentro desse período que se toma corpo as reformas de base. Jango possuía amplo apoio dos reformistas para colocar suas ideias em prática, através do plano trienal.
            Entretanto, as reformas de base de Jango possuíam diversos críticos: elites tradicionais reacionárias, grupos empresariais e modernos, além da classe média, ou seja, todos aqueles que poderiam perder privilégios. Seu plano trienal, porém, também não deu certo. Desagradou a todos. O governo atolou. Jango governou cego um país em ebulição. A sociedade dividira-se. De um lado os reformistas; do outro os contra reformistas. O primeiro grupo atiçava Jango a tomar as rédeas com mais força do país e até se falava em pegar em armas. O segundo grupo começou a defender a ordem legal. “Uma notável inversão de tendências” (pág. 38).  Jango então parte para a ofensiva encabeçando comícios em prol das reformas, no dia 13 de março de 1964. A resposta do outro grupo não demorou e em 19 do mesmo mês, aconteceu a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
            É com esse apoio civil que as forças armadas golpeiam Jango, em 1 de abril de 1964.
            O governo do general Castelo Branco vai de 1964 a 1967. Castelo chega através do golpe civil-militar que foi legitimado por um discurso da defesa da democracia, da família, do direito, da lei e da Constituição.  Havia dois grupos dentro dos apoiadores do golpe: uns moderados e outros mais conservadores. Os moderados pensavam que aquilo deveria ser cirúrgico: as forças armadas deveriam dar o golpe, entregar o poder aos civis e rumar aos quartéis. Muitas lideranças civis estão nesse grupo como, por exemplo, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, além da impressa maior como O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã. Havia outro grupo mais bem organizado que o primeiro: o famoso “linha dura”. Este grupo preconizava a permanência das forças armadas por tempo indeterminado.
            O novo governo tinha um programa: o internacional-liberalismo, que ia de encontro ao que se pregava no Brasil desde o Estado Novo.  Tal linha de pensamento só iria ter uma plataforma efetiva e eficiente vinte anos depois com os governos dos Fernandos.
 O internacional-liberalismo, no Brasil, defendido pelo governo, não ia nada bem, o que causou uma onda de descontentamento geral, “não apenas entre os derrotados, mas também em setores expressivos da grande frente que apoiara o golpe” (pág. 58). Surge com muito mais ênfase, a partir daqueles grupos reformistas, um movimento crítico, encabeçadas pelos intelectuais de esquerda, respaldados pelo desenvolvimento da Teoria do Impasse (ideia de que o governo não tinha condições históricas de oferecer alternativas ao país, mesmo dentro do sistema capitalista), articulado também ao pensamento revolucionário, este influenciado diretamente pelo exemplo cubano. Entretanto, um ponto relevante e que não foi avaliado pelas organizações revolucionárias é a de que as oposições ao governo, tanto politicas quanto sindicais, possuía uma postura moderada, em que se evitava assumir programas radicais.
É dentro do governo Castelo Branco que se aplica dois atos institucionais, o segundo e o terceiro ato (o primeiro é de 9 de abril de 1964, e foi editado pelo Comando Supremo da Revolução, que diz que a revolução legitimava os demais poderes existentes, além de limitar-se a si mesma). É em 1965, Castelo Branco edita o segundo ato, em respostas às derrotas eleitorais para os governos de Minas, restaurando a dinâmica de exceção, em que dissolve os partidos existentes adotando o bipartidarismo; justificando milhares de cassações, etc., e logo em seguida o terceiro ato, que seria “extinção de eleições para prefeitos das capitais, a serem designadas pelos governadores, após a anuência das respectivas assembleis legislativas” (pág. 62).
Justamente por esses motivos, se acreditava, dentro da esquerda, no fracasso da ditadura, porém, “o governo continuava capaz de mobilizar em torno de seus propósitos significativas parcela das lideranças civis nos meios empresariais, políticos e religiosos” (pág. 62). E seguidamente, Castelo Branco produz diversas ações para que a ditadura se institucionalize.
Em 1967, assume Costa e Silva, que diz que “a meta do meu governo é o homem” (pág. 66). Uma crítica clara ao governo anterior. “Ele governaria numa outra atmosfera, sem a sombra de Atos Institucionais. (...) vinha com promessas de reconciliação democrática e desenvolvimento econômico” (pág. 66) mesmo mantendo compromissos com a linha dura. É nesse momento que o país começa a registrar um desenvolvimento econômico crescente, o que não impede o cessar fogo dos oposicionistas ao regime.
 Homens que antes chegaram a apoiar o golpe agora estão do lado oposto.  Podemos dividir em três os grupos que se colocaram contra ao regime: os moderados (MBD, Frente Ampla, Setores Eclesiásticos, Liberais); movimento dos estudantes, de caráter sindical; e as organizações revolucionárias clandestinas. O que podemos perceber é que essa oposição não era coesa, e muito menos homogênea e harmonizada.
Contra todas essas oposições, já que dentro da situação se percebia que aquela onda oposicionista podia se organizar e oferecer perigo efetivo a então ordem, Costa e Silva se viu obrigado a jogar pesado, e fez isso através do Ato Institucional N°5. O presidente-ditador fechou o parlamento, atribuiu a si muitos poderes, reiterou o estado de exceção. Houve aqui um golpe dentro do golpe. A ditadura, por fim, estava sem disfarces, escancarada para qualquer um ver.  
Entre 1969 a 1973, desdobraram-se, muito mais efetivamente, as ações de guerrilhas urbanas, muito por causa desse escancarar da ditadura. Entre 69 a 72, houve, por partes dessas guerrilhas, “expropriações de armas e fundos, ataques de surpresa a quartéis ou postos policiais, propaganda armada, etc.” (pág. 74). Entretanto, a mais significativa ocorreu com a captura do embaixador estadunidense, Charles Burke Elbrick, com o intuito de libertar diversos líderes da esquerda revolucionária no país. Entretanto, mesmo que essas ações tenham alcançado seus objetivos imediatos, a longo prazo produziram diversos problemas, como a sua própria destruição nas cidades, ainda em 1973.
Não havia simpatia, naquela guerra travada entre guerrilheiros e a polícia do Estado, por uma parcela grande da população, muito porque não a compreendiam e por isso não se moviam para participação direta. A população também não simpatizava com os métodos brutais dos torturadores, mas aprenderam a conviver com tal situação. O que restou aos guerrilheiros foi serem “escorraçados da história” (pág. 78).
Em 1970, Garrastazu Médice foi “eleito presidente”. E foi sob a égide do terror do AI-5, que a sociedade brasileira manteve relações complexas com a ditadura, ao mesmo tempo que o capitalismo brasileiro ascendia no famoso “milagre econômico”. 
O governo retoma o que de início criticou: o nacional-estatismo. E justamente nessa tradição, iniciada com Getúlio, em que o Estado incentiva, regula, financia e protege os mais variadores setores econômicos, que ocorre a crescente no país. Dentre os sucessos do governo se situam o Programa de integração social, Funrural, Crescimentos dos sindicatos urbanos e rurais, e alguns outros avanços. E assim, uma parcela significativa da população, principalmente as mais abastadas, se beneficiaram desse período, mesmo que a popularidade do governo internacionalmente estivesse abalada, muito por causa das denúncias de tortura como instrumento de estado; e nacionalmente, porque a desigualdade social no Brasil se intensificava.
Em 1974 assume o general Ernesto Geisel. O governo, dentro da economia, soterrou de vez o internacional-liberalismo, através de um pacote de planos já iniciados com Médice, afirmando o caráter nacional-estatista, a fim de gerar crescimento, mesmo que a conjuntura internacional não fosse nada boa, muito por causa do choque do petróleo. No que diz respeito a política externa, mesmo que houvesse críticas por parte dos E.U.A. exigindo do Brasil explicações sobre as acusações de tortura como método de estado, o país ganhou ares de autonomia ao estabelecer relações com a china comunista e assinando acordos nucleares com a Alemanha. E mesmo que Geisel esteja situado no grupo Castelista, aquele se distanciava de tudo que este preconizava.
No que se refere a política interna, Geisel ficou incumbido de colocar em prática um processo chamado de distensão, no qual tem como função a saída do regime autoritário através de um processo lento, seguro e gradativo para o estado da democracia. É interessante que havia resistências dentro do próprio sistema em relação a distensão. Essa resistência vinha principalmente dos aparelhos de repressão que percebiam que poderiam ficar desprotegidos caso o projeto funcionasse.
Em 1977, Geisel edita, sobre a proteção armada do AI-5, o chamado Pacote de Abril, que visava institucionalizar a ditatura. Esse pacote viria ser chamado no período da transição democrática de “entulho autoritário”. Já no fim de seu mandato, Geisel tem de enfrentar manifestações sociais e greves operárias, muito porque foi descoberta uma má-fé governamental: havia uma defasagem, exposta pelo Banco Mundial, em relação a inflação registrada ainda em 1973, o que incendia diretamente nos reajustes salariais dos trabalhadores. E assim as “lideranças sindicais começaram a se manifestar publicamente pela ‘reposição’” (pág. 120). A partir desse momento gerou nas massas um despertar para a situação em que se encontravam. Uma dessas lideranças, Luiz Inácio da Silva, disse que a situação só voltaria ao normal depois que os patrões, governo, etc. quando a voz do povo fosse ouvida.
O Brasil, enfim, chega em 1979, com a posse de João Baptista Figueiredo, e atinge o que Daniel Aarão irá chamar de transição democrática, “período que se inicia com a revogação das leis de exceção, os atos institucionais e termina com a aprovação de uma nova constituição” (pág. 125). Esse período, no Brasil, por incrível que pareça, o restabelecimento do estado de direito não coincidiu com a instauração de uma constituição democrática, ou seja, o país já não era mais uma ditatura, mas também não era uma democracia, já que João já não governa com poderes ditatórias. A esse governo fica como objetivo os projetos da Anistia e o da reforma partidária, em que, respectivamente, será possível o retorno dos exiladas, a libertação dos presos políticos, como também a criação de novos partidos, o que abriu portas para uma miríade de pessoas até então caladas a possibilidade de fazer política novamente. Toda essa abertura possibilitou o surgimento do maior movimento político da história da República no século XX: a campanha das Diretas Já; o que culminará na Constituição de 1988 e restauração da democracia.
Desde 1986 é pensada através de uma constituinte a constituição brasileira, que possuía diversos avanços sociais, mas apresentava pontos ainda de influência do período da ditadura como, por exemplo, a existência da tutela dos militares para a manutenção e ordem do país. Demostrando assim a influência direta e indireta que a ditadura exerce no país.
 O livro, e o nosso texto, tenta demostrar de maneira sucinta, e que se apresenta muitas vezes insuficiente, a complexidade histórica que foi a ditadura civil-militar no Brasil, que gerou e continua gerando soluções e problemas para este país extremamente desigual num mundo infinitamente desigual. Desde a saída dos militares do poder, pós-Figueiredo, o Brasil teve cinco presidentes, o primeiro quase um novo Jânio Quadros com tendências ditatoriais, um sociólogo refinado, um metalúrgico, uma mulher, um golpista, e por fim, agora, nesse exato momento, um retorno de um representante do militarismo que fazia sua existência dentro dos porões da ditadura. É impossível fugir do passado sem olhá-lo criticamente a fim de se progredir. Enquanto não olharmos a nossa história e encararmos com agudeza crítica e analítica, não conseguiremos nos liberta. Para se liberta do obscurantismo precisamos encarar a nossa história.
Por fim, podemos dizer que o livro Ditatura e Democracia no Brasil, de Daniel Aarão Reis, é um excelente suporte para se começar a conhecer um pouco melhor sobre o período que, a nosso ver, mais influenciou o Brasil a ser o que é. Recomendamos.  







[1] REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil. Do golpe de 1964 à Constituição de 1988. Rio de Janeiro; ZAHAR, 2014.