quarta-feira, 27 de maio de 2020

Política, Transporte e a Pandemia de COVID-19: breves comentários, por Thiago Oliveira Neto & Tatiana de Souza Leite Garcia



Política, Transporte e a Pandemia de COVID-19: breves comentários 
Por Thiago Oliveira Neto 
e Tatiana de Souza Leite Garcia

A pandemia da Covid-19, nos primeiros meses de 2020, ocasionou transformações brutais na circulação de pessoas com o estabelecimento de barreiras para reduzir a circulação dentro dos municípios, entre as cidades e entre países, propiciando mudanças nos fluxos em diversas escalas. 

Essa pandemia demonstrou, claramente, que os interesses hegemônicos buscaram por meio de narrativas de resistência frente a parada parcial ou total das atividades, para que não afetassem seus rendimentos provenientes de empreendimentos e serviços. 

Essa contenção forçada de parte da circulação das pessoas para fins de evitar a propagação do vírus que causa a Covid-19 e a consequência de saturação dos sistemas de saúde, notadamente nos hospitais, decorre da relação entre as pessoas circulando sem os devidos cuidados de proteção individual, independentemente de estarem ou não contaminadas e com ou sem sintomas, e a expansão dos casos positivos em todas as escalas.

Em escala global, houve diversos reflexos da parada parcial ou total das atividades econômicas. A rigor, o problema da paralisação das atividades não impacta somente na escala local, primeiro porque ocorreu em quase todos os países do mundo, e segundo, porque diversos sistemas produtivos dependem das redes globais de circulação de insumos, de produtos até chegar aos mercados consumidores, que também foram impactados com a tentativa de controle dos fluxos de pessoas. É um efeito em cadeia. 

Na escala nacional, podemos apontar o contexto político vivenciado no Brasil, em que se denota a existência de algumas fragilidades e afetam diretamente o combate da pandemia. 

O primeiro consiste no estabelecimento de ações não coordenadas em nível nacional, sendo que cada estado ou município estabelecem um conjunto de diretrizes sobre o funcionamento das atividades, algo que foi propiciado pela constituição de 1988 delegando a esses entes poderes de reger leis e normais para diferentes frações territoriais. 

O segundo aspecto consiste no descompasso e incapacidade de coordenar ações por parte de alguns atores políticos, considerando a importância da liderança política que o presidência de um país democrático deveria exercer visando ao bem estar de toda sociedade, mas na atual conjuntura, o presidente do Brasil lidera negativamente porque nega a gravidade da pandemia, não dialoga com todas as áreas que compõe a comunidade científica especializada e entra em conflito com as ações de estados e municípios, através de seus discursos públicas e pelas redes sociais. 

As ações não coordenadas e os discursos ocasionaram um terceiro e emblemático problema, uma “crise” federativa com embates entre atores políticos de estados com a presidência, deixando claro, a incapacidade de governabilidade e de gestão coletiva de ações para conter a pandemia. 

Por fim, o quarto aspecto, o sistema de saúde público e gratuito que apesar de anos de precarização, mostrou-se importante no momento atual; mas as condições insatisfatórias existentes antes da pandemia constituem em um grave erro da promoção do sucateamento desse importante serviço, fundamental para a sociedade e para a economia, principalmente quando pensamos em grandes cadeias produtivas - circuitos espaciais da produção - que envolvem laboratórios instalados no Brasil e produção de medicamentos, vacinas, equipamentos médicos e hospitalares. 

Além desses problemas que englobam esferas políticas, temos ainda as ações orquestradas de grupos que buscam, a todo custo, manter ou retornar as atividades, como aconteciam nos meses de janeiro e início de fevereiro. A defesa da volta ao normal e a justificativa que empresas e pessoas morrerão se não voltarem as atividades produtivas -econômicas. Se por um lado, presenciamos os interesses do capital hegemônico em que seus atores buscam a manutenção de seus lucros a qualquer custo; por outro lado, tem um movimento de geração de desinformações constituído na criação de inverdades em arquivo de mídias -imagens, áudios e vídeos- com divulgação em redes sociais -WhatsApp, Facebook e Instagram. Esses dois movimentos são frutos de um único objetivo, a busca pela manutenção das atividades e dos lucros, mesmo em momento de expansão da pandemia, baseado na ignorância, no individualismo, na competição. 

Pensamos que um dos problemas atuais da sociedade é a dificuldade das pessoas em compreenderem que os processos e os fenômenos não se restringem a escala local. Na real, ocorrem em outras escalas e, muitas vezes, impactam diversos lugares e pessoas, no mundo todo. 

Circulação, transportes e informações: Vírus e Fake News. 
A frenética circulação de pessoas, cargas e informações impulsionada pelos avanços do meio técnico-científico-informacional e a necessidade, cada vez maior, de realizar tarefas e consumos em menor tempo formou diversas redes de fluxos conectados com os mais diversos lugares do planeta. Esses fluxos intensos de deslocamentos de centenas de pessoas pelos transporte aéreo, ocasionou a difusão geográfica em tempo recorde que, inicialmente, estava na cidade de Wuhan, na China, para os principais aeroportos do mundo, os hubs centrais e, posteriormente, para os hubs secundários em vários países, inclusive no Brasil, pelos aeroportos de Guarulhos e de Fortaleza. 

Essa capilaridade das redes e rapidez dos fluxos foram peças fundamentais para a propagação da Covid-19, com os deslocamentos de pessoas sintomáticas e assintomáticas, partindo das áreas com casos de infectados e chegando em outras que ainda não tinham infectados. Esses primeiros contágios apresentam um aspecto interessante, parte dos contaminados dispunham de condições de renda, no mínimo, que pode ser considerada como classe média, dada a condição de viagem aérea internacional, seja a trabalho ou turismo. Não é um determinismo socioeconômico e, sim, uma observação para entender a dispersão geográfica da pandemia a partir da China, de forma tão rápida, chegando aos grandes centros urbanos de outras regiões do mundo.

O problema que se evidencia é que a propagação do vírus contraído pelas pessoas de classe média que viajaram para o exterior e ao retornarem carregavam em seus corpos o vírus SARS-COV-2, e ao continuarem com suas atividades diárias de circular, ter contato com outras pessoas no trabalho, restaurantes, academia, confraternizações familiares e com amigos, contatos com funcionários, prestados de serviços, entregadores de comida, dentre outras formas de contato social, desencadearam a propagação comunitária, mas que com o agravante de que as pessoas com baixo nível socioeconômicos que foram contaminadas dentro de seu país, não possuem recursos para tratamento e cuidados no sistema de saúde privado, como parte da classe média que dispõem desse benefício. 

Esse problema se agrava ainda mais, pela existência de problemas sociais como segregações espaciais, falta de agua encanada e de coleta de esgoto e lixo, moradias precárias, má alimentação em qualidade e quantidade mínimas ideais, vícios etc., condições que tornam difíceis medidas de prevenção, distanciamento social, sobrevivência econômica e facilitam a propagação do vírus, ainda mais violenta, que resulta em números de vítimas cada vez maiores em nossas cidades. 

Com os avanços das técnicas e tecnologias informacionais, a produção de informações não está mais centralizada em alguns atores, como empresas de rádio e televisão, de modo que possibilitou a criação de meios de comunicação alternativos e a geração/propagação de informações pelos movimentos sociais, pessoas das comunidades e independentes, levando-as para as mãos, os olhos e os ouvidos de milhares, em diversos lugares. Isso corroborou positivamente para uma maior produção e divulgação de conteúdo digital.

No entanto, concomitantemente, presenciamos também a produção de informações por diversos atores que as utilizam para divulgar conteúdos que geram desinformação, ou seja, fake news, inverdades, deturpação de dados reais. A informação fraudulenta não é uma novidade exclusiva do momento atual, mas se apresenta altamente danosa, perversa e escancarada.

Já a grande mídia, custeada pelos grupos capitalistas, e historicamente capaz de influenciar as massas, se apresenta politicamente de dois lados. De um lado divulga contraposições aos pronunciamentos do presidente do Brasil, mostra as situações de colapso dos hospitais, cemitérios e descomprometimento de pessoas em diversas cidades brasileiras, como tentativa de conscientizar para que cumpram o distanciamento social e fiquem em casa. Mas também tem aquelas emissoras e programas que apoiam o negacionismo científico, subdimensionam a gravidade da pandemia e reforçam a aclamação para o retorno das atividades econômicas e da circulação das pessoas. Ambas sustentam suas audiências na desgraça alheia. Ambas dependem da venda de espaços publicitários e, se forem digitais, de terem mais acessos, likes ou visualizações. A informação também é mercadoria! 

Desigualdades de acessos a saúde e educação 
Com a pandemia da Covid-19 dois serviços relevantes para a sociedade demonstraram que são oferecidos de forma desiguais: saúde e educação.

O primeiro que é o atendimento de saúde, atualmente se encontra saturado, face a dificuldade de atender a todas as pessoas, seja pela falta ou inexistência de equipamentos e de recursos humanos para atendê-las satisfatoriamente, ocasionando constrangimentos, choros e mortes. Além disso, o acesso é desigual no acesso, pois nem todos possuem meios para chegar a um hospital ou posto de saúde, especialmente aquelas pessoas que moram na zona rural, em pequenos vilarejos ou na Amazônia, onde o fator distância é a primeira barreira a ser enfrentada, pois demoram algumas horas ou até dias de viagem. Além disso, a escassez de recursos financeiros para custear o deslocamento é outro aspecto pouco observado.

A transformação da saúde em mercadoria, destinada para o consumo de algumas poucas pessoas, está atrelada aos deslocamentos rápidos do paciente em aeronaves, atendimento em Unidade de Terapia Intensiva-UTI e tratamento com equipe multi-especializada. Mas felizmente, no Brasil, existem hospitais de atendimento ao público em geral que dispõe dessa estrutura técnica, tecnológica e humana, como o Hospital das Clínicas, Hospital Emílio Ribas, dentre outros.

É inegável a importância nacional e reconhecimento do Sistema Único de Saúde – SUS, o único sistema de saúde pública do mundo que atende de forma universal e gratuita mais de 100 milhões de pessoas; sendo que toda população brasileira, em torno de 200 milhões, sem contar os estrangeiros que moram aqui que são em torno de um milhão, que também usufruem desse sistema público quando buscam postos de vacinação, medicações de alto custo, fila única de transplantes de órgãos etc. 

O problema do SUS é a má administração e falta de recursos financeiros, materiais e humanos, agravados com os desvios de verbas e casos de corrupções, que levam a outros problemas, como  o longo tempo de espera para atendimento, falta de leitos, equipamentos, médicos e medicações. 

Outro acesso desigual é o ensino. Enquanto muitas escolas de ensino fundamental e médio particulares transferiram suas aulas presenciais para o formato de ensino a distância mediado por tecnologia, criou possibilidades, mas também sobrecargas. Para os profissionais de ensino, em curtíssimo tempo, precisaram repensar suas aulas, atividades formativas e avaliativas, a aprender e lidar com as novas tecnologias e plataformas digitais, ocasionando a geração de mais trabalhos aos profissionais de ensino, e consequentemente, menos tempo livre para suas opções pessoais. Para os estudantes com acesso à internet com boa velocidade e equipamentos técnicos, estão conseguindo acompanhar as aulas e realizar as atividades de consolidação de aprendizagem. 

No entanto, nas escolas públicas existe uma enorme assimetria entre aqueles que têm e os que não têm acesso a celular, computador e internet, ou seja, os meios técnicos e os fluxos de informações necessários para o ensino associado com o distanciamento social, evidenciando que as técnicas que propiciam a circulação de informações e dados estão distribuídas de forma desigual no território. 

Uni-vos pela construção de ações políticas coordenadas!
Um dos maiores problemas no Brasil frente a pandemia é a crise federativa marcada pelas ações e discursos não coordenados entre prefeitos, governadores e presidente.

Nesse contexto, entre o momento de chegada e expansão da pandemia em todas as regiões do Brasil, diversas ações deveriam ter sido realizadas de forma coordenadas e alinhadas, visando sua potencialização para conseguirem, efetivamente, evitar novas contaminações, a saturação dos hospitais e as milhares de mortes.

Pode-se apontar algumas medidas que são cruciais e que deveriam estar alinhadas entre as instâncias públicas municipais, estaduais e federais, como a redução da circulação de pessoas em âmbito terrestre, aéreo, fluvial e marítimo, algo que ocorreu tardiamente; a conscientização das pessoas para adotarem como hábito o uso de máscaras e a limpeza das mãos e objetos; e a distribuição de máscaras e álcool em gel para as pessoas pobres, que não tem condições de comprar esses materiais; a desinfecção constante dos veículos e dos terminais de transporte coletivo; a readequação dos horários do comércio e dos serviços considerados essenciais; dentre outras. Esse conjunto de ações foram tomadas em algumas localidades, em outras realizadas tardiamente ou nem sequer foram coordenadas para serem executadas na maioria das cidades brasileiras. 

Outro ponto que poderia contribuir nessa crise, seria a incorporação de médicos de outras nacionalidades ao sistema público de saúde, com destaque para os médicos cubanos que durante anos atenderam em diversos postos de saúde e hospitais brasileiros, notadamente nas localidades mais distantes, dado que os médicos brasileiros formados em “grandes cidades” não tinham/tem interesse e se recusavam a trabalhar nas pequenas cidades ou comunidades distantes dos serviços disponíveis nas regiões metropolitanas.

A situação agrava-se com a postura e pronunciamentos negacionistas do presidente, diante dos apontamentos dos cientistas e especialistas da saúde a respeito da gravidade da pandemia, conforme mencionado anteriormente; seu apoio as manifestações com   aglomerações de pessoas sem os devidos cuidados de proteção e distanciamento; e os embates com dois ministros de saúde, provocando suas demissões porque não tinham suas indicações técnicas apoiadas pelo presidente. 

Vale lembrar a incoerência entre a prática atual do presidente e seus discursos de campanhas quando era candidato, de que colocaria técnicos e especialistas nos cargos públicos que demandam competências específicas, especialmente, os ministros, e lhes concederia carta branca para atuarem tecnicamente na resolução dos problemas.

A falta de consciência e de responsabilidade coletiva daqueles que não usam máscaras ou não cumprem a quarentena é reforçada com os twitter, memes, discursos e falas do presidente do Brasil. Para se ter ideia do nível de desprezo a respeito da gravidade da pandemia, no dia 24 de março de 2020, em pronunciamento no rádio e na TV, o presidente afirmou que a Covid-19 era um resfriado e, pelo seu histórico de atleta, ele não correria risco grave; inclusive, recomendou que as autoridades mantivessem o comércio aberto, o livre uso de transporte público e não fizessem o confinamento da população. 

Nesse momento de pandemia e de crises econômicas, o Estado deve estar presente e forte no sentido de ter capacidade de coordenar ações para reduzir impactos a população e prover o bem estar social. A recuperação da economia, que via de regra, deve ocorrer com a atuação do Estado, como a concessão de empréstimos, investimentos em infraestruturas que atendam a todos os sistemas produtivos, propiciando efeitos multiplicadores positivos na geração de emprego e pagamento de impostos mas, sobretudo, aqueles destinados as melhorias na qualidade da vida da população, como acesso à água e saneamento básico, saúde, energia, educação, habitação e alimentação. 

Por fim, reforçamos a importância de uma liderança capaz de construir o consenso e a urgência de estabelecer coordenação mínima entre os níveis de poder frente aos desafios impostos da pandemia, pois caso isso não aconteça, a volta do convívio social, do funcionamento dos sistemas produtivos, dos comércios, das instituições de ensino, dentre outros espaços serão incertos e levarão a incessantes ondas de contaminação e mortes provocadas pelas pessoas contaminadas com o SARS-COV-2.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Exposição: Sem Título, de Giovanne Reis

Apresentação
Um Sísifo invertido buscando o vazio*

A condição humana, segundo Albert Camus, é absurda. Isso se dá porque o homem, ser racional, que aprende, apreende e torna tudo conhecido por meio da razão, busca realizar esse processo com o mundo, que é, em última instância, irracional e inapreensível. O absurdo, portanto, é a razão que encontra seus limites. 

Em função disso, Camus apontará que a ação autêntica é manter o absurdo vivo por meio de sua negação, isto é, continuar o processo mesmo sabendo-o, no fim das contas, impossível. Nesse sentido, o homem teria de tentar ser feliz num processo como o do mito de Sísifo, condenado a levar uma pedra para o cume de uma montanha, para, logo em seguida, ela voltar à sua posição inicial e tudo recomeçar.

Isso é o que Giovanne Reis faz em seus desenhos, de modo similar e, não contraditoriamente, ao mesmo tempo, inverso. Ao contrário do Sísifo de Camus, Giovanne não busca expressar o racional, o conhecido, o familiar, o velho, mas o irracional, o estrangeiro, o estranho, o novo, aquilo que está escondido na alma humana, que não pode ser expresso pela razão. Por isso, muitos dos desenhos desse artista parecem ser feitos de uma só canetada, com o instrumento pesado, quase rasgando o papel, como se a força do afeto pudesse fazer o desenho, antes que ele pudesse ser captado por qualquer amarra racional. Quem já pôde tocar um nota isso logo de cara. Daí a similaridade de muitos de seus desenhos com desenhos infantis, que sempre são formas que as crianças encontram de expressar aquilo que elas ainda não sabem comunicar por meio de palavras.

É por essa razão, inclusive, que Giovanne abandona toda a linguagem verbal. Os desenhos desse artista sequer chegam a ganhar títulos. Afinal, a linguagem lógico-discursiva é sempre uma forma de falar sobre o mundo e ordenar a contingência. Quem já leu A náusea viu que Roquentin termina solucionando seu problema projetando escrever um romance, e não pintar quadros. A linguagem visual, por outro lado, consiste apenas em mostrar, dar a ver, revelar. Portanto, é mais propícia para trazer à tona o desconhecido.

Mas a linguagem visual de um desenho, apesar de menos rígida que a verbal, também tem códigos, também é apreensível de certa maneira pelo racional. Para tentar escapar a isso, o artista escolhe montar figuras por meio de linhas confusas e rabiscos. Isso faz com que, muitas vezes, formas conhecidas percam o sentido que usualmente têm. Rabiscos que em outras situações delineariam um sorriso, por exemplo, acabam expressando qualquer coisa, inclusive o oposto de um sorriso, diante da deformação do que há ao redor. E, no fim das contas, como acontece com os conceitos guarda-chuva, aquilo que expressa tudo, na verdade, termina por expressar nada, por revelar o vazio.

Mas Giovanne consegue êxito em sua vontade de ultrapassar o conhecido? Não. E isso parece ocorrer em função de um elemento trágico da nossa pós-modernidade: o fim da possibilidade de novas formas. Aí é que, apesar de todo o esforço, o artista acaba recorrendo a pastiches. A forma que ele usa nas obras termina como um pastiche de Basquiat. Pastiche esse que se revela ainda na representação de retratos e autorretratos de outros artistas conhecidos, como van Gogh, Picasso e Chet Baker. Artistas que são retomados não por referência ou reverência, mas por representarem postura similar a que Giovanne adota. Nesse ponto é que, apesar de tudo, a pedra volta ao estágio inicial.

E isso não é de nenhum modo um problema, pois o artista não se importa. Isso se revela tanto onde faz muitas de suas obras, num bloquinho de papel aleatório com pauta, quanto em sua indiferença com relação ao fato de seus desenhos levarem sua assinatura ou não. Para ele, importante é o processo de rolar a pedra, ainda que ele torne a acontecer indefinidamente.

Como um Sísifo invertido, rolando a pedra montanha abaixo, para, ao fim, ela surgir novamente no topo, Giovanne nos lembra uma coisa pontuada por Camus: tal atitude diante do absurdo é sempre uma atitude de revolta contra a condição presente. Nos tempos atuais, em que o mundo conhecido se esfacela, mas insiste em retornar mesmo sem se sustentar, a obra desse artista surge como um elemento para pensarmos sobre nossa vontade de revolta, de recusa do conhecido e de encararmos, portanto, o que é autêntico, ainda que de forma trágica.

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis
 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis


 sem título, de Giovanne Reis
 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis


 sem título, de Giovanne Reis


 sem título, de Giovanne Reis


 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis



 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis

 sem título, de Giovanne Reis


 sem título, de Giovanne Reis
 sem título, de Giovanne Reis





*Texto de Matheus Cascaes

domingo, 24 de maio de 2020

“Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?” [Carta a Mariany Moura], por Jonas Araújo

A Pátria (1919), de Pedro Bruno

“Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?”
Por Jonas Araújo Pereira Júnior

Carta a Mariany Moura 

Você fez uma publicação que me deixou bastante intrigado, “Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?”. Achei muito pertinente o questionamento e comentei apresentando alguns elementos, numa espécie de sumário, em seguida você responde torcendo para que essa etapa passe rápido. Bem, na história todas as mudanças possuem seu próprio tempo e entender essa lógica é fundamental para compreendermos o tempo em que vivemos.

Primeiramente é importante frisar que não é do nosso ofício, professores de história, oferecer previsões, contudo, trabalhamos com a interpretação dos fatos e dos processos históricos. Se pararmos para analisar a linha do tempo das mudanças de cenário político no país é possível identificar que as mudanças são demoradas e deixam marcas profundas. Vou tentar resumir.

Início da República (1889-1930) 41 anos.

Quando a elite colonial se irritou com a realeza portuguesa por estar acabando com a escravidão do povo negro, não de boa vontade mas para atender os interesses do mercado internacional, essa elite colonial se uniu ao exército para fazer o golpe da República, o período que se seguiu foi a república velha, marcado pelo voto de cabresto, perseguição e exploração.

Processo de Democratização: Era Vargas, Estado Novo e Populismo (1930-1954) 24 anos.

Vargas Chega ao poder com um discurso de "revolução", aproveita a crise econômica mundial e a crise nacional da política do "Café com Leite", vende a ideia de uma república democrática com participação do povo. Contudo, sua proximidade com as ideias fascistas reverte a democracia a um estado ditatorial. Quando finalmente abriu espaço para a disputa democrática foi fortemente atacado pela oposição e cometeu suicídio em 1954.

O leve sopro democrático (1954-1964) 10 anos.

Antes de morrer Vargas escreve uma carta onde aponta que forças ocultas atacam o seu governo para retirar os direitos do povo que ele ajudou a conquistar. A publicidade desse fato provocou grande comoção nacional o que permitiu um breve sopro de “tranquilidade”. Contudo, em 1961, inicia-se uma nova reação da elite nacional contra as reformas de base que implementariam políticas públicas de redução da pobreza. Vem a acusação de um plano comunista (fake News) e em 1964 acontece o Golpe Militar.

Ditadura Militar (1964-1985) 21 anos.

Esse é o período mais truculento da política recente do país, marcado por atos institucionais (AI-1, AI-2, AI-3, AI-4 e AI-5) que reduziram a democracia a pó e promoveram a perseguição política, censura, tortura e assassinatos. Ela se encerrou com um acordo político em função do aprofundamento da crise política e econômica no país promovida por uma política de gestão irresponsável.

O exercício democrático (1985- 2016) 31 anos.

Esse período é marcado por um amplo processo de disputa de narrativa política por meio de propagandas, organizações sociais, partidos, grupos econômicos e militares. Nesse processo o palco das disputas foram os pleitos eleitorais. Ocorre a criação de vários partidos políticos que iniciam uma correlação de interesses particulares para aprovarem projetos econômicos e políticos. O povo passa a se tornar uma espécie de torcedor do processo político. O país fica divido entre a direita(azul) e a esquerda (vermelha).  Em 2013, com as jornadas de junho, esse período começa a apresentar os primeiros sinais de falência. Em 2016, com o golpe na Presidenta Dilma, ocorre o fechamento do ciclo.

A crise do exercício Democrático (2016 – até os dias atuais). 4 anos

Esse período está marcado pela retirada de direitos, previstos na constituição de 1988, por meio dos poderes constituídos. Um período muito singular, pois se pararmos para analisar as instituições democráticas se tornam o instrumento de corrosão dos valores democráticos e republicanos. Tudo começa quando o congresso aceita realizar o impeachment da Presidente Dilma sem apresentar nenhuma prova criminal, seguido do apoio do STF. No início do governo Temer (MDB), os poderes executivo e legislativo fazem uma dobradinha para aprovar um pacote de reformas para reduzir o papel do Estado junto ao povo brasileiro tais como: E.C do teto dos gastos públicos, reforma trabalhista, reforma previdenciária, reforma do ensino médio e etc. Os movimentos sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda passam a realizar greves gerais com manifestações de rua, mas não conseguem frear a nova ordem política. Chega as eleições de 2018, o candidato da direita é eliminado ainda no primeiro turno, vai ao segundo turno um candidato da esquerda, Haddad, contra um da extrema-direita, Bolsonaro. A extrema direita vence as eleições e no desenvolvimento do seu governo, fica claro que não possui um plano de desenvolvimento para o país, é uma cruel combinação de intolerância, racismo, machismo e subserviência ao mercado internacional. 

Enfim, se olharmos para a cronologia de cada período, o menor tempo durou 10 anos, e acabou servindo como transição entre duas experiências ditatoriais. Portanto, o período que estamos vivenciando é apenas o início de um longo processo.

O deserto dos Weintraubs, Por Mauricio Braga



O deserto dos Weintraubs
Por Mauricio Braga

Na última sexta-feira (22/05/2020) foi divulgado um vídeo da reunião ministerial realizada por Jair Bolsonaro no dia 05 de abril. Com discursos afetados, meramente eleitoreiros, o seu conteúdo chega às raias do delírio – ou seja, longe, muito longe, do real. 

Uma das participações mais vexaminosas da reunião foi a do ministro da educação, Abraham Weintraub. Este fez uma fala que, embora seja um compilado de bobagens, não podemos ignorar, pois escancara o perfil da direita brasileira. Sendo assim, comentaremos a seguir alguns elementos presentes no discurso do ministro.

A “liberdade”
Weintraub suscita em sua fala a “liberdade” – palavra essa que a burguesia tenta se apropriar. Mas sabemos que no capitalismo os trabalhadores só têm a “liberdade” de escolher entre se submeterem à exploração ou morrerem de fome. No contexto da pandemia, essa questão recebe ainda uma variação: os trabalhadores agora têm a “liberdade” de escolher entre se exporem ao covid-19 ou morrerem de fome. Tal dilema, entretanto, é uma falácia, posto que o Estado possui recursos para evitar as duas coisas. Contudo, entre provocar mortes ou distribuir renda, o Poder sempre escolherá a primeira opção. A acumulação no capitalismo está acima da vida.

Quanto à liberdade, ela só se efetiva quando todos os indivíduos possuem os meios de proverem sua existência material, sem que ninguém precise se submeter a outrem. Portanto, a liberdade é impossível no capitalismo. Mas, para dominar ideologicamente, a burguesia procura embaralhar os conceitos. Ela prega, como a elite em 1984 de George Orwell, que “Guerra é paz, Liberdade é escravidão, ignorância é força”, fazendo com que tenhamos o árduo trabalho de provar que 2 + 2 é igual a 4.

O “povo”
Ainda sobre o vídeo, após a tentativa de ser o paladino da “liberdade”, Weintraub ridiculamente se arvora o porta-voz do “povo”. Logo fica claro o tipo de “povo” ao qual Weintraub se refere. Povo, para o ministro, não engloba a integralidade dos brasileiros e brasileiras com sua diversidade. Antes, para ele, povo se refere a uma massa homogênea. Além de refletir o caráter racista da nossa elite, forjada no escravagismo, essa tentativa de padronização das massas visa excluir todos aqueles que não se encaixam no modelo ideal de cidadão consumista (em nossa sociedade, cidadania está atrelada a consumo). Daí decorre o ataque de Weintraub aos povos indígenas e ciganos.  Todavia, o próprio real se encarrega de refutar o discurso do “todos somos um”. Na pasta de Weintraub, por exemplo, é onde mais se ver a disparidade entre os grupos sociais. Basta observarmos que, durante a pandemia, enquanto as camadas ricas dos centros urbanos têm acesso à educação (mesmo que virtual), os que habitam as periferias encontram-se desassistidos. Weintraub então aproveita o discurso da uniformidade para esconder a sua incapacidade de apresentar políticas públicas específicas que contemplem o caráter plural dos estudantes brasileiros. 

O vazio
Ademais, ignoremos os impropérios contra o STF e a classe política. A suprema corte golpista, por sinal, só está sofrendo o ataque das serpentes que ela mesmo criou. Para a população que é assassinada nas favelas, dizimada nas tribos, ou abandonada nos hospitais, as querelas institucionais são secundárias. Infelizmente, é a essas querelas que a maior parte da esquerda reage de imediato, correndo em defesa dos “excelentíssimos” ao passo que ignora os que de fato foram ofendidos: os pobres do país.  

Em relação a Weintraub, é provável que ele caia nos próximos dias. Veremos então ele ser substituído por alguém com os mesmos ideais. Por isso, o importante mesmo é desarmarmos as armadilhas discursivas da campanha bolsonarista; impedindo assim que o séquito de Bolsonaro use o vídeo supracitado como munição para fortalecer sua narrativa entre os incautos – ainda que, na verdade, esse vídeo revele apenas que, por trás das bravatas, só há um vácuo político.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O jogo do Rinoceronte, por Victor Libório



O jogo do Rinoceronte
por Victor Libório

Iam fazer uns dez minutos naquele impasse. Quando enfim o garoto que usava uma máscara improvisada com camisa de futebol falou:
– Já sei! – Ele sorriu para si, olhando o trio sentado que lhe enxergava somente os olhos agitados.
Os três observavam atenciosos o rapaz ao se aproximar das inúmeras prateleiras. E como se muito bem decidido, ele caminhou firme até estacionar de frente para uma delas, e logo puxar um livro imenso. Voltou com o objeto sob o braço.
Exibiu a capa à plateia. Era verde, com Vitórias-régias no centro. O título em tipografia garrafal, texturizado com padrões que lembravam as penas de alguma ave azul e vermelha.
– Bora lá – disse ele. – Cada um de vocês vai falar um bicho. Aí, a gente vai olhar página por página e se o bicho que vocês disseram aparecer, aí, quem falou ele, vai embora. Fácil, né?
Ninguém falou nada.
– Né??? – mais alto. Os três assentiram.
Então ele abaixou um pouco, na altura dos outros. Pingavam de suor, mas era um dia frio. Olhando direto para um deles, o garoto perguntou:
– Que bicho tu é?
– S-s-sucuri.
– Okay. E tu? – para o segundo da linha.
– Hã... Peixe-boi!
– E tu? – ao último. 
– É...
Todo mundo prestava atenção. Deram um pulinho quando o rapaz falou um “Hein!” meio alto.
– Hã... é.... – A voz trêmula. Esse suava um pouco mais que os outros.
Nessa hora, o menino chegou bem perto. Pôs a mão quase rente ao rosto liso do terceiro, que sentiu o toque de um objeto gelado nas bochechas inquietas. E respondeu, por fim:
– Rinoceronte!!!!
– Certo – o rapaz se afastou.
Sentou sobre a mesa mais próxima, com o livro em mãos.
– Já que, infelizmente, nenhum de vocês tá com a mão livre agora (mas isso é só pra ninguém fugir da leitura) – riu. – Eu vou ler pra vocês, tá bom?
Os três permaneceram estáticos e concentrados no falante.
– Não tem erro. É pá-pôu: eu falo o nome do bicho... e pou! Podimbora!
Sendo assim, ele leu cada folha em voz alta, até as legendas de figura e as notas de rodapé. No meio da 47, falou.
– ...por exemplo, o peixe-boi, que nada e é mamífero.
PÁ!!!
Na 104:
...veneno, às vezes, é dispensável a répteis carnívoros. A sucuri, sendo a maior...
PÔU!!!
Na 296:
– ...o caule espinhento do tucumanzeiro é...
Ele olhou para o singular espectador por alguns segundos.
– Vou mijar – disse. – Dobrou o canto da página e jogou o livro na mesa. Quando abriu a porta, foi possível ouvir certa gritaria vinda do lado de fora, brevemente.
Sozinho, o último ouvinte encarava o livro gigantesco. Que não lhe era novidade, muitas mãos daquele lugar já o haviam folheado. Mas olhou, com importância que antes não tinha dado, para o título: Enciclopédia da Amazônia. Três ou quatro minutos depois, ele ouviu de novo a algazarra externa. Era o garoto de volta.
– E aí? – Sentou-se no mesmo lugar. – Bora seguir, Rinoceronte?

domingo, 17 de maio de 2020

RENATINHA, POBREZINHA, de Elinaldo Junior

Conto



RENATINHA, POBREZINHA

- Renata, vai buscar água!
Com cuidado, pegou as garrafas vazias de refrigerante e organizou-as dentro do carrinho de metal. Não tinha mais que doze anos. Negrinha, franzina, pequena, mas de grandes olhos escuros que reluziam o brilho da sua alma. Cabelos crespos, daqueles que as moças experts em cronograma capilar classificariam facilmente como o tipo 4C. Crespíssimo sim, e dona das madeixas rebeldes mais lindas do mundo. 

Renatinha, pobrezinha, de riqueza só tinha as virtudes. Morava numa simplória casa de madeira à beira de um igarapé qualquer. As poucas vezes em que viajou foi de ônibus: da periferia até o centro da cidade. Filha de um pedreiro alcoólatra que, no cume de sua embriaguez, descontava as frustrações na esposa, em Renata e nos três irmãos mais novos. Detestava ver a família (e inclusive a si) sendo agredida, mas não criava rancor. Sua mãe, neguinha como ela, sofria de hipertensão e qualquer emoção exacerbada a deixava mal. Não dava conta de cuidar sozinha da casa: às vezes faxinava as residências alheias e chegava cansada demais pra realizar as atividades da sua própria moradia. Estava há três meses tentando marcar consulta com o cardiologista mas o sistema público de saúde, com toda a sua precariedade, não colaborava.

Então Renatinha, aos doze anos, era dona de casa. Lavava. Passava. Limpava. Cozinhava. E enchia garrafas d’água. E também era mãe dos três irmãos. Mas Renata não reclamava. Ao contrário, achava bonito o dom de cuidar. Renatinha, pretinha, estudava numa escola pública próxima onde morava. Era uma aluna exemplar, com notas altas e todos os professores acreditavam em seu potencial. 

Mas como ser alguém na vida quando se está na pele de Renata?

Fazia os deveres de casa. Mas nem todos: o trabalho a chamava. A mãe lhe enchia de afazeres e a menina não compreendia pois, aos doze anos, já era doméstica. 

Quando sobrava tempo, no final das tardes, brincava na rua, usando seus chinelos desgastados e roupas remendadas, gritando para os irmãos caçulas ficarem sobre a calçada cada vez que passava um veículo. E ao anoitecer, voltava para casa. Às vezes, reunia-se com a família no velho sofá carcomido pelos ratos para assistir ao jornal e esperar o início da novela. Às vezes, debruçava-se na janela cujo único sistema de segurança era um ferrolho enferrujado. Mas quem ousaria roubar aquela casinha, que nada tinha além da humildade?

E de lá, admirava o mundo à sua volta, ignorando as paredes sem reboco das residências alheias. Sentia o peito explodir de sonhos e esperanças. Desejava se libertar da camisa de força chamada realidade e correr livre na alegria de ser feliz. Queria estudar. Queria ser médica. Queria ajudar a salvar vidas, principalmente daqueles que eram marginalizados e esquecidos como ela. Queria casar. Queria ter filhos. Os próprios, pois já era mãe dos três irmãos. Queria...

- Renata, para de enrolar, antes que eu vá aí e te dê uma surra!

Rapidamente, deixou os devaneios de lado e correu com o carrinho cheio de garrafas vazias rumo ao reservatório de água da comunidade. Durante o caminho, Renata sentia que, no fundo, tudo o que mais queria era estudar para ser alguém na vida. Só que ela era dona-de-casa. E mãe de três irmãos.

E o principal: Renatinha, pobrezinha, era preta. Daquele tipo de negritude que apenas um benefício social ou uma vaga por cotas numa faculdade pública seria incapaz de clarear.

Elinaldo Junior