domingo, 24 de maio de 2020

“Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?” [Carta a Mariany Moura], por Jonas Araújo

A Pátria (1919), de Pedro Bruno

“Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?”
Por Jonas Araújo Pereira Júnior

Carta a Mariany Moura 

Você fez uma publicação que me deixou bastante intrigado, “Para vocês, nos livros de História do Brasil, como será chamado esses tempos que estamos vivendo?”. Achei muito pertinente o questionamento e comentei apresentando alguns elementos, numa espécie de sumário, em seguida você responde torcendo para que essa etapa passe rápido. Bem, na história todas as mudanças possuem seu próprio tempo e entender essa lógica é fundamental para compreendermos o tempo em que vivemos.

Primeiramente é importante frisar que não é do nosso ofício, professores de história, oferecer previsões, contudo, trabalhamos com a interpretação dos fatos e dos processos históricos. Se pararmos para analisar a linha do tempo das mudanças de cenário político no país é possível identificar que as mudanças são demoradas e deixam marcas profundas. Vou tentar resumir.

Início da República (1889-1930) 41 anos.

Quando a elite colonial se irritou com a realeza portuguesa por estar acabando com a escravidão do povo negro, não de boa vontade mas para atender os interesses do mercado internacional, essa elite colonial se uniu ao exército para fazer o golpe da República, o período que se seguiu foi a república velha, marcado pelo voto de cabresto, perseguição e exploração.

Processo de Democratização: Era Vargas, Estado Novo e Populismo (1930-1954) 24 anos.

Vargas Chega ao poder com um discurso de "revolução", aproveita a crise econômica mundial e a crise nacional da política do "Café com Leite", vende a ideia de uma república democrática com participação do povo. Contudo, sua proximidade com as ideias fascistas reverte a democracia a um estado ditatorial. Quando finalmente abriu espaço para a disputa democrática foi fortemente atacado pela oposição e cometeu suicídio em 1954.

O leve sopro democrático (1954-1964) 10 anos.

Antes de morrer Vargas escreve uma carta onde aponta que forças ocultas atacam o seu governo para retirar os direitos do povo que ele ajudou a conquistar. A publicidade desse fato provocou grande comoção nacional o que permitiu um breve sopro de “tranquilidade”. Contudo, em 1961, inicia-se uma nova reação da elite nacional contra as reformas de base que implementariam políticas públicas de redução da pobreza. Vem a acusação de um plano comunista (fake News) e em 1964 acontece o Golpe Militar.

Ditadura Militar (1964-1985) 21 anos.

Esse é o período mais truculento da política recente do país, marcado por atos institucionais (AI-1, AI-2, AI-3, AI-4 e AI-5) que reduziram a democracia a pó e promoveram a perseguição política, censura, tortura e assassinatos. Ela se encerrou com um acordo político em função do aprofundamento da crise política e econômica no país promovida por uma política de gestão irresponsável.

O exercício democrático (1985- 2016) 31 anos.

Esse período é marcado por um amplo processo de disputa de narrativa política por meio de propagandas, organizações sociais, partidos, grupos econômicos e militares. Nesse processo o palco das disputas foram os pleitos eleitorais. Ocorre a criação de vários partidos políticos que iniciam uma correlação de interesses particulares para aprovarem projetos econômicos e políticos. O povo passa a se tornar uma espécie de torcedor do processo político. O país fica divido entre a direita(azul) e a esquerda (vermelha).  Em 2013, com as jornadas de junho, esse período começa a apresentar os primeiros sinais de falência. Em 2016, com o golpe na Presidenta Dilma, ocorre o fechamento do ciclo.

A crise do exercício Democrático (2016 – até os dias atuais). 4 anos

Esse período está marcado pela retirada de direitos, previstos na constituição de 1988, por meio dos poderes constituídos. Um período muito singular, pois se pararmos para analisar as instituições democráticas se tornam o instrumento de corrosão dos valores democráticos e republicanos. Tudo começa quando o congresso aceita realizar o impeachment da Presidente Dilma sem apresentar nenhuma prova criminal, seguido do apoio do STF. No início do governo Temer (MDB), os poderes executivo e legislativo fazem uma dobradinha para aprovar um pacote de reformas para reduzir o papel do Estado junto ao povo brasileiro tais como: E.C do teto dos gastos públicos, reforma trabalhista, reforma previdenciária, reforma do ensino médio e etc. Os movimentos sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda passam a realizar greves gerais com manifestações de rua, mas não conseguem frear a nova ordem política. Chega as eleições de 2018, o candidato da direita é eliminado ainda no primeiro turno, vai ao segundo turno um candidato da esquerda, Haddad, contra um da extrema-direita, Bolsonaro. A extrema direita vence as eleições e no desenvolvimento do seu governo, fica claro que não possui um plano de desenvolvimento para o país, é uma cruel combinação de intolerância, racismo, machismo e subserviência ao mercado internacional. 

Enfim, se olharmos para a cronologia de cada período, o menor tempo durou 10 anos, e acabou servindo como transição entre duas experiências ditatoriais. Portanto, o período que estamos vivenciando é apenas o início de um longo processo.

O deserto dos Weintraubs, Por Mauricio Braga



O deserto dos Weintraubs
Por Mauricio Braga

Na última sexta-feira (22/05/2020) foi divulgado um vídeo da reunião ministerial realizada por Jair Bolsonaro no dia 05 de abril. Com discursos afetados, meramente eleitoreiros, o seu conteúdo chega às raias do delírio – ou seja, longe, muito longe, do real. 

Uma das participações mais vexaminosas da reunião foi a do ministro da educação, Abraham Weintraub. Este fez uma fala que, embora seja um compilado de bobagens, não podemos ignorar, pois escancara o perfil da direita brasileira. Sendo assim, comentaremos a seguir alguns elementos presentes no discurso do ministro.

A “liberdade”
Weintraub suscita em sua fala a “liberdade” – palavra essa que a burguesia tenta se apropriar. Mas sabemos que no capitalismo os trabalhadores só têm a “liberdade” de escolher entre se submeterem à exploração ou morrerem de fome. No contexto da pandemia, essa questão recebe ainda uma variação: os trabalhadores agora têm a “liberdade” de escolher entre se exporem ao covid-19 ou morrerem de fome. Tal dilema, entretanto, é uma falácia, posto que o Estado possui recursos para evitar as duas coisas. Contudo, entre provocar mortes ou distribuir renda, o Poder sempre escolherá a primeira opção. A acumulação no capitalismo está acima da vida.

Quanto à liberdade, ela só se efetiva quando todos os indivíduos possuem os meios de proverem sua existência material, sem que ninguém precise se submeter a outrem. Portanto, a liberdade é impossível no capitalismo. Mas, para dominar ideologicamente, a burguesia procura embaralhar os conceitos. Ela prega, como a elite em 1984 de George Orwell, que “Guerra é paz, Liberdade é escravidão, ignorância é força”, fazendo com que tenhamos o árduo trabalho de provar que 2 + 2 é igual a 4.

O “povo”
Ainda sobre o vídeo, após a tentativa de ser o paladino da “liberdade”, Weintraub ridiculamente se arvora o porta-voz do “povo”. Logo fica claro o tipo de “povo” ao qual Weintraub se refere. Povo, para o ministro, não engloba a integralidade dos brasileiros e brasileiras com sua diversidade. Antes, para ele, povo se refere a uma massa homogênea. Além de refletir o caráter racista da nossa elite, forjada no escravagismo, essa tentativa de padronização das massas visa excluir todos aqueles que não se encaixam no modelo ideal de cidadão consumista (em nossa sociedade, cidadania está atrelada a consumo). Daí decorre o ataque de Weintraub aos povos indígenas e ciganos.  Todavia, o próprio real se encarrega de refutar o discurso do “todos somos um”. Na pasta de Weintraub, por exemplo, é onde mais se ver a disparidade entre os grupos sociais. Basta observarmos que, durante a pandemia, enquanto as camadas ricas dos centros urbanos têm acesso à educação (mesmo que virtual), os que habitam as periferias encontram-se desassistidos. Weintraub então aproveita o discurso da uniformidade para esconder a sua incapacidade de apresentar políticas públicas específicas que contemplem o caráter plural dos estudantes brasileiros. 

O vazio
Ademais, ignoremos os impropérios contra o STF e a classe política. A suprema corte golpista, por sinal, só está sofrendo o ataque das serpentes que ela mesmo criou. Para a população que é assassinada nas favelas, dizimada nas tribos, ou abandonada nos hospitais, as querelas institucionais são secundárias. Infelizmente, é a essas querelas que a maior parte da esquerda reage de imediato, correndo em defesa dos “excelentíssimos” ao passo que ignora os que de fato foram ofendidos: os pobres do país.  

Em relação a Weintraub, é provável que ele caia nos próximos dias. Veremos então ele ser substituído por alguém com os mesmos ideais. Por isso, o importante mesmo é desarmarmos as armadilhas discursivas da campanha bolsonarista; impedindo assim que o séquito de Bolsonaro use o vídeo supracitado como munição para fortalecer sua narrativa entre os incautos – ainda que, na verdade, esse vídeo revele apenas que, por trás das bravatas, só há um vácuo político.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O jogo do Rinoceronte, por Victor Libório



O jogo do Rinoceronte
por Victor Libório

Iam fazer uns dez minutos naquele impasse. Quando enfim o garoto que usava uma máscara improvisada com camisa de futebol falou:
– Já sei! – Ele sorriu para si, olhando o trio sentado que lhe enxergava somente os olhos agitados.
Os três observavam atenciosos o rapaz ao se aproximar das inúmeras prateleiras. E como se muito bem decidido, ele caminhou firme até estacionar de frente para uma delas, e logo puxar um livro imenso. Voltou com o objeto sob o braço.
Exibiu a capa à plateia. Era verde, com Vitórias-régias no centro. O título em tipografia garrafal, texturizado com padrões que lembravam as penas de alguma ave azul e vermelha.
– Bora lá – disse ele. – Cada um de vocês vai falar um bicho. Aí, a gente vai olhar página por página e se o bicho que vocês disseram aparecer, aí, quem falou ele, vai embora. Fácil, né?
Ninguém falou nada.
– Né??? – mais alto. Os três assentiram.
Então ele abaixou um pouco, na altura dos outros. Pingavam de suor, mas era um dia frio. Olhando direto para um deles, o garoto perguntou:
– Que bicho tu é?
– S-s-sucuri.
– Okay. E tu? – para o segundo da linha.
– Hã... Peixe-boi!
– E tu? – ao último. 
– É...
Todo mundo prestava atenção. Deram um pulinho quando o rapaz falou um “Hein!” meio alto.
– Hã... é.... – A voz trêmula. Esse suava um pouco mais que os outros.
Nessa hora, o menino chegou bem perto. Pôs a mão quase rente ao rosto liso do terceiro, que sentiu o toque de um objeto gelado nas bochechas inquietas. E respondeu, por fim:
– Rinoceronte!!!!
– Certo – o rapaz se afastou.
Sentou sobre a mesa mais próxima, com o livro em mãos.
– Já que, infelizmente, nenhum de vocês tá com a mão livre agora (mas isso é só pra ninguém fugir da leitura) – riu. – Eu vou ler pra vocês, tá bom?
Os três permaneceram estáticos e concentrados no falante.
– Não tem erro. É pá-pôu: eu falo o nome do bicho... e pou! Podimbora!
Sendo assim, ele leu cada folha em voz alta, até as legendas de figura e as notas de rodapé. No meio da 47, falou.
– ...por exemplo, o peixe-boi, que nada e é mamífero.
PÁ!!!
Na 104:
...veneno, às vezes, é dispensável a répteis carnívoros. A sucuri, sendo a maior...
PÔU!!!
Na 296:
– ...o caule espinhento do tucumanzeiro é...
Ele olhou para o singular espectador por alguns segundos.
– Vou mijar – disse. – Dobrou o canto da página e jogou o livro na mesa. Quando abriu a porta, foi possível ouvir certa gritaria vinda do lado de fora, brevemente.
Sozinho, o último ouvinte encarava o livro gigantesco. Que não lhe era novidade, muitas mãos daquele lugar já o haviam folheado. Mas olhou, com importância que antes não tinha dado, para o título: Enciclopédia da Amazônia. Três ou quatro minutos depois, ele ouviu de novo a algazarra externa. Era o garoto de volta.
– E aí? – Sentou-se no mesmo lugar. – Bora seguir, Rinoceronte?

domingo, 17 de maio de 2020

RENATINHA, POBREZINHA, de Elinaldo Junior

Conto



RENATINHA, POBREZINHA

- Renata, vai buscar água!
Com cuidado, pegou as garrafas vazias de refrigerante e organizou-as dentro do carrinho de metal. Não tinha mais que doze anos. Negrinha, franzina, pequena, mas de grandes olhos escuros que reluziam o brilho da sua alma. Cabelos crespos, daqueles que as moças experts em cronograma capilar classificariam facilmente como o tipo 4C. Crespíssimo sim, e dona das madeixas rebeldes mais lindas do mundo. 

Renatinha, pobrezinha, de riqueza só tinha as virtudes. Morava numa simplória casa de madeira à beira de um igarapé qualquer. As poucas vezes em que viajou foi de ônibus: da periferia até o centro da cidade. Filha de um pedreiro alcoólatra que, no cume de sua embriaguez, descontava as frustrações na esposa, em Renata e nos três irmãos mais novos. Detestava ver a família (e inclusive a si) sendo agredida, mas não criava rancor. Sua mãe, neguinha como ela, sofria de hipertensão e qualquer emoção exacerbada a deixava mal. Não dava conta de cuidar sozinha da casa: às vezes faxinava as residências alheias e chegava cansada demais pra realizar as atividades da sua própria moradia. Estava há três meses tentando marcar consulta com o cardiologista mas o sistema público de saúde, com toda a sua precariedade, não colaborava.

Então Renatinha, aos doze anos, era dona de casa. Lavava. Passava. Limpava. Cozinhava. E enchia garrafas d’água. E também era mãe dos três irmãos. Mas Renata não reclamava. Ao contrário, achava bonito o dom de cuidar. Renatinha, pretinha, estudava numa escola pública próxima onde morava. Era uma aluna exemplar, com notas altas e todos os professores acreditavam em seu potencial. 

Mas como ser alguém na vida quando se está na pele de Renata?

Fazia os deveres de casa. Mas nem todos: o trabalho a chamava. A mãe lhe enchia de afazeres e a menina não compreendia pois, aos doze anos, já era doméstica. 

Quando sobrava tempo, no final das tardes, brincava na rua, usando seus chinelos desgastados e roupas remendadas, gritando para os irmãos caçulas ficarem sobre a calçada cada vez que passava um veículo. E ao anoitecer, voltava para casa. Às vezes, reunia-se com a família no velho sofá carcomido pelos ratos para assistir ao jornal e esperar o início da novela. Às vezes, debruçava-se na janela cujo único sistema de segurança era um ferrolho enferrujado. Mas quem ousaria roubar aquela casinha, que nada tinha além da humildade?

E de lá, admirava o mundo à sua volta, ignorando as paredes sem reboco das residências alheias. Sentia o peito explodir de sonhos e esperanças. Desejava se libertar da camisa de força chamada realidade e correr livre na alegria de ser feliz. Queria estudar. Queria ser médica. Queria ajudar a salvar vidas, principalmente daqueles que eram marginalizados e esquecidos como ela. Queria casar. Queria ter filhos. Os próprios, pois já era mãe dos três irmãos. Queria...

- Renata, para de enrolar, antes que eu vá aí e te dê uma surra!

Rapidamente, deixou os devaneios de lado e correu com o carrinho cheio de garrafas vazias rumo ao reservatório de água da comunidade. Durante o caminho, Renata sentia que, no fundo, tudo o que mais queria era estudar para ser alguém na vida. Só que ela era dona-de-casa. E mãe de três irmãos.

E o principal: Renatinha, pobrezinha, era preta. Daquele tipo de negritude que apenas um benefício social ou uma vaga por cotas numa faculdade pública seria incapaz de clarear.

Elinaldo Junior

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O FOQUISMO NA REVOLUÇÃO CUBANA, por Christopher Souza da Rocha


O FOQUISMO NA REVOLUÇÃO CUBANA
 por Christopher Souza da Rocha

INTRODUÇÃO 
A Revolução Cubana foi, sem dúvidas, um dos principais acontecimentos da América Latina na segunda metade do século XX, resultado de um movimento guerrilheiro que seria responsável pela derrubada do governo ditatorial de Fulgêncio Batista e a tomada do poder, em 1959, pelo jovem Fidel Castro e o exercício rebelde. O presente artigo aborda a relação entre a Revolução de 59 com as teses defendidas por um dos importantes líderes do movimento revolucionário, Che Guevara, que viria publicar suas ideias, após a Revolução, no livro “Guerra de Guerrilhas”[1]. Mais tarde, em 1967, as ideias de Guevara serão organizadas pelo sociólogo francês Régis Debray, com a publicação do livro “Revolução na Revolução”. Mas, antes de tudo, é necessário conhecermos a construção do movimento revolucionário em Cuba e o porquê da formação desse movimento.  

Após a guerra entre Estados Unidos e Espanha, em 1898, Cuba, até então colônia espanhola, obteve a sua independência. As tropas norte-americanas ocuparam a ilha até 1902, quando foi instituído o primeiro governo republicano. Mas, por pressão dos EUA, a nova Constituição cubana, promulgada no ano anterior, teve de se submeter aos norte-americanos dando-lhes o direito de intervir militarmente na Ilha sempre que seus interesses fossem ameaçados, Cuba, portanto, tornou-se um país com soberania limitada. 

  Em março de 1952, após alguns anos de governos democráticos, Fulgêncio Batista autoproclamou-se presidente de Cuba, com apoio dos EUA, com interesse em impedir a participação de partidos de esquerdas nas eleições que aconteceriam no mês seguinte, sendo que ele já havia sido presidente por dois mandatos e não poderia mais se reeleger. Na Universidade de Havana, os estudantes criticavam o governo de Batista. Entre eles estava o jovem Fidel Castro. 

 Em 26 de julho de 1953, Fidel, com 26 anos de idade, liderando um grupo de 150 homens, atacou o quartel militar de Moncada. O objetivo era derrubar Batista. Mas os planos fracassaram e Fidel acabou sendo preso. Condenado a 15 de prisão, foi beneficiado com uma anistia e, em menos de dois anos, estava em liberdade.

No ano de 1955, Fidel foi para o México organizar outra revolta. Ele liderava uma organização política, o Movimento Revolucionário 26 de julho (MR-26). Um jovem médico de 27 anos, Ernesto Che Guevara, integrou-se ao grupo e mais tarde, junto a Fidel, seria uma das principais lideranças do movimento revolucionário. 

  Fidel planejava desembarcar em uma praia cubana e iniciar a luta, contando com revoltas nas ruas das cidades em apoio ao seu movimento. Um pequeno iate foi comprado, chamado de Granma. Em 2 de dezembro de 1956, Fidel, Che e cerca de 80 homens chegaram em Cuba, mas encalharam num recife. Foram atacados pelo exército de Batista e somente 12 deles conseguiram escapar, refugiando-se em Sierra Maestra.  

  A sociedade cubana, nesse período, manifestava-se forte oposição à ditadura de Batista, além de sindicatos de trabalhadores e organizações estudantis, atuavam o Partido Comunista Cubano e o Partido Socialista Popular[2]. Os guerrilheiros refugiados nas montanhas receberam apoio político, alimentos e armas enviados por lideranças de partidos e movimentos sociais das cidades. Com as adesões e o apoio que receberam, Fidel, Che e os rebeldes se sentiram fortes para formar quatro colunas militares e derrubar o governo de Batista. 

  No final do ano de 1958, boa parte do país era controlada pelo MR-26. No dia 1º de janeiro de 1959, as forças rebeldes entraram em Havana. No dia seguinte, Batista abandonou o país. E em 1961 o novo governo cubano declarou que a Revolução, iniciada como nacionalista e anti-imperialista, passaria a ser também socialista. 

O FOQUISMO 
Um ano após a Revolução Cubana, em 1960, Che Guevara apresentou suas teses sobre a estratégia utilizada na Revolução e que, para ele, serviria de modelo para toda a América Latina, organizado em um livreto intitulado “Guerra de Guerrilha”, o qual apresenta, o que Régis Debray chamaria mais tarde, “A teoria do foco”[3]. Em Guerra de Guerrilha, Guevara apresenta três contribuições fundamentais da Revolução Cubana para teoria e a prática dos movimentos revolucionários na América Latina: 1º As forças populares podem ganhar a guerra contra o exército; 2º Nem sempre há que se esperar que se deem todas as condições para a Revolução; o foco insurrecional pode cria-las; 3º Na América subdesenvolvida, o terreno da luta armada deve ser fundamentalmente no campo (DOSAL, 2006, p. 217). 

  A Guerra de Guerrilha apresentava que a Revolução se daria, a partir, do foco guerrilheiro, formado por uma vanguarda armada que provocaria uma ação das massas. Este foi o caso da experiência cubana, que no desenvolvimento da Revolução, sobretudo durante o movimento guerrilheiro em Serra Maestra, as lideranças revolucionárias tornam-se fundamentais para a mobilização das massas, como afirma Ricardo A. Mendes: 

Se Fidel possuía, desde sua origem, uma proposta socialista, o movimento seria obviamente, igualmente socialista. A noção de vanguarda revolucionária ganha, aqui, uma grande relevância. Seria a vanguarda armada, articulada a partir de uma estratégia calcada no foquismo, a grande responsável pela vitória. E se Fidel, considera essa perspectiva, era então o líder desse movimento foquista[4]

  Guevara também discorre sobre as insuficiências do Partido para a Revolução, o qual é substituído pelo foco, aparentemente entrando em contradição com a teoria marxista-leninista e a experiência leninista da Revolução Bolchevique na Rússia. De fato, para Guevara, a Revolução Cubana se diferencia taticamente da experiência bolchevista. Porém não negava o marxismo-leninismo. Nesse sentido, apresenta Paul J. Dosal: 

Che concluía que a Revolução Cubana contradissera a premissa fundamental de Lênin, segundo o qual não pode haver movimento revolucionário sem uma teoria revolucionária. Os principais líderes da insurreição cubana sabiam alguma coisa sobre o pensamento marxista-leninista, mas nenhuma teoria revolucionária os guiava ao embarcar no Granma. A improvável vitória deles demonstrara que “a revolução pode ser feita se as realidades históricas são interpretadas corretamente e as forças envolvidas são utilizadas corretamente, mesmo se a teoria não é conhecida”. Ao escrever a Guerra de Guerrilhas, Che não pretendia revisar Marx, Lênin ou Mao e construir uma nova teoria, modelo ou paradigma revolucionário. Ele simplesmente pretendia ensinar revolucionários a fazer a revolução [...]. 

   A teoria do foco ganhou uma maior densidade teórica a partir de a “Revolução na Revolução”. Régis Debray foi um dos grandes entusiastas da Guerra de Guerrilha, destacado por construir suas ideias a partir da ação concreta, chegando inclusive a combater ao lado de Guevara na selva boliviana. Debray “tornou-se o mais conspícuo ideólogo da Revolução Cubana e um dos que mais influenciaram a esquerda radicalizada surgida na década de 1960” [5].   

 Debray, marxista-leninista, enxergava na Guerra de Guerrilha, que assim como em Cuba, seria essencial para a Revolução Socialista na América Latina, “Cuba mostrou mais uma vez, em primeiro lugar, que a revolução socialista é o resultado de uma luta armada contra o estado burguês” (DEBRAY, 1996, p.7). Apresentava que o desenvolvimento da Revolução dar-se-ia a partir da guerrilha revolucionária clandestina, independente da população civil, com o objetivo principal de destruição do potencial militar do inimigo e esse objetivo requer o foco permanentes independentes do que esteja nas zonas de operação (DEBRAY, 1996, p.27). 

O pensamento de Debray não se limita a interpretar que a luta de guerrilha é suficiente para destruir o potencial militar e a máquina de repressão do Estado burguês. Para ele, a luta de guerrilha representa uma fase da guerra revolucionária, “para destruir um exército é preciso construir outro”. Debray considera a guerrilha como “núcleo do exército popular e do futuro Estado Socialista” (DEBRAY, 1996, p. 74) 

Agora organizado, o Foquismo seria disseminado na realização da I Conferência Tricontinental, realizada em Havana em 16 de abril de 1967, nesse evento criou-se a Organização Latino Americana de Solidariedade (OLAS), que tinha por objetivo financiar e treinar grupos guerrilheiros da América Latina, na ocasião, Che Guevara, fez um histórico discurso da luta anti-imperialista na América Latina, “A América, continente esquecido pelas últimas lutas políticas de libertação, que começa a fazer-se sentir através da Tricontinental, na voz da vanguarda de seus povos, que é a Revolução Cubana, terá uma tarefa muito maior: a criação do segundo ou terceiro Vietnã no mundo” (DOSAL, 2006, p.243). 

INFLUÊNCIAS DO FOQUISMO NA AMÉRICA LATINA 
A Revolução Cubana provocou uma grande efervescência política na América Latina, os Partidos de esquerda em praticamente todo o continente, se entusiasmaram com a vitória da Revolução. Grupos guerrilheiros se formaram, dentro e fora dos Partidos. E com o objetivo de sair do isolamento, o próprio Governo cubano, também, passou apoiar as ações revolucionárias socialistas em toda a América Latina, incentivando a formação dos Focos Guerrilheiros.  

  A partir daí, Cuba incentivou e apoiou movimentos revolucionários na Argentina, Colômbia, Guatemala, Brasil, Peru e na Venezuela. E ainda em 1967 Guevara vai a Bolívia com intuito de construir um foco guerrilheiro, onde foi capturado e assassinado por agentes da CIA norte-americana (DOSAL, 2006, p.275). O temor que a Revolução Cubana pudesse gerar outros movimentos revolucionários na América Latina, levou os EUA a adotar várias medidas reacionárias contra a América Latina. 

  A Bolívia, em 1964, sofre o golpe militar de Barrientos, o qual derruba o Governo do Movimento Nacionalista Revolucionário. Em 1965, uma invasão de fuzileiros navais dos EUA, derruba, na República Dominicana, o presidente eleito Juan Bosch. Em 1968, Valasco Alvarado, encabeça um golpe militar no Peru. Em agosto de 1971, ocorreu o golpe militar na Bolívia, que derruba o governo nacionalista de Juan José Torres. Em junho de 1973, um golpe militar dissolve o Parlamento no Uruguai, e em setembro do mesmo ano, um golpe encabeçado por Augusto Pinochet, com a poio e financiamento dos EUA, derruba o governo de Salvador Allende e inicia um massacre nos sindicatos, partidos de esquerda e movimentos sociais em geral. Em 1975 o general Morales Bermúdez toma o poder no Peru. Por fim, em março de 1976, acontece um golpe militar na Argentina, iniciado por um enorme regime repressivo, com desaparecimento em massa de sindicalistas, militantes de esquerda e estudantes[6]

O Brasil, ainda nos primeiros anos da década de 1960, começava a viver um clima de acentuação da participação popular em lutas socais. Durante o governo de João Goulart a luta por reformas estruturais, sobretudo as Reformas de Base, propostas pelo então presidente, passou a mobilizar um grande número de trabalhadores. O sentimento nacionalista mobilizou também estudantes, artistas e até mesmo a classe média urbana, que tinham como pautas a transformação da estrutura educacional e a Reforma Agrária, assim também pautas relacionadas a questão econômica do país. Por outro lado, havia setores da elite e das forças armadas descontentes com o clima reformista que tomava as ruas do Brasil. No Parlamento havia uma forte oposição da direita antirreformista, o Governo dos EUA financiou os governadores adversário de Goulart e as narrativas anticomunistas passavam a ganhar força entre a classe média e os trabalhadores (ARNS, Paulo. 1986). Em 1º de abril de 1964 se consolida no Brasil o Golpe Civil-Militar[7]. Em 1968 o governo ditatorial impõe o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de cunho completamente autoritário, concedendo extremos poderes ao presidente militar: de fechar o congresso, suspender direitos políticos, cassar parlamentares e julgar crimes políticos. As entidades de organização social entram na ilegalidade, restando, como única forma de oposição ao regime, a clandestinidade. A Ditadura Civil-Militar (1964-1985), em que pese a perseguição aos opositores do regime, não conseguiu impedir o povo de se organizar, sobretudo, os partidos e organizações marxistas que construíam suas ações políticas dentro das instâncias legais, nos primeiros anos do golpe, e na clandestinidade após o AI-5. Outros setores de oposição como militares, sindicalistas, estudantes, políticos, jornalistas e religiosos também foram alvo do governo ditatorial (ARNS, 1986: 117). Nesse sentido, diante da clandestinidade, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), organizou uma Guerrilha, na região amazônica, no fim da década de 1960 e meados de 1970, de inspiração foquista esse movimento ficou conhecido com Guerrilha do Araguaia[8].

CONCLUSÕES 
  As teses do Foquismo, formuladas por Che e sistematizadas por Debray, foram construídas intrinsecamente ligadas a história do processo revolucionário cubano. A experiência dessa Revolução, como próprio apresentou Che, foram diferentes das experiências revolucionárias na Europa, diferenciando-se, sobretudo, da Revolução Soviética, de 1917.  

Devido a ofensiva reacionária dos EUA na América Latina, sobretudo contra as organizações e lideranças socialistas, o Foquismo acabou por ser uma experiência exclusivamente cubana. Os golpes militares em vários países do continente não foram impeditivos para tentativas de insurreições de modelo Foquista na América Latina.  

O Foquismo em Cuba é, senão, a própria expressão da Revolução Cubana. E essa experiência revolucionária foi importante para inspirar a luta anticolonialista e antiimperialista na América Latina. É importante ressaltar a ideia de Che e Debray de uma Revolução estilo Latino Americana, com características próprias e construída a partir das realidades e analises concretas do momento histórico, não entrando em contradições com o marxismo, mas adaptando-o para as especificidades latino-americanas.  

  Por fim, na segunda metade do século XX, a América Latina deparou-se com um fenômeno, que se tornaria a bandeira, na forma de luta mais radicalizada dos povos no continente, a bandeira da liberdade.  

Concluo com as palavras do Che Guevara, em seu discurso na ocasião da I Tricontinenta, “Mensagem aos Povos do Mundo Através da Tricontinental”, de 16 de abril de 1967, em Havana: 

“Toda a nossa ação é um grito de guerra contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos contra o grande inimigo do ser humano: os Estados Unidos da América do Norte. Em qualquer lugar que surpreenda a morte, que seja bem-vinda, sempre que esse, nosso berro de guerra, tenha chegado até um ouvido receptivo e a outra mão se estenda para empunhar nossas armas, e outros homens se apresentem a entoar os cantos de luta, com rajadas de metralhadoras contra o inimigo e novos berros de guerra e vitória” (DOSAL, 2006, p. 256). 




NOTAS
[1] Vê DOSAL, Paul J. Comandante Che – Guerrilheiro, líder e estrategista, 1956 – 1967. São Paulo: Globo, 2006. 
[2] Vê GOTT, Richard. Cuba. Uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
[3] DEBRAY, Régis. Revolução na Revolução. São Paulo: Centro Editorial Latino Americano, 1996.
[4] MENDES, Ricardo A. S. Pensando a Revolução Cubana: nacionalismo, política bifurcada e exportação da Revolução. Artigo Científico – Rio de Janeiro. 
[5] (2010) CORDEIRO, Ítalo R. Xavier. A Cultura Política da Revolução Latino-americana na década de 1960: Régis Debray e o Foquismo. Tese de Mestrado – Universidade Estadual Paulista.
[6] COGGIOLA, Osvaldo. Governo militares na América Latina. São Paulo: Contextos, 2001.
[7] Ver: NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2013.
[8] Ver: A Guerrilha do Araguaia. Comissão da Verdade Relatório Oficial, cap 14, pg 5 -10. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS   
(2010) CORDEIRO, Ítalo R. Xavier. A Cultura Política da Revolução Latinoamericana na década de 1960: Régis Debray e o Foquismo. Tese de Mestrado – Universidade Estadual Paulista. 

COGGIOLA, Osvaldo. Governo militares na América Latina. São Paulo: Contextos, 2001. 

DOSAL, Paul J. Comandante Che – Guerrilheiro, líder e estrategista, 1956 – 1967. 

MENDES, Ricardo A. S. Pensando a Revolução Cubana: nacionalismo, política bifurcada e exportação da Revolução. Artigo Científico – Rio de Janeiro. 

NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2013.

RELATÓRIO NACIONAL DA VERDADE. Vários autores. Publicado em 10 dez 2014. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php/outros-destaques/574-conheca-e-acesse-o-relatorio-final-da-cnv. Acesso em: Ago de 2018. 

São Paulo: Globo, 2006. 

Vê GOTT, Richard. Cuba. Uma nova história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. - DEBRAY, Régis. Revolução na Revolução. São Paulo: Centro Editorial Latino Americano, 1996.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

EXPOSIÇÃO: O protetor do Igapó e outros quadros, de Lucas Reis Frazão


Apresentação
Natureza e Religião*

A partir da modernidade, o homem passou a se ver como algo alheio à natureza. A razão, que supostamente permitiu ao homem transformar e dominar essa natureza, foi vista como algo que atestava a separação e a superioridade humana. Foi na esteira desse pensamento que foi forjado um discurso - desvalidado por todos nossos dilemas ambientais contemporâneos, mas ressuscitado na história mais recente por forças reacionárias - de que a natureza é inimiga do progresso e, portanto, do homem.

Na contramão dessa cisão ilusória (acentuada pelo capitalismo), mas que possui consequências bem reais, os desenhos de Lucas Frazão se apresentam como um elemento de religião (no sentido etimológico de religare). Sua obra, nesse sentido, carrega um forte teor místico e simbiótico e busca refazer essa ponte perdida da consciência humana com aquela coisa que lhe é superior e da qual faz parte: a natureza.

Não obstante, essa natureza em Frazão nunca é óbvia. O artista detalha bem as plantas, mostrando que, onde a visão simplória percebe um mato uniforme e homogêneo, ele enxerga e revela uma variedade de coisas que, apesar da heterogeneidade, estão em unidade e equilíbrio. 

Ademais, a natureza carrega ainda poeticamente a metáfora da transformação, ocupando, na sua integralidade, externa e internamente os seres. Não é raro então encontrarmos, nos desenhos de Frazão, membros humanos interligados à flora, como se fossem um só corpo.  

Assim, esta exposição – no contexto da pandemia, em que a natureza impõe uma interrupção ao ritmo frenético da urbanidade – é um convite a nos reintegrarmos ontologicamente ao cosmos.


Aquário, de Lucas Reis Frazão


Aquário II, de Lucas Reis Frazão


Bodozal, de Lucas Reis Frazão


Concha, de Lucas Reis Frazão


Descendo o rio, de Lucas Reis Frazão


Em ciclo, de Lucas Reis Frazão


Enraizar ou Flutuar, de Lucas Reis Frazão

Evapora, de Lucas Reis Frazão


Feminilidade, de Lucas Reis Frazão


Mãe Terra, de Lucas Reis Frazão


Morada, de Lucas Reis Frazão



Mundo Pequeno, de Lucas Reis Frazão


Na força da mata, de Lucas Reis Frazão


Pisces, de Lucas Reis Frazão


Nós e entrenós, de Lucas Reis Frazão


Protetor do Igapó, de Lucas Reis Frazão


Raízes, de Lucas Reis Frazão


Sereia da várzea, de Lucas Reis Frazão

Solária, de Lucas Reis Frazão


uýra das águas, de Lucas Reis Frazão


Várzea Vermelha, de Lucas Reis Frazão





*Texto de Matheus Cascaes e Mauricio Braga

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Conto: Instinto, de Matheus Cascaes

Conto

sem título, de Giovanne Reis

Instinto

Ela estava no sexto mês, sua barriga começava a ganhar volume, mas não sentia ainda o instinto materno. Talvez começasse a senti-lo quando o feto se desenvolvesse mais e passasse a chutar seu ventre com mais força. Até então, sentira apenas vibrações, curtas e fracas. Tão curtas e tão fracas que não tinha certeza se as sentira de fato ou se vinham de sua imaginação. Uma vizinha que soubera do ocorrido e a olhara com pena comentou que era assim mesmo. Nos primeiros meses não se sentia tanto. Principalmente quando o bebê era menina. As meninas são menores e mais comportadas. Concordou, porque sabia que estava grávida e que era menina, mas não conseguia associar o sexo feminino ao feto. Era como chamar um inseto de fêmea. Se um entomólogo dissesse a ela que a barata que passava pelos seus pés agora e se escondia atrás do fogão era uma fêmea, pouca diferença faria. Macho ou fêmea causaria repulsa nela e, por ela, teria a morte decretada. Macho ou fêmea lutaria pela vida e fugiria da sandália que ela atiraria contra seu corpo. Macho ou fêmea poria a se esgueirar pelas frestas dos móveis e da casa, enquanto ela moveria tudo de lugar na caçada. Macho ou fêmea fugiria e, no momento do encurralamento, tendo à sua frente apenas paredes, se encaixaria na fenda que une a parede ao solo, sabendo, por instinto ou por experiência, que ali os calçados humanos não atingem baratas com facilidade. Macho ou fêmea prosseguiria sua luta ali com seu corpo exposto, ora com a paralisação dos movimentos, ora com movimentação, esperando que o caçador se cansasse e desistisse. Cansada, ela cogitaria deixar o inseto em liberdade, mas lembraria que ele é fêmea e que, por isso, poderia se multiplicar. Recordaria a vez em que encontrou uma barata prenha em sua gaveta de roupas íntimas. Os filhotinhos embrenhavam-se por suas calcinhas, e a gaveta exalava um cheiro forte que trazia com ele um gosto amargo. Sentia que tinha cada uma daquelas baratinhas nos espaços entre seus dentes, debaixo de sua língua. Quando movimentou a gaveta, avistou a mãe, que, por algum motivo, não saiu de lá. Instinto materno, talvez? Enquanto se distraiu, por um momento, cogitando isso, a barata subiu em sua mão. As patinhas gosmentas tocavam-lhe a carne e o cheiro forte tinha origem nela. Com nojo, tremeu a mão, e a barata fugiu. A recordação afloraria nela seu desejo por higiene, e ela, com inseticida, atingiria a barata, que, num último suspiro pela vida, se movimentaria sem rumo e acabaria com o ventre para cima. O chinelo do pai, sempre à disposição, como se aguardasse momentos como esse, encontraria seu corpo. Talvez a vizinha tivesse razão. Tem que matar, pode ser fêmea, dizia preocupado o marido, que via agora a barata.

Matheus Cascaes