terça-feira, 20 de agosto de 2019

O intelectual e sua missão, por Victor Leandro

Coluna Segunda Via

O intelectual e sua missão
Por Victor Leandro

Há muralhas que só se derrubam com dinamite.

Mas quem poderá inventá-la, se todos estiverem nas ruas espatifando seus corpos contra os muros? Certo que a ação, ainda que estéril, é muito mais impactante e atrativa que o exercício do pensamento. Também é um ótimo álibi contra a acusação de inércia. Mas, para a transformação real, sozinha ela nunca será suficiente.

Quando as massas se arremessam de modo inconsequente em empreitadas vazias, trata-se de um evento perfeitamente natural e compreensível. Essa é sua tarefa, manter aceso, por vias materiais disruptivas, o ímpeto de mudança. Porém, o trabalho do intelectual é de outra ordem. Suas obrigações consistem em produzir horizontes teóricos para a práxis efetivamente transformadora. Para tanto, um certo isolamento não alienante e uma reflexão prolongada são imprescindíveis. Pouco interessa se passará vinte anos trancado em um gabinete. O que importa é que não saia dele com as mãos vazias.

Não se deve pensar, com isso, que o intelectual é um indivíduo destacado e digno de privilégios. Trata-se apenas de mais um operário, com uma função social muito bem definida.

A clareza dessas proposições, até um astrólogo consegue entender. Isso é tão verdade que, enquanto a caravana progressista passava, um deles se empenhou em disseminar mentiras persuasivas, com resultados que agora se mostram evidentes.

Que o intelectual recupere o espaço ocupado por seus maus imitadores, isso é no presente a palavra de ordem para seu ofício. Somente assim será possível preparar os artefatos necessários para aniquilar as forças opressoras ora dominantes. O fascismo capitalista não se derruba sem que antes se vença a batalha das ideias.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Poemas antes de Marx, de Bruno Ricardo Santos de Oliveira


Poesia

POEMAS ANTES DE MARX

I

Eu imagino o tempo como um sopro que me atinge do cabelo até a cabeça do dedo do pé. O sopro é uma brisa leve, mas não fraca, tem o poder de bomba atômica destruindo e amolecendo o meu eu. Sinto seu choque quando me olho no espelho. Primeira vez que o percebi foi quando dessas suas explosões destruiu todos os meus dentes de leite; a segunda vez aconteceu quando fez buracos no meu rosto. Eventualmente eu ainda o percebo, mas a vida corre e assim me previno, ou finjo que me protejo. O tempo já me angustiou mais, hoje só me deixa perplexo. Angustiava porque não queria aceitar o fato de que acabo; hoje eu acho bonita essa ideia. Ter essa pequena possibilidade de usufruir do espaço/tempo é, sim, bonito. A grande questão é: o que fazer nesse espaço de tempo? Gosto da ideia de não fazer nada, apenas sentir, mas gosto mais ainda de outra: fazer algo inútil. Quer dizer, apenas fazer qualquer coisa, mas não de qualquer jeito, porque tudo é inútil.

II

A arquitetura sustenta a solidão.
Os antigos telhados de vinco no chão rimam a lua. Na parede verde, o musgo sobrevive. Ainda sinto os pecados, os rancores e algo sublime, que eu imperfeito, não consigo compreender e expressar. Me esforço e pisco os olhos e nesse átimo surge os fiapos de crianças a correr pelos lados da casa. Ouço seus gritos, risos, cochichos. Provavelmente seja 1967 ou 1977, sei por causa da coloração verão. O sol brilhava diferente nessa época. Brilha quente amarelo com coloração azul. Há esperança, mas há sufoco. As histórias deles chegaram até mim em retalhos. Suas histórias são mais minhas do que as minhas. Eu sou mais desse passado que desse presente.
Escuto o barulho do grande rio, negro, nos fundos cada vez mais alto. Sou obrigado a retornar ao agora. Dirijo-me, em seguida, ao subúrbio. Eu moro numa casa disforme, mas com coração, com uma daquelas crianças.



III

Há apenas um espaço vazio composto exclusivamente pelo tudo, indecifrável. As palavras não conseguem tatear a sua pele de pelos escamosos. Só o sentir consegue compreender; o sentimento contempla o espaço oco. O choro de um cão se ouve. O vento passa apressado. O barulho do avião atinge o silencio deixado pelo latido, o sopro e a música do Rubel.
Alguém tem sono, mas a pressa de viver não o deixa pregar os olhos. Não percebe que o ócio é parte da vida
Há desespero sob a carne intacta da angústia. O tempero da raiva contamina as doces ilusões. O meu abraço já não é tão bom. Eu poderia morrer, sim, mas infeliz pelas coisas serem o que são.
                   Aqui é o fim.

IV

Estou triste e o carnaval já vai chegar.
Me sinto como um velho que lembra da criança que brincava de ser adulto
Me sinto como um gato mordido por um cachorro
Um rato canibalizado pelos seus pares.



V


O ilógico é a razão do hábito
                                               cotidiano
                                                           banal
                                                                       da minha vida.



Autor: Bruno Ricardo Santos de Oliveira

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

De Marx a Schopenhauer, por Victor Leandro


FILOSOFIA
De Marx a Schopenhauer
Por Victor Leandro

A humanidade é uma causa perdida. A existência é uma oscilação entre a angústia moderada e o desespero. Todo projeto está fadado a naufragar. Ser feliz é ser o menos infeliz possível. A ausência de dor e a nulidade são a única alegria possível. Somente eliminando o desejo pode-se alcançar alguma satisfação.
Todas essas proposições são provavelmente verdadeiras, mas não têm significado para os socialmente oprimidos. Como pode quem tem fome ocupar-se de uma perturbação metafísica, quando está acossado pela premente necessidade de sobreviver? Sem dúvida, não há pensamento acessível sobre o estar no mundo para os explorados. O existencialismo é uma filosofia burguesa.
O marxismo costumeiramente é associado a uma ideia utópica de sumo bem, mas esse raciocínio parece equivocado. O mais provável é que ele seja a mais perversa das doutrinas, pois visa colocar o indivíduo diante da realidade de que, para além da resolução de seus problemas materiais, não há qualquer sentido na vida humana. Uma teoria violenta da aniquilação.
Nesse sentido, Marx talvez seja mesmo o mais perigoso dos homens, pois é por meio dele que nos tornaremos todos aptos a imergir em Schopenhauer.
Mas, por enquanto, este é ainda um horizonte distante. Estamos seguros em nossas privações capitalistas. O desalento é privilégio dos ricos. A pobreza e a miséria permanecem ainda como o inimigo a ser combatido. Derrotemo-nas, e então tudo será visto com clareza. Somente nessa hora, é que poderemos marchar decididos para a nadificação. O último precipício ainda é um lugar distante.


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

conto ROTAS, de Mauricio Braga

CONTO


ROTAS

A temperatura começa a arrefecer junto com o ânimo do meu corpo. É um fim de tarde enjoado; a síntese de um dia quente entregando currículos pela cidade.
O ônibus chegou. Entro, passo pela catraca após pagar a passagem, e me sento no fundo –  sempre vou nos últimos assentos, assim consigo observar todos os passageiros. Desta vez são poucos. O que me chama atenção é que todos eles estão de cabeça baixa olhando para os seus celulares. Uma idiotice sem tamanho! O transporte público é o melhor lugar para conhecer a realidade. Sempre digo: se você quer conhecer uma cidade, passeie de ônibus. As cenas que passam rapidamente pela janela, com pausas em cada parada, são melhores do que qualquer filme no cinema. Além disso, os próprios tipos que entram no ônibus são objetos de análise. Toda urbe está compactada lá. No entanto os idiotas preferem se concentrar nos seus celulares. Que se fodam!
De repente começa a emergir na minha mente uma recordação. É a lembrança, despertada pelo ônibus, de uma noite dos meus tempos de adolescente. Eu era um adolescente solitário e mamãe me obrigava a ir à igreja, no mínimo, três vezes por semana. Era um saco ter que ouvir aquela baboseira. Quando me tornei coroinha tudo piorou, passei a me dedicar quase que exclusivamente à igreja. Pelo menos não tinha que chupar os padres, como os coroinhas de outras igrejas.
Minha mãe, quando não estava na igreja tendo orgasmos no altar, ficava o dia todo se balançando em uma rede, que rangia. Às vezes ainda ouço aquele rangido na minha mente. Já o meu pai era um suicida, que se jogou de uma ponte pouco depois de eu ter nascido, talvez porque não tenha suportado os rangidos da rede; o seu substituto, meu padrasto, parecia mais filho da minha mãe do que seu esposo, uma vez que era um cordeirinho obediente. Eu tinha pena e ao mesmo tempo nojo dele.
Para não ter mais que frequentar o inferno de Cristo, e nem ouvir os rangidos da rede, resolvi fugir de casa. Planejei tudo: À noite, quando todos dormissem, eu sairia pela janela do meu quarto e iria para o ponto de ônibus mais próximo. Lá pegaria o primeiro que passasse, sem me importar com o destino.
Com isso em mente, preparei a minha mochila com roupas e itens básicos: lanterna, canivete, dinheiro, etc. Infelizmente só consegui juntar 50 reais, mas a essa altura nada me impediria, nem mesmo a pouca grana. O meu plano era ganhar dinheiro, onde quer que eu fosse, com a única coisa que eu sabia fazer: desenhar. Sempre tive facilidade com essa arte.
Naquele dia, a noite demorou a vir. Eu estava impaciente. Repassava mentalmente passo a passo do meu plano, ao mesmo tempo que imaginava o futuro. Imaginava-me morando em um apartamento repleto de bebidas e mulheres. Mulheres de todo tipo, altas, baixas, negras, brancas, ruivas, asiáticas... todas com muito peito e muita bunda. No jantar mamãe notou que o meu semblante era uma mistura de apreensão e euforia. Ela comentou que eu estava estranho e perguntou o motivo. Limitei-me a dar uma desculpa qualquer: “Está se aproximando a semana de provas na escola e por isso estou nervoso, preciso me preparar. Inclusive, se a senhora me der licença, vou para o meu quarto estudar”. “Pois bem, vá”.
Algumas horas depois, mamãe bateu na porta do meu quarto e disse “Boa noite, querido. Vou dormir. Não demore muito acordado, amanhã cedo tem missa”. Em seguida se trancou no seu quarto juntamente com o cordeirinho. Esperei mais uma hora para garantir que eles estariam, de fato, dormindo.
Havia chegado finalmente o momento de pôr o plano em prática. Fiz como havia pensado: peguei a mochila e, cuidadosamente, saí pela janela. Caminhei até o ponto de ônibus, que também funcionava como garagem, e encontrei um homem que, pela farda, era cobrador ou motorista. “Quando sai o próximo? ”, perguntei. O homem olhou para o relógio no seu pulso e, sem se virar para mim, disparou: “Daqui a quinze minutos”. Fiquei aliviado, pois estava com medo de perder o último ônibus. Sentei-me em um banco e esperei os quinze minutos passarem. Enquanto isso minhas pernas balançavam, posto que a adrenalina que perpassava o meu corpo estava a todo vapor. Os quinze minutos demoravam.
Um bêbado se aproximou do banco e sentou ao meu lado. Ele era velho, tinha uma barba malfeita e fedia. Olhou para mim, tossiu, e perguntou: - Essa porcaria sai quando?
- Quê?
- O ônibus... quando sai a porcaria do ônibus?
- Daqui a 15 minutos. Quer dizer, daqui a 10, porque já se passaram 5 minutos desde que perguntei do cobrador.
O bêbado começou a tossir mais uma vez, e só parou quando cuspiu uma gosma no chão. Uma gosma de cor esquisita, entre o verde e o vermelho.
Ele, ao meu lado, ainda balbuciou alguma coisa. Ao menos o tempo passou mais rápido enquanto eu tentava desvendar as suas palavras.
Acabara os 10 minutos que faltavam. Entrei no ônibus, paguei a passagem e me sentei no fundo do veículo, como sempre. O bêbado, cambaleando, entrou logo em seguida. Parou na catraca, revirou os bolsos a procura de algumas notas. Contou o dinheiro de forma confusa, entregando ao cobrador mais do que o necessário, e disse “Cobrador, me avise quando chegarmos à zona leste”. Finalmente, dirigiu-se para o assento em frente ao meu, ou seja, o penúltimo, fechou os olhos e dormiu.
Eu me sentia indo rumo à liberdade. Mal podia acreditar que eu estava indo para longe do meu bairro e, consequentemente, longe da minha casa. Depois de algum tempo, entrou no ônibus... droga, vou ter que interromper minha memória. Um conhecido, que eu nem lembro o nome, acabou de entrar no ônibus. Não naquele da minha adolescência, mas neste aqui, do fim de tarde.
O rapaz da minha idade me reconheceu, deu um sorriso à guisa de cumprimento, e sentou-se ao meu lado.
  E aí, mano. Quanto tempo!
  Pois é.
 Ainda faz aqueles desenhos? Lembro que eram irados.
  Não, acabei deixando de lado. Fiz um curso de informática e estou procurando emprego nessa área.
Lembrei dele. Era um colega de escola.
  Ah sei como é – ele disse – eu sou músico. Sei que não é nada fácil viver de arte nessa cidade. Eu queria fazer outra coisa, mas não consigo. A música pra mim é quase uma compulsão. Às vezes nem consigo dormir à noite, porque quando me deito vem logo uma melodia na minha cabeça. Tento ignorá-la, porém não consigo. Aí preciso levantar da cama, pegar o violão, e trabalhar na melodia até o sol raiar.
Ele, de fato, estava com um aspecto cansado, de quem não dorme há três dias.
Continuamos conversando sobre coisas banais, naquele tipo de conversa de elevador. Algumas paradas depois ele desceu. Fiquei com uma angústia por vê-lo daquela forma. Lembro que na escola era o mais popular e pegava todas as garotas. Agora ele é só um rascunho.
Vou voltar à minha recordação. Aos poucos, começo a me entregar aos labirintos da memória e volto a ser adolescente naquele ônibus. Pois bem, onde eu estava? Ah sim, na passageira que embarcou. Era uma mulher alta, de seios fartos e quadris que indicavam fertilidade. Ela sentou-se nos bancos do meio. Usava uma sainha curta, camisa bem decotada e brilhava muito, devido ao glitter espalhado no seu corpo. Não era exatamente bonita, mas eu nunca gostei de mulheres exatamente bonitas. O que importava, aos meus olhos de adolescente, era ela ser gostosa. E isso ela era, muito!
Pensei em me levantar e sentar ao seu lado, mas senti medo. Não sabia como abordar uma mulher. Ainda era casto e não convivia com mulheres. A única mulher com quem eu convivia era mamãe, e nossa relação não era nada boa. Hesitei bastante até decidir que eu era um homem, cuja vida adulta começava naquele momento. Precisava, portanto, encarar os meus medos. Jamais faria qualquer concessão a eles. Não mais. Então respirei fundo, me levantei e sentei ao lado dela. Com a voz trêmula disse:
  Bo-bo boa noite.
  Boa noite, querido.
Meu coração disparou com aquele “querido”. Empostei a voz e soltei:
  Você é muito bonita.
  Obrigada. Você quer se divertir, querido?
  Cla-claro! (aqui a voz voltou a vacilar)
  50
  Quê?
  50 reais. Com anal é 80.
Eu não podia gastar todo meu dinheiro assim. Eu só tinha 50. Precisava comer (comida) quando eu chegasse à minha nova vida e também arrumar um local para dormir. Isto exigiria grana. Pensei um pouco e disse:
  Só tenho 20.
Ela fez uma cara de enfado e replicou: –  Por esse valor, só faço oral.
  ok. Eu vou querer.
A mulher então colocou a mão no zíper da minha calça, a fim de abri-lo. Eu a segurei dizendo:
  Não. Aqui não. Vamos para o fundo do ônibus.
Levantamo-nos e fomos para o lugar onde eu estava antes. Passando pelo velho no banco em frente ao meu, certifiquei-me de que ele estava dormindo. Não dava o menor sinal de vida, indicando assim que estava em um sono profundo.
Acomodei-me no banco e ela logo se inclinou em minha direção. Abriu o zip da minha calça e me chupou. O cobrador percebeu o movimento e deu um sorrisinho. Em pouco tempo, ejaculei. A mulher engoliu tudo, o que me deu muita satisfação. Perguntei o seu nome, ela respondeu, limpando o canto da boca, que o seu nome não importava. E assim pegou a cédula de 20 que eu lhe estendia e retornou ao seu lugar. Algumas paradas depois, desceu.
A partir de então comecei a pensar se eu ainda era casto ou não. Oral conta? Ou precisa ser sexo genital? Fiquei, portanto, me considerando semi-casto, ou, como dizem, semi-virgem, semi-descabaçado.
A viagem seguiu tranquila... até chegarmos à zona leste. Lá, não sei exatamente em qual bairro, o cobrador se virou para o bêbado sentado na minha frente e gritou: –  Acorda, velho! Chegamos na ZL! Acorda!
O velho não reagiu, continuou inconsciente. O cobrador (se dirigindo a mim): –  Ei, moleque, sacode esse velho pra ver se ele acorda.
Levantei-me e, balançando o velho, chamei: “Senhor! Senhor, acorde! ”. Ele não reagiu. Estranhei sua rigidez. Peguei então no seu pulso. Foi quando o pavor tomou conta de mim. Virei-me para o cobrador, horrorizado, e sentenciei: –  ele está morto.
O cobrador foi até o velho, onde conferiu novamente a pulsação (ou ausência de pulsação) dele. “O desgraçado bateu as botas mesmo. Morreu”. Ao ouvir isso, o motorista parou o ônibus e foi até nós.
  Que diabos! – Disse o motorista – Como assim morreu?
  Morreu morrendo – respondeu o cobrador – Fechou os olhos, dormiu e acordou no outro lado.
Eu permanecia em silêncio.
  Vamos ligar para alguém – Sugeriu o motorista.
  Quem?
  Sei lá. Chamar uma ambulância, o IML, a polícia...
  Tenho outra ideia – o cobrador disse – Não vamos ligar pra ninguém. Se ligarmos, só vamos nos meter em confusão. Até que se explique a morte desse aí, vai ser uma dor de cabeça. Eu quero ir pra minha casa, ficar com a minha mulher.
  O que faremos então?
  bem... Ele embarcou sozinho... a rua está deserta... Poderíamos deixa-lo na calçada. Assim não nos envolveríamos nessa merda.
O motorista fez coro ao meu silêncio.
  Quem cala consente – concluiu o cobrador – Moleque, pega os braços dele, enquanto eu levanto as pernas.
Colocamos o morto na rua, que de fato estava deserta. Voltamos para o ônibus e partimos, deixando o cadáver para trás.
A partir de então o silêncio reinou no ônibus. Eu não conseguia levantar meus olhos do chão. Foi a primeira vez que eu vi um morto. Comecei a me arrepender por ter abandonado o corpo. Comecei a sentir remorso por não ter ajudado o velho quando ele cuspiu aquela gosma. Fiquei horas imerso em meus pensamentos, sempre de cabeça baixa, fixando o chão.
Subitamente o Ônibus parou. Perguntei o que houve. O cobrador respondeu: –  Chegamos ao final da linha.
Olhei ao redor e reconheci, mesmo na escuridão, o meu bairro. Exclamei: –  Mas não é possível! Saímos daqui!
  eu sei, moleque. Essa é a rota do busão. Sai de um ponto, roda pela cidade, e volta para o mesmo lugar.
Desci contrariado.
Por falar nisso, tenho que descer agora, neste fim de tarde que já é noite. Vou para casa de mamãe. Ainda moro com ela e amanhã é dia de missa.

Autor: Mauricio Braga










terça-feira, 13 de agosto de 2019

Amor e loucura em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios


LITERATURA

Amor e loucura em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Por Luana Aguiar Moreira

Alguns amores levam à ruína”. Esta afirmação é feita por Cauby, personagem principal de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2005), escrito pelo paulista Marçal Aquino, e poderia ser a síntese mais adequada para a obra. Após a violenta experiência de um grande amor, Cauby parece sentir, desesperadamente, a necessidade de narrá-lo, como forma de expurgo, confissão ou simplesmente como mecanismo de reencontrar, em suas lembranças, a sua amada Lavínia – mulher sedutora e ambígua por quem é apaixonado. Dividido em quatro partes, e entrelaçando-se entre o presente e o passado, o romance é composto por uma miríade de alucinações, lembranças, reflexões sobre a vida e a violência que é o amor.
No primeiro capítulo, “O amor é transmissível sexualmente”, vamos conhecendo aos poucos e, no entanto, de forma desconexa, Cauby, o fotógrafo paulista que está hospedado numa pensão barata no interior do Pará. Sabemos que está com ferimentos, marcas no corpo, tendo seu pecado original ao se envolver com a esposa de um pastor evangélico da região. Conheceram-se num comércio local, ligados pela paixão pela fotografia. Não demorou para que, entre visitas casuais e ensaios fotográficos, ficassem ligados um ao outro apaixonadamente. Lavínia, que ao mesmo tempo era Shirley (sua segunda personalidade), mudava de temperamento rapidamente, sendo extremamente bipolar e ambígua; um dia aparecia em sua casa como mulher despudorada e sedutora, no outro estava retraída, calada e culpada pelos seus atos libidinosos. Apesar de sua bipolaridade, os dois viveram intensos momentos de amor.
Percebemos, no decorrer da história, que Cauby não é o único a sofrer por uma paixão fulgurosa. Todos os personagens, de alguma maneira, são marcados pela experiência traumática de um amor do passado – levada a uma ruína emocional, física ou até ambas. Pois, na pensão, mora também Altino, um velho ex-bancário que teve um amor platônico por Marinês, sua colega de trabalho, que passou a vida inteira a adorá-la, mesmo que estivesse noiva de outro homem. Até o final da vida a acompanhou – mesmo que pateticamente – chegando a comprar um túmulo junto à sua amada; sua fala é emblemática ao contar a história a Cauby: “Vizinho do túmulo de Marinês. Ficaremos juntos para sempre” (p. 159). Dona Jane, dona da pensão, tem tatuado em seu antebraço esquerdo o nome de um antigo amor – marcas de “pecados da juventude” – que tenta esconder, com pudor, sempre com uma manga comprida. Além disso, Chang, um comerciante chinês que apreciava passar seu tempo nos fundos de sua loja com molecotes, registrando seus folguedos em fitas VHS. Por conta dessa sua prática – que toda a cidade sabia e desprezava – fora brutalmente assassinado por Guido Girardi, após descobrir a participação de seu filho caçula em tais brincadeiras.
Observamos, no romance, referências a um “filósofo do amor” chamado Benjamim Schianberg, que discorre sobre os sentidos do amor em O que vemos no mundo: um tratado sobre o amor humano. É o livro preferido de Cauby, sendo citado de forma recorrente em sua fala, sempre citando as reflexões filosóficas do autor: “Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter” (p. 16). A obra, no entanto, é ficcional e existe apenas no universo do romance. Curiosamente, essa metalinguagem, a partir do “tratado filosófico sobre o amor” de Schianberg, deu origem ao filme O amor segundo B. Schianberg, de 2009, dirigido por Beto Brant, onde analisa o amor entre um ator e uma realizadora de vídeos, confinados num quarto, a partir das reflexões do psicanalista. As filmagens são experimentais, dando a impressão de filmagens caseiras, próximas da realidade do cotidiano de um casal. Dois anos depois, em 2011, Brant realizara a adaptação cinematográfica de todo o romance de Marçal Aquino.
“Carne viva” é único capítulo em que se muda a voz narrativa. O fotógrafo, aparentemente, não é mais o narrador e passa a ter menos interferência; e o leitor conhece, então, o passado de Lavínia e Ernani. Após ficar viúvo, Ernani – até então apenas um burocrata aposentado – entra em profunda depressão, sem filhos, esperança ou vontade de seguir a vida. É neste momento que, tocado pela religião, encontra um objetivo na vida: de difundir a palavra cristã. Conheceu Lavínia em Vitória, no Espírito Santo, quando estava na cidade para acompanhar a construção de uma filial da igreja. Lavínia era prostituta e trabalhava próximo ao hotel em que estava hospedado. Após algumas tentativas, aproxima-se da mulher de olhos escuros, misteriosa, que, ironicamente, estavam chapados de metanfetamina – que era bastante frequente em sua vida naquela época. Lavínia havia fugido de casa na adolescência para se livrar dos constantes abusos do padastro, “aprendeu nas ruas a roubar, a bater e a apanhar, a correr da polícia […]. Ali, foi sacaneada e sacaneou, aprendeu tudo que tinha de aprender, esqueceu o que deu para esquecer. E virou mulher. Talvez mais correto seja dizer mulheres. Por que ela era sempre duas. Opostas” (p. 125). No entanto, foi “salva” das ruas e das drogas por Ernani, casou-se com ele e viajou para o interior do Pará, acompanhando as missões evangélicas do marido.
Sabe-se que, na mitologia romana, Lavínia fora uma princesa itálica lendária cujos cabelos pegaram fogo acidentalmente e que, ao fugir do palácio de seu pai, Latino, espalhou o fogo por todo o local – trazendo um mal presságio, segundo a população. Embora prometida a Turno, Latino deu sua mão a Enéias, como havia previsto o oráculo, que a jovem deveria se casar com um estrangeiro. Assim como a princesa itálica, Lavínia de Eu receberia as piores notícias…, casada com Ernani, acaba envolvendo-se com o fotógrafo paulista, o “estrangeiro” nesta história. Porém, esta mudança, assim como na mitologia romana, trouxe consequências catastróficas. Se a mudança no casamento da princesa itálica gerou a guerra entre troianos-latinos e os rútulos de Turno, a traição de Lavínia desencadeou uma perseguição a Cauby, acusado injustamente do assassinado do pastor, além de sua própria loucura.
O desmoronamento inicia-se em “Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo”, quando Cauby decide partir de volta para São Paulo; precisa tomar um rumo em sua vida, está sem dinheiro e sem condições de permanecer naquela situação. Sua obsessão por Lavínia não é saudável, pois sabe que ela permanecerá com Ernani. A clara alusão a Sodoma e Gomorra no título do capítulo traz à tona a ideia do castigo dado a Cauby que, ao praticar “atos imorais”, é condenado pela população da cidade. É lhe revelado a gravidez de Lavínia, as piores notícias recebidas por seus lindos lábios, quando sua viagem de retorno a São Paulo já está programada. Misteriosamente, Ernani é assassinado com três tiros no rosto, Lavínia fica foragida. Devido a uma publicação póstuma de Viktor Laurence, jornalista da cidade, coube à polícia suspeitar do fotógrafo. Julgando-se inocente, decide permanecer na cidade – um erro fatal que quase o levou à morte: fora espancado e apedrejado na rua pela população enraivecida pela morte do pastor.
Embora sendo o mais curto (se comparado aos anteriores), com apenas nove páginas, “Poema escrito com bile” é o mais intenso dos capítulos, contendo desfecho da trama. Momentos antes de ser assassinado, e desconhecendo a gravidez de Lavínia, Ernani a interna num sanatório, sob um nome falso, Lúcia, por “pudor de sua loucura” e com a esperança de que melhorasse de suas constantes crises. O procedimento de lobotomia, no entanto, ocasionou um aborto, piorando ainda mais seu estado de saúde mental. Cauby, ao descobrir o paradeiro de Lavínia, rapidamente vai a seu encontro; caminhando em sua direção, alheia como um autômato, os dois amantes têm um reencontro, porém já não são os mesmos: Cauby transfigurado fisicamente, caolho e cheio de cicatrizes pelo corpo; Lavínia absorta em sua loucura. Os dois, aos poucos, vão se conhecendo novamente, e Cauby passa a visitá-la todos os dias; fazem longos passeios pelo sanatório e pela cidade, como um jovem casal de namorados. Assim, o fotógrafo dedica todos os seus dias a ela e sua recuperação.
Seja a dedicação obcecada por uma mulher por toda vida, a dilaceração do próprio corpo, a perda de um olho, caminhar beirando a loucura, a depressão ou o encontro com a própria morte, nenhum personagem escapou de sua ruína: Lavínia, Cauby, Altino, Chang, Ernani, e até mesmo dona Jane, são marcados eternamente por um amor que, embora prazeroso, leva à destruição. Retomando a afirmação de Cauby, alguns amores levam à ruína, mas nunca são dotados de arrependimento, pois a ruína já é esperada, prevista, e o homem que ama não volta atrás; segue até as últimas consequências, como Cauby o fez: “Não me canso. Recito em voz alta: Lavínia. É música na minha boca. Minha canção e meu estandarte. Meu poema sujo de sangue” (p. 229).

Referências
AQUINO, Marçal. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
O amor segundo B. Schianberg. Direção: Beto Brant. Produtores: Bianca Villar e Renato Ciasca. Drama Filmes, 2009.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Oito e Meio: A Falsa Promessa de Ordem


RESENHA

Oito e Meio: A Falsa Promessa de Ordem
Por Hiago Alves

            Segundo Scorsese depois de “A Doce Vida”, de 1960, Fellini deixou de ser um diretor e tornou-se um maestro. Era impossível não esperar, cobrar, exigir do maestro um filme que não fosse pelo menos tão bom quanto o anterior. A expectativa era enorme e a insatisfação, quase certa. Assim nos é apresentado o mote de oito e meio: o aguardo dos olhares atentos, a sensação de asfixia num engarrafamento interminável, a tentativa da fuga do protagonista e sua iminente queda.
            Toda a composição de uma tragédia moderna. O artista que é superado por si mesmo. É a partir de seu próprio bloqueio criativo que Fellini concebe um dos seus melhores filmes.
            Oito e meio é construído como um jogo de espelhos, um abismo onde não se distingue a moldura do precipício; você simplesmente vivencia uma queda sem a promessa de uma resolução, de um sentido. E é pensando o filme como uma queda interminável – seja ao passado de Guido ou na relação dele com a próprio bloqueio criativo – que se começa a conceber a indistinção de lembrança, sonho e realidade no filme. É nessa indistinção que Fellini tem a oportunidade de ser expansivo, gigantesco e caótico da forma mais lírica possível.
            É impossível verbalizar Oito e Meio ignorando tudo que foi falado sobre ele. É uma ilusão da minha parte achar que eu tenho algo a dizer sobre o filme que menos se propõe a isso. É um filme sobre um filme que nunca se realiza; a própria impossibilidade de realiza-lo. Através dos diálogos, o filme pensa sobre ele mesmo; os personagens o verbalizam enquanto Guido procura sua musa que parece se mover por muitos planos diferente, como um espectro. A musa de Guido é interpretada por Claudia Cardinale. E ela surge em meio ao caos cotidiano do cineasta, flutuando.


Guido Anselmi é um famoso cineasta e alter ego de Fellini que aos 43 anos e no auge da sua carreira artística vive um bloqueio. O seu mais novo filme está em plena produção, com atores contratados, cenários montados e um roteiro ainda incompleto. Guido não faz ideia sobre o que falar em seu novo filme, seu roteirista também não vê uma “ideia problemática”, uma “premissa filosófica”. Para ele, o filme novo do diretor é apenas uma sucessão de episódios gratuitos. O bloqueio, como foi dito, é o mote do filme, mas sua ideia em cena não é desenvolver um retrato do processo criativo de seu diretor, mas sim um panorama de quem é esse diretor. É a transposição em cena de todo o realismo ambíguo do cineasta, seu retrato mais fiel.

            Artruc diz que a mise-en-scéne é uma ideia que flui do olhar do diretor através da câmera. “Uma ideia, portanto, um olhar”, e a ideia em andamento de Fellini neste filme é um olhar para si mesmo. É o reflexo do diretor mais egocêntrico e cruel. Com esse olhar, Fellini alcança a forma mais rigorosa dos seus pensamentos escritos em um filme.  Nele, e através de si, reflete sobre a angustia da criação, do medo do fracasso e da constante tentativa da fuga da realidade. 



O lirismo visual de Fellini está na composição dos quadros que mescla velhice e infância, sonhos e pesadelos, realidade e irrealidade, não como opostos, mas sim elementos indissociáveis. A ordem que Guido procura na imagem irreal de sua musa, é uma mentira idealizada. Os sonhos e lembranças que no início do filme são distinguíveis e perceptíveis, aos poucos se mesclam ao restante da narrativa como se fossem um só. É o que Paul Thomas Anderson faz em Vicio Inerente tentando transpor em imagem a loucura e paranoia do personagem de Pynchon.



Aqui, ao contrário, a lembrança se esgueira no quadro de forma tão sutil que se transforma em personagem ou a personagem se transforma em lembrança quando percebida pelo olhar de Guido. A estranheza não é o ponto conflitante e dissonante, pelo contrário, a realidade é esse ponto e os sonhos e lembranças são a única forma de encarar a melancolia da sua realidade. Guido é um homem infeliz e talvez nisso esteja refletido toda a infelicidade de Fellini. Nunca saberemos.
Christian Metz diz que o filme é dupla composição em abismo; Guido representa duas vezes Fellini quando em seu filme reflete sobre um filme. E é a impossibilidade de alcançarmos o filme de Guido que encontramos a borda da moldura no filme de Fellini: os dois sonham com o mesmo filme. É a própria ficção que se bagunça de tal forma com a realidade que se tornam indistinguíveis, são reflexos perfeitos quando se propõe a refletir toda a ausência de uma “premissa filosófica” e a sua penosa busca.
Mas ainda encontramos no filme os rastros da ausência. E a ausência é exatamente a suntuosa base de lançamento em construção, é a tentativa de Guido (e Fellini) escapar de si mesmo, do seu próprio planeta; é a busca por um filme que está além dos seus próprios problemas, traumas e realidade, mas que nunca se concretizará.         



Por mais que se obrigue a fugir de si mesmo na criação do próprio filme, Guido estará sempre voltado para seus próprios problemas amorosos, religiosos e familiares. E quando o diretor concebe isso, não há mais escapatória.
            A sequência em que Guido encontra Claudia e admite não ter filme algum e não existir personagem é a destruição de qualquer promessa de ordem. Foi na idealização de uma figura sem forma que Guido compôs a Claudia musa, mas a atriz não corresponde suas expectativas como o foguete que é apenas a lembrança concreta da sua farsa. Guido admite que queria renunciar ao seu filme e assim o faz quando se mata em uma icônica cena. Mas sobreposto a esse final pessimista que é a concretização da incapacidade de criar, de dar ordem, está a própria conclusão que separa Guido de Fellini.
            Guido ressuscita. Prestes a desistir, presencia todos os personagens de sua vida passarem por ele, num desfile feérico. Guido começa a dirigi-los dando início ao Oito e Meio que assistimos. Ele os coloca em círculos e eventualmente entra na roda, se transforma em personagem. Guido aceita a sua própria confusão e abre mão da ordem que almejava; finalmente aceita que a verdade ordenadora é justamente a desordem.


Fellini é conhecido por ser dono de uma iconografia única, festiva. Toda essa identidade visual é contraposta por uma melancolia pungente dos efeitos da pobreza, do totalitarismo, de desilusões pós-modernas que geralmente são pano de fundo de toda sua filmografia. O contraste dessas informações talvez possa ser resumido à uma cena: o olhar de Cabiria na cena final do sétimo longa do diretor. É nesse olhar que começa a ser impossível a distinção entre tristeza e felicidade, pureza e poluição. Os filmes de Fellini parecem refletir uma busca eterna pelas coisas simples e por uma espécie de inocência perdida e é apenas com sorriso triste que se pode deixar um filme do Maestro italiano.


domingo, 11 de agosto de 2019

O Domingo

Coluna Segunda Via

O DOMINGO
Por Victor Leandro

O domingo é a maior confissão de fracasso da sociedade burguesa. Enfastiada e esgotada de si, ela precisa gerar uma interrupção periódica no fluxo de seu movimento, a fim de recuperar o ânimo frente ao tédio lancinante de seu modo de vida. Sem condições de suportar-se, ela se esconde nas parcas horas de repouso num dia inútil.

Irritados e corroídos pelo desânimo, os corpos procuram um lugar à sombra da angústia dos dias tristes da semana. Alguns, mais intrépidos, arremessam-se em prazeres inócuos, os quais não devem ultrapassar o pôr do sol, uma vez que as agruras do dia seguinte corrompem o momento presente. Outros, menos otimistas, dedicam-se apenas a repousar. A estes, não há mais meios de escapar da prisão do Capital. Doutrinados e instruídos, eles nem mesmo se arriscam a desafiar a ordem de descanso que lhes foi conferida, e, contra qualquer ameaça de ação, resignam-se a responder que hoje é domingo, ou seja, que não são capazes de algo fazer.

Mesmo para aqueles que não estão inseridos na ordem do trabalho - no Brasil de hoje, são muitos - o domingo exerce seu domínio totalizante. Pairando como sombra ao redor de tudo que os cerca, ele os paralisa e os coloca numa inércia inamovível. Não podem andar, sair, conversar, existir, estar no mundo. Apenas a espera do dia seguinte e da autorização para viver. Robóticos escravos da mais-valia e alienação.

Enquanto houver domingo, a sociedade burguesa não irá desaparecer. Somente no dia em que as formas de atividade humana estiverem em tal potência criativa que não precisarão mais negar a si mesmas, é que poderemos nos considerar verdadeiramente libertos para vivenciar o tempo naquilo que possui de mais intenso e produtivo. Nesse momento, é quando nos tornaremos decisivamente emancipados, e o socialismo encontrará a síntese autêntica entre trabalho e o prazer poético das horas livres.