sexta-feira, 15 de maio de 2020

O FOQUISMO NA REVOLUÇÃO CUBANA, por Christopher Souza da Rocha


O FOQUISMO NA REVOLUÇÃO CUBANA
 por Christopher Souza da Rocha

INTRODUÇÃO 
A Revolução Cubana foi, sem dúvidas, um dos principais acontecimentos da América Latina na segunda metade do século XX, resultado de um movimento guerrilheiro que seria responsável pela derrubada do governo ditatorial de Fulgêncio Batista e a tomada do poder, em 1959, pelo jovem Fidel Castro e o exercício rebelde. O presente artigo aborda a relação entre a Revolução de 59 com as teses defendidas por um dos importantes líderes do movimento revolucionário, Che Guevara, que viria publicar suas ideias, após a Revolução, no livro “Guerra de Guerrilhas”[1]. Mais tarde, em 1967, as ideias de Guevara serão organizadas pelo sociólogo francês Régis Debray, com a publicação do livro “Revolução na Revolução”. Mas, antes de tudo, é necessário conhecermos a construção do movimento revolucionário em Cuba e o porquê da formação desse movimento.  

Após a guerra entre Estados Unidos e Espanha, em 1898, Cuba, até então colônia espanhola, obteve a sua independência. As tropas norte-americanas ocuparam a ilha até 1902, quando foi instituído o primeiro governo republicano. Mas, por pressão dos EUA, a nova Constituição cubana, promulgada no ano anterior, teve de se submeter aos norte-americanos dando-lhes o direito de intervir militarmente na Ilha sempre que seus interesses fossem ameaçados, Cuba, portanto, tornou-se um país com soberania limitada. 

  Em março de 1952, após alguns anos de governos democráticos, Fulgêncio Batista autoproclamou-se presidente de Cuba, com apoio dos EUA, com interesse em impedir a participação de partidos de esquerdas nas eleições que aconteceriam no mês seguinte, sendo que ele já havia sido presidente por dois mandatos e não poderia mais se reeleger. Na Universidade de Havana, os estudantes criticavam o governo de Batista. Entre eles estava o jovem Fidel Castro. 

 Em 26 de julho de 1953, Fidel, com 26 anos de idade, liderando um grupo de 150 homens, atacou o quartel militar de Moncada. O objetivo era derrubar Batista. Mas os planos fracassaram e Fidel acabou sendo preso. Condenado a 15 de prisão, foi beneficiado com uma anistia e, em menos de dois anos, estava em liberdade.

No ano de 1955, Fidel foi para o México organizar outra revolta. Ele liderava uma organização política, o Movimento Revolucionário 26 de julho (MR-26). Um jovem médico de 27 anos, Ernesto Che Guevara, integrou-se ao grupo e mais tarde, junto a Fidel, seria uma das principais lideranças do movimento revolucionário. 

  Fidel planejava desembarcar em uma praia cubana e iniciar a luta, contando com revoltas nas ruas das cidades em apoio ao seu movimento. Um pequeno iate foi comprado, chamado de Granma. Em 2 de dezembro de 1956, Fidel, Che e cerca de 80 homens chegaram em Cuba, mas encalharam num recife. Foram atacados pelo exército de Batista e somente 12 deles conseguiram escapar, refugiando-se em Sierra Maestra.  

  A sociedade cubana, nesse período, manifestava-se forte oposição à ditadura de Batista, além de sindicatos de trabalhadores e organizações estudantis, atuavam o Partido Comunista Cubano e o Partido Socialista Popular[2]. Os guerrilheiros refugiados nas montanhas receberam apoio político, alimentos e armas enviados por lideranças de partidos e movimentos sociais das cidades. Com as adesões e o apoio que receberam, Fidel, Che e os rebeldes se sentiram fortes para formar quatro colunas militares e derrubar o governo de Batista. 

  No final do ano de 1958, boa parte do país era controlada pelo MR-26. No dia 1º de janeiro de 1959, as forças rebeldes entraram em Havana. No dia seguinte, Batista abandonou o país. E em 1961 o novo governo cubano declarou que a Revolução, iniciada como nacionalista e anti-imperialista, passaria a ser também socialista. 

O FOQUISMO 
Um ano após a Revolução Cubana, em 1960, Che Guevara apresentou suas teses sobre a estratégia utilizada na Revolução e que, para ele, serviria de modelo para toda a América Latina, organizado em um livreto intitulado “Guerra de Guerrilha”, o qual apresenta, o que Régis Debray chamaria mais tarde, “A teoria do foco”[3]. Em Guerra de Guerrilha, Guevara apresenta três contribuições fundamentais da Revolução Cubana para teoria e a prática dos movimentos revolucionários na América Latina: 1º As forças populares podem ganhar a guerra contra o exército; 2º Nem sempre há que se esperar que se deem todas as condições para a Revolução; o foco insurrecional pode cria-las; 3º Na América subdesenvolvida, o terreno da luta armada deve ser fundamentalmente no campo (DOSAL, 2006, p. 217). 

  A Guerra de Guerrilha apresentava que a Revolução se daria, a partir, do foco guerrilheiro, formado por uma vanguarda armada que provocaria uma ação das massas. Este foi o caso da experiência cubana, que no desenvolvimento da Revolução, sobretudo durante o movimento guerrilheiro em Serra Maestra, as lideranças revolucionárias tornam-se fundamentais para a mobilização das massas, como afirma Ricardo A. Mendes: 

Se Fidel possuía, desde sua origem, uma proposta socialista, o movimento seria obviamente, igualmente socialista. A noção de vanguarda revolucionária ganha, aqui, uma grande relevância. Seria a vanguarda armada, articulada a partir de uma estratégia calcada no foquismo, a grande responsável pela vitória. E se Fidel, considera essa perspectiva, era então o líder desse movimento foquista[4]

  Guevara também discorre sobre as insuficiências do Partido para a Revolução, o qual é substituído pelo foco, aparentemente entrando em contradição com a teoria marxista-leninista e a experiência leninista da Revolução Bolchevique na Rússia. De fato, para Guevara, a Revolução Cubana se diferencia taticamente da experiência bolchevista. Porém não negava o marxismo-leninismo. Nesse sentido, apresenta Paul J. Dosal: 

Che concluía que a Revolução Cubana contradissera a premissa fundamental de Lênin, segundo o qual não pode haver movimento revolucionário sem uma teoria revolucionária. Os principais líderes da insurreição cubana sabiam alguma coisa sobre o pensamento marxista-leninista, mas nenhuma teoria revolucionária os guiava ao embarcar no Granma. A improvável vitória deles demonstrara que “a revolução pode ser feita se as realidades históricas são interpretadas corretamente e as forças envolvidas são utilizadas corretamente, mesmo se a teoria não é conhecida”. Ao escrever a Guerra de Guerrilhas, Che não pretendia revisar Marx, Lênin ou Mao e construir uma nova teoria, modelo ou paradigma revolucionário. Ele simplesmente pretendia ensinar revolucionários a fazer a revolução [...]. 

   A teoria do foco ganhou uma maior densidade teórica a partir de a “Revolução na Revolução”. Régis Debray foi um dos grandes entusiastas da Guerra de Guerrilha, destacado por construir suas ideias a partir da ação concreta, chegando inclusive a combater ao lado de Guevara na selva boliviana. Debray “tornou-se o mais conspícuo ideólogo da Revolução Cubana e um dos que mais influenciaram a esquerda radicalizada surgida na década de 1960” [5].   

 Debray, marxista-leninista, enxergava na Guerra de Guerrilha, que assim como em Cuba, seria essencial para a Revolução Socialista na América Latina, “Cuba mostrou mais uma vez, em primeiro lugar, que a revolução socialista é o resultado de uma luta armada contra o estado burguês” (DEBRAY, 1996, p.7). Apresentava que o desenvolvimento da Revolução dar-se-ia a partir da guerrilha revolucionária clandestina, independente da população civil, com o objetivo principal de destruição do potencial militar do inimigo e esse objetivo requer o foco permanentes independentes do que esteja nas zonas de operação (DEBRAY, 1996, p.27). 

O pensamento de Debray não se limita a interpretar que a luta de guerrilha é suficiente para destruir o potencial militar e a máquina de repressão do Estado burguês. Para ele, a luta de guerrilha representa uma fase da guerra revolucionária, “para destruir um exército é preciso construir outro”. Debray considera a guerrilha como “núcleo do exército popular e do futuro Estado Socialista” (DEBRAY, 1996, p. 74) 

Agora organizado, o Foquismo seria disseminado na realização da I Conferência Tricontinental, realizada em Havana em 16 de abril de 1967, nesse evento criou-se a Organização Latino Americana de Solidariedade (OLAS), que tinha por objetivo financiar e treinar grupos guerrilheiros da América Latina, na ocasião, Che Guevara, fez um histórico discurso da luta anti-imperialista na América Latina, “A América, continente esquecido pelas últimas lutas políticas de libertação, que começa a fazer-se sentir através da Tricontinental, na voz da vanguarda de seus povos, que é a Revolução Cubana, terá uma tarefa muito maior: a criação do segundo ou terceiro Vietnã no mundo” (DOSAL, 2006, p.243). 

INFLUÊNCIAS DO FOQUISMO NA AMÉRICA LATINA 
A Revolução Cubana provocou uma grande efervescência política na América Latina, os Partidos de esquerda em praticamente todo o continente, se entusiasmaram com a vitória da Revolução. Grupos guerrilheiros se formaram, dentro e fora dos Partidos. E com o objetivo de sair do isolamento, o próprio Governo cubano, também, passou apoiar as ações revolucionárias socialistas em toda a América Latina, incentivando a formação dos Focos Guerrilheiros.  

  A partir daí, Cuba incentivou e apoiou movimentos revolucionários na Argentina, Colômbia, Guatemala, Brasil, Peru e na Venezuela. E ainda em 1967 Guevara vai a Bolívia com intuito de construir um foco guerrilheiro, onde foi capturado e assassinado por agentes da CIA norte-americana (DOSAL, 2006, p.275). O temor que a Revolução Cubana pudesse gerar outros movimentos revolucionários na América Latina, levou os EUA a adotar várias medidas reacionárias contra a América Latina. 

  A Bolívia, em 1964, sofre o golpe militar de Barrientos, o qual derruba o Governo do Movimento Nacionalista Revolucionário. Em 1965, uma invasão de fuzileiros navais dos EUA, derruba, na República Dominicana, o presidente eleito Juan Bosch. Em 1968, Valasco Alvarado, encabeça um golpe militar no Peru. Em agosto de 1971, ocorreu o golpe militar na Bolívia, que derruba o governo nacionalista de Juan José Torres. Em junho de 1973, um golpe militar dissolve o Parlamento no Uruguai, e em setembro do mesmo ano, um golpe encabeçado por Augusto Pinochet, com a poio e financiamento dos EUA, derruba o governo de Salvador Allende e inicia um massacre nos sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais em geral. Em 1975 o general Morales Bermúdez toma o poder no Peru. Por fim, em março de 1976, acontece um golpe militar na Argentina, iniciado por um enorme regime repressivo, com desaparecimento em massa de sindicalistas, militantes de esquerda e estudantes[6]

O Brasil, ainda nos primeiros anos da década de 1960, começava a viver um clima de acentuação da participação popular em lutas socais. Durante o governo de João Goulart a luta por reformas estruturais, sobretudo as Reformas de Base, propostas pelo então presidente, passou a mobilizar um grande número de trabalhadores. O sentimento nacionalista mobilizou também estudantes, artistas e até mesmo a classe média urbana, que tinham como pautas a transformação da estrutura educacional e a Reforma Agrária, assim também pautas relacionadas a questão econômica do país. Por outro lado, havia setores da elite e das forças armadas descontentes com o clima reformista que tomava as ruas do Brasil. No Parlamento havia uma forte oposição da direita antirreformista, o Governo dos EUA financiou os governadores adversário de Goulart e as narrativas anticomunistas passavam a ganhar força entre a classe média e os trabalhadores (ARNS, Paulo. 1986). Em 1º de abril de 1964 se consolida no Brasil o Golpe Civil-Militar[7]. Em 1968 o governo ditatorial impõe o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de cunho completamente autoritário, concedendo extremos poderes ao presidente militar: de fechar o congresso, suspender direitos políticos, cassar parlamentares e julgar crimes políticos. As entidades de organização social entram na ilegalidade, restando, como única forma de oposição ao regime, a clandestinidade. A Ditadura Civil-Militar (1964-1985), em que pese a perseguição aos opositores do regime, não conseguiu impedir o povo de se organizar, sobretudo, os partidos e organizações marxistas que construíam suas ações políticas dentro das instâncias legais, nos primeiros anos do golpe, e na clandestinidade após o AI-5. Outros setores de oposição como militares, sindicalistas, estudantes, políticos, jornalistas e religiosos também foram alvo do governo ditatorial (ARNS, 1986: 117). Nesse sentido, diante da clandestinidade, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), organizou uma Guerrilha, na região amazônica, no fim da década de 1960 e meados de 1970, de inspiração foquista esse movimento ficou conhecido com Guerrilha do Araguaia[8].

CONCLUSÕES 
  As teses do Foquismo, formuladas por Che e sistematizadas por Debray, foram construídas intrinsecamente ligadas a história do processo revolucionário cubano. A experiência dessa Revolução, como próprio apresentou Che, foram diferentes das experiências revolucionárias na Europa, diferenciando-se, sobretudo, da Revolução Soviética, de 1917.  

Devido a ofensiva reacionária dos EUA na América Latina, sobretudo contra as organizações e lideranças socialistas, o Foquismo acabou por ser uma experiência exclusivamente cubana. Os golpes militares em vários países do continente não foram impeditivos para tentativas de insurreições de modelo Foquista na América Latina.  

O Foquismo em Cuba é, senão, a própria expressão da Revolução Cubana. E essa experiência revolucionária foi importante para inspirar a luta anticolonialista e antiimperialista na América Latina. É importante ressaltar a ideia de Che e Debray de uma Revolução estilo Latino Americana, com características próprias e construída a partir das realidades e analises concretas do momento histórico, não entrando em contradições com o marxismo, mas adaptando-o para as especificidades latino-americanas.  

  Por fim, na segunda metade do século XX, a América Latina deparou-se com um fenômeno, que se tornaria a bandeira, na forma de luta mais radicalizada dos povos no continente, a bandeira da liberdade.  

Concluo com as palavras do Che Guevara, em seu discurso na ocasião da I Tricontinenta, “Mensagem aos Povos do Mundo Através da Tricontinental”, de 16 de abril de 1967, em Havana: 

“Toda a nossa ação é um grito de guerra contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos contra o grande inimigo do ser humano: os Estados Unidos da América do Norte. Em qualquer lugar que surpreenda a morte, que seja bem-vinda, sempre que esse, nosso berro de guerra, tenha chegado até um ouvido receptivo e a outra mão se estenda para empunhar nossas armas, e outros homens se apresentem a entoar os cantos de luta, com rajadas de metralhadoras contra o inimigo e novos berros de guerra e vitória” (DOSAL, 2006, p. 256). 




NOTAS
[1] Vê DOSAL, Paul J. Comandante Che – Guerrilheiro, líder e estrategista, 1956 – 1967. São Paulo: Globo, 2006. 
[2] Vê GOTT, Richard. Cuba. Uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
[3] DEBRAY, Régis. Revolução na Revolução. São Paulo: Centro Editorial Latino Americano, 1996.
[4] MENDES, Ricardo A. S. Pensando a Revolução Cubana: nacionalismo, política bifurcada e exportação da Revolução. Artigo Científico – Rio de Janeiro. 
[5] (2010) CORDEIRO, Ítalo R. Xavier. A Cultura Política da Revolução Latino-americana na década de 1960: Régis Debray e o Foquismo. Tese de Mestrado – Universidade Estadual Paulista.
[6] COGGIOLA, Osvaldo. Governo militares na América Latina. São Paulo: Contextos, 2001.
[7] Ver: NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2013.
[8] Ver: A Guerrilha do Araguaia. Comissão da Verdade Relatório Oficial, cap 14, pg 5 -10. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   
(2010) CORDEIRO, Ítalo R. Xavier. A Cultura Política da Revolução Latinoamericana na década de 1960: Régis Debray e o Foquismo. Tese de Mestrado – Universidade Estadual Paulista. 

COGGIOLA, Osvaldo. Governo militares na América Latina. São Paulo: Contextos, 2001. 

DOSAL, Paul J. Comandante Che – Guerrilheiro, líder e estrategista, 1956 – 1967. 

MENDES, Ricardo A. S. Pensando a Revolução Cubana: nacionalismo, política bifurcada e exportação da Revolução. Artigo Científico – Rio de Janeiro. 

NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2013.

RELATÓRIO NACIONAL DA VERDADE. Vários autores. Publicado em 10 dez 2014. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php/outros-destaques/574-conheca-e-acesse-o-relatorio-final-da-cnv. Acesso em: Ago de 2018. 

São Paulo: Globo, 2006. 

Vê GOTT, Richard. Cuba. Uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. - DEBRAY, Régis. Revolução na Revolução. São Paulo: Centro Editorial Latino Americano, 1996.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

EXPOSIÇÃO: O protetor do Igapó e outros quadros, de Lucas Reis Frazão


Apresentação
Natureza e Religião*

A partir da modernidade, o homem passou a se ver como algo alheio à natureza. A razão, que supostamente permitiu ao homem transformar e dominar essa natureza, foi vista como algo que atestava a separação e a superioridade humana. Foi na esteira desse pensamento que foi forjado um discurso - desvalidado por todos nossos dilemas ambientais contemporâneos, mas ressuscitado na história mais recente por forças reacionárias - de que a natureza é inimiga do progresso e, portanto, do homem.

Na contramão dessa cisão ilusória (acentuada pelo capitalismo), mas que possui consequências bem reais, os desenhos de Lucas Frazão se apresentam como um elemento de religião (no sentido etimológico de religare). Sua obra, nesse sentido, carrega um forte teor místico e simbiótico e busca refazer essa ponte perdida da consciência humana com aquela coisa que lhe é superior e da qual faz parte: a natureza.

Não obstante, essa natureza em Frazão nunca é óbvia. O artista detalha bem as plantas, mostrando que, onde a visão simplória percebe um mato uniforme e homogêneo, ele enxerga e revela uma variedade de coisas que, apesar da heterogeneidade, estão em unidade e equilíbrio. 

Ademais, a natureza carrega ainda poeticamente a metáfora da transformação, ocupando, na sua integralidade, externa e internamente os seres. Não é raro então encontrarmos, nos desenhos de Frazão, membros humanos interligados à flora, como se fossem um só corpo.  

Assim, esta exposição – no contexto da pandemia, em que a natureza impõe uma interrupção ao ritmo frenético da urbanidade – é um convite a nos reintegrarmos ontologicamente ao cosmos.


Aquário, de Lucas Reis Frazão


Aquário II, de Lucas Reis Frazão


Bodozal, de Lucas Reis Frazão


Concha, de Lucas Reis Frazão


Descendo o rio, de Lucas Reis Frazão


Em ciclo, de Lucas Reis Frazão


Enraizar ou Flutuar, de Lucas Reis Frazão

Evapora, de Lucas Reis Frazão


Feminilidade, de Lucas Reis Frazão


Mãe Terra, de Lucas Reis Frazão


Morada, de Lucas Reis Frazão



Mundo Pequeno, de Lucas Reis Frazão


Na força da mata, de Lucas Reis Frazão


Pisces, de Lucas Reis Frazão


Nós e entrenós, de Lucas Reis Frazão


Protetor do Igapó, de Lucas Reis Frazão


Raízes, de Lucas Reis Frazão


Sereia da várzea, de Lucas Reis Frazão

Solária, de Lucas Reis Frazão


uýra das águas, de Lucas Reis Frazão


Várzea Vermelha, de Lucas Reis Frazão





*Texto de Matheus Cascaes e Mauricio Braga

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Conto: Instinto, de Matheus Cascaes

Conto

sem título, de Giovanne Reis

Instinto

Ela estava no sexto mês, sua barriga começava a ganhar volume, mas não sentia ainda o instinto materno. Talvez começasse a senti-lo quando o feto se desenvolvesse mais e passasse a chutar seu ventre com mais força. Até então, sentira apenas vibrações, curtas e fracas. Tão curtas e tão fracas que não tinha certeza se as sentira de fato ou se vinham de sua imaginação. Uma vizinha que soubera do ocorrido e a olhara com pena comentou que era assim mesmo. Nos primeiros meses não se sentia tanto. Principalmente quando o bebê era menina. As meninas são menores e mais comportadas. Concordou, porque sabia que estava grávida e que era menina, mas não conseguia associar o sexo feminino ao feto. Era como chamar um inseto de fêmea. Se um entomólogo dissesse a ela que a barata que passava pelos seus pés agora e se escondia atrás do fogão era uma fêmea, pouca diferença faria. Macho ou fêmea causaria repulsa nela e, por ela, teria a morte decretada. Macho ou fêmea lutaria pela vida e fugiria da sandália que ela atiraria contra seu corpo. Macho ou fêmea poria a se esgueirar pelas frestas dos móveis e da casa, enquanto ela moveria tudo de lugar na caçada. Macho ou fêmea fugiria e, no momento do encurralamento, tendo à sua frente apenas paredes, se encaixaria na fenda que une a parede ao solo, sabendo, por instinto ou por experiência, que ali os calçados humanos não atingem baratas com facilidade. Macho ou fêmea prosseguiria sua luta ali com seu corpo exposto, ora com a paralisação dos movimentos, ora com movimentação, esperando que o caçador se cansasse e desistisse. Cansada, ela cogitaria deixar o inseto em liberdade, mas lembraria que ele é fêmea e que, por isso, poderia se multiplicar. Recordaria a vez em que encontrou uma barata prenha em sua gaveta de roupas íntimas. Os filhotinhos embrenhavam-se por suas calcinhas, e a gaveta exalava um cheiro forte que trazia com ele um gosto amargo. Sentia que tinha cada uma daquelas baratinhas nos espaços entre seus dentes, debaixo de sua língua. Quando movimentou a gaveta, avistou a mãe, que, por algum motivo, não saiu de lá. Instinto materno, talvez? Enquanto se distraiu, por um momento, cogitando isso, a barata subiu em sua mão. As patinhas gosmentas tocavam-lhe a carne e o cheiro forte tinha origem nela. Com nojo, tremeu a mão, e a barata fugiu. A recordação afloraria nela seu desejo por higiene, e ela, com inseticida, atingiria a barata, que, num último suspiro pela vida, se movimentaria sem rumo e acabaria com o ventre para cima. O chinelo do pai, sempre à disposição, como se aguardasse momentos como esse, encontraria seu corpo. Talvez a vizinha tivesse razão. Tem que matar, pode ser fêmea, dizia preocupado o marido, que via agora a barata.

Matheus Cascaes

PIETÀ E O SIMBÓLICO DA MÃE DESAMPARADA, por Diana Brasilis


PIETÀ E O SIMBÓLICO DA MÃE DESAMPARADA
por Diana Brasilis

Com o passar do tempo, a tragédia imposta à Maria em sua intensa dor emocional ao ter no colo seu filho Jesus morto, tornou-se referência no mundo da arte como “Pietà”, que em português significa “Piedade”. Tal referência de Cristo morto amparado nos braços da Santa Maria, Mãe de Deus, ao menos para mim, é o simbólico das mães em tempos sombrios em zonas vermelhas, assolada pelo medo, pela guerra e, consequentemente, o genocídio.

A Pietà de Michelangelo, 1498

Devamos lembrar que na pavorosa história da humanidade, crimes se cometeram em diversos nomes para cobrirem algumas causas iníquas. Foram séculos de barbárie humana em nome de um progresso e expansionismo que ceifou milhões de vidas em diversos lugares do nosso mundo. É conhecido o genocídio nas Américas de povos indígenas proposto por colonizadores europeus; a transladação assassina de diversas etnias do continente africano às Américas para a escravidão humana nos tempos coloniais; o genocídio e mutilações de etnias locais no Congo Belga proposto pelo rei Leopoldo II dos belgas; a limpeza étnica sistemática de hererós e namaquas acometida pelo Império Alemão durante a partilha da África, e que ficou conhecido como “o primeiro genocídio do século XX”; o genocídio armênio cometido pelo Império Turco-Otomano durante a Primeira Guerra Mundial; e a inauguração do genocídio sistemático em escala industrial de judeus, roma e sinti, homossexuais, deficientes mentais, eslavos, opositores políticos e prisioneiros de guerra proposta pelo III Reich durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Sem contar os atuais crimes de guerra cometidos em zonas de conflitos étnicos, miséria e calamidade.

Dentro desses horrores citados é bom salientar que a figura da mãe se tornou digna de uma Pietà. São estas que lutam pela vida de sua prole até o último segundo, que levam na memória os traumas de uma perda trágica ou que não soltam dos braços, nem por um decreto, sua criança à barbárie. 

Na história do Holocausto, muito bem documentada, sobreviventes dos sonderkommando judaicos (comando especial composto por judeus obrigados a conduzir ao matadouro e incinerar o seu próprio povo) relataram que ao abrirem as câmaras de gás, após o assassinato de centenas de pessoas, as cenas eram absurdas, isto é, inconcebíveis para o imaginário humano, pois muitas mães mortas, em meio aos cadáveres, estavam arraigadas ao corpo de seus filhos menores, o que tornava impossível o trabalho de coleta dos cadáveres, tudo isso em meio ao fim de uma luta pela vida que se deu nas câmaras de gás, uns sobre os outros, onde os mais fortes tentavam se sobressaírem sobre os mais fracos como apoio.
Pietà (1450/4) de Giovanni Bellini


Pietà (1889) de Van Gogh

La Pietà (1982) de Salvador Dalí


quarta-feira, 6 de maio de 2020

A nova alvorada brasileira, Por Julio Lamparelli

Ensaio

O juízo final, de  Hieronymus Bosch


A nova alvorada brasileira. 
Uma tentativa de formalizar o inferno bolsonarista.
Por Julio Lamparelli

Na superfície as coisas transcorrem mais ou menos assim: o governo é constituído por duas bandas, uma miliciana e outra militar, com divergências e oposições que são propagadas dia-a-dia pela imprensa. O capitão desvairado é imprudente, o general sóbrio lhe poda as asas no dia seguinte e toca-se o barco – mesmo que a imprudência anunciada se torne, como que por magnetismo, logo inevitável e, já decantada na consciência comum, possa finalmente consumar-se (a primeira vez que se anunciou a demissão do Médico Liberal parecia o fim dos tempos; a sua realização, alguns dias depois, foi suave como tomar um copo d´água). Provocações à parte, vale dizer ainda que, além da oposição curiosa entre milícia e militares, núcleo duro do governo bifronte, há também a oposição do “centrão”, meio pé fora, meio pé dentro do governo: institucionalistas e constitucionalistas, bastiões da velha política de coalizão, viúvos repentinos do pacto democrático que, em sua versão mais bem-intencionada, parecem armar verdadeiras trincheiras contra a nova barbárie da ingovernabilidade bolsonarista. A consciência progressista, que costuma pintar assim o quadro, como os grandes jornais impressos ou a Rede Civilizatória de Televisão, naturalmente vê o racha imanente do governo como fato absoluto através do qual projeta, com bons olhos, sua esperança: esgarçar o bolsonarismo desvairado e aliar-se aos militares, esses verdadeiros pais responsáveis da república, que não hão de recusar essa antiga amante democrática, cada vez mais entregue, quase-vulgar.

Além do mal gosto da fábula, achamos que tal oposição cerrada contra a barbaridade bolsonarista leva um alto grau de alucinação – não sei até que ponto por ingenuidade histórica ou por estratégia de varejo.  Contando, claro, com a boa-fé dos leitores, pergunto: por que, afinal, insistimos em sublinhar a oposição entre Militares e Milicianos, que existe e é por certo autoevidente, e não dedicamos um pouco mais de energia aos nossos queridos neurônios políticos para compreender, no fim das contas, por que A se juntou com B? Caso contrário, analisaremos o novo casal, incrédulos, como velhas fuxiqueiras que dizem entre si: “mas como pode, fulano com fulana?!”; e sabemos que o fuxico tem sempre um pouco de inveja e autopromoção, como assim transborda nos jornais republicanos.  Ora, o disparate do casal que hoje rege o país é tudo, sobretudo real. O presidente da república é um miliciano e está aliado às Forças Armadas. Se corre um frio na espinha, começamos a entrar no caminho certo.

Evidentemente, o cenário não é fechado e nem está traçado de antemão: e talvez isso seja o mais pavoroso. O segredo de nosso novo tempo político não deverá ser decifrado pelos olhos viciados da antiga governabilidade, que foi pactuada e serena até onde seus olhos podiam ver: a bem da verdade, se tem alguma coisa provisória nessa história toda, deve ser antes de mais nada a democracia de coalizão, ela mesma uma figuração particular da eterna lei da “metamorfose ambulante” (DA SILVA, Luís Inácio Lula et. al., 2007; apud. MANDETTA, Luiz Henrique, 2020)[1]  variante popular do velho “esqueçam tudo o que escrevi”, (cf. CARDOSO, Fernando Henrique, 1993)[2]; lei que tem sido, essa sim, nossa fatal predestinação, senão desde 1500, pelo menos desde 1964; provando, em avesso, que nada mudou[3]. Se deixarmos de lado a lente estreita da recente governabilidade democrática, veremos assim que a nova normalidade política parece se figurar mais como uma instabilidade permanente do que uma simples fase de transição para um novo “regime”: de um lado, o chefe da república sempre atirando pedra nos santos; de outro, a antiga amante democrática receosa entre puxar o tapete e se atrapalhar toda e; no fundo, segura e serena, as Forças Armadas flertando com elegância, simultaneamente, sua velha conhecida desesperada e sua nova amante desvairada.

Posto esse cenário provisório, vê-se já que o galã de cinco estrelas no peito e óculos rayban sairá ganhando; mesmo assim temos motivos para crer que, apesar das promessas irresistíveis da jovem democracia que parece topar tudo para recuperar o trono, nosso senhor militar já se decidiu por sua recente lua-de-mel. E se, eventualmente, largá-la, certamente não será para rebobinar a fita. Bom, é verdade que sua troca de matrimônio não foi uma ação exatamente apaixonada: todos sabem que os militares deploram do fundo do coração o soldadinho insubordinado que agora deita-se no leito republicano. Contudo, apesar dos clamores saudosistas dos antigos governantes ao coração amolecido dos generais, o novo casamento funda-se noutro registro: é frio e materialista. Para tentar compreender a gélida aritmética militar será preciso, no entanto, trocar o foco.

De fato, a desgastada metáfora do triângulo amoroso, clichê jornalístico de primeira hora, acaba-se logo quando adentramos as tenebrosas placas tectônicas do solo brasileiro, que solavancam no escuro, rasgando o véu da noiva e desnudando uma sublime visão do inferno, que acredito ter sido bem percebida pela consciência armada do Estado e, fora isso, também por alguns teóricos mais aventureiros que tentarei referenciar na medida do possível[4]. Ora, puxando na memória recente, lembramos que desde 2013 uma fenda profunda se abriu no chão social, de modo que todos viram como, entusiasmada, a velha classe política não demorou para também se queimar no fogo. Enquanto a situação governista encarcerava e emudecia o tímido e difuso espectro vermelho da revolta, mostrava-se já completamente inapta e sem ferramentas para governar o novo monstrinho que, logo, já derrubava também a velha oposição, nitidamente desajeitada no lombo da besta. Ao fundo, era o próprio cenário do pacto democrático que queimava, cujas leis e axiomas republicanos, já faz tempo, não passavam de palavras ao vento para a maioria dos pobres brasileiros, afogada em dívidas e governada pelas armas, fardadas ou não.

Mas antes de se alastrar pela roupa dos deuses, o fogo já estava queimando há algum tempo no dia-a-dia popular: a chave para compreender esse cenário infernal foi dada por Gabriel Feltran, em um famoso artigo de 2014 intitulado O valor dos pobres, no qual mostrou que o dinheiro era realmente o último elo objetivo da sociabilidade brasileira[5]. Grosso modo, Feltran percebeu como a reunião entre polícia, lei do crime, religião e trabalho precário estava delicadamente pacificada pela troca de mercadorias e calculadamente administrada pelo fluxo direcionado de dinheiro aos pobres, que caía todo mês nas contas cadastrais do governo mediante crédito fácil e programas sociais de toda sorte. Vale dizer que a miríade de fluxos monetários que ligava, em última instância, os miseráveis às cadeias de capital financeiro globais, mediadas pelo cofre da união – uma verdadeira solução-propaganda do novo modo de rentabilizar os pobres – já era naturalmente um remédio prescrito para uma sociedade em estado de putrefação; portanto, uma gambiarra financeira que já avançava as fronteiras da sobrevida nacional.  Decompostos em matizes diversos de identidade social, vulnerabilidade e renda, os diversos setores da pobreza foram assim farejados pelo dinheiro, que oferecia a cada um o preço que lhes cabia no bolso: dinheiros mais ou menos onerosos, mais ou menos mediados pelo custeio do Estado. As dívidas infindáveis foram pouco a pouco sendo colhidas conforme o bolso de cada um, o que, afinal, era esperado, pois apesar do socorro aos pobres, o novo método de governo não havia trocado uma peça sequer do motor interno da máquina nacional de expropriar riqueza que, no mais, continuava girando. As dívidas variavam, caso a caso, conforme o dinheiro que cada um podia jogar na roleta do parcelamento infinito das mercadorias que, por sua vez, estavam sendo entregues; muito próximo daquilo que o governo costumava chamar de “cidadania”, e que praticamente objetivou de modo lapidar a democracia racionada[6] de outrora, incluídos no pacote de compras cidadãs o ensino superior, a moradia e tantas outras regalias da civilização ocidental. Quer dizer, o Brasil enfim cumpria o velho paradigma de sua formação, isto é, modernizava-se... na medida do possível, mesmo que a realização da Ideia nacional fosse feita às custas da boa aparência fisiológica prevista na cartilha do darwinismo progressista: mais do que um mamífero com bico de pato, tratava-se antes de uma ficção científica propriamente dita, o nosso Frankenstein social com ponte de safena, resgatado às pressas da cova do defunto na qual parecia, finalmente, descansar em paz desde 1980[7]; ou seja, já era suficientemente sinistra a madrugada em que foram desenterrar o morto. 

Mas o zumbi assim reergueu-se por um breve período, reanimado pelo dinheiro nacional, seja pelo velho sistema militar do FGTS, seja por gastos astronômicos nunca antes vistos do OGU. Como, contudo, a corda financeira que mantinha o cadáver de pé era, por assim dizer, usurária de natureza, estando no limite enredada com o sistema das finanças mundiais, não tardou muito para ela estourar por si mesma; o estalido da economia mundial em 2008 foi finalmente transmitido pelos cabos de sustentação do grande sistema, passadas do núcleo orgânico ao paraíso das commodities e, assim, foi rapidamente transmitido à vida pacificada pelo dinheiro das periferias urbanas. Descendo das nuvens cobrando seu preço à Deus e ao mundo, o dinheiro volatizado no mundo das finanças foi, assim, bater na porta daquelas ressequidas moléculas do subemprego que haviam, há pouco, despertado no tecido do morto. Foi àquelas moléculas reanimadas com o dinheiro mais caro – justamente aquelas que, ou foram reunidas na faixa cadastral entre 3 a 6 salários mínimos, ou nem sequer foram cadastradas, porque mesmo pobres, não eram pobres o suficiente – foi a elas que o dinheiro chegou queimando, sem mediação e em primeiro lugar[8]. Logo as contas passaram a fechar no vermelho: universidade, saúde, moradia etc. O mote do transporte público foi, de fato, somente o cabo fragilizado a romper primeiro – já amplamente corroído pela prática criminosa da espoliação bruta – e sua supressão momentânea levou consigo todo o Olimpo “democrático” que nos regia desde 1986, justamente aquela agremiação política que tanto penou para encontrar seu sólido escoramento no método liberal-assistencialista de governar; este que caía. Injetar dinheiro barato no inferno foi, portanto, o lema propagado pelo Olimpo democrático, que fez dele sua América para o mundo, e mediante o qual acabou por jogar a si mesmo no lamaçal da violência financiada. 

Com a queda dos deuses soou, finalmente, o segundo dobrar do sino: era a hora dos deuses ctônicos saírem do alçapão – todo aquele sistema de violência mercantilizada, com tráfico, milícia e polícia, finalmente despontou no firmamento da vida nacional. Após décadas de acúmulo ininterrupto de experiência em extorsão, enquanto reinava no céu a constelação da pax mercantil – de cuja natureza rentista os deuses infernais da expropriação armada eram somente uma fac-símile embrutecida –, estando já todos eles bem aclimatados ao solo democrático e aos seus mecanismos políticos e policiais mais profundos... ora, pensando bem, seu destino de glória estava escrito nas estrelas!  E foi assim que, no tecido do morto, até agora irrigado com o dinheiro do Olimpo, as hifas da milícia puderem crescer e amadurecer; se hoje florescem às vistas de todos, elas o fazem quase naturalmente, como um grande mofo que se levanta no osso da Nova República.  

A essa hora da noite, as Forças Armadas estavam recém-egressas do Haiti, onde tinham acabado de testar sua nova tecnologia do caos social e da qual já faziam dos morros cariocas cobaias frescas quando, em um súbito relance, viram o chão brasileiro assim se abrir. Viram o cadáver social que, solto como um lunático na beira do Vesúvio, clamava em plena telinha televisiva à baderna e à violência[9], à vingança e à desordem, tudo isso enquanto, do outro lado, assistiam o Olimpo democrático que escorregava quase que por si só para o ocaso; imediatamente, os militares correram em peso para a boca do inferno, onde já haviam instalado suas UPPS, e decidiram prontamente realizar uma intervenção militar no Rio de Janeiro, às vésperas do fim do mandato mais impopular da história do país. Após anos de experiência equatorial em desagregação humana, talvez receosos de que uma espécie de Jean-Bertrand Aristid brasileiro despontasse das urnas em 2018, os militares – que a essa altura já ocupavam com armas o portão do tártaro carioca – decidiram por sua conta e risco que estava na hora de abraçar o capeta; aquele que saía da fenda profunda. Logo após anunciar sua candidatura, Jair Bolsonaro, deputado federal para o qual o coração da milícia carioca, o conhecido bairro de Rio das Pedras, não passa de um quintal familiar, lança então seu time oficial: o general Hamilton Mourão como vice-presidente e – cheirando ainda à tinta meio fresca da barbaridade cometida em nome da pax armada de Porto Príncipe – o general Augusto Heleno, então candidato à chefia do Gabinete da Segurança Institucional da República.

É sabido que faz parte da intelligentsia militar sempre esperar o pior cenário e, convenhamos, não era preciso muita inteligência pessimista para ter sentido a bruma de gás-lacrimogêneo, bomba de efeito moral e bala de borracha que se espalhava pela América e pelo mundo. 2013 e 2014 foram nossas visões antecipadas do novo firmamento mundial, seguidas depois pelos secundaristas, pelas ocupações das fábricas de cultura e por uma retumbante greve de abastecimento deflagrada pelos caminhoneiros; cenário que, somado com a pressão avassaladora e suicida do sistema financeiro que pede de modo cada vez mais voraz a cabeça dos pobres; somando tudo isso ainda, na ponta do lápis, com a debilidade política dos deuses locais que só sabem puxar o tapete alheio e que com isso caem em bloco para debaixo da terra – de fato, a memória das ilhas centrais era uma precisa antevisão do que viria a ser o Chile, ou um Equador; uma Bolívia, uma Colômbia, uma Venezuela; uma Síria, um Iraque, uma Líbia... uma França! Um Brasil. Medidas preventivas: o Haiti é aqui. Primeiro passo: somar armas. É tido como certo, contudo, que as Forças Armadas não sustentariam poucas horas sequer de munição contra a polícia militar dos Estados – e isso só para contar com a ponta oficial do iceberg policial: quer dizer, “somar armas” para evitar um cenário de guerra-civil talvez não consista em simplesmente mobilizar o indefeso exército, mas também, e sobretudo, mobilizar aquela estranha corporação cheia de vasos comunicantes com o mundo do crime, a qual costumamos chamar de Polícia Militar[10] .  Uma união entre Forças Armadas e o submundo das polícias, contando com os elos subterrâneos das ramificações ilegais que se tornaram o novo sustentáculo social depois do fim do dinheiro, parece ser aqui um pressuposto militar quase autoevidente para garantir a lei e a ordem em um país que caminha sonambulamente para o caos. E, infelizmente, os vasos comunicantes dessa verdadeira comunidade das armas realmente funcionam e estão operando, como vimos há poucos meses no Ceará. Forças militares e para-militares, exército e porão, palácio do planalto e escritório do crime: era chegada a hora dos militares retomarem sua velha máquina da violência nacional, nunca desmontada e nunca inteiramente desaquecida e que, agora, pelo contrário, mostrava-se ainda mais extensa e complexa, cheia de ramificações e saliências, plena de chefias locais. Retomar aquele antigo sistema da violência que uniu, por 21 anos, generais, políticos e empresários ao submundo do esquadrão da morte exigia, agora, um pacto de sangue com os monstrinhos que ali fizeram morada durante 36 anos de vigência democrática[11]. A garantia da lei e da ordem contará, por isso, com muita barbárie e confusão, afinal, os príncipes dos porões não seguem a lógica cartesiana nem falam a língua polida dos deuses do Olimpo; são extremamente violentos, fisiológicos e visam o lucro privado e a autopromoção com a distância curta de um palmo do nariz; afinal, foi assim que fizeram sua glória nas entranhas do jovem Frankenstein, e não haveriam de fazer diferente agora que ganharam a superfície. São estas bestas-feras que hoje reinam, sem focinheira, junto aos militares, apavorando os jornais e destruindo fantasias. Há pouco tempo, aliás, andam mais armados do que nunca, após terem finalmente revogado as portarias de rastreamento das armas, possibilitando as provisões necessárias para o primeiro destacamento[12]. Com efeito, a terrível aliança militar e política entre Exército e Milícias –  a vitória histórica do anti-Geisel[13] –  é por si mesma a declaração oficial de que o novo Brasil não será governado, no velho sentido administrativo do pacto de coalizão, mas sim coagido de modo terrorista, do chão ao céu, universalizando subitamente a lei do favelão, ou o grande Haiti que sempre foi aqui, garantindo que, na pacificação armada de qualquer coisa que se chama “nação” porque tão somente possui fronteiras, esteja sobretudo garantido o lucro e o patrimônio privado dos que se aventurarem no grande pântano... Ah, a economia!

Aqui entramos talvez no momento mais lunático de todo esse tour de force beligerante. Até onde nosso raciocínio aguenta, o assalto à mão armada da máquina política não foi dado para instaurar uma nova era liberal-guedeana, como sonham alguns ingênuos repórteres da imprensa privada. Não: ao que parece, para a surpresa de todos, a tendência dessa grande roda de extrair riqueza que agora está mais armada do que nunca é, justamente, seguir o curso e o velho método do que – pasmemos – já estava aí; o lema de retomar a economia tem aqui um sentindo mais forte do que se poderia imaginar[14]. Assumindo a caneta da mão dos economistas, que já perderam até os sapatos em plena crise viral, os milicos anunciaram o novo plano econômico do general Braga Neto, da Casa Civil, que, não por acaso, mal saíra do forno já vinha ao mundo da imprensa oficial com o apelido de “Dilma 3” e, também, de “novo PAC”; todas elas alcunhas difamatórias cunhadas pela ala inocente do governo que, cuidadosamente armazenada no ministério da economia, entendeu com muito mau humor do que se tratava o novo pacto Pró-Brasil; também reclamaram amiúde alguns espíritos lavajatistas, flatus vocis. Convenhamos, os militares de fato estragaram um pouco a festa: ora, tudo isso, todo derretimento institucional, toda reorganização política e todo o champanhe da véspera para, ao fim e ao cabo, manter as coisas como estavam? – aliás, desde 1964, pois vale lembrar que o PAC não fora nenhuma invenção esquerdista tirada da cartola e que, na verdade, voltava agora ao dono, mesmo que em versão editada. Reerguer, portanto, o morto pela segunda vez; reatá-lo aos mesmos cabos da economia que já rebentaram, num cenário mundial no qual o capitalismo parece ainda mais suicida do que antes:  parece mesmo uma grande loucura.  Bom, essa loucura tem nome e chama-se violência, o próprio capitalismo em seu momento de confissão, velha conhecida nossa.  A dolorida fricção osso-com-osso sentida em nosso defunto é, assim, o sinal de que o dinheiro, aquele último colágeno social descoberto por Feltran, perdeu finalmente suas qualidades fisiológicas de amortecer o tranco[15]. Os pinos que entram agora nos membros lesionados são os pinos da violência, aquela que dormitava, translúcida, por detrás da “crisálida áurea” do dinheiro. A gestão armada do social que está por vir, uma vez instaurada e assentada, poderá finalmente manipular o corpo morto e reconectar os pobres aos cabos desgastados do capital – e os novos 600 reais estão aí para quem queira achar o contrário. Como eventualmente alguns cabos hão de faltar nessa segunda empreitada, pois o remendo está sendo feito em cima de outro, amputam-se as partes redundantes na base da bala: sem pactos de classes, promessas de nação, pactos civilizatórios ou progressismos de última hora; não, nada da antiga parafernália esclarecida: a nova ideologia é, imediatamente, o ranger das engrenagens do sistema da babilônia, e só pode ser espetacular na medida em que assumir, para si, o ar da convocação fúnebre que realiza[16]  – let it burn[17]!  

Recolocando, agora, a imagem inicial do matrimônio sobre o chão que arde em chamas, é preciso admitir que o recente casamento tem demonstrado sucesso: um líder relativamente popular, pois fala a língua das massas como ninguém, cujos impropérios são facilmente perdoados pela capacidade de coagir o grande pântano, tudo garantido pelo braço armado do exército, fora e dentro, escorregando aqui e ali reformas liberais acachapantes que, não sendo o centro do problema, serão mais facilmente injetadas do que poderiam ser por um apresentador de TV liberal com luvas de pelica.  A “irracionalidade” de nosso capitão é a nova razão do pântano, o grande Faroeste nacional, que exibe novamente aos abutres o seu cadáver social – a nossa finada sociedade brasileira, mobilizada militarmente, e que ainda rende um cadinho. Goste quem gostar, são essas as condições para se manter, em solo nacional, o dilaceramento humano perpetuado pela moagem capitalista – como se estivéssemos diante da forma final da “contrarrevolução permanente” que, no dizer do velho Florestan Fernandes, sacrifica os pobres à dupla colheita da mais-valia, nacional e internacional, que no entanto só faz minguar. Portanto, um arranjo econômico que não só surpreendeu a todos ao adiar sua morte para além de 1980, com o advento do novo método liberal-progressista de extrair riqueza, como também não parece ter se esgotado por completo, agora, que o mofo e a podridão já se tornaram aparentes na face. Se a primeira resposta do dinheiro barato aos pobres foi improvisada, mas eficaz para sustentar o defunto nos marcos legais da civilização ocidental, a segunda gambiarra para garantir o moinho nacional será amplamente armada e violenta: se deverá ter tintas fascistas e logotipos partidários coroados pelo semblante metálico do calibre 38, não nos enganemos: isso tem mais a ver com o motor próprio de nossa burguesia nacional, sempre cercada de seus capitães-do-mato, do que, como quer Ricardo Antunes[18], com um desvio de rota fascista a ser, eventualmente, reparado. O raciocínio é na verdade inverso: é o fascismo que se parece com a gente, e não o contrário. Devemos nos poupar – pelo menos isso! – do vexame de clamar aos velhos algozes o socorro “fascista”, justamente aqueles que há pouco perdiam as unhas e todo pudor na derradeira raspa do tacho. Até porque, mesmo se quisessem voltar ao marco legal de sua história nacional, já não têm mais o mapa da mina: compete agora à engenharia militar o método para extrair, por assim dizer, o último suco do milho. 

Isto posto, a anomalia social dirigida para o lucro exige estômago forte, doses de loucura e muito chumbo grosso. Os que se enjoam com carne podre terão de se acostumar com o frescor moribundo da nova forma de governar que, apresentando o cadáver mobilizado a ser esfolado, abriu um verdadeiro deus-nos-acuda intercapitalista. A deflagração da burguesia nacional pelo cadáver sacrificial é, ao que parece, o verdadeiro motor secreto da oposição política de superfície, entre alas empresariais diversas e coalizões de força de toda espécie, e alguns já começaram a perceber que terão de tirar as luvas se quiserem desposar o capitão ou, por que não? se associar a ele, com fraques verdes amarelos, de preferência.  A oscilação entre um futuro de continuidade democrática e estado de exceção, neste cenário, é uma mera formalidade que depende do preço a ser dado pelo “centrão” para aderir à festa. Se hoje os crápulas armados ameaçam “limpar o cano do revólver para defender a democracia”, como fez por sinal nossa outra metamorfose ambulante chamada Roberto Jefferson, certamente não é para lhe tirar a ferrugem, mas sim a pólvora acumulada[19]. Ademais, pelo trupé do cavaleiro macabro, que anda ainda mais veloz durante a pandemia, pode-se já pressentir que as negociatas estão realmente em aberto: a última queda do ministro da Justiça, que para a fantasia democrática deveria soar como o último toque do gongo de nosso capitão, pelo visto não passou de uma moeda-de-troca para arrebanhar mais alguns dos velhos deuses ao novo governo infernal; afinal, e apesar de tudo, o “centrão” lembra que ainda é tão fisiológico quanto o miliciano que reina armado; sempre advertido, claro, que se cobrar muito alto, pode ver trancada a porta do congresso. Se isso eventualmente não ocorrer, então as instituições seguem funcionando normalmente – Funai, INPe, PF... STF –, apesar da bravata autonomista do Sr. Presidente que, também ele, lembra que um pouco de fisiologismo não faz mal a ninguém, sobretudo quando o fisiologismo anda junto com a coerção armada, um pouco parecido, diga-se de passagem, com a prática do submundo que já lhe é habitual. Quanto aos atuais antígonas do presidente, que visam 2022 com olhos gordos, dificilmente serão mais aptos do que ele para mobilizar com tanta perfeição o ódio dessa massa desagregada a ser explorada ou eliminada e que hoje trabalha, literalmente, até morrer; e, como nada é certo, se por algum motivo algum deles conseguir de fato desposá-lo, não sei se seria exatamente um bom-sinal. Esse pega-pra-capar, a face da nova política, tem assim como crivo final a tecnocracia social dos militares, que o administra, como em um grande leilão, enquanto se associa com os demônios mais rasteiros alçados ao poder. De resto, os ingênuos ficarão pelo caminho, mesmo se forem ricos e poderosos: é o custo a se pagar pela história, caso se decidam por não falar a língua dos novos anjos de fogo que se aproximam. Disso está certo o oráculo da Virgínia, que entre seu charlatanismo de quinta categoria deixa, ainda, passar um resto de filosofia escatológica da velha direita reacionária: no último natal, em inspiração deliberadamente apocalíptica, recomendou a todos passar 2020 com muito laissez faire e diligência rumo ao fim do mundo[20].

Bom, nesse abismo em ascendente, militarmente administrado, onde não há sequer lugar para burgueses minimamente pudicos ou, decerto, que não colham na cabeça seu pequeno par de chifres, o que se dirá, então, da esquerda? Se não quisermos cair do plano inclinado, mal-amados, com a Constituição de 88 às mãos, talvez seja o caso de se lembrar daquele difuso espectro vermelho de 2013/14, largado hoje ao abandono de algumas cadeias nacionais, ou dos estudantes pobres revoltosos, alguns desaparecidos do mapa, e tantos outros mais, sacrificados nas mãos da ordem democrática que agora afunda no breu. Um sopro de vento diz, contudo, que é impossível construir a luta, que o hálito dos mortos é hoje, meio sem fôlego, meio infecto, e corre perigo de vida – se, na melhor das hipóteses, já não agitam a bandeira do inimigo. O frio que foi acumulado madrugada adentro, sublime madrugada que já dura pelo menos 56 anos, parece agora congelar os nervos e impedir um só gesto de blasfêmia contra o enorme festim sacrificial que, por sua vez, prossegue. Entramos, neste exato momento, em um estranho compasso de espera, nos segundos mais gelados e derradeiros da noite, enquanto as figurações noturnas e difusas, semi-demoníacas, aproveitam para reerguer o cadáver nacional pela segunda vez, aos olhos do mundo, enquanto ainda não despontou o primeiro raio do Sol. O que será de nós quando a máquina voltar a funcionar? Ganhar coragem para ver o Cafarnaum mostrar-se, finalmente, à luz do dia? Respirar fundo e assistir o juízo final se abater sobre a Terra? Esperamos, estáticos, o destino fatal, o lago de fogo que virá com a segunda morte do defunto nacional[21]. Esquecemos, porventura, que alguns trabalhadores, bastante deles até, na verdade ainda seguem a postos, morrendo na ativa, alimentando os espectadores petrificados do último espetáculo crepuscular, do Mamon que reina: rolam, por trás dos panos, as velhas engrenagens da nova alvorada brasileira; da máquina do mundo, que gira silenciosa. Novamente, o relógio brasileiro tem o fuso-horário adiantado, e alguns raios de luz ganham a planície embrumada; apertamos os olhos e vemos, de relance; ora, mas apesar de tudo, o autômato demoníaco que traz a nova manhã ainda é movido pelos homens, esses que são recrutados às fileiras da morte? Ao trabalho! – é o capitão que grita, armado à frente dos generais, pois já é hora de cantar o galo.

1 de Maio de 2020





Notas
PARIZ, Tiago. “Lula: 'Prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante”.  G1. Brasília,  5 dez. 2007. <http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL205291-9356,00.html>. Acesso em 30 de abril, 2020. (cf. MENEGAT, Marildo. “Feitiço de Fundo de quintal – o PT, a crise, e a economia política da barbárie”. METAXY: Revista Brasileira de Cultura e Políticas em Direitos . v. 1, n. 1, 2017. p.10). Já quanto à Mandetta, ver o seu discurso de saída do ministério, no qual, após uma bravata tardo-iluminista, diz que prefere ser “uma metamorfose ambulante” (OHANA, Victor. “Madetta se despede do Ministério da saúde: ‘A ciência é a luz’. Carta capital. 30 de abril de 2020.<https://www.cartacapital.com.br/politica/mandetta-se-despede-do-ministerio-da-saude-a-ciencia-e-a-luz/> Acesso em 30 de abril, 2020). 

2 FOLHA DE SÃO PAULO,  “’Esqueçam tudo que escrevi’ é polêmica até hoje”. São Paulo, 13 out. 1996. < https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/13/mais!/7.html>. Acesso em 30 de abril, 2020.

3 Não demorou para o velho título também cair sobre as costas do capitão: RANGEL, Ricardo. “Bolsonaro: a metamorfose ambulante”. Veja. 6 de abril de 2020. < https://veja.abril.com.br/blog/ricardo-rangel/bolsonaro-a-metamorfose-ambulante/>. Acesso em 30 de abril, 2020.

4 Grande parte das conclusões aqui tiradas se deve ao acompanhamento um pouco distante dos seminários das quartas, que acontecem na USP mensalmente, e que em função da absorção esponjosa dos argumentos e exposições ali debatidos receio, aqui, não poder fazer jus às devidas autorias. Espero também não distorcer muito as ideias originais. Algumas referências ficariam melhor encontradas nas citações diretas do professor Paulo Arantes, que podemos eventualmente fazer aqui quando reconhecermos a fonte.  Sobre 2013, UPPS e desagregação social ver: ARANTES, Paulo Eduardo. “Depois de junho a paz será total”. In. O novo tempo do mundo. São Paulo: editora Boitempo, 2014. (p.353 – 460).


5 FELTRAN, Gabriel. “O valor dos pobres: a aposta no dinheiro como mediação para o conflito social contemporâneo”. Caderno CRH. Vol. 27, num. 72, set-dez. de 2014. p. 495 – 512. Universidade Federal da Bahia, Salvador. 

6 Até onde sei, o termo é de Carlos Marighella (cif. SECCO, Lincon. “A democracia racionada”. G1. 16 dez. 2013. <https://www.viomundo.com.br/politica/lincoln-secco-e-o-risco-da-democracia-racionada.html>. Acesso em 30 de abril de 2020).

7 Para uma visão anacrônica do problema, ver: DEAK, Csaba. “Acumulação entravada no Brasil e a crise dos anos 80”. Espaço e debates. Vol. 32. São Paulo, 1990; que, apesar das cartas entregues aos gritos de mais capitalismo, já havia, contudo, percebido como a máquina brasileira da pilhagem social começava a soluçar.  Muito se disse à época dos anos 1990 sobre a “bonapartização” da burguesia nacional, da “crapulização” da elite etc. tendo em vista a ascensão de Fernando Collor à presidência. Ou seja: já tínhamos dado início ao thriller-night brasileiro.

8 Até onde pôde rastrear Paulo Arantes ainda à queima-roupa, eram sobretudo esses “peixes fora da rede” os sujeitos do milagre que ameaçou acontecer em Junho (ARANTES, Paulo Eduardo. Op. cit. p.455-6), conforme percebera no relato de Regina Magalhães de Souza, em um suposto capítulo de um livro inédito, e que tinha por nome “Trabalhadores vão à faculdade: notas para uma investigação sobre sujeitos que voltam a estudar”. Alerta, ainda, ao final do ensaio, que “se não soubermos ou não pudermos contar com eles para a tarefa política da geração que vem, nada feito” (Idem. p. 456).

9 Como não lembrar da enquete televisionada no dia 13 de junho de 2013 pelo programa Brasil Urgente, no qual Datena foi surpreendido de calças curtas pelo “povo” que, momentaneamente, passou a falar outra língua? (Aos interessados, acessar: https://www.youtube.com/watch?v=7cxOK7SOI2k).

10 É velho o problema da GLO em torno da articulação entre Exército e Polícia, por razões óbvias de monopólio da violência (cf. MEDEIROS, Afonso Mateus. “A desmilitarização das polícias e a legislação ordinária”. Brasiília, a.42, n.165, jan./mar. 2005). Por isso a unificação entre Forças Armadas e Polícia Militar é um problema espinhoso que também articula as entidades federativas (Federal e Estadual), sobretudo no Brasil: nosso capitão tem se esforçado, e com sucesso, para conquistar da mão dos governadores os soldados das guerras estaduais, o que já era meio caminho andado por questões de afinidade eletiva antes de assumir a chefia civil da República, e que agora anda com pernas próprias, posto que nem uma retroescavadeira deve deter o romance. O problema pode ser visto com maiores detalhes em: BARROCAL, André. “Violenta, Polícia Militar desponta como braço armado de Bolsonaro”. Carta Capital. 7 de mar., 2020. < https://www.cartacapital.com.br/politica/violenta-policia-militar-desponta-como-braco-armado-de-bolsonaro/>. Acesso em 1 de maio de 2020.

11 Sobre relação entre ditadura militar e milícias ver, por exemplo, a pesquisas do sociólogo fluminense José Cláudio Alves, da UFFRJ. Para apreensão rápida do problema, ver entrevista realizada pelo Deutsche Welle: SOARES, João. “Ditadura idealizou modelo atual das milícias” [entrevista com José Cláudio Alves]. 3 de agost. 2018. “Milícias tiveram seu embrião nos esquadrões da morte apoiados pela ditadura, afirma sociólogo. Em entrevista, ele rejeita a ideia de poder paralelo, apontando que grupos fariam parte da "dimensão ilegal do Estado".

12 AGÊNCIA O GLOBO. “Bolsonaro manda revogar portarias que facilitavam o rastreamento de armas”. Exame. 17 de abril, 2020. < https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-manda-revogar-portarias-que-facilitavam-o-rastreamento-de-armas/>. Acesso em 30 de abril de 2020.

13 DE BARROS, Celso Rocha. “Bolsonaro representa facção das Forças Armadas que ganhou poder com a tortura”. Folha de São Paulo. Eleições 2018. 

14 Em uma de suas lives mais recentes, Paulo Arantes diz se tratar de uma espécie de “lulismo às avessas” o novo plano de nosso gênio maligno. A live foi realizada pela Adunifesp Seção Sindical no dia 27 de abril de 2020, e está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9u966nE4bVA.

15 Faz cerca de um ano que Marildo Menegat, adentrando a porta em aberto por Feltran, percebia também que adentrávamos uma nova fase da economia política da rapinagem. (cf. MENEGAT, Marildo. “Violência e barbárie: um pequeno estudo sobre as origens remotas do bolsonarismo”. Argum., Vitória, v. 11, n.2, p. 7-16, maio./ago. 2019.)

16 Prova de que, avançado o pacto do sistema da babilônia com o garção de costeletas, as coisas ficaram bem mais feias do que poderia imaginar até mesmo o espírito tropicalista mais extrovertido que, delicadamente, agora sai pela tangente. (cif. SCHWARZ, Roberto. “Prefácio com perguntas”. In: DE OLIVEIRA, Francisco. Crítica à razão dualista; O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. p. 11).

17 Trata-se de um comentário da socióloga Silvia Viana, em um dos seminários das quartas (ver nota 4), quando lembrou que a música mais escutada pelos soldados americanos em alguns dos fronts militares dos EUA era o pop “Let it burn”, de 2011, do artista Red. E, não nos iludamos, já não é ao “moinho da Bahia”, propriedade dos senhores, que hoje a música versa “deixar queimar”, tampouco o “fogo no canavial” de que falava Edison Carneiro (cif. CARNEIRO, Edison. Negros bantus, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937 apud DA CRUZ, Alessandra Carvalho. “O samba de roda”, samba e cultura popular em Salvador 1937-54. [Diss. Mestrado]. Salvador: UFBA, 2006. p.62).

18 Pelo menos até onde pude entender na live realizada pelo esquerdadiário disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wyfCQ0YR3Fg. Naturalmente, Antunes não é o único a propor uma repactuação com a burguesia nacional contra o mostro do pântano. Ver, por exemplo, a ala radical do PSOL repetir o velho mantra pela “unidade de ação com setores da burguesia” enquanto o circo pega fogo: MACIEL, Sirlene; PUERRO, Mauro. “1 de maio: qual é o caráter do ato?”. Esquerda online. 28 de abril de 2020. <https://esquerdaonline.com.br/2020/04/28/1o-de-maio-qual-o-carater-do-ato/.>. Acesso em 30 de abril de 2020.  Concluem: “Portanto, com este ponto de acordo, somos a favor da unidade com FHC, Maia, Alcolumbre, governadores, enfim todos e todas que se posicionem contra Bolsonaro e seu governo fascista” – de fato, um time e tanto!

19 “E se for tentada de verdade esta violência [o impeachment de Bolsonaro] a gente vai ter que tirar a ferrugem do cano de nossos revólveres e lutar pelo Estado e lutar pela democracia”.(cif. ENEAS, Paulo. “Roberto Jefferson: tirar a ferrugem do cano de nossos revolveres e defender a democracia”. Política Nacional. 20 de abril de 2020. <https://criticanacional.com.br/2020/04/20/roberto-jefferson-tirar-a-ferrugem-do-cano-de-nossos-revolveres-e-defender-democracia/>. Acesso em 30 de abril de 2020.

20 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zb2XFgucFNU.

21 “O lago de fogo é a segunda morte”. Apocalipse 20: 13-15.