quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Educar em tempos de coach, Por Luana Aguiar


Educar em tempos de coach
Por Luana Aguiar

Atualmente, a expansão avassaladora do “coach” – a definição de tal ocupação ainda é uma incógnita -  não é mais uma novidade. Vê-se na internet e na mídia, de modo geral, uma série de discursos motivadores (diga-se falaciosos) afim de encontrarem uma vítima desanimada, frágil, que irá comprar não só o discurso, mas um estilo de vida centrado na ideia de “eu quero, eu posso”, intrinsecamente meritocrático, além de interferirem de modo substancial na vida e saúde mental do indivíduo. 
Além dos problemas relacionados à psicologia, é possível identificarmos o adentramento do “coach” – ou pelo menos o seu ideal – na área educacional: incontáveis reforços escolares e cursinhos pré-vestibulares. Esses ambientes de ensino estão ligados a uma concepção estritamente capitalista de educação e, novamente, meritocrática. Vamos à escola para fazer o aluno “aprender um conteúdo” que só o professor sabe; nós o treinamos para passar no vestibular – que parece ser o fim do aprendizado. Se a escola fez o aluno passar no vestibular, pronto, esta cumpriu o seu papel! Caso a escola não seja tão boa assim, os pais pagam um reforço ou cursinho para suprir a falha. 
Para muitos, ser um professor de língua portuguesa bom é corrigir um aluno que “fala errado”, é manter uma postura de “respeito” (lê-se autoritária) em sala de aula, que sabe a gramática “de cabeça”. E quando um professor realmente formado e consciente de sua profissão procura explicar que não é bem assim, pois a língua é um fenômeno mutável e variável, onde não existe certo ou errado, mas variações; e que, principalmente, estudar língua portuguesa não se resume à gramática (mas tudo o que envolve a língua, como a literatura, os discursos e processos comunicativos), nunca são ouvidos. Parece que de nada valem as inúmeras leituras, planejamentos e
Assim, entende-se a escola como um espaço de alcance de médias e cumprimento de obrigações. Quando voltamos os olhares para os reforços, percebemos que, muitas vezes, o(a) professor(a) do local nunca pisou em um curso de licenciatura, mas embarca, sem experiência alguma, na área da educação – assim como o famigerado “coach”, ao fazer um curso de 20 horas, pensando estar capacitado, decide aplicar o seu método-coaching-ultra-quântico em alguém, sem ter qualquer qualificação, ou sequer sem saber a magnitude de suas ações. É terra de ninguém.
No entanto, ainda restam esperanças. Sempre há uma nova terra a ocupar.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Escrever, Por Victor Leandro

Coluna Segunda Via

Escrever
Por Victor Leandro

Poucos gestos são tão fundamentalmente socialistas quanto o ato de escrever. Ainda que o texto esteja destinado à gaveta - o que certamente diminui em muito sua potência, mas não a extingue - ele permanece como um forma de coletivização de nossos mais profundos pensamentos, de um turbilhão de inquietações que nos tocam e nos convidam a transformá-lo numa matéria compartilhável. Escondido onde esteja, o texto estará lá, pronto para ser lido por aqueles que o encontrem.

E é somente quando encontra leitores que seu ciclo se completa. Sim, a escrita é uma singularidade, mas uma singularidade que se objetiva e se deve lançar no mundo, no qual passa a correr como uma maneira subjetiva de lidar com a concreticidade que nos cerca, e que depois será também parte da maneira de lidar de muitos outros. Assim, é no diálogo com o leitor que a obra se amplia e se oferece a infinitas compreensões.

No entanto, tal possibilidade aparece igualmente como um risco. Ao escrevermos, damos a público o nosso mais profundo segredo. O que farão os outros quando tiverem em mãos a nossa essência? Escrever é também estar em perigo.

Porém, ao contrário de nos afastar de expor o que produzimos isoladamente, essa questão deve se impor a nós como um desafio revolucionário. É só na ordem burguesa que a mesquinharia dos que julgam adquire ares inquisitórios. Logo, propagar um texto sem se importar com os censores é a maneira mais transgressora de romper com o patronato da produção estética e reflexiva. No mais, a arte e o pensamento só existem quando se convertem em um exercício de liberdade e comunalidade criadora.

Proletários de todo o mundo, escrevei!

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Imperialismo futebolístico ou os ópios não óbvios da alegria do povo, Por Victor Leandro

Coluna Segunda Via

Imperialismo futebolístico ou os ópios não óbvios da alegria do povo
Por Victor Leandro


Há algo de podre no país do futebol. Depois de décadas de desacertos e peripécias retrógradas, finalmente os clubes - nomeadamente, Palmeiras e, com maior competência, o Flamengo - chegaram ao tão sonhado estágio da excelência administrativa. Contudo, como tudo o que ocorre no capitalismo, esse avanço está longe de ser tão só uma boa notícia. Antes, é uma imensurável fonte de preocupação.

Evidentemente, nada disso aparece de maneira imediata para o grande público. Encantados, os torcedores, especialmente agora os rubro-negros, comemoram os grandes feitos futebolísticos de seu time, sem perceberem que estes em nada têm relação com o que ocorre dentro de campo. A ascensão flamenguista, ao contrário da dos anos 1980, não é um triunfo de jogadores e comissão técnica, e sim de uma gestão. Mais do que qualquer coisa, o que está sendo provado é que o futebol hoje não é decidido nas quatro linhas, mas nas mesas onde são traçadas as estratégias de negócios.

Em termos de teoria marxista, tais processos correspondem exatamente à conhecida fase imperialista do capital, em que apenas um conjunto delimitado de empresas controla todo um setor produtivo. No torneio da CBF, a consequência inevitável é que este se torne um objeto para a disputa de poucos, tal como já ocorre nas sociedades econômica e futebolisticamente avançadas da Europa.

Claro, muitos, tomados por suas paixões, dirão que isso pode ser facilmente revertido com uma melhoria nos modelos de governança do esporte, e que, no final, as mudanças em curso são benéficas para tal objetivo. Mas não é essa justamente a ilusão própria do meritocratismo liberal? Nada como uma falsa caixinha de surpresas para perpetuar nosso vão engano.

domingo, 3 de novembro de 2019

O filme da Arlequina vem aí. Daqui a pouco não vai sobrar nenhum vilão, Por Victor Leandro

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O filme da Arlequina vem aí. Daqui a pouco não vai sobrar nenhum vilão
Por Victor Leandro

Que emoção! Que emoção! Depois do Joker, está chegando a vez da Arlequina ganhar as telas. Promessa de mais um primor de performance de Margot Robbie, dessa vez como dona de seu próprio filme. O enredo? Ao que parece, este se encontra plenamente a seu favor. Uma verdadeira história de anti-heroína, disso não resta dúvida.

Certo, é uma narrativa necessária. Por muito tempo, os vilões das telas não passavam de pobres caricaturas, sem nenhuma riqueza ou complexidade. Mostrá-los em suas variações é algo que lhes acrescenta muito. Também é importante para os movimentos em voga que mulheres assumam cada vez mais o protagonismo em todos os âmbitos, principalmente em histórias escritas a partir de sua própria estética e visão de mundo. Por ora, não sei vai discutir por esse motivo.

O que é problemático aqui é o processo de assepsia moral por que têm passado as elaborações da indústria. Cada vez mais, elas avançam sobre as personagens visando construir um mundo de fantasia onde até mesmo os perversos precisam estar adequados ao ethos da moda, o que revela uma face assustada de nosso momento, marcada pelo medo do obscuro. Não temos sido mais capazes de olhar para o mal em toda sua força ou mesmo em sua capacidade atrativa, empenhando-nos em visualizá-lo apenas em nuances amenizadas e menos perigosas, como se este não fizesse mais parte da realidade e pudesse ser desviado pela tangente. Em termos de ficção, isso repercute na maneira como os vilões são tratados e expostos: ou eles são medíocres e desinteressantes, ou devem ser bons de alguma forma, de modo que o que se evita é justamente o fato, cada vez mais embaraçoso aos nossos olhos, de que uma perversidade grandiosa nos atrai como a vertigem para o fundo do abismo.

Em tempos antigos, os mitos cumpriam a função de mostrar a maldade que nos habita, e ninguém questionava que fossem estereotipados. Simplesmente, eles nos diziam aquilo que era acertado dizer sobre o que somos. Hoje, ou eles falam o que queremos, ou não encontrarão ouvidos. Eis o lema da indústria, para o qual os filmes de ex-vilões servem muito bem. Mas não importa isso. O que se deve é apenas refestelar-se com o esplendoroso espelho a brilhar na sala escura. Tudo é menos diante desses eflúvios grandiosos e sedutores. Que emoção! Que vazio.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A República dos farsantes, Por Victor Leandro

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A República dos farsantes
Por Victor Leandro

Muitos duvidam da autoajuda, mas poucos desconfiam dos acadêmicos e dos eruditos. Em tempos mais recentes, despontaram por aqui alguns sábios da nova era, que prometiam dar a resposta para os mais profundos dilemas sócio-existenciais da nação. Rapidamente, foram alçados a baluartes da alta cultura high tech pop, recebendo fortunas para palestrarem e dividirem com os pobres humanos a sua suma sapiência.

Mas o país atribulou e as coisas andaram mal. De repente, Karnal, Pondé, Cortella, Clóvis e outras figuras se viram em meio a um cenário de forte turbulência. Os eventos passaram a exigir respostas mais enérgicas e que escapassem às interpretações rasas e aos clichês da média. Formou-se, portanto, uma era propícia à emergência do intelectual, no sentido Dreyfusiano do termo.

Mas, para onde foram os nossos baluartes? Imediatamente, procuraram um lugar seguro para fugir da tempestade. Protegidos por sua aura nada luminosa de especialistas distantes, eles se refugiaram em uma fraseologia estéril  e insossa, incapaz de dar qualquer resposta significativa aos nosso problemas. Como bons mercadores, empenharam-se em não antipatizar com seu público, fornecendo a eles apenas um leve entretenimento narcísico-intelectual para seus fins de semana, sem nenhum compromisso com a realidade efetiva.

No capital, tudo é mercadoria, e isso inclui o saber e a ciência. Ou desconfiamos do que ele oferece, ou caímos na esparrela do argumento de autoridade e do prosaísmo. O pensador autêntica não pode ser encontrado na indústria cultural, salvo quando está ali para implodi-la. Contra isso, nossa atitude precisa ir além da tão falada advertência platônica, de modo que não somente os poetas, mas também os filósofos oficiais precisam passar pelo escrutínio da cidade justa. Nada melhor para essa impostura do que uma nietzscheana antifilosofia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A lição de Engels, Por Victor Leandro

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A lição de Engels
Por Victor Leandro

É mais do que notória a contribuição de Friedrich Engels para o pensamento social e revolucionário. Afora seu trabalho conjunto com Marx, suas ideias dispõem de uma autonomia e de uma originalidade que o colocam entre os grandes intelectuais da história, um pensador de primeira grandeza.

Contudo, para além dessa relevância inconteste, seu exemplo de existência ajuda ainda a pensar problemas que são essenciais para a constituição da praxis do sujeito dentro das diretrizes do comunismo.

Para que serve a um socialista ganhar dinheiro? Para financiar a revolução. Isso é o que Engels nos ensina. A abnegação material é uma armadilha ideológica dos burgueses para enganar os tolos. De nada adiantará abrir mão dos seus bens e pregar a fuga do fetichismo mercadológico, pois isso não modifica em coisa alguma o sistema de opressão vigente. Agora, se se consegue ganhar dinheiro para empregar recursos em práticas transformadoras - de imprensa, de financiamento partidário, ou de mecenato, como o que ajudou Marx - Aí sim é possível vislumbrar, dentro das classes mais altas, um horizonte de mudança, o qual efetivamente Engels ajudou a pavimentar com boa parte do seu dinheiro. 

A revolução é, antes de tudo, uma técnica de sabotagem.

Assim, aos revolucionários de hoje, o nome de Engels surge como uma precisa resposta, em especial contra as admoestações dos obtusos. Ascendam sim, econômica e socialmente, e dessa maneira poderão implodir o edifício por dentro. Nada mais perigoso ao capital que um comunista rico que compreende seu desígnio.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Retomar o Mestre, Por Victor Leandro

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Retomar o Mestre
Por Victor Leandro

Em Notas de um Diálogo, muito provavelmente um dos melhores contos absurdos escritos em terras amazônicas, o narrador de Mauricio Braga resolve por matar o Mestre. Porém, como em literatura o que parece quase sempre não é, o que desponta como um gesto de anarquia se revela como um ato de sublime reverência: cansado das iniquidades mundanas, o Mestre queria morrer.

Segue disso, como reflexão, que a figura do Mestre precisa ser repensada, especialmente nos moldes contemporâneos. Se outrora ele já pôde ter sido visto, em suas mais degeneradas figurações, como uma personagem a quem se devotava uma obediência cega,a ponto de ser imune às ações dos discípulos, a insubordinação de nosso tempo não permite mais a ascensão de caracteres tão opressivos. Contudo, o que se apresentava inicialmente como uma breve reprimenda revelou-se uma fortíssima atitude negadora, que relegou o Mestre para o confinamento e produziu uma sociedade de autorrealização. Porém, no final, e como era de se esperar, tal projeto se revelou insuficiente, e o que se viu foi um declínio irrefreável das possibilidades ativas dos sujeitos, por força de sua incapacidade de angariar sentido por si mesmos sem o mínimo de direcionamento.

Mas qual é então, agora, o papel do Mestre? Na dialética presente da emancipação e da heteronomia, o seu trabalho constitui justamente o de compor uma síntese e apontar caminhos. Como um mapa a ser consultado nos momentos de desorientação, o Mestre é aquele que dirá aonde podemos e devemos ir quando já não o sabemos, o que precisamos fazer quando nossas ações parecem perdidas. Obviamente, nada disso pode ser imposto. Toda verdade do Mestre advém de um reconhecimento nele daquilo que está em nosso íntimo e que se materializa em suas propostas de ação.

O Mestre não é o senhor de nossos desejos. Antes, é aquele que os conhece e os apresenta a nós mesmos.

É hora de reencontrar o Mestre e sua tarefa social. Sem idolatria, sem ausência de crítica ou com abnegada subserviência. Somente assim seremos capazes de matá-lo quando chegar o momento oportuno. Porém, até que isso ocorra, ele terá muito o que nos dizer.