terça-feira, 5 de maio de 2020

Marx e a questão do dinheiro nos Manuscritos de 1844, Por Gabriel Henrique

Ensaio


Marx e a questão do dinheiro nos Manuscritos de 1844
Por Gabriel Henrique

Um dos momentos mais geniais dos Manuscritos Econômico-Filosóficos é quando Marx discute a questão do dinheiro. Sabemos que o nosso autor não tem aqui o aparato econômico que mais tarde irá forjar para si; a discussão então não será sobre a forma-dinheiro, e muito menos sobre a circulação simples de mercadorias, que se tornarão tema de seu primeiro livro de economia política, o Contribuição à Crítica da Economia Política (1859). 

A discussão sobre o dinheiro nos Manuscritos está no âmbito da filosofia em seu sentido mais estrito, não há praticamente quase nada de economia política na abordagem que o bom alemão realiza aqui. O que percebemos é que no ensaio genial chamado Dinheiro, Marx conclui um percurso que havia se iniciado com a exposição dos quatro tipos de estranhamento; o objetivo de nosso autor era, sobretudo, realizar a conexão entre estes “estranhamentos” e suas manifestações econômicas com o sistema de dinheiro [Nota1]. 

A abordagem que Marx fará do dinheiro, segundo Renault, tem grande influência de Hess e do seu texto A essência do dinheiro, na medida que o autor desloca a crítica da alienação religiosa para o terreno da vida social. Nós já falamos isso no capítulo anterior, mas é bom relembramos, na medida em que estamos tratando aqui especificamente da questão do dinheiro. 

O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou seu, o possuidor do próprio dinheiro. (...). As qualidades do dinheiro são minhas – [de] seu possuidor – qualidades e forças essenciais. O que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, pois o efeito da fealdade, sua força repelente, é anulado pelo dinheiro. (...) O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor, o dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, sou, portanto, presumido honesto (...) o dinheiro é o espírito real de todas as coisas (...) Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades no seu contrário? 

Se o dinheiro é o vínculo que me liga à vida humana, que liga a sociedade a mim, que me liga à natureza e ao homem, não é o dinheiro o vínculo de todos os vínculos? (...) Ele é a verdadeira moeda divisionária, bem como o verdadeiro meio de união, a força galvano-química da sociedade. (MARX, 2004, p.159) 

O dinheiro é algo externo a mim, eu me confronto com o dinheiro como um objeto que é exterior ao meu cérebro e corpo. Destarte, o poder de compra do dinheiro deveria ser, a princípio, algo diferente de mim mesmo, algo que não afetaria a constituição do meu ser. No entanto, eu sou o possuidor do dinheiro, então aquilo que o dinheiro compra sou eu próprio enquanto possuidor. 

As capacidades individuais dos homens, a sua individualidade e subjetividade não são nada sem o dinheiro; o dinheiro é o mediador universal entre o homem e os objetos exteriores a ele, isso significa que as potências genéricas do homem se encontram encerradas na figura do dinheiro. O dinheiro é a manifestação social da capacidade genérica da humanidade, ela é a manifestação universal desta capacidade. 

O produto do trabalho humano só se encontra acessível àqueles que possuem dinheiro, eu construo a mais bela mansão, mas eu trabalho para o dono da empreiteira, a casa não pertencerá a mim, mas a quem puder compra-la por meio do dinheiro. Tudo aquilo que o homem produz, toda a manifestação genérica operativa do homem, toda a objetividade social criada pelo homem: casas, comida, objetos de luxo, etc. só se encontram disponíveis ao possuidor do dinheiro. Ora, dado que o dinheiro compra sempre alguma coisa que é exterior a mim, e que é resultado da ação prática do homem, o dinheiro só pode ser a manifestação social desta característica específica da humanidade, o dinheiro não compra o ar, mas compra casas, o dinheiro me permite que eu tenha acesso ao conjunto das mercadorias produzidas pelo homem. 

Em nossa época é possível perceber mais facilmente o quanto o possuidor do dinheiro tem poder, graças à universalização do capitalismo enquanto base produtiva da sociedade humana. Ilustremos com um exemplo: eu estou na fila para um transplante de rim, estou prestes a morrer, preciso do transplante a todo custo, do contrário não haverá possibilidade de sobrevivência, mas isso não é um problema para mim, eu tenho dinheiro, eu posso comprar um rim, R$ 100 mil reais? Isso não é problema, eu sou o possuidor do dinheiro, eu vou ao mercado negro de órgãos e compro um órgão humano para mim, eu compro um rim; eu não vou mais morrer, comprei um rim para mim, eu estava quase morto, mas agora não estou mais porque eu sou o possuidor do dinheiro, aquilo que me permite comprar tudo quanto eu queira, até mesmo um órgão humano. 

E o dinheiro não atua só do ponto de vista da obtenção de objetos exteriores, ele também age sobre as capacidades e paixões humanas. Posso ser o mais ignóbil dos indivíduos, mas o dinheiro me torna um ser altivo, imponente, voraz. As minhas qualidades que deveriam ser as afirmações ontológicas do meu ser são invertidas pelo dinheiro, pois este atua como o inversor de todas as relações humanas. Aqui tivemos apenas uma introdução desta questão, vamos ver como Marx prossegue nesta exposição. 

 (...) [o dinheiro] é a divindade visível, a transmutação de todas as propriedades humanas e naturais no seu contrário, a confusão e a inversão de todas as coisas, ele confraterniza impossibilidades; (...) é a prostituta universal, o proxeneta universal dos homens e dos povos. A inversão e a confusão de todas as qualidades humanas e naturais, a confraternização das impossibilidades – a força divina – do dinheiro repousa em sua essência enquanto ser genérico – estranhado, exteriorizando-se e se vendendo – do homem. Ele é a capacidade exteriorizada da humanidade. O que eu homem não consigo, o que, portanto, todas as minhas forças essenciais individuais não conseguem, consigo-o eu por intermédio do dinheiro. O dinheiro faz assim de cada uma dessas forças essenciais algo que em si ela não é, ou seja, o seu contrário. (...) ele transforma meus desejos de seres da representação, os traduz da existência pensada, representada, querida, em sua existência sensível, efetiva, da representação para a vida, do ser representado para o ser real. Enquanto tal mediação, o dinheiro é a força verdadeiramente criadora. A diferença da demanda efetiva, baseada no dinheiro, e da carente de feito, baseada na minha carência, minha paixão, meu desejo, etc., é a diferença entre ser e pensar, entre a pura representação existindo em mim e a representação tal como ela é para mim enquanto objeto efetivo fora de mim. (...) . Como o dinheiro (...) confunde e troca todas as coisas, ele é então a confusão e a troca universal de todas as coisas, portanto, o mundo invertido, a confusão e a troca de todas as qualidades naturais e humanas. (...). Como o dinheiro não se permuta por uma qualidade determinada, por uma coisa, por forças essenciais humanas, mas sim pela totalidade do mundo objetivo humano e natural, ele permuta (...) cada qualidade por outra – inclusive atributo e objeto contraditórios para ele; ele é a confraternização das impossibilidades, obriga os contraditórios a se beijarem. (MARX, 2004, p.159,160 e 161). 

O dinheiro atua como o inversor de todas as qualidades naturais e humanas, como se pode ler acima Marx chega a chamar o dinheiro de divindade visível, isso acontece por causa do poder quase sobrenatural que o dinheiro exerce sobre o homem no capitalismo. E de onde vem o poder do dinheiro? De algo que nós já mencionamos: ele vem da sua essência enquanto representante da capacidade operativa genérica do homem, isto é, o poder do dinheiro vem de seu poder de adquirir tudo aquilo que é resultado da produção material humana. O dinheiro se interpõe entre sujeito e objeto. Observe o esquema abaixo: 

1) Homem – trabalho - objeto (ou produto do trabalho);

2) Homem – dinheiro – objeto (ou produto do trabalho) 

Não há mais aqui a relação natural estabelecida entre trabalho e produto do trabalho, a relação direta entre produtor e produto. O que observamos é que toda a capacidade genérica específica do homem, se converte na capacidade de compra do dinheiro. A exteriorização do homem, a extrusão de sua essência em algo que é resultado de sua criação não existe mais em sua condição natural, na sociedade dominada pelo dinheiro e pelas mercadorias – ou seja, no capitalismo -, o que predomina é a transferência da essência do homem enquanto ser genérico para o dinheiro. 

É evidente que isso é resultado da relação estabelecida entre trabalhador e capitalista, na medida em que o trabalhador se aliena do produto do seu trabalho. Ora, se o objeto que é resultado de minha capacidade genérica não me pertence mais, se ele pertence ao capitalista, e se este, por sua vez, leva este objeto para o mercado, é claro que ao chegar lá o objeto será daquele que o comprar. A essência do dinheiro enquanto ser genérico repousa na existência da apropriação privada do produto do trabalho, que está fundada nos quatro tipos de estranhamento, que serão objeto de nossa análise em outro momento. 

Deste modo todas as capacidades humanas in potentia só se tornam efetivadas por meio do dinheiro. Eu sou um homem inteligente, mas sou um homem pobre, não tenho as condições sociais favoráveis para desenvolver essa minha capacidade, pois como sou pobre tenho que trabalhar, trabalho na fábrica cerca de 10 horas por dia, minha inteligência não se efetiva eu não tenho tempo para estudar; de potência efetiva a minha inteligência se transforma em abstração, potência abstrata. 

Em contrapartida há aqueles que possuem dinheiro, mas são estúpidos, imbecis, não possuem qualquer capacidade no âmbito da intelectualidade humana, mas...eles possuem dinheiro! Eu possuo tempo livre para estudar, posso pagar o melhor dos professores, posso comprar os melhores livros; viajo para as melhores universidades do mundo, faço os mais diversos cursos. De homem bruto eu me torno um homem fino, educado, elegante, inteligente. A minha potência que se manifestava apenas no âmbito da abstração, do pensamento, se concretiza socialmente, se torna efetividade, algo concreto. 


É a diferença entre ser e pensar, entre aquilo que existe apenas no meu pensamento, como potencialidade abstrata, e aquilo que existe fora de mim como algo concreto, como exterioridade concreta à minha corporeidade física. Eu posso vir a ser um homem inteligente, é algo que se mostra como a afirmação ontológica da minha própria individualidade, como algo que constitui o meu ser; mas se isso não se efetiva concretamente no mundo que existe exteriormente a mim, se isso não se mostra como efetivação concreta na realidade social essa potencialidade é apenas pensamento. A efetivação desta capacidade é o meu ser real, e esta efetivação depende do fato de eu possuir a manifestação social do ser genérico, o dinheiro. 

Dado isso, o dinheiro tem o poder de inverter todas as qualidades naturais humanas, isto é, transformar estas qualidades naturais em “não-qualidades”; todas as potências e qualidades humanas são invertidas no mundo em que o dinheiro assume a forma de divindade visível. Aqui percebemos como há um paralelo entre a crítica à alienação religiosa e a crítica à alienação social; os Manuscritos foram escritos em 1844, mas alguns meses antes nosso filósofo escreve a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução, mais precisamente em dezembro de 1843, neste escrito o autor expõe a ideia de que a religião é o mundo invertido, no sentido mesmo de que é uma consciência invertida do mundo [Nota:2]. Lá reina a divindade invisível, Deus. Aqui, no terreno da realidade social reina a divindade visível, o dinheiro. Assim como o mundo da religião é um mundo invertido, o próprio mundo real encontra-se virado de cabeça para baixo na medida em que ele não é a manifestação consciente da capacidade produtiva dos homens, ou seja, na medida em que as potências humanas só são potências mediante a confirmação prática por meio do dinheiro. 

No mundo em que reina o dinheiro o amor não é trocado por amor, confiança por confiança, alegria por alegria, ao contrário, todas estas manifestações ontológicas do ser são invertidas, ao ponto de que todas elas se tornam mercantilizadas o bastante para serem convertidas no seu contrário, pelo poder do dinheiro. E aqui o dinheiro tem o poder de adquirir a totalidade do mundo “natural e humano” como diz Marx, então ele pode fazer com que ódio e amor se confraternizem, confiança por desconfiança, alegria com tristeza, etc.

 Aqui encontramos os traços da crítica ética que Marx realiza ao capitalismo, pois a sociedade capitalista é, por natureza, a sociedade que transforma todas as relações humanas – desde as mais naturais – em relações pútridas, baseadas no uso e no interesse egoístico dos indivíduos singularmente entendidos. Ela é uma crítica ao capitalismo do ponto de vista ontológico na medida em que este, dado o poder divino do dinheiro, torna impotente as potências do meu ser; ela é uma crítica do ponto de vista ético na medida em que o dinheiro transforma as relações naturais humanas em relações artificialmente invertidas. 

Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um [comportamento] humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se tu quiseres fruir da arte, tens de ser uma pessoa artisticamente cultivada; se queres exercer influências sobre outros humanos, tu tens de ser um ser humano que atue efetivamente sobre os outros de modo estimulante e encorajador. Cada uma das tuas relações com o homem e com a natureza – tem der ser uma externação determinada de tua vida individual efetiva correspondente ao objeto da tua vontade. Se tu amas sem despertar amor recíproco, se mediante tua externação de vida como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelicidade. (MARX, 2004, p.161)


Notas:
1. “Agora temos, portanto, de conceber a interconexão essencial entre a propriedade privada, a ganância, a separação de trabalho, capital e propriedade da terra, de troca e concorrência, de valor e desvalorização do homem, de monopólio e a concorrência etc., de este estranhamento (Entfremdung) com o sistema de dinheiro”. (MARX, 2004, p.80)

2. “Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido”. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução in Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Editora Boitempo, 2013.

Bibliografia: 
MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Editora Boitempo, 2004.

__. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução in Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 3.ed. São Paulo: Editora Boitempo, 2013

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19, Por Bárbara Batista

Crônica



Uma reflexão sobre a morte em tempos de COVID-19
Por Bárbara Batista

“Porque a vida é trem bala, parceiro, e a gente é só 
passageiro prestes a partir...”

Em tempos de pandemia da COVID-19, muitos rostos conhecidos estão partindo, muitos estão indo cedo demais ou “viveu tempo o suficiente”. O nosso futuro ainda incerto, as dúvidas estão no nosso presente e nos causam sofrimento, o medo do que será de nós daqui para frente.

Nesses dias, diante de tantos acontecimentos, me veio a reflexão sobre a vida e a tão temida morte, afinal de contas, não gostamos de pensar que isso tudo um dia terá um fim. Porém, é inevitável não observar a linha tão tênue entre a vida e a morte. É o ciclo que nos recusamos a acreditar, mas, sempre estará aqui e sempre existirá.

Por nos recusarmos, acabamos não aproveitando determinados momentos com aquelas pessoas que amamos, pois sempre acreditamos que seremos agraciados com o amanhã. E se esse amanhã não chegar? O que você fez de bom para o mundo e para as pessoas que você amou? Você conseguiu cumprir com os objetivos que você traçou ao longo da sua vida?

A morte não se resume ao parar de respirar e acabar tudo, ainda deixamos o nosso legado mesmo após a morte, com isso também vem o luto. Ah, esse luto... É um sabor amargo que dá um nó na garganta, tudo dói, é muito duro você ser ciente que nunca mais verá aquela pessoa e com ele vem o sofrimento, a sensação que poderia ter feito mais.

Esses dias vivenciei uma experiência tão profunda, tão dolorosa, além do COVID-19, ainda existem outras tantas doenças que sentenciam diariamente pessoas a morte, como por exemplo, o câncer. Perdi um amigo para o câncer, assim, como pessoas bem próximas a mim também perderam pessoas que amavam tanto e pude acompanhar bem de perto.

Essas doenças a maioria das vezes, como citei, é uma sentença de morte o pior disso tudo: são sentenciados sem ter cometido algum crime. O hospital é o presídio, os corredores exalam a morte e o tempo parece correr para a morte chegar mais rápido.

Vi a morte de perto, é impressionante como ela tem tantas faces e uma delas era de uma pessoa qual não tinha vínculo, porém, tinha vínculo com pessoas que amo. É doído ver como as coisas simplesmente mudam de uma hora pra outra, tudo pode melhorar ou piorar num piscar de olhos, assim foi a chegada do fim da vida para essa pessoa: minutos a fio de sofrimento até a sua respiração parar.

O corpo não reage os comandos, a respiração para e o que ainda resta é apenas a reação espontânea do corpo em liberar seus fluídos. Enfermeiros correm, quem acompanha chora e em oração pede para a pessoa não morrer, tentam ressuscitar, porém, sem sucesso e se constata o tão temido óbito. Mais choro, mais dor e as seguintes perguntas: Por que ela tinha que morrer? Ela estava tão bem! Como isso pôde acontecer de uma hora pra outra? 

Em tempos de COVID-19 o sofrimento é maior, além de não poder ter aglomeração, a burocracia no cemitério aumentou por conta do aumento no número de sepultamentos, tornando o processo demorado. A despedida tornou-se mais curta, pois poucas pessoas podem acompanhar o enterro.

A realidade que nos recusamos a aceitar é que nascemos para morrer, que tudo morre, que nós morreremos e que não há nada até o momento que impedirá isso. E como dói saber que isso tudo terá um fim.

sábado, 2 de maio de 2020

A tentativa de depuração da obra de Marx, por Gabriel Henrique

Ensaio

A tentativa de depuração da obra de Marx
Por Gabriel Henrique

“Dá-se com a doutrina de Marx, neste momento, aquilo que, muitas vezes, através da História, tem acontecido com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos dirigentes do movimento libertador das classes oprimidas. Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para “consolo” das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o.” (Lênin, O Estado e a Revolução, 1917).

Estas palavras de Lênin, que estão presentes no começo de “O Estado e a Revolução” nunca foram tão atuais e verdadeiras; a obra de Marx, desde há algum tempo, tem sido alvo de “depuração” por parte das classes dominantes de todos os países. Trata-se da tentativa de enfatizar o aspecto “atual” da obra de Marx, sempre deixando claro que o caminho revolucionário, apontado por ele, de superação do capitalismo, foi um caminho fracassado.

Em O Capital, sua obra mais importante, Marx coloca que o capitalismo se baseia na existência de milhões de despossuídos, que por não terem meios de produção têm de vender sua força de trabalho àqueles que são detentores privados destes meios de produção, os capitalistas. Ora, ao estabelecer essa relação formal de venda da força de trabalho, por meio de um contrato firmado entre ambas as partes, o capitalista, como comprador, passa a dispor do consumo dessa força de trabalho, de modo que ele faz o trabalhador trabalhar mais do que necessita para repor o salário firmado em contrato, em uma determinada parte de seu tempo de trabalho ele trabalha de graça para o patrão, essa é a mais-valia.

Neste mesmo livro, na “lei geral da acumulação capitalista”, Marx constata que, no capitalismo, ao mesmo passo que se segue a criação de riqueza, se segue a criação de miséria. Haverá sempre uma massa de trabalhadores supérfluos às necessidades do capital e sujeitos ao pauperismo mais gritante, trata-se dos desempregados; aos trabalhadores que conseguem se empregar a exploração crescente, seja em extensão ou intensão, será a tônica, por mais velada que esteja.

Mas nada do que fora exposto acima é o que exatamente causa horror à burguesia, não é a crítica que Marx faz ao modo de produção capitalista enquanto um sistema que só sobrevive às custas da miséria de milhões para enriquecer um punhado de ricaços que causa estupefação na classe dominante; o que antes é um horror e um crime para a burguesia, caso de polícia, é que Marx tenha mostrado que as atuais relações de produção – baseadas na propriedade privada dos meios de produção – são relações históricas e que, portanto, são relações passíveis de superação, podem dar lugar a outras formas de sociabilidade; a possibilidade da revolução socialista, levada a cabo pelos trabalhadores, é o que causa horror à burguesia.

A constatação de que o regime capitalista, baseado no trabalho assalariado, não é um regime eterno; de que os trabalhadores podem, e devem, mudar o curso da história, tomar o seu destino nas suas próprias mãos, é isso que é inconcebível para aqueles que vivem na riqueza às custas do trabalho dos outros, às custas do trabalho de milhões de trabalhadores.

No atual quadro conjuntural brasileiro a crise cíclica do capitalismo mundial se somou à pandemia sem precedentes do Coronavírus, cujas consequências prometem ser brutais à acumulação capitalista mundial. A agenda de Bolsonaro e Guedes, que não é nada mais que a agenda da coalização burguesa no poder, já caminhava, antes da crise, no sentido de baratear a força de trabalho, assaltar o Estado brasileiro e recrudescer o regime; a partir de agora terá motivos de sobra para acelerar essa agenda. Não há para onde correr, a crise cíclica do capitalismo virá acompanhada de forte arrocho salarial em cima dos trabalhadores, cuja precarização e pauperização serão cada vez maiores. Destarte, tal conjuntura tem mostrado que a necessidade de uma revolução brasileira nunca esteve tão explícita, é momento de mostrar que nós sabemos construir um país com os trabalhadores e para os trabalhadores. 

Neste sentido, para os comunistas brasileiros, a vida de Marx, uma vida de luta, dedicada à revolução social, à luta dos trabalhadores, é fonte de inspiração e, mais do que isso, sua obra é a arma teórica pela qual nós podemos compreender e atuar sobre a realidade. Pois sabemos que “a teoria também
se torna força material quando se apodera das massas”. (Marx, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução, 1843).

À tentativa de depuração da obra de Marx – de torná-lo um autor “atual”, mas inofensivo – promovida sistematicamente pelos veículos de imprensa burgueses, no bojo das comemorações em torno dos 202 anos de seu nascimento, respondemos com uma citação do próprio revolucionário alemão: “Para nós, não se trata de reformar a propriedade privada, mas de aboli-la; não se trata de atenuar os antagonismos de classe, mas de abolir as classes; não se trata de melhorar a sociedade existente, mas de estabelecer uma nova.” (Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas. Karl Marx / Friedrich Engels Março 1850).

quarta-feira, 29 de abril de 2020

CONTO: Madona sob o luar, de Mauricio Braga

Conto


Madona sob o luar

Ontem foi meu aniversário. Pedi aos meus pais um binóculo de presente. Ganhei. Havia dito que queria observar as estrelas. Eu sei, é ridículo. Binóculos não são de grande utilidade para astronomia. Apesar de ridículo, meus pais acreditaram. Na verdade, não se importaram ao ponto de questionar. Queria um binóculo? Tudo bem, comprariam um. Nem precisava justificar. Não obstante, inventei um interesse pelos astros celestes para ocultar o motivo real do meu desejo pelo binóculo. Um motivo daqui da Terra mesmo: ela, a minha musa, que se mudou há duas semanas para a casa em frente à minha, do outro lado da rua.  Desde que ela se mudou para cá, todas as noites subo na laje de casa e, escondido pela escuridão, forço a vista para vê-la.

Hoje não forçarei mais a vista graças ao binóculo. Com ele, posso vê-la perfeitamente. Seus gestos suaves, o movimento de seu vestido. Vejo como ela, na varanda, senta-se em uma cadeira de balanço com uma criança ao colo. Um menino que aparenta contar com uns 5 anos. Ela balança suavemente. Ri para o menino que adormece. A cena parece uma pintura de Maria com o menino Jesus. Reparei com o binóculo que a criança possui semelhanças físicas com ela. Todavia, não creio que seja seu filho. Uma moça assim, tão pura, deve ser virgem. Imagino então que seja seu irmão. Talvez seus pais tenham morrido e, por isso, a moça tenha abdicado de tudo para cuidar do irmão como a um filho. Ou ainda, como Maria, tenha o concebido sem sexo. 

Quando a vejo, sinto o volume em minha calça. São os sonetos que escrevi para ela e guardo no bolso. Um mais belo que o outro, entretanto, nenhum capaz de fazer jus à beleza de minha musa. Às vezes penso em me aproximar e declamar os meus versos. Mas logo o pensamento some perante a razão, pois uma aproximação seria fatal. As musas devem ser sempre inalcançáveis. Devem permanecer em um pedestal, com uma redoma.

Vejo que o menino dorme profundo. Ela se levanta com ele nos braços. Anda suave para não o despertar. Anda não, flutua. Entra em casa. Fico encarando a porta que se fecha. Que privilégio poder vê-la. Quem dera eu fosse aquele menino sendo ninado por uma deusa. Tudo nela é sagrado. E eu, mero devoto, devo entregar-lhe uma oferenda.

Pouso a mão sobre o volume no bolso. Já sei. Atravessarei a rua e depositarei os meus sonetos na sua caixa de correio. Assim como estão. Manuscritos, sem assinatura. Depois retornarei à laje e farei uma vigília a noite toda. Paciente, esperarei que ela acorde e vá pegar a correspondência. Quero ver sua reação ao ler minhas palavras. Seu sorriso, precedido por uma expressão de surpresa.

É o que farei. Assim, desço da laje. Discretamente atravesso a rua. Beijo uma vez mais os papéis que retirei do bolso. Em seguida, insiro-os na caixa de correio. Volto apressado, com o coração agitado. Subo novamente na laje e aguardo. Ficarei a noite toda olhando, pelo binóculo, a porta fechada, enquanto recito mentalmente os sonetos que já decorei.

23h – A noite segue mágica. As estrelas brilham como nunca antes brilharam. Não pregarei os olhos. Deus do céu, parece que vislumbro o paraíso.

23h47 – Não acredito no que vejo. Um carro parou em frente a morada de minha musa. Descem dele dois homens: Um magrelo com cara de paspalho e um gordo que, além de gordo, manca de uma perna. Este segundo segura duas garrafas de cachaça, cada uma em uma mão. O primeiro, buzina. E, como resposta, minha musa abre a porta, atravessa a varanda e os recebe no portão. Os dois entram. Ela está com uma roupa diferente. O vestido de antes deu lugar a um short curto e uma blusa cuja tira do ombro insiste em deslizar.

01h18 – Desde que chegaram, os dois bebem com a minha musa na varanda. O trio ri. Os homens se alternam em passar a mão na moça. Esta, ora beija um, ora beija outro. A cena me causa asco. Sinto-me enojado. Porém não consigo tirar os olhos dessa festa profana.

01h37 – O trio entrou. Agora o que me resta é imaginar. Encaro a porta fechada, imaginando a orgia que ela esconde. Parece que vejo o paspalho e o coxo entrando pelas vias da donzela. Uma angústia oprime meu peito. É uma traição! Uma desonra! Fito a porta do lar ofendido. Eu poderia estar em outro lugar, com outra pessoa, mas larguei tudo para dedicar venerações a ela. E como ela retribui?  Se entregando para mãos indignas.

01h43 – Talvez não seja bem assim. Talvez eles apenas estejam dormindo. Além do mais, há uma criança na casa. Sim, não devo me precipitar. Com a porta fechada tudo é possível. A dúvida é que consome. 

03h21 – Ando de um lado ao outro pela laje. Já cogitei me atirar. Que vergonha! Entro em desespero. Puxo os cabelos da cabeça. Mas ainda não derramei nenhuma lágrima. Não vale a pena. Embora meus olhos fiquem marejados, não chorarei.

06h10 –A noite foi longa e torturante. Apesar de o sol já ter despontado, no meu coração ainda faz trevas. Continuo na minha noite escura da alma. A porta se abre. Pego o binóculo e miro. Estou agachado na mureta da laje como se estivesse em uma trincheira. Vejo o paspalho, com uma expressão ainda mais imbecil, sair; seguido pelos passos irregulares do gordo. Na porta a minha musa se despede enrolada apenas em uma toalha, que desce dos seios até um palmo da coxa. 

Largo o binóculo no chão. Desço da laje. Entro em casa cabisbaixo. Vou para o meu quarto e me deixo cair sobre a cama. Aí começo a chorar como um recém-nascido. 

Mauricio Braga

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Liberdade e solidariedade ou extermínio, por Matheus Cascaes


Barro, de Rodriggo Ribeiro.


Liberdade e solidariedade ou extermínio
por Matheus Cascaes

Este é um momento em que está claro: ou descobrimos a solidariedade, ou nos exterminamos mutuamente. Essa dicotomia sempre se apresentou a nós, mas costumava ser percebida como uma hipérbole. No entanto, por conta da pandemia, ela se tornou mais sentida, mais palpável, mais indispensável, mais intransponível. Mais que nunca, o "quando escolho, escolho pela humanidade inteira" do Sartre está valendo.

Mas como ser solidário numa sociedade em que todas as estruturas que pairam sobre a cabeça do homem o forçam a ser egoísta? Quando parece que esse homem forjado pelo capitalismo é averso a toda forma de coletividade verdadeira? A resposta está com Sartre também: "o homem está condenado a ser livre". O homem é livre para escolher e para, com essa escolha, projetar esse novo homem que ainda não existe. E qualquer tentativa de mascarar isso, dizendo que foi forçado por alguma circunstância, é mentir para si mesmo, é má-fé.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Das Dores, de Yama Talita

Conto



DAS DORES*

Meu nome é Maria, satisfação, o prazer é na cama. 
Maria, a mãe de jesus, a dona da luz e também minha mãe. 
Meu sobrenome faz jus a tudo que passei e que, 
por conta do que o pastor falou, vou passar no inferno.

Naquela sexta, ela saiu de casa e foi encontrar o digníssimo. Agarrou-se a ele na frente da matriz como se sentisse que algo já esperava por ela há tempos naquele local. Ele, conhecido pelos camaradas ambulantes, abraçou-a com a educação que cabia, afastando-se repentinamente. Sabia que se o vissem com ela tudo poderia estar acabado. Sua honra e sua reputação iriam pro caralho... Ele a amava, mas nem tanto assim.

Ela sentiu a frieza. O afastar-se tomou conta do centro de Manaus como se fosse enxurrada de desprezo. Como de costume, engoliu o gesto e continuou perguntando dos dias dele enquanto longe da amada. Um amigo passou, ele largou a mão dela bruscamente e falou do preço do ramutã e do mari. Ela se emputeceu mais uma vez. Pra que tanta vergonha? Estava chateada... mas como o amava, nem estava tanto assim.

Após a conversa, que mais era um monólogo sob o sol escaldante da vergonha e do desprezo, ela disse que precisava comprar umas coisas e foi embora. O beijo era na boca, mas foi morar dentro da orelha. Ele virou a cara. Puta da vida, de mãos dadas com a vergonha e com a insegurança, ela saiu. Pelo menos os cílios e as unhas postiças ainda lhe cediam algum poder. Tentar entender o motivo de ser um poço de vergonha pro namorado era inútil. 

O amontoado de gente na rua abafava o ruído que rondava a cabeça. Não entendia a atitude dele. Ontem quando estavam deitados lado a lado, sozinhos, carne na carne, entrelaçados membros, ele disse que enfrentaria tudo por ela. Fosse o que fosse, ele a amava. E hoje é assim, age como um filho da puta. Como se a presença dela fosse uma ameaça a toda a masculinidade dele. 

No meio de tudo isso, ela ainda sentia que era livre. Estava agarrada ao coração dele, mas isso não impedia de fazer o que quisesse. Beijava quem queria beijar, fodia com quem queria foder. Era cachorra, cachorra apaixonada, mas cadela de rua, criada sem calça, livre e bem resolvida. 

Em meio aos pensamentos fúnebres, lembrou do Sargento que disse que se encontrasse com ela de novo enfiaria dois tiros no cu pra deixar de ser abusada e dar em cima de macho casado.  Ele tava sentado de costas pra rua, ela, passando apressada para reencontrar o namorado, não viu o capacete no chão. Chutou (acho que) sem querer. O bicho rolou pra longe e só parou num esgoto, boiando na água suja. Procurando o culpado, o milico tirou a Taurus do coldre interno, destravou e viu atrás dele aquela que ele tinha prometido enfiar dois tiros no cu. 

Parou. Estagnada e com meia vida passando na cabeça, viu a pistola apontada pra testa. Os “filha da puta chupa rola dá o cu do caralho” passavam como se fossem as balas já estourando o tímpano. Ainda se ouviu um “desculpa” fraco, inútil e sem ânimo saído da boca vermelha. Derrubada no chão pelo Cabo que acompanhava o Sargento, ela ouviu em meio aos chutes um “essa puta ia roubar meu capacete”. Sem forças e quase desacordada, viu a arma se erguer novamente. Ouviu o primeiro de muitos disparos, apagou. 

No outro dia o jornal anunciava a confusão: “Um corpo foi encontrado por populares no terminal da Matriz. Informantes dizem que se tratava de uma briga de bar travada entre dois policiais militares não identificados e um terceiro envolvido. O motivo seria o possível furto de um capacete que pertencia a um dos PMs. Um dos ambulantes, que se diz amigo próximo do meliante, informou ao IML e às autoridades as informações necessárias para a identificação do corpo. A vítima era Genilson Tavares Holanda, 35 anos, conhecido pelos ambulantes e, principalmente pelos clientes, como Maria das Dores Benditas”. 

Yama Talita



*Conto publicado no terceiro volume da revista Bodozine, lançado em 04 de maio de 2018.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Nota Shakespeariana, por Breno Lacerda

Literatura


 Nota Shakespeariana
por Breno Lacerda

Numa tarde enlanguescida, quando o tempo não faz sentido, e o gosto da paralisia provinciana nos toca a boca, conheci Shakespeare. Datava então treze anos de idade e passava as férias juninas na casa de minha tia, no bairro de Santo Antônio, Manaus. Naquela sala tão afetiva, arquivo esbatido de minhas memórias, havia uma pilha de livros entulhada numa espécie de baú. Comecei a vasculhá-lo, a puxar os exemplares desorganizados, nada interessante. Uma revista de microempresas, um dicionário, uma tabuada etc. Em minutos já tinha desarrumado tudo, mas, na profundidade daquela confusão, entre baratas, me deparei com um livrinho, o título: "A megera domada", William Shakespeare, texto adaptado. À época, nunca tinha ouvido falar do autor e sua obra. Não obstante, uma vontade feroz me impeliu a lê-lo, mesmo sem saber o quê encontraria naquelas páginas, achei a vida!. Li o exemplar como quem bebe água depois de dias no deserto, a história me entorpeceu, abriu-me uma chaga que nunca mais se fecharia, Shakespeare. Nos desencontramos por um tempo, período de trevas em minha vida. Acossado pelo obscurantismo religioso, com dezessete anos recém completados, entrei numa lojinha dessas que há em todos os shoppings, no momento em que a luz do bardo tocou-me a cicatriz. Encontrei o Hamlet na prateleira, edição da LPM&Pocekt, e tradução de Millôr Fernandes. Não titubeei, comprei-o imediatamente. Foi uma leitura a conta--cotas, não por dificuldades ou aspereza das palavras, mas pela beleza de cada ato, dos monólogos arrebatadores. Eu sempre relia a fala de algum personagem, queria decorar os solilóquios, desejava que eles fossem minha epiderme. Aliás, confesso, gosto mais da tradução de Millôr, que é superior à de Anna Amélia, mãe da excelente Bárbara Heliodora. A partir daí o Bardo fez parte da minha trajetória como água ao meu corpo. Não há um mês o qual eu não leia uma peça sua, não existe um dia sem a leitura de algum poema seu. Considero Shakespeare um autor primitivo, no sentido de construir arquétipos da psiquê humana. O ódio, ciúme, a morte, traição, a ambição estão todos ali, como sementes primevas do homem. Não sei até que ponto a frase de Harold Bloom se sustenta, "Shakespeare inventou o humano, criou nossas emoções", mas tenho a certeza que o meu ser foi criado, não, fui salvo por William Shakespeare. 

Parabéns, meu amado guia.