Cena original
– Vamos escrever sobre o quê?
– Não sei. Falar o novo se tornou impossível.
– Tem fogo aí? Quero acender um cigarro.
– Mas você não fuma.
– Sim, eu sei. Mas o cigarro constrói uma atmosfera propícia
à escrita.
– Bobagem!
– Custa tentar?
– Tenho fogo não.
– Deixa pra lá. Encontrei duas pedras. Vou bater uma na
outra. O atrito entre elas provocará faíscas que acenderão o cigarro.
– Boa ideia. Era assim que o homo dinossauros acendia o seu cigarro na idade da pedra.
O CIGARRO FOI ACESO.
– Não precisa nem tragar. Veja como eu fico charmoso.
– É... mas voltando ao assunto, vamos escrever sobre o quê?
– Não sei. Tudo já foi dito. Chegamos tarde, meu amigo.
– Verdade. Que droga! Me dê as pedras, vou fumá-las.
– Sabe de uma coisa? Descobri nosso problema. As línguas
estão gastas! Temos que criar uma nova! Só assim diremos algo original.
Português, francês, inglês, espanhol, russo, alemão, italiano, e todas as
outras línguas existentes, estão saturadas de tanto uso. É impossível dizer
algo novo usando elas.
– Verdade! Vamos criar uma língua então. Invente uma
palavra.
– Como assim?
– Sei lá, junte sons e sílabas. Vamos, camarada, qualquer
palavra inédita.
– Deixe-me pensar... ah... já sei: Gezur!
– “Gezur”... gostei. O que significará?
– Gezur significará “verdade”, a mais importante das
palavras.
– Maravilha! Mas antes vou procurar na internet para ver se
ela é de fato original.
SENTA-SE NO COMPUTADOR E PESQUISA.
– Droga! Maldição! Gezur já existe! Gezur significa mentira
em basco.
– Que porra!
– Pelo visto, estamos condenados à repetição. Teremos que
dizer tudo de novo.
– Quem sabe possamos pegar várias coisas já ditas e fazer
uma colagem. Criar algo diferente a partir do velho.
– Bobagem! O melhor é desistirmos.
JOGARAM TODOS OS MANUSCRITOS NO LIXO E FORAM A UM BAR.
CHEGANDO LÁ, PEDIRAM UMA CERVEJA E UMA PORÇÃO DE PASTICHES FRITOS.
FIM DO PRIMEIRO E
ULTIMO ATO.
Autor: Mauricio Braga
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